A Lenda dos Imortais: A libertação dos Selos
2 O golpe contra o Taurientron
Notas iniciais
Dragnvikt andava pelas ruas de sua fortaleza, e todo Utheriano que o via fazia reverência como se o homem, que os retribuía com um sorriso, fosse um rei. Dragnvikt tinha cabelos longos e possuía uma barba, cujos poucos fios de cabelo branco faziam com que seus olhos verde e azul se destacassem ao brilharem no luar. Era uma noite fria, mas Dragnvikt usava uma roupa nobre: uma veste de tecido azul, um casaco longo e preto, estava usando calças e botas de couro preto.
Uma Utheriana diferente da maioria de sua raça apareceu. Não tinha cabelos claros como a maioria: era vermelho e intenso, seus olhos eram verdes de um tom claro. Ela usava uma roupa Utheriana típica com a cor verde musgo e estava acompanhada de um Utheriano, que por sua vez tinha cabelos claros e olhos azuis. Quando os dois Utherianos se aproximaram de Dragnvikt, este falou:
— Ainda desconfiados do mago? – disse ele em um tom calmo. Havia adivinhado o motivo dos dois terem vindo conversar com ele rapidamente. – Será que você podia me explicar, Lursty? Ou você, Celesthia?
— Ele é louco, anda inventando poções... Diz que logo vai criar uma poção que pode torná-lo imortal – Disse Lursty, o Utheriano de cabelos claros.
— E quando ele saiu para pegar ingredientes, eu investiguei sua casa, analisei suas poções, e constatei que não são poções que vão fazer bem a alguém. São malignas! É magia negra! – falou Celesthia num tom frio que não combinava com a coloração de seus cabelos quentes.
— Magia negra... Hmm... Talvez sua bondade com a população me cegue, mas não vejo o que um mero mago possa fazer contra mim, um Taurietron.
— Não abuse de seu poder, Dragnvikt, e muito menos menospreze os fracos – sentenciou Lursty.
— Quando os fracos são menosprezados se tornam fortes, Lursty – respondeu Dragnvikt enquanto acelerava o passo ao caminhar em direção ao palácio, acompanhado por Lursty e Celesthia.
Os guardas de ferro abriram as portas do castelo quando viram Dragnvikt se aproximar. Após o trio atravessar a grande porta de ferro, andaram pelo pátio coberto sustentado por colunas e de chão feito de mármore branco e algumas pedras brilhantes. Logo em seguida pegaram um corredor à direita que dava em uma escada. Subindo a escada chegaram ao grande salão de Dragnvikt, que foi ao seu lugar preferido: uma janela do salão, onde ele podia observar Gloown.
— Dragnvikt... Tome cuidado com o Murghor. Ele pode ser perigoso, suas poções são fortes e podem ser capazes de fazer efeito em você; mesmo sendo um Taurietron, há feitiços e poções que podem fazer mal a você – Celesthia preocupou-se. – Nós, Utherions, temos grande preocupação com você. Nós... Nós o vemos como um pai.
— Ele não é nada perto do que está por vir... Temo que os Tauriens me localizem e os selos sejam libertados – Dragnvikt disse sem qualquer expressão no rosto. – E teremos duas opções: ou morremos pela mão dos Dez, ou morremos pelas mãos dos Tauriens.
— Você não pode fazer nada a respeito dos Tauriens? – disse Lursty, preocupado com a situação. – E os Dez... Não tem aquela profecia de dez escolhidos para derrotá-los?
— Contra os Tauriens, eu posso tentar – Dragnvikt ficou em silêncio por um tempo e revelou: – Eu sei onde estão eles. Cada um dos escolhidos. E um deles é você Lursty: a marca em sua mão direita é a marca de Gorlon.
— Gorlon, o senhor da fortaleza obscura? – perguntou Lursty, surpreso.
— Sim, ele “cuida” das almas corrompidas – quando Dragnvikt terminou de falar, ele ficou nervoso, parecendo estar com medo do que estava por vir. – O destino de Gloown não está mais em minhas mãos... Mas, se o que dizem, “a esperança é capaz de vencer qualquer coisa”, é verdade... Então eu posso tentar.
Dragnvikt olhou para além do horizonte e depois se virou para ir em direção ao seu trono que era feito de um cristal azul e estava coberto por uma bandeira vermelha. Lursty e Celesthia foram em direção ao trono e a Utheriana tomou a palavra.
— Não vamos mais tomar seu tempo, meu bom senhor – Celesthia se curvou, fazendo uma reverência, e foi até a escada onde ficou esperando por Lursty.
— Tome cuidado com o Murghor – Lursty imitou Celesthia e saiu do palácio acompanhado da Utheriana.
Os dois andaram silenciosamente pelas ruas vazias enquanto faziam a patrulha diária. Depois foram em direção à torre mais alta da fortaleza, e lá ficaram observando as vastas planícies e montanhas ao redor da cidade. Lursty quebrou o silêncio e falou:
— Dragnvikt parece estar fraco – Lursty respirou fundo e voltou a falar. – Lembra das histórias que Feleps nos contava sobre o Titã Deus?
— Lembro. Ele dizia que Dragnvikt usava uma armadura de prata impenetrável, e seus olhos queimavam como fogo – Celesthia deu um sorriso e continuou: — E o selamento dos Dez não foi tão fácil como os Vashes dizem... Houve uma batalha enorme onde Dragnvikt quase morreu.
— Eu gostaria de vê-lo lutar assim, seria um presente para os meus olhos.
— Sim seria... – concordou Celesthia enquanto sorria para Lursty. – Mas ele parece estar fraco... Talvez esteja morrendo.
O tempo passou e sol amanheceu. Seus raios quentes faziam a vasta planície de pedra que cercam a fortaleza brilhar. Algumas tropas de Utherions saiam da fortaleza para fazer uma patrulha. Dragnvikt estava de frente para o único portão da fortaleza, desta vez trajando uma capa negra e um capuz. Sua capa cobria grande parte da sua armadura troveniana, que, ao invés de ser tipicamente dourada como a da raça Troven, era negra. Dragnvikt carregava duas espadas, uma longa, fina e afiada, outra longa, grossa e mortífera. Os portões estavam abertos diante do Titã, que parecia estar pensativo quanto ao que iria fazer. Mas quando Dragnvikt deu um passo à frente, ouviu uma pessoa gritar seu nome.
— Dragnvikt!
O dono do nome olhou para trás e viu Lursty e Celesthia, ambos com a armadura Utheriana prata. Lursty carregava duas espadas longas e curvadas, e em suas costas havia uma aljava de flechas e um arco longo de madeira com desenhos Utherianos. O ser da raça Utherion trajava uma capa verde musgo. Celesthia estava com as mesmas armas e armadura que Lursty. Ambos estavam com mochilas com suprimentos, o que incluia pães Utherianos, frutas, poções de curas e ervas.
— Onde pensa que vai sem sua guarda real, Dragnvikt? – disse Lursty caminhando calmamente.
— Não vou a lugar nenhum sem vocês. Pra falar a verdade, eu estava os esperando – Dragnvikt assobiou três notas, e um cavalo negro saiu do palácio. – Peguem seus cavalos, temos que encontrar os escolhidos.
— O que aconteceu com o Taurietron? – perguntou Celesthia ironicamente.
— Apenas estou pensando em um jeito digno de morrer, ou pelo menos de tentar vencer – Dragnvikt retribuiu a ironia de Celesthia com um sorriso. – Se vocês têm esperança que possamos vencer, por quê não tentar?
Lursty e Celesthia montaram em seus cavalos e acompanharam Dragnvikt. Atravessaram a enorme planície de pedra, depois atravessaram a montanha por uma caverna, a única que podia dar acesso a planície. Quando atravessaram a caverna, cruzaram campos, floresta, colinas e montanhas. Para evitar o cansaço dos cavalos, diminuíram o passo. Durante o longo caminho Lursty quebrou o silêncio e falou:
— Para onde estamos indo, mesmo?
— Os Dez não foram libertados... Ainda... Então decidi encontrar os dez escolhidos. Com você aqui, faltam apenas nove. Eu simplesmente decidi tentar.
— E você sabe onde estão? – perguntou Celesthia, entrando na conversa.
— Sim, eu sei exatamente onde eles estão e... Parem! – ordenou Dragnvikt, de repente. – Quem é você?! – Desembainhando sua espada, o Taurientron apontou a arma contra o homem na sua frente.
Quando Dragnvikt viu o velho parado na sua frente, não o reconheceu como uma de suas criações. O poder do senhor era maior que o normal e seus olhos vermelhos apenas indicavam que ele não era de Gloown. Lursty reconheceu o homem e falou:
— É o Murghor! Aquele que pratica magia negra! – Dragnvikt olhou para Lursty e fez sinal para ele recuar. – Senhor...?
— Ele não é um Murghor... Ele é um...
— Taurien! – gritou o velho, e nesse mesmo momento atirou uma poção contra o rosto de Dragnvikt, que não teve como reagir. – Sou Verlkorn, e vim até Gloown com o objetivo de destruí-la junto com você, Taurietron!
Dragnvikt caiu do cavalo com as mãos no rosto, gritando de dor, mas a poção não estava queimando-o: estava apenas deixando-o incapacitado de reagir. Verlkorn deu dois passos em direção a Dragnvikt, mas foi interrompido por Lursty e Celesthia.
— Não ouse tocá-lo, Taurien! – gritou Celesthia.
— E você vai fazer o que? Me matar? – O Taurien zombou de Celesthia, deu uma gargalhada, e logo tomou sua verdadeira forma com sua armadura titânica, mas não assumiu sua forma diabólica e monstruosa.
Lursty tentou o primeiro golpe, mas, antes que percebesse, o Taurien o tinha jogado contra uma árvore e o deixando inconsciente. Celesthia ficou mais furiosa e foi ao ataque contra o Taurien, mas o mesmo era rápido demais, e com um único golpe veloz e ágil a deixou inconsciente também. Verlkorn caminhou até Dragnvikt, o ergueu com uma mão e falou:
— Você está fraco, fraco demais... – Verlkorn retirou uma adaga de seu cinto, jogou Dragnvikt no chão, e, ao invés de matá-lo, apenas fez um corte na mão do titã e retirou um pouco de seu sangue. Verlkorn colocou o líquido em um frasco, depois o Taurien materializou um cajado negro em sua mão, ficou de pé e apontou o bastão para o peito de Dragnvikt, citando depois a magia negra Taurien. – Está tão fraco que eu poderia matá-lo, mas você é um Taurietron, uma espada Taurien ou Troven apenas o feriria. Já que não posso matá-lo, irei apenas destruir seu mundo. Há anos estou infiltrado aqui e você, por estar fraco, não percebeu. A poção que eu ataquei em você apenas o imobilizou, seu sangue e seu poder é chave para eu libertar os Dez, e Gloown ser destruída por suas próprias criações. O cajado está sugando o seu poder até não restar nada. Você continuará imortal, mas seu poder será como de um mero Vashe.
Verlkorn tirou o cajado do peito de Dragnvikt. Havia sugado todo seu poder. Ele podia voltar com o tempo, mas seria tarde demais quando isso acontecer.
Lursty foi o primeiro a acordar dos três, mas quando ele se levantou já havia escurecido. A Lua iluminava pouco por causa das árvores altas. Os cavalos ainda estavam lá, eram obedientes e leais aos seus donos.
O Utheriano observava Celesthia e Dragnvikt ainda desacordados e foi em direção à Celesthia, que aparentemente estava mais ferida. Ela bateu a cabeça com força e estava sangrando, então Lursty arrancou um pequeno pedaço de sua capa, leve e fino o suficiente para ser usado como curativo em Celesthia. Lursty foi até o cavalo e pegou algo para cobri-la e, depois de ter certeza que ela estava bem, foi em direção de Dragnvikt, que já estava acordado e de pé.
O Taurientron se virou, olhou para Lursty e explicou:
— Verlkorn é um Taurien. Ele era o antigo capitão do exército de meu pai, e seu poder é muito superior ao meu – Dragnvikt interrompia sua fala com tosses. – Vou ter que me acostumar em ser tão fraco assim... Você está bem?
— Sim, estou... – respondeu Lursty. Ele não sabia se estava mentindo ou dizendo a verdade.
— E Celesthia?
— Também, mas o que ele fez para te deixar nesse estado, Dragnvikt?
— Sugou meu poder e pegou meu sangue... – Dragnvikt ainda tossia, e raramente conseguia terminar suas palavras. – E ele precisa exatamente disso para libertar os selos...
— Não podemos perder tempo... – disse uma voz feminina. Era Celesthia, que tinha acabado de acordar. – Temos que partir agora.
— Você não está em condições de fazer isso agora, Celesthia – disse Lursty, sério.
— Nenhum de nós está, mas não temos outra escolha. – disse Dragnvikt de forma mais firme ainda. – Vamos partir ao amanhecer, agora descansem.
— Dragnvikt – chamou Lursty. – Ainda pode localizá-los? Digo, os dez; você pode localizar eles?
— Não, mas pelo menos lembro onde eles estão...
Lursty fez uma fogueira e Celesthia adormeceu com a cabeça em seu colo. Dragnvikt, mesmo exausto, montou guarda até o amanhecer. Ele mesmo não tinha motivos para descansar quando sua criação corre risco de ser dizimada da face do universo.
O dia chegou, o Sol iluminava as árvores e fazia suas folhas douradas brilharem como sempre. Pássaros de diversas espécies e cores embelezavam o ambiente. Animais raros como os cells caminhavam dentre as árvores.
Cells possuiam quatro patas, eram fortes e altos e sua cor era azul durante o dia e preta durante a noite. Seus pares de olhos verdes penetrantes procuravam por vegetais e carne o dia inteiro para saciar a fome. O bando de dez cells passou por Dragnvikt que estava apoiado em uma árvore e fizeram uma espécie de reverência.
Celesthia e Lursty acordaram, comeram um pão macio e recheado com mel feito no reino Utherion. Depois fizeram um suco de melion, uma fruta que encontraram no caminho, no bosque depois da caverna. Melion era uma fruta que podia dar energia o suficiente para caminhar durante três dias. Se fosse digerida como suco oferecia o dobro de energia. Dragnvikt bebeu um pouco do suco e comeu dois pães. Após o término da refeição, Dragnvikt montou em seu cavalo negro e falou para Celesthia e Lursty.
— Montem em seus cavalos – o Taurientron mandou. – Vamos para a União dos Quatro Reinos, a união dos reinos de Celestron, Malen, Roshwork e Ghunter. – Dragnvikt parecia melhor em relação ao dia anterior graças à fruta melion, que o ser supremo também deu para o cavalo comer. – Lá encontraremos três caçadores que levam as marcas dos selos, e possíveis mercenários que podem nos ajudar.
Celesthia e Lursty montaram em seus cavalos e seguiram Dragnvikt em direção à União dos Quatro Reinos, que ficava entre quatro grandiosas montanhas. Para chegar lá era preciso cavalgar entre as enormes muralhas de montanhas que separava os reinos Utherion e Murghor. A estrada era abandonada e estreita, o que para bandidos da montanha era um ótimo lugar para atacar viajantes. Os bandidos da montanha tinham descendência Truk, por isso eram grandes e fortes. Após duas horas cavalgadas a passos lentos no estreito e longo caminho até a União dos Quatro Reinos, algo que não surpreendeu os três aconteceu: na parte em que as montanhas não estavam juntas e havia ruínas de um antigo castelo, estavam dez bandidos armados com espadas e arcos aguardando viajantes.
— Parem! – gritou o líder deles, um típico Truk com uma armadura forte e grossa. Ele portava uma enorme espada de aço. – Entreguem tudo o que vocês têm: armas, comidas, e a... A moça ali.
Dragnvikt desceu do cavalo, andou com passos firmes em direção ao Truk que tinha dois metros e meio e falou:
— Eu sei quem é você, Blorg. Aliás... Eu sei quem são vocês todos – Dragnvikt encarou o homem por um tempo e falou. – Está vendo aqueles dois ali, montados nos cavalos brancos? São Utherions, e eles são minha guarda.
— Sua guarda? – zombou Blorg, dando uma risada – O que um Vashe faz com uma guarda aqui? E só há um guardião, pelo o que eu sei guardiões possuem cabelos claros. E quanto a ele, eu daria conta dele sozinho.
— Você acha? – Dragnvikt sorriu, e com apenas três golpes rápidos derrubou Blorg, instantes depois o mesmo começou a sangra pelos olhos, orelhas, nariz e boca. – Celesthia e Lursty, terminem o serviço.
Dragnvikt montou em seu cavalo e apenas observou Celesthia e Lursty matarem nove bandidos restantes.
Lursty era rápido, eficiente, forte e habilidoso. Com apenas uma espada derrubou cinco dos noves bandidos. Já Celesthia foi rápida, mortal e certeira com o arco, derrubando quatro bandidos com suas flechas em menos de cinco segundos. As quatro flechas atingiram os pescoços, para que suas mortes fossem doloridas e para que não pudessem gritar de dor. Todos os quatros caíram no chão gemendo tentando tirar a flecha do pescoço que não parava de sangrar. Os golpes de Lursty tinham como principal objeto matar em menos de um segundo, por isso o Utheriano dilacerava seus oponentes rapidamente, e por último os decapitava, fazendo os mesmos terem o pior tipo de morte que se poderia ter.
— Creio que os Truk nunca aceitaram ser um povo inferior aos Utherions – disse Dragnvikt.
— São rudes e agressivos – comentou Celesthia. – Mas, por quê poupou Blorg, Dragnvikt?
— Alguém precisa contar as histórias – disse Dragnvik, sorrindo. – E, além disso, eles tiveram coragem. Desafiaram dois Utherions e um Taurietron...
— Será que estamos perto do nosso objetivo Dragnvikt? – perguntou Lursty.
— Sim, falta pouco – respondeu Dragnvikt.
Cavalgaram durante meia hora e finalmente chegaram à União dos Quatro Reinos. Toda a travessia durou várias horas. Com cavalos tão rápidos quanto os do trio e com a ajuda da fruta melion não foi surpresa eles chegarem em menos de um dia na União dos Quatros Reinos.
— É apenas um vilarejo visto com maus olhos, mas se for observar bem é uma pequena cidade bonita e fortificada – analisou Lursty. – Então, Dragnvikt, onde podemos encontrar os caçadores?
— Onde mais? – Dragnvikt deu um sorriso e disse: – Na taverna.
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