Rebecca correu sem rumo pela cidade. Ela não conhecia nada nos Estados Unidos além do Instituto e da casa de campo, e nenhum deles era uma boa opção para ela.

Na primeira noite ela vagou sem rumo pelas ruas da cidade iluminada, com seus prédios imponentes e pessoas mal encaradas. Acabou não dormindo naquela noite, escondeu-se na escuridão de um beco e ficou vigiando, a todo o momento passava um mendigo ou um homem bêbado, mas nenhum deles a olhou por mais de dois segundos.

Eram os olhos de uma assassina e até mundanos sabiam disso.

Quando o dia amanheceu ela estava morrendo de fome, mas como foi treinada por Valentim poderia suportar um bom tempo sem comer. Sua resistência era alta.

Passou o dia encolhida no beco, vendo as pessoas irem e vierem, mas sabia que não poderia ficar ali para sempre. Ela estava em uma encruzilhada.

Não podia voltar para Idris porque não sabia abrir portal como o irmão e o pai e se ficasse ali por muito tempo os Caçadores de Sombras a encontrariam e ela seria levada direto pra o Salão das Estrelas com os Irmãos do Silêncio para confessar seus crimes segurando a Espada de Raziel.

Não, ela precisava pensar.

Quando a noite caiu Rebecca saiu do beco e voltou a vagar. Ela poderia encontrar algum demônio minimamente inteligente para se aliar, lobisomens não porque eles eram o bando de Luke, Fadas não tomavam partido, mas havia os vampiros e os feiticeiros. Ambos eram inteligentes e poderosos, mas a diferença era que os vampiros tinham um acordo com a Clave que era sustentado por um teto de vidro. Eles eram a melhor opção se ela pudesse achar o líder deles.

Rebecca enfiou-se para dentro de um bar frequentado por criaturas do Submundo, era uma lanchonete na verdade. Ela tinha vindo ali uma vez com Clary assim que chegou ao Instituto.

– O que vai querer? – perguntou a atendente fada, com seus enormes olhos azuis. – Argh, você cheira mal.

– Onde posso encontrar o líder dos vampiros?

Ela pareceu surpresa.

– O que uma caçadora de sombras do Instituto quer com Santiago?

– Quero falar com ele. E não sou uma Caçadora de sombras – Rebecca estava ficando irritada com a intromissão da garota fada.

O pai e o irmão sempre tiveram talento para conquistar as pessoas com o charme e a beleza, mas Rebecca ainda que bonita, era muito volátil e gostava de falar diretamente, sem jogos.

– Mas eu a vi com Clary...

– É, minha meia irmã. – Rebecca a cortou — Agora onde, está esse Santiago?

– No Dumort, fica no subúrbio da cidade

– Obrigada.

Rebecca saiu da lanchonete e bateu a porta atrás de si. Ela não sabia exatamente onde ficava o subúrbio, mas não foi difícil sair por ai perguntando e seguindo seus instintos.

O hotel provou-se ser um velho lugar abandonada e caindo aos pedaços, tudo era vedado por tabuas para que a luz não entrasse, era obvio que havia vampiros ali.

Ela nunca tinha visto ou falado com vampiros, esse tipo de criatura não entrava em Idris e seu pai mataria qualquer um que ousasse se aproximar dela ou do irmão.

– Posso sentir seu cheiro do outro lado do país.

Rebecca virou-se para trás e deu de cara com um garoto de pele bronzeada, cabelos encaracolados e olhos divertidos, ele estava vestido com uma jaqueta de couro preta e calças pretas justas.

Parecia bonito.

– Quem é você?

– Santiago. Mas quem faz as perguntas aqui sou eu, esse é o meu território.

Rebecca revirou os olhos. Santiago apoiou-se graciosamente em uma das paredes decrepitas do hotel e encarou a garota.

– O que uma caçadora de sombras quer aqui?

– Não sou uma caçadora de sombras.

Ele arqueou a sobrancelha.

– Então quem é você?

– É uma longa história. Posso entrar?

Santiago limitou-se a abaixar-se para puxar a porta de um alçapão e indicou que ela deveria ir primeiro.

Rebecca olhou para a escuridão lá em baixo e jogou-se.

Ela aterrissou de cara no chão poeirento e Santiago caiu graciosamente de pé ao lado dela.

O vampiro estendeu a mão, mas Rebecca levantou-se sozinha e seguiu ao lado dele. Santiago a levou pelos aposentos que eram irreconhecíveis por causa de tanta poeira e teias de aranha, alguns olhos curiosos espreitavam da escuridão.

– Onde estamos indo? – perguntou Rebecca enquanto atravessavam um corredor escuro.

– Ao meu escritório.

– Você tem um?

– Só porque sou um vampiro não quer dizer que eu não goste de elegância.

O escritório de Santiago era um anexo ao quarto dele, havia uma mesa polida de madeira e cadeiras de espaldar alto, o vampiro sentou-se atrás da mesa e Rebecca em sua frente.

– Então, pode começar a contar.

Rebecca contou toda a história a partir do dia em que saiu de Idris até o momento em que fugiu da casa de campo de Luke. Também mencionou quem era seu pai e seu irmão, deixando claro que ela era alguém a ser respeitada.

– E o que você quer aqui, exatamente? Ou veio fazer uma visita no covil dos vampiros?

– Eu preciso de um lugar e aliados poderosos.

– Você matou um Lightwood e um vampiro, que aliás foi criado por mim – disse Santiago – E tudo isso sozinha. Por que agora precisa?

– Porque agora eles sabem que eu quero matar todos eles.

– Aos olhos dos meus irmãos você vai continuar sendo uma caçadora de sombras e o pior, filha de Valentim.

– Eles não precisam saber.

Santiago colocou as mãos cruzadas sobre a mesa e encarou Rebecca nos olhos, olhos castanhos nos castanhos. Era algo poderoso.

– O que eu ganho com isso?

– O que deseja? – rebateu Rebecca.

– Eu quero o fim das regras da Clave. Pode me dar isso, criança?

Rebecca levantou-se da cadeira e jogou o corpo por cima da mesa, até seu rosto ficar a centímetros do de Santiago. Ele tinha cheiro de menta e noite fria.

– Eu posso te dar o mundo. Sou a mistura de Jace e Valentim.

Santiago colocou os dedos frios no rosto de Rebecca. Ela achou que ele fosse beija-la, mas ele apenas disse:

– Vá tomar um banho. E quem sabe de manhã nos podemos conversar sobre quem morre agora.