A Lenda dos Imortais: A libertação dos Selos
3 A União dos Quatro Reinos
Notas iniciais
O trio atravessou um portão protegido por duas torres e alguns sentinelas. Estes não pertenciam ao exército. Na verdade, alguns faziam parte de um grupo de mercenários da região. Os três foram fuzilados por olhares estranhos e maliciosos, mas suas armaduras e armas fizeram os mercenários apenas os encararem com desdém. Eles cavalgaram até um pequeno estábulo na cidade, onde deixaram seus cavalos. Assim que deixaram o estábulo, caminharam até a taverna. Do lado de fora podia se perceber que o lugar era bem... alegre.
Quando adentraram a taverna, se depararam com o típico cenário de uma taverna em pequenas cidades: azonianos bêbados, murghors vagabundos cantando em um pequeno palco para ganhar algum trocado e, é claro, beber mais. Alguns vashes e truks, que normalmente são ladrões ou mercenários, cortejando a filha do taverneiro... Alguns encararam o trio com maus olhos, mas assim que perceberam que dois deles eram utherianos, decidiram não olhá-los diretamente.
A taverna era um grande salão com chão e parede de madeira. O local era sustentado por quatro grandes colunas de pedra e as paredes possuíam janelas altas, retratos de antigos caçadores, cabeças de animais e monstros. Algumas tochas ajudavam a iluminar o grande salão.
Atrás do balcão era possível ver uma grande quantidade de barris de vinho, cerveja, entre outras bebidas empilhadas. Os murghors vagabundos cantavam uma canção diferente, seus instrumentos agora emitem notas tristes, e suas vozes soando diferente, mais suaves, deixando o salão inteiro em silêncio para ouvir a música.
Vivemos com a dor em nossos corações
Não temos lar, ou para onde ir...
Estamos perdidos em mundo bom
Com seres cruéis, que nos amaldiçoam...
O primeiro caçador, então conta-nos:
Quando o grande dragão apareceu...
Ele rugiu como um trovão...
E na calada da noite, destruiu meu lar...
Parti para além do horizonte...
Em busca de consolo para meu coração.
Despedaçado pelas chamas azuis de um dragão.
O segundo caçador, também compartilha:
Ele ergueu-se do vulcão...
Provou ser mais devastador
Que o mesmo em erupção...
E quando ele apareceu.
Nada além de cinzas pereceu.
O gigante, o poderoso gigante, tão alto quanto o céu.
E o terceiro, não menos amaldiçoado:
Ele esmagou meu lar como se fosse nada...
Mas, ele não esmagou só o meu lar
Esmagou meu coração
Que um dia já fora bom...
E o gigante tão alto quanto à montanha, apenas os esmagou...
Quando os murghors terminaram a canção, fecharam os olhos por alguns segundos e sibilaram algo em voz baixa para si mesmo. Assim que abriram os olhos, sorriram e voltaram a cantar músicas alegres sobre grandes caçadas.
Dragnvikt foi até o balcão em busca de alguma informação sobre os três caçadores. Já Celesthia e Lursty ficaram sozinhos, e decidiram sentar-se em uma mesa ao lado de uma janela, onde podiam observar o céu estrelado. Eles ficaram em silêncio por algum tempo até Lursty falar:
— Eles não têm a menor ideia de quem é ele... Digo, eles não sabem quem é Dragnvikt. – Ele olhou ao arredor, e viu que todos viam Dragnvikt com indiferença, assim o ignorando. – Nunca entendi o porquê de ele rejeitar as outras raças...
— Ele deve ter algum motivo, e seja o que for... Acho que não devemos nos intrometer. — Opinou Celesthia olhando fixamente para Lursty, admirando-o.
— Hmm... Ele realmente é misterioso... O que será que se passa da cabeça dele?
— Todos temos perguntas sobre ele, mas ele nunca nos respondera. Não nos deve essa satisfação. – Celesthia desiste de encarar Lursty, e volta seu olhar para as estrelas. – Acho que nem mesmo Dragnvikt é capaz de compreender o que há além de tantas estrelas.
Lursty faz um sinal com a cabeça de que concorda com Celesthia, e assim como a mesma, admira as estrelas.
— Ouvi boatos que os três melhores caçadores da região frequentam essa taverna. – Perguntou Dragnvikt ao se apoiar no balcão.
— Não são boatos. – Disse o velho com um sorriso simpático. – Eles sempre vêm aqui depois da caça. Eles protegem essa pequena cidade dos monstros melhor do que qualquer exército. Eu sou muito grato a eles, já salvaram a vida da minha filha das garras dos gobargs, por esse motivo deixo sempre uma refeição especial para eles no balcão.
— Poderia me servi um copo de melion?
— Sim, mas é claro! –– Está aqui. – Diz ele ao servir. – Você não é daqui, não?
— Sim. – Dragnvikt diminui seu tom de voz e fala. – Vim da capital.
— Qual capital? – Quando o velho olha para o rosto de Dragnvikt, e vê a armadura que o mesmo usa, fala tremulo. – Você...
— Sim... Não me revele, por favor. –Dragnvikt fala com um sorriso amigável, agradando o taverneiro. – Eu realmente preciso encontrar os três caçadores, quando eles vão chegar?
— Na madruga... Meu senhor... – Fala o velho taverneiro um tanto assustado e surpreso. – Eles foram caçar em um vale de Celestron, partiram ontem... Acho que vão chegar antes do amanhecer.
— Obrigado pela informação, Rosh. – Fala Dragnvikt adivinhando o nome do taverneiro.
— De nada. — Retribui Rosh. – O que pretende fazer com eles?
— Não se preocupe, eles são ótimas pessoas.- Dragnvikt fala tão calmamente que Rosh fica mais tranquilo. – Eu estou aqui porque preciso deles.
Rosh, o taverneiro compreende de certa forma o que Dragnvikt diz, o mesmo evita fazer mais perguntas em relação a isso, e só lhe oferece mais um copo de melion.
— Aceita mais um copo de melion?
— Sim. Na verdade, quero três. – O taverneiro então enche três copos com o suco da fruta melion e os entrega a Dragnvikt. – Obrigado. – Dragnvikt agradece e anda em direção à mesa onde está sua guarda, Celesthia e Lursty.
Ele serviu o suco de melion aos dois. Sentou-se à mesa sem demostrar qualquer tipo de emoção, pensativo. Celesthia quebrou o silêncio ao fazer uma pergunta para Dragnvikt:
— E os três caçadores? Conseguiu alguma informação?
— Sim... Eles saíram ontem para uma caçada – Dragnvikt falou sem olhar para a mesma, focando seu olhar no copo de suco à sua frente. – Vão chegar antes do amanhecer, provavelmente.
— Vou alimentar os cavalos. – anunciou Lursty. – Eles vão precisar de toda energia possível amanhã.
Lursty caminhou em direção à saída da taverna, recebendo olhares provocativos por conta dos vashes e truks. Ele ignorou, pois os considerava uma escória quando comparada à sua raça.
Dragnvikt e Celesthia ficaram em silêncio, à espera da madrugada. A taverna ainda estava lotada, e alguns bêbados se aproximaram de Celesthia na tentativa de cortejá-la. Eles, porém, desistiram assim que notaram o olhar misterioso de Dragnvikt e se deram conta de que ela é uma utheriana.
— Ele sente atração por você – disse Dragnvikt, puxando assunto com Celesthia. – Lursty.
— Como pode saber disso? – ela perguntou, um pouco envergonhada e tímida.
— Acho que você sabe a resposta.
— Você é o criador... – ela olhava diretamente para Dragnvikt, que a fitava sem demostrar emoção, como sempre. – Sabe de tudo.
— Ou pelo menos sabia, mas consigo de me lembrar de algumas coisas.
— Voltando ao assunto... – Celesthia tentou ignorar os olhos misteriosos e belos de Dragnvikt. – Eu sei o que ele sente, eu noto como ele me olha. Mas, se ele sentisse mesmo alguma coisa, ele já teria tentado algo.
— Eles nasceu no Estado Taurientron. O que para os utherianos é uma grande honra, tão grande que os mesmos evitam ter sentimentos e emoções em honra a mim.
— Não sabia disso... Nunca me contaram.
— É um voto sagrado, ninguém deve saber. Eu confio em você, por isso estou lhe contando.
Celesthia se sentiu confiante ao perceber que o Taurientron confiava na mesma, que era apenas uma criação do mesmo.
— Eu a acolhi quando era pequena e vivia além do norte e do sul. Você é única – as palavras de Dragnvikt animaram um pouco Celesthia. – Você não é uma aberração utheriana por ter cabelos vermelhos. Você é única e possui um grande poder, só não descobriu como usá-lo ainda, e creio que aprenderá quando chegar a hora.
Celesthia não fez mais perguntas, pois sabia que Dragnvikt não revelará mais nada sobre seu futuro.
— Mas, e você? Já sentiu algo? – perguntou Celesthia, curiosa.
— Não, nunca senti algo. Tauriens e Trovens não podem ter sentimentos, os torna fraco e você sabe o porquê.
— Mas... Seus pais sentiram algo, e quando não só a vida deles, mas sua estava em jogo, não negaram o que sentiam. Superaram tudo para lhe dar a chance de viver.
Dragnvikt pareceu perdido por um momento, mas assim que voltou a si, falou:
— Quem sabe o destino não esteja reservando algo para mim? Ele só pode estar esperando o momento certo – então, com essas palavras, Dragnvikt encerrou a conversa.
Alguns clientes finalmente foram embora, e a madrugada chegou.
A taverna estava vazia. Lursty avisou que iria passar a noite cuidando dos cavalos, com medo de que eles fossem roubados. Eram quase três horas quando a porta da taverna se abriu e três homens a atravessaram. Eles estavam equipados com espadas, arcos e machados: eram os três caçadores. Ele foram em direção ao balcão onde Rosh, o taverneiro lhes deixou uma refeição.
Dragnvikt caminhou calmamente até o balcão, onde os três caçadores comiam.
— Esperei por vocês a noite inteira.
— E quem é você? – perguntou Bour, um dos três caçadores.
— Sou Dragnvikt, o criador desse mundo e venho aqui lhes dar a chance de cumprir o juramento que fizeram muito tempo atrás.
Os três caçadores eram Jarik, Bour e Strugger. Jarik possuía cabelo esbranquiçado, chegava a ser prata. Ele era alto e robusto. Seu rosto era marcado por diversas cicatrizes de batalha e ele carregava duas espadas, uma curta e outra longa, ambas feitas com material nobre.
Bour era alto e gordo, chegava a ter mais de dois metros. Possuía cabelos ruivos vagabundos, e uma barba com uma pequena trança. Ele tinha descendência Truk e suas armas eram uma marreta e um enorme machado que foram forjados pelos azonianos.
O terceiro caçador era Strugger, seu cabelo era curto e castanho. Ele era um típico vashe, alto, magro e forte. Carregava consigo um arco velho e uma longa espada de aço.
Os três caçadores usavam roupas de couro de uma leve armadura, exceto Strugger, que carregava uma estranha proteção no braço direito, que era todo coberto por puro ferro, mas algo nela deixava Strugger a vontade, sem peso algum e o braço não possui dificuldades para mexer.
Bour olhou para Dragnvikt de baixo para cima, analisando-o, e perguntou:
— Mas de que juramento está falando? – ele falou enquanto mastigava um pedaço de pão, e bebeu toda sua cerveja com apenas um gole. — Fizemos nenhum juramento. Ou fizemos?
— Não? Eu tenho certeza de que foram vocês, os três caçadores que juraram por suas vidas e por todas aquelas que perderam que, vocês matariam Fancor, Stanker e Vulkanic. – Os nomes das bestas atraíram a atenção dos três caçadores, que pararam de comer e voltaram sua atenção total a Dragnvikt. – A profecia logo irá se cumprir, logo eles serão libertados.
— E por que eles serão libertados, Titã deus?! – disse Strugger, furioso, ao dar um soco na mesa. – Os dias nunca estiveram melhores! Aquelas bestas estão presas, e assim deve continuar... – A fúria de Strugger não consegue esconder a tristeza em seus olhos. – Por quê? Responda-me!
— Porque Verlkorn, um taurien, vai libertá-los. – Dragnvikt não demostrou emoção alguma diante da fúria de Strugger.
— Mas você é um titã deus, como isso foi acontecer? – perguntou Bour enquanto comia outro pão.
— Apesar de eu ser imortal, tenho meus limites. Gastei muito de meu poder com minhas criações e com o selamento das dez bestas. E, além disso, Verlkorn pegou o pouco que restou do meu poder.
— Mas... seu poder vai voltar? – perguntou Jarik, preocupado com a situação.
— Vai, mas levar mais tempo do que temos. – as palavras de Dragnvikt desanimaram todos por um momento. — Mas existe outro jeito.
— Qual? – questionou Strugger, se acalmando.
— Destruindo os dez selos das bestas. – respondeu Dragnvikt.
— E como vamos fazer isso? – perguntou Bour novamente, um pouco confuso e perdido com o que estava acontecendo.
— Existem dez portadores das marcas dos selos, e esses são os únicos que podem destruir as dez bestas. – Celesthia se manifestou, ficando ao lado de Dragnvikt. – E vocês são três dos escolhidos. Jarik carrega a marca de Vulkanic, Strugger a de Fancor e Bour a de Stanker.
Por um momento todos ficaram em silêncio, tentando absorver a informação o mais rápido possível e formular uma resposta. Então Strugger explodiu novamente e falou irritado:
— Isso é loucura! Essas criaturas são poderosas demais e... São enormes! Seria impossível chegar perto delas, quanto mais matá-las. – o desespero tomou conta do caçador. – E o ser mais poderoso que está do nosso lado, não tem poder algum! O nosso destino é morrer!
— Não, não é – Dragnvikt não expressou raiva ou qualquer coisa do tipo, apenas falou com sua voz tranquila de sempre. – Há alguém muito poderoso que pode nos ajudar: Feleps, um murghor. Se vocês vierem comigo, restará apenas seis escolhidos para encontrarmos.
— Seis? – Exclamou Bour. – Até encontrá-los, vamos estar mortos. – Bour virou outro copo de cerveja, não parecendo nervoso com a situação.
— Não, não vão demorar, seu gordo imundo! – disse um velho que entrou pela porta da taverna apoiado em um cajado velho e por um pequeno grupo de pessoas, todas preparadas para batalha. – Eu sabia que esse dia ia chegar, por isso reuni alguns escolhidos e... Algumas outras pessoas nada importantes para essa jornada. A libertação dos selos começou, meus jovens...
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