Já fazia três semanas desde a morte de Amanda, a garota com o estranho poder de transformar o próprio corpo em nuvens e manipular raio livremente. Mesmo nunca tendo falado tanto com a garota, César sentia um pouco pela perda e estaria mentindo se dissesse que não estava triste ou não ligava.

Do modo como ele e os amigos viviam, era impossível continuar sem sofrerem uma perda, mas estavam assim há tanto tempo que ele esquecera o que era isso, esquecera como era a dor de perder um companheiro, afinal fazia quase 100 anos desde que a mesma coisa ocorrera.

O pior era pensar que as coisas não acabariam por aí, as lutas continuariam sem previsão de término, mesmo com a morte de alguém. Três semanas de luto foi um tempo relativamente longo, levando em conta que ainda não encontrara Jael novamente. Desde a floresta na luta das fadas até o momento atual o loiro não se mostrou, fazendo César questionar o motivo. Talvez estivesse ocupado demais nos últimos dias e não arranjou tempo para vir ao seu encontro, talvez tenha esquecido, talvez saiba do ocorrido e de sua perda decidindo, assim, dar ao garoto um pouco de tempo para se recuperar, ou talvez tenha simplesmente desistido e ignorado o ocorrido e lhe descartado. A última opção era a mais provável.

A luz da luz iluminava o vasto espaço verde ao redor de si. César destruiu mais uma árvore com outra rajada de luz. Queria muito que o objeto destruído fosse a rainha das fadas. Infelizmente, isso era impossível agora, Gabriela a matou e isso não trouxe Amanda de volta. Nem mesmo João pode fazer alguma coisa à respeito.

Sentindo seu sangue ferver novamente, o garoto reuniu luz ao redor de sua mão e, em seguida, destruiu mais algumas árvores para aplacar sua frustração.

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A única iluminação do cômodo eram algumas velas espalhadas pelo local. O jovem feiticeiro flutuava a alguns centímetros do chão. Seus olhos estavam fechados e a respiração constante, em um ritmo lento. Fazia algumas horas que estava assim e, se não fosse pela batida na porta tirando sua concentração, provavelmente ficaria mais algumas.

João sem sair do lugar fez um gesto com a mão e a porta se abriu, dando espaço para Rafaela entrar. Não estava em seu melhor estado, desde a morte da garota vem meditando para passar o tempo, tentando evitar a dor que não queria sentir. Porém não podia ser grosseiro com a garota, não depois dela ter oferecido sua casa a ele e aos outros e curado seus ferimentos. Quando a garota se aproximou ainda mais ele finalmente botou os pés no chão.

— Obrigada! – disse a garota.

— Pelo que?

— Você poderia ter trazido Amanda de volta à vida, mas não o fez. Obrigada por isso.

O menino ficou pálido por um instante, avaliando a expressão da outra, procurando por ironia ou acusação. Não encontrou nada.

Era verdade que ele poderia ter trazido a menina de volta à vida. Isso exigiria uma magia e um ritual complicados, e algumas ervas raras, mas não era impossível. Gabriela e César já haviam perguntado se havia algo que ele pudesse fazer à respeito do cadáver na sala da sereia, e ele mentira dizendo “não, nada”.

— E por que agradece? Você... todos nós, poderíamos tê-la de volta, mas eu não fiz nada. Por que você me agradeceria? E como sabe que sou capaz disso.

Rafaela o olhou séria.

— Porque você é poderoso. Seria extremamente exaustivo, mas não impossível. Mas não posso ficar brava com você. Os mortos não devem retornar, isso seria perigoso demais. É melhor assim.

A loira tinha razão e João sabia disso, fora por esse motivo que não falara nada até agora. Ressuscitar os mortos iria contra todas as leis da natureza e da criação, não poderia ser feito sem haver consequências e riscos perigosíssimos. No mínimo isso iria requerer um sacrifício e, na melhor das hipóteses, ela voltaria diferente.

Conhecia histórias, nunca comprovadas, obviamente, de pessoas que trouxeram os mortos de volta ao mundo dos vivos. Voltavam diferentes, às vezes mais frágeis, às vezes mais violentos, mas a grande maioria sem memórias, somente um instinto incontrolável de matar.

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Victor ainda encarava a esfera que havia saído das costas de Titânia. Não havia dúvida de que o objeto pertencia a Aurora, sua senhora. Porém como ele havia parado sob o controle das fadas? Mais importante: como ele havia ido parar dentro do corpo de Titânia? O pior é que não havia como conseguir respostas para suas perguntas, pois a única pessoa que conseguiria responde-las era a própria rainha das fadas, que no momento encontrava-se morta.

Havia diversas maneiras da esfera ter parado no poder das fadas, assim como diversos motivos. Não havia motivos para levá-lo de volta à sua casa, afinal não haveria ninguém lá para pegá-lo de volta. A saudade lhe invadiu no momento em que pensou no Vale dos Dragões, antes um resplandecente vale verde com diversas casas, árvores e um grande templo, agora não passava de uma terra seca repleta de ruínas.

Mesmo sabendo de tudo isso, não conseguia livrar-se do pressentimento e da sensação de que era para lá que deveria seguir, e isso o estava deixando louco.

E ainda tinha Amanda. Se algum dia fosse para lá com certeza levaria a garota, pois os poderes elétricos da mesma seriam de grande ajuda no local, porém agora não era mais possível, tendo em mente sua morte.

O que iria fazer?

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César ainda encontrava-se em meio a grama e árvores cortadas, explodidas e dilacerada. Mesmo não tendo se virado, pode sentir um vislumbre de movimento às suas costas. Sabia quem era e, apesar de saber que ele viria até ali, não esperava que fosse naquele momento.

— Parece que andou... ocupado – falou o jovem de asas brancas, fazendo César virar-se para ele.

— O que quer?

— Você já sabe: ajuda! Disse que vinha atrás de você e vim. Estamos em meio à uma Batalha Santa e nosso lado está perdendo. Sabe que não gosto de te pedir isso e não estaria fazendo se não fosse extremamente necessário.

— Você fala como se eu me importasse. Não tenho mais nada a ver com vocês, seus problemas não são da minha conta. Não ligo se forem aniquilados.

— Então vai passar para o lado dos demônios?

César pôs a mão no queixo, fingindo avaliar a situação, e depois fingiu uma expressão de inocência. Tendo em mente que Matheus era seu amigo e era um demônio a resposta era fácil.

— Já estou do lado deles. Um de meus melhores amigos é um demônio e fez muito mais por mim que seu deusinho de merda. Se já acabou vá embora.

— Sabe, se não cooperar acidentes podem acontecer – disso o loiro, dando ênfase na palavra “acidente”.

César irritou e prendeu o anjo contra uma rocha usando sua luz solidificada.

— Se machucar quem me é importante, eu mato você e seu povo pessoalmente.

— Não fique assim – disse Jael com calma, como se não houvesse uma lâmina de luz próxima a seu pescoço. – Pode levar quatro dos seus amigos com você.

César o soltou.

— Ótimo! Mas eu escolho. E depois disso, nunca mais irão me procurar.

— É o planejado – falou Jael, e juntos saíram voando.