A Lovely Gazegirl's Day
3 Haruka
Notas iniciais
Eu quase não tinha dormido naquela noite e já estava de pé, ansiosa. Desde a invenção do Gazegirls’ Day, em dezembro de 2010, eu aguardava ansiosamente por aquela comemoração.
Estava desperta logo que o sol nascera e andava de um lado para o outro, ajeitando tudo que eu tinha separado para levar para a casa de Sereny e Kouyou para aquele dia... De novo!
Deixara Yuu dormir um pouco além do que eu mesma tinha feito, não que ele ficasse menos ansioso do que eu... Éramos dois obcecados! Ele também estava ansioso pela gravação e dissera mais de uma vez no dia anterior, não apenas para mim, como para todas as outras Gazegirls também, que faria de tudo para a gravação correr rapidamente e todos eles participassem da comemoração!
Há mais de um mês, nós cinco tínhamos sorteado qual das Gazegirls representaríamos nessa festa (se fosse por Sereny, tínhamos sorteado no ano passado!) e nesse mesmo período de tempo que Yuu controlou tudo aquilo de pior que havia dentro dele para não me contar as fantasias das outras... Perguntei ansiosa o que o pequeno tinha achado quando soube que eu seria a Chibi, mas Takanori só achara graça alguém do meu tamanho representar uma Chibi...
— Ohayou – ouvi Yuu dizendo pausadamente próximo ao meu ouvido e senti minha cintura ser presa por seus braços, me colando ao seu corpo.
— Ohayou – respondi, também separando as sílabas da palavra.
— Não conseguiu dormir? – ele perguntou, divertido. – Vai ficar com olheiras horríveis, hein?
— Deu certo pra você... – me virei nos braços do moreno, nos deixando cara a cara e passei meus braços pelo seu pescoço.
— Mas é da minha natureza... Sabe que, se você começar a ter hábitos boêmios como os que eu já tive, sua mãe pega o primeiro voo para Tókio pra me matar.. – ele tremeu, me fazendo rir, mas nós sabíamos que era verdade.
— Natureza... – bufei. – É a desculpa mais esfarrapada pra não parar de beber, fumar e dormir só duas horas por noite, Yuu...
— Ainda não me deixou ver sua fantasia de Chibi... – ele mudou sutilmente a pauta da conversa e eu revirei os olhos.
— Só ficou pronta de verdade ontem à noite... – torci a boca, pensativa. –Provavelmente, eu a mudaria mais, se tivesse mais tempo...
— Eu tenho certeza disso, koi – ele gargalhou.
— Nenhum dos cosplays que eu já fiz dele serviu pra representar a Chibi... –resmunguei. –Tive de começar da estaca zero...
— Acho que é porque o conceito de cosplayer e o de Gazegirl são basicamente opostos, não são? –ele me puxou pela mão me fazendo sentar em seu colo. – Cosplay é aquilo que está na superfície, o que os olhos veem sem problemas e todos conseguem perceber... Ser uma Gazegirl é representar o invisível, não é?
— Esse é o problema... Sempre pensei que entendesse com precisão o que era ser Gazegirl... Achava que conseguia entender melhor do que ninguém o que tornava a Chibi nossa Ruki... Não é legal perceber que não se tem tanta certeza de nada... – disse, emburrada.
— É um exercício bom quando se convive há muito tempo com as mesmas pessoas em um grupo... Você descobre que convivência não é saber tudo sobre alguém... Não é ter o controle da situação... É sobre aprender a se relacionar sem tentar compreender tudo...
— Sabe como eu odeio isso... – escondi o rosto na curva do pescoço dele.
— Eu sei que quer sempre ter o controle nas suas mãos, koi... – ele gargalhou, afagando meus cabelos. – É bom você descobrir dessa forma que ter o controle é uma ilusão...
— Não diga essas coisas cruéis, Yuu! – mordi sua orelha e ele gargalhou.
— Mas é verdade... Eu descobri isso muito tarde... Perdi muitas coisas pelo caminho, tentando ter o controle de tudo... Coisas que eu não gostaria de vê-la perdendo também...
Segurei seu rosto entre minhas mãos e olhei fundo na tristeza que ele trazia escondida no seu olhar. Era quando eu podia olhá-lo daquela maneira que eu sentia que meu sonho tinha se realizado... Desde que eu conhecera the GazettE que minha maior preocupação era com a solidão que meu moreno tinha no olhar, a solidão que ele tentava disfarçar com seu sorriso brincalhão e suas brincadeirinhas bobas, que distraíam as atenções das fãs menos perceptivas... Desde o começo, Sereny me dizia que o que me levou a completar o grupo das Gazegirls foi exatamente enxergar o que ele tentava a todo custo esconder... Era essa a diferença que nos tornara Gazegirls.
— Mas hoje não é dia de falar de mim, não é mesmo? – ele deu uma risada para disfarçar aquela tensão que ficara no ar. – Quero ver sua fantasia antes de sair!
— Certo – respondi animada e caminhei para o nosso quarto.
Fazer minha fantasia não tinha sido complicado só porque a Chibi não era um Ruki convencional, não foi só porque os motivos que a tornaram Ruki eram inexplicáveis... A personalidade dela era complexa... Sempre foi... Eu nunca entendera na verdade como Carolina pensava... Ela tinha oito anos a menos que a nossa Líder, mas tinha vezes que conseguia ser tão madura quanto...
Mesmo sendo a mais nova, ela nunca foi como nossa “mascote”... Assim como Takanori, ela queria se mostrar mais forte e capaz de lidar com isso sem que fosse preciso protegê-la...
Chibi não tinha uma maneira de se vestir... Tinha várias! E isso não tornou meu trabalho mais fácil... Muito pelo contrário...
Vesti uma calça jeans escura com um sapato meia-pata igual ao que ela tinha, uma camiseta branca com uma caveira dourada com uma coroa e joguei um colete preto que tinha BELIEVE bordado em prata. Era um visual que misturava um pouco da Chibi e um pouco do Taka e talvez chegasse perto do que eu esperava dela...
Fiz uma maquiagem mais leve do que a que eu costumava fazer em mim mesma... Dessa vez, não era pra ser a “Estrela”... Dessa vez, eu seria o coração do grupo... E eu já sentia o peso sobre meus ombros...
— Incrível! – Yuu apareceu às minhas costas e me fez sorrir.
— Vou acreditar em você – brinquei.
— Não foi o que a trouxe até aqui hoje? – seus braços me envolveram protetoramente como sempre fizeram. – Acreditar em mim?
— Acho que o que me trouxe aqui hoje foi acreditar na Ny-chan, certo? –brinquei. –Quando ela me disse pra acreditar que eu conseguiria...
— Isso também... – ele deu risada, beijando meu pescoço.
— Acha que a Chibi vai gostar?
— Se algum dia você descobrir como prever o que se passa na cabeça deles, por favor, me ensine, koi! –foi minha vez de gargalhar. –Acho que a ideia dela foi essa, não foi? Cada uma de vocês descobrir mais umas das outras...
— Descobrir de novo o que é ser Gazegirl!
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