A Loba e o caçador
11 Capítulo 10 - Ecos do Luar
A madrugada ainda pairava sobre a floresta como um véu úmido.
Jacob dormia, o peito subindo e descendo em ritmo irregular, o ferimento agora coberto por um lenço improvisado.
Renesmee permanecia ao lado dele, imóvel, observando o brilho fraco do fogo que tremulava no abrigo improvisado entre as pedras.
O sangue seco tingia suas mãos, e cada pulsar do coração de Jacob parecia ecoar dentro dela.
Ela não se arrependia — mas o medo, ah… o medo ainda latejava.
Foi então que um som suave rompeu o silêncio: passos leves, uma respiração tranquila, como quem já conhecia aquele lugar.
Renesmee ergueu o olhar — e sorriu pela primeira vez em horas.
— Caren.
A jovem vampira surgiu da penumbra, o rosto pálido iluminado pelo luar, os cabelos longos presos em uma trança escura que brilhava como seda molhada.
Seus olhos — de um lilás translúcido, diferente de qualquer outro — refletiam serenidade.
— Achei que precisaria de mim — disse ela, a voz calma, mas firme.
Renesmee assentiu.
— Ele foi atingido com prata. Eu consegui conter, mas não sei se...
Caren se ajoelhou ao lado de Jacob, avaliando a ferida.
— Você fez bem. — tocou o ombro dele, e os dedos começaram a emitir uma luz azulada, fria e reconfortante. — Agora deixe comigo.
A energia se espalhou pela pele de Jacob, fluindo em ondas suaves.
O calor e a dor foram cedendo lugar a uma calma profunda.
O corpo relaxou, a respiração estabilizou.
Renesmee observava, hipnotizada.
— Seu dom… ainda me surpreende.
Caren sorriu de canto.
— O dom é apenas um reflexo daquilo que sentimos. Eu canalizo o equilíbrio. Você, Renesmee, canaliza o instinto. E ele… — olhou Jacob — canaliza a dúvida.
Renesmee desviou o olhar, apertando os dedos.
— Ele é um caçador.
— E você é a loba que o salvou. — Caren arqueou uma sobrancelha. — O destino parece gostar de ironias.
O silêncio caiu entre elas, pesado e íntimo.
O fogo estalou, lançando faíscas no ar.
Caren terminou o processo, afastando-se um pouco.
— Ele vai acordar logo. O ferimento está limpo. Mas o elo entre vocês… está crescendo rápido demais.
Renesmee franziu o cenho.
— Elo?
— Você sabe do que falo. O imprint. — Caren a olhou com seriedade. — Jacob não entende ainda, mas sente. E se não controlar o que está despertando, esse vínculo pode consumir vocês dois.
Renesmee abaixou a cabeça, perturbada.
O vento trouxe o cheiro de terra e orvalho, e algo dentro dela pulsou em resposta ao nome dele.
— Não quero que ele sofra por minha causa.
Caren suspirou.
— O sofrimento é o preço do despertar.
Jacob se mexeu, gemendo baixo.
Os olhos dele se abriram lentamente, encontrando os de Renesmee.
Por um instante, ele não disse nada. Apenas olhou.
E aquele olhar bastou.
Renesmee sentiu o peito apertar, o corpo estremecer.
Era como se o mundo tivesse se tornado pequeno demais para conter o que havia entre eles.
— Você… me salvou — murmurou ele, a voz rouca, mas firme.
Renesmee sorriu, cansada.
— Eu te carreguei.
Ele soltou uma risada leve, o olhar escurecendo.
— Então é assim… a loba salvando o caçador.
— Não há mais caçador — disse ela. — Só você.
Os olhos dele brilharam, e a distância entre eles pareceu desaparecer por um instante.
Mas Caren interrompeu o momento com um leve toque no ombro de Renesmee.
— Precisamos nos mover antes que amanheça. A Ordem nunca recua por muito tempo.
Renesmee assentiu.
Jacob tentou se levantar, ainda tonto, e ela o apoiou.
Caren observou os dois com um olhar misto de ternura e preocupação.
— Vocês estão ligados, mesmo que o mundo tente separar.
Mas lembrem-se, Renesmee… vínculos assim sempre atraem olhos que querem destruí-los.
O vento soprou, carregando o eco da advertência.
E em algum lugar distante, entre as árvores escuras, alguém já os observava.
Leah caminhava sozinha pela encosta, os pés descalços ferindo-se nas pedras frias.
O luar banhava o corpo dela, e o brilho prateado nos olhos denunciava o que sentia: raiva, dor e algo mais profundo — rejeição.
Ela havia visto tudo.
A loba salvando o caçador.
O toque.
O olhar.
O que antes era apenas ciúme agora se tornava veneno.
Foi então que uma voz ecoou da escuridão.
— Está procurando redenção… ou vingança?
Leah se virou rápido, rosnando.
Mas a figura diante dela não demonstrava medo.
Um homem, alto, envolto em um manto escuro com o símbolo da Ordem preso ao peito.
O olhar dele era frio, mas calculado.
— Você é Seth — ela disse, entre dentes.
Ele sorriu de leve.
— E você é a loba que perdeu o coração.
Talvez possamos ajudar um ao outro.
Leah não respondeu, mas a chama em seus olhos respondeu por ela.
Seth deu um passo à frente.
— Eu quero o mesmo que você.
Separar o que nunca devia ter se unido.
O silêncio entre eles foi selado pelo som distante de um uivo.
E, sob o luar, o pacto foi feito.
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