A Little Piece Of Heaven

7 More how much pain to endure?


Clary não voltou no dia seguinte e nem no próximo. A casa ficou estranhamente silenciosa com apenas três pessoas, eles nem conversavam um com o outro.

Isabelle estava louca de dor e não saia do quarto a duas semanas e até onde Rebecca sabia ela podia ter morrido de fome. E não havia sinal de Jace em lugar nenhum desde que ele matou Simon e brigou com Clary, ela não o via em casa.

Maryse e Robert chegaram no final da semana, ela nunca havia conhecido a matriarca da família, mas tinha certeza de que Maryse era mais jovem.

A mulher que apareceu era uma senhora de cabelos brancos e rosto encovado, seu corpo era frágil como uma pena e sua pele era translucida.

– Quem é você? – perguntou Robert.

– Sou Rebecca Morgenstern.

– Morgenstern? – falou a velha – Quem acolheu a filha do homem que matou meu filho?

Sebastian não matou seu filho. Eu matei.

Mas ela não podia dizer isso, então fez a cara mais desentendida que pôde.

Isabelle apareceu na sala para dar oi para os pais, somente Jace não estava ali com a família. Todos eles vestiam a típica roupa do luto: Branco com runas douradas.

Branco que é a cor do pesar e da morte. E havia muito pesar e morte naquela família, Rebecca sentiu-se penalizada com a situação deles, foi tão difícil para ela perder um irmão, quanto mais perder dois irmãos e um amigo tão próximo que era Simon, porém agora não era mais uma questão de vingança e sim de vida.

Se deixasse alguém daquela família viva provavelmente eles iriam atrás dela para mata-la. E ela não podia ser morta.

– Mãe, você não parece bem. – disse Isabelle.

– Eu perdi dois filhos, Isabelle. – a mulher chorou. – Perdi meu menino de 9 anos e depois Alec. Ele foi meu primeiro filho, meu filho amado, meu único filho homem.

– E Jace.

Maryse deu um sorriso cansado.

– Eu amo Jace, mas ele não saiu de dentro de mim, não é fruto do meu casamento. Um dia você vai entender.

Rebecca permanecia no canto da sala, esquecida diante da dor dos Lightwood. Ela preferia ser ignorada e ouvir tudo a ser expulsa da sala e não poder ouvir as coisas que importavam.

– Vamos queimar o corpo dele hoje, Magnus o conservou com magia no apartamento dele. – disse Jace entrando de súbito pela porta. Parecia tão limpo como sempre, vestido de branco puro com runas douradas – E Simon também.

– Jace. – disse Maryse.

O garoto foi até a mãe adotiva e a beijou no rosto, foi o suficiente para fazer Maryse explodir em lagrimas.

– Vocês eram parabatai, Jace... – ela soluçou – O meu menino.

Robert afastou-se da mulher e foi dar uma volta na cozinha enquanto Isabelle tentava consolar a mãe, mas acabou chorando junto com ela.

– Quero falar com você, Rebecca.

Jace saiu pela porta e a deixou aberta em um claro convite que Rebecca não poderia recusar. Ela o seguiu para a rua e fechou a porta atrás de si, Jace estava de braços cruzados na varanda com um olhar grave.

– Eu sei que você armou para matar o Simon. – ele foi direto. – Não tenho como provar que matou o Alec, embora tenha certeza que também tenha sido você. Agora, me diga o que você quer de nós?

– Vingança. Pelo meu irmão – ela respondeu – Vocês o mataram, me deixaram sem família e sem casa.

Jace bateu com força na murada de madeira que cercava a varanda, toda a estrutura tremeu com a força de sua raiva.

– Então você mentiu. Ele nunca abusou de você, o seu querido irmão.

– Não. Nós éramos amantes.

Os lábios dele estavam crispados de nojo.

– Vocês são doentes. Todos vocês Morgensterns, acho que a Clary pegou o lado bom da família. – Jace sacou uma espada longa, era feito de ferro e parecia afiada – E você vai morrer, infelizmente bem mais rápido do que o Alec.

– Não querido, você é que vai.

Jace gritou em desafio e partiu para cima da garota. Rebecca permaneceu parada e em um instante a cena tinha mudado, os poderes dela mudaram a direção da espada e Jace a cravou na própria coxa.

Ele gritou de dor, fazendo um Robert alarmado correr até a varanda e encontrar um duelo entre Jace e Rebecca. Sem pensar duas vezes ela virou de costas e correu.

Rebecca era ágil por natureza e seu sangue misturado a tornava mais ágil ainda, ela sabia que Robert a perseguia, mas o homem desistiu na metade do caminho e ela continuou a toda a velocidade. Pra onde ela iria? Nenhum lugar era seguro naquele mundo para pessoas como ela.

...

– Jace, você está bem? – perguntou Robert.

O garoto negou com a cabeça. O ferro estava cravado profundamente em sua coxa e necessitaria de um feiticeiro para curar aquele ferimento ou um Irmão do Silêncio, mas eles demorariam a chegar e até lá Jace estaria morto.

– Fique calmo. Vou tirar essa coisa de você.

– Pai o que...? – Isabelle apareceu na porta, seu rosto empalideceu quando ela viu Jace banhado em sangue.

– Fique lá dentro com sua mãe e ligue para Magnus. Jace está muito ferido.

O feiticeiro não demorou muito para chegar, junto consigo ele trouxe os dois caixões com o corpo de Alec e Simon, agora eles estavam fechados e selados com runas para serem incendiados mais tarde.

– O que houve com ele? – perguntou Magnus, ajoelhando-se ao lado de um Jace delirante.

– Rebecca.

– Eu sabia que aquela garota não prestava, avisei Alec disso e veja no que deu.

– Esqueça isso e pense em Jace. Eles eram parabatai.

Magnus e Robert trocaram olhares de compreensão, o tipo de compreensão que só a dor da morte de alguém amado pode causar.

O feiticeiro removeu a lamina primeiro e essa foi a parte mais fácil da coisa toda, Magnus fez uma serie de encantamentos e costuras para poder parar o sangramento de Jace e teve que acorda-lo duas vezes quando ele desmaiou de dor.

– Ele pode ser removido. Mas não vai poder andar por um longo tempo.

Magnus parecia exausto demais para qualquer outra coisa, então coube a Robert levar o corpo de Jace para um dos quartos da casa e deixa-lo repousar.

Quando Robert deixou o garoto em uma cama confortável e voltou para a sala, ele descobriu que as mulheres choravam novamente e Magnus parecia inflexível.

– Diga a ele, papai – choramingou Isabelle – Diga a ele que Jace precisa ir ao funeral do irmão e do amigo.

– O que houve?

– Não podem esperar mais tempo para queima-los. – disse Magnus em um tom exausto – Eu o conservei por uma semana, vendo seu corpo pálido e frio e imaginando todos os dias como seria ter ele vivo. Precisamos acabar com a dor dele e a nossa, temos de deixa-lo ir.

– Mas Jace, pa.. – Isabelle foi cortada por Robert.

– Ele não precisa ir a mais funerais em sua vida.

Isabelle baixou a cabeça e agarrou firme a mão tremula da mãe, esta quase tinha pensado que perdera Jace também.

A cerimonia de caçador de sombras foi feita no cemitério que dava acesso a Cidade dos Ossos, o corpo de ambos os garotos foi cremado e as cinzas espalhadas.

A verdade da morte de Alec só veio naquele momento. Por que Isabelle não tinha aproveitado mais os momentos que tivera com o irmão? Ela esteve com ele a vida toda e sentia que nada era suficiente, que ela precisava dele para respirar ou não sobreviveria. E ainda tinha o Simon, seu vampiro, morto brutalmente pelo seu outro irmão.

Como se explicava essa loucura em que tinham transformado a vida dela?

– Izzy – chamou alguém.

Era Clary junto com Jocelyn, ambas vestidas de branco para o funeral.

– Achei que não viesse.

– Eu vi. Mas Luke teve que ficar na casa de campo para segura Jace na cama.

Isabelle sorriu. Algumas coisas nunca mudavam.

– Rebecca o feriu, até onde eu sei.

– Eu me sinto culpada – confessou Clary – Julguei que ela fosse boa e amigável, trouxe ela para dentro do Instituto e veja só no que tudo isso deu.

Isabelle abraçou a amiga apertado e Clary devolveu o abraço com a mesma intensidade.

– Não foi culpa de ninguém. – disse Isabelle ainda abraçada a Clary – talvez nosso único defeito tenha sido confiar em todo mundo que apareceu na nossa frente, porque todo mundo era bom e não podia nos machucar.

– Eu sinto tanto Izzy, acho que nunca vai sarar.

– Vamos ficar juntas e dar a justiça para Rebecca.

Depois que os corpos foram completamente evaporados, todos voltaram para a casa de campo de Luke, exceto Robert que se retirou imediatamente com Maryse para Idris.

...

Semanas se passaram desde que Rebecca desapareceu no mundo. Maryse estava em coma e sendo observado pelos Irmãos do Silêncio em Idris, Isabelle e Jace queriam se sentir chocados, mas a dor já se tornara tudo o que tinham na vida.

Eles não tiveram noticias de Magnus, só um bilhete de que ele estava se mudando para a África do Sul e que lhes desejava melhoras. Jace e Izzy estavam morando na casa de Jocelyn e Luke agora, Jace ainda precisava se recuperar do ferimento o que levaria um bom tempo e ali todos podiam conte-lo para que o ferimento sarasse.

– Acredita que a mamãe vai morrer? – perguntou Isabelle para Jocelyn certa noite, elas tinham se aproximado muito desde que eles passaram a morar ali.

– Não quero dizer que Maryse é uma pessoa fraca – Ela suspirou – Mas ela perdeu dois filhos, o outro está gravemente ferido na cama. Que outra coisa ela tem na vida além de você?

– Papai e Jace, ele vai sobreviver.

Jocelyn segurou a mão de Isabelle e olhou fundo naqueles olhos negros e tristes.

– Isabelle. Nenhum filho pode substituir o outro, você nunca será Alec e sabe disso.

– Mais quanta dor? Eu perdi tudo, Jocelyn.

Isabelle deitou-se no colo da mulher mais velha e começou a chorar convulsivamente, até que sentiu seus olhos se fechando com o inchaço e a dor tanto física quanto mental.