Pensamentos amargos começaram a se formar na cabeça de Rebecca, ela via a morte de Jace, brutal, lenta e dolorosa.

Rebecca já tinha planejado cada passo meticulosamente, o pai ensinara que a força bruta podia vencer batalhas, mas a inteligência podia vencer a guerra. Embora a vontade da garota fosse usar da força bruta e derramar o sangue de Lightwood, ela optou por vencer a guerra.

Precisava descobrir quem mais estivera envolvido no assassino do irmão, assim sua vingança ia ser completa.

- Você acordou. – disse Clary.

A garota ruiva abriu uma fresta da porta por onde enfiou sua cabeça, quando Rebecca sorriu para ela Clary entrou na enfermaria.

- Sente-se melhor?

- Sim, obrigada. Jace foi legal por cuidar de mim.

Foi o próprio Jace quem respondeu, entrando no quarto sem prévio aviso.

- Eu sou o herói de armadura branca que toda garota deseja.

Clary revirou os olhos e o estomago de Rebecca revirou de raiva.

- Jace, ela não precisa de uma dose do seu amor próprio.

O garoto colocou a mão no ombro de Clary de maneira carinhosa e Rebecca entendeu imediatamente o que se passava ali, eles eram namorados.

Ela teve vontade de rir. A primeira coisa que iria fazer era separar aqueles dois, erradicar qualquer tipo de felicidade que Jace pudesse ter na vida, afastar as pessoas que ele amava e então mata-lo, Rebecca não se importava com o tempo que levasse.

- JACE! CLARY! – um garoto moreno de olhos claros entrou correndo no quarto, o rosto levemente vermelho – Vocês precisam ir lá para fora, imediatamente.

- Alec o que acontece? – perguntou Jace, sua mão foi para a lamina serafim em seu cinto.

- Um demônio maior está tentando invadir o Salão dos Acordos, ele quer a garota. – Alec gesticulou para Rebecca. – Precisamos ir.

- Vamos – disse Jace. Então ele olhou para a namorada – Fique aqui e tente descobrir porque querem tanto essa garota.

Jace e Alec saíram correndo, deixando a porta aberta atrás de si. Clary fechou a porta e cruzou os braços, encarando Rebecca.

- Agora você vai me contar quem é você.

Estava uma confusão em frente o Salão dos Acordos, agora os moradores já tinham voltado para a casa, enterrado os mortos e ajudado os feridos, porém o salão ainda encontrava-se lotado. Os caçadores de sombras rodeavam o demônio maior e alguns já estavam feridos.

- Ele procura por Rebecca. – Disse Alec.

Jace franziu a testa.

- Como ele conseguiu entrar em Idris?

- Meu palpite é que ele já estava aqui, demônios maiores são espertos. Magnus acha que tem alguma coisa com Rebecca, devíamos afasta-la de Idris.

Jace sentiu-se inquieto, se houvesse alguma coisa de ruim com Rebecca ele não gostava da ideia de tê-la perto de Clary neste exato momento. Tinha que confiar que Clary sabia se defender e que a garota nova era uma boa pessoa.

- Se tem alguma coisa errada com ela devemos leva-la para o Instituto e vigiar de perto.

Alec estava pronto para contestar, mas o demônio lançou o corpo de um caçador de sombras e os dois garotos tiveram que desviar, o corpo fez um barulho ao cair pesadamente no chão.

Em meio a confusão Isabelle apareceu, sua roupa estava coberta de fuligem negra.

- O que vocês estão esperando? – perguntou ela. Balançado o longo cabelo negro para varrer um pouco da fuligem. – Esse maldito demônio estragou minha roupa.

Jace e Alec jogaram-se para dentro da luta.

- Quem eu sou? – perguntou Rebecca – Perdi meu pai e meu irmão, quase fui morta e quer saber quem eu sou.

Clary sentou-se na cadeira, a expressão era menos tensa agora.

- Minha mãe acha... – Ela fez uma longa pausa – Bem, ela acha que você é filha de Valentim Morgenstern, meu pai e de Jonathan.

Aquilo não estava nos planos dela, mas também não poderia ter sido mais apropriado.

Se Clary era filha de Valentim e irmã de Jonathan, ela iria acolher a irmã no Instituto de Nova Iorque. Isso a manteria perto de todos os envolvidos no assassinato de Jonathan.

- O que faz sua mãe pensar assim?

- Você é muito parecida com ele, os mesmo cabelos loiros, olhos castanhos, pele branca.

- Mas você não tem nada disso.

- Tenho esses traços que descreve, de Valentim.

A garota ruiva deu de ombros, porém não respondeu.

Rebecca achou que mentir seria a única solução para leva-la até Jace e a vingança que planejava, porém Clary tinha aberto uma nova possibilidade para ela: Contar a verdade e entrar em definitivo para a família.

Então Rebecca Morgenstern falou puramente a verdade.

- Meu nome é Rebecca Morgenstern – ela começou – Fui criada nas profundezas da floresta de Idris, meu pai é Valentim e eu nunca conheci minha mãe. Quando perguntava sobre ela, meu pai apenas dizia que foi uma caçadora de sombras qualquer e deveria estar morta.

“Quando eu nasci meu pai já tinha outro filho, um garoto que era a copia exata dele, chamava-se Jonathan. Valentim treinou a nós dois, ensinou as técnicas de luta, defesa e tudo o que um caçador de sombras deveria fazer.

Assim que teve idade suficiente Jonathan foi mandado para cumprir missões para o pai, e eu fiquei para trás. Valentim não deu a angelic power para mim, sempre tudo girou em torno do meu irmão, aos 13 anos Jonathan ganhou dois sabres com cabos de ouro e eu ganhei esta capa. Quando perguntei ao pai por que, ele disse que estava me protegendo e não queria que eu me ferisse.

Então antes da batalha de Idris ele disse que voltaria para me buscar quando tudo acabasse e Jonathan me sorriu e beijou minha testa. Você sabe o final”.

Clary ficou em silencio por um longo tempo, processando toda a informação que Rebecca tinha dado para ela. Não achou bom perguntar a uma garota que perdeu toda a família se ela tinha algum plano de vingança por terem matado seu pai.

- Somos irmãs. – disse Clary.

- Meio irmãs – Rebecca sorriu.

- Rebecca, você vai voltar com a gente para o Instituto de Nova Iorque. Eu vou cuidar de você.

Clary a levantou-se da cadeira e a abraçou. Rebecca retribuiu o abraço com emoção, mas a emoção que sentia era porque seu plano estava dando mais certo do que esperava.

- Sua vez de me contar a sua história. – ela disse para Clary.

E a garota ruiva começou a narrar.

Por pouco Jace não morreu carbonizado.

Por todo o lado que olhava via um inferno feito de fogo o fumaça. O demônio Ogía era um demônio do fogo, carbonizou e feriu vários caçadores de sombras, Alec ainda estava ao lado de Jace – eram parabatai – lutando e mirando com seu arco.

- Temos que leva-lo para o lago Lynn. – alguém gritou.

Todos os caçadores que não estavam feridos – e não eram muitos – foram chamados para cuidar do demônio maior.

- Entreguem a garota, não precisam morrer por ela. – o demônio disse, o bafo quente fez os olhos de Jace lacrimejarem.

- Por que a quer? – berrou Alec.

O demônio procurou o pequeno caçador de sombras que havia falado com ele, como não encontrou Alec, Ogía olhou diretamente para uma mulher e respondeu em sua voz trovejante.

- Ela é filha de Valentim Morgenstern, ele nos prometeu o mundo e muitas vidas de caçadores das sombras e tudo o que tivemos foi morte e humilhação.

- E vai continuar sendo assim, seu monstro com bafo de pimenta. – Berrou Jace.

Ogía virou para ele e rosnou, o demônio começou a caminhar na direção dele e o garoto saiu correndo. Jace não pôde acreditar que o demônio foi estupido para segui-lo, Alec e Isabelle foram com ele e rapidamente corriam ao seu lado.

- Ficou louco? – perguntou Alec.

- Tenho um plano. Vamos para o lago. – Jace sorriu.

O demônio os seguiu e parou temeroso quando chegaram ao lago Lynn, as aguas onde Valentim invocara o anjo Raziel ainda ontem.

Alec trabalhou com suas flechas, atirando nas junções das pernas do demônio fazendo-o perder o equilíbrio. Jace e Isabelle fizeram o mesmo e com um grito horrendo o gigante de fogo caiu no lago.

Assim que a água venenosa do lago Lynn entrou em contato com a couraça de fogo de Ogía, o demônio começou a tornar-se cinza e afundar no lago.

- Vamos – disse Jace – Vamos para casa.

Quando Jace falou “casa” referia-se ao instituto. Magnus estava cuidando do portal, enquanto todos se arrumavam e se preparavam para ir embora.

Clary e Rebecca estavam sentadas nos degraus do salão de acordos e pareciam bem amigas, amigas demais para Jace sentir-se tranquilo.

- Então, matei um demônio por você de novo. – Disse ele – Vai me contar a verdade.

Clary levantou-se e olhou seriamente para o namorado, tudo o que ele queria era beija-la e todo o resto poderia ir para o inferno enquanto isso.

- Temos que conversar, mas primeiro chame os outros.

Clary falou apenas quando todos estavam reunidos, exceto Magnus que cuidava do portal mas Alec prometeu que transmitiria a mensagem.

A garota narrou toda a história de Rebecca, todos os caçadores de sombras ficaram pasmos e sem palavras ao ouvi-la exceto Jocelyn. A mãe de Clary enfureceu-se.

- Ela é filha de Valentim. Não pode confiar em alguém que não conhece.

Clary estava prestes a falar quando Rebecca levantou-se e encarou Jocelyn.

- Com que direito a senhora me julga? – disse ela. – Foi esposa de Valentim e teve dois filhos com ele, então quer dizer que não é de confiança?

Jocelyn ficou vermelha como seus cabelos e não respondeu.

- Bem, então vamos embora. – disse Maguns, que entrou bem a tempo de ver a cena – Vamos para casa.

Os Lightwoods e as duas garotas Morgenstern atravessaram o portal.