O toque de seu celular no meio da manhã de domingo acordara Matheus que se pôs de pé em um salto quase caindo e batendo a cabeça em seguida. Sua voz sonolenta dedurava que havia acabado de sair da cama, ao contrário da voz do outro lado da linha, mantinha uma aparência calma apesar de suas palavras indicarem uma emergência. César queria encontra-lo e estava consideravelmente perto. Na esquina da casa do mesmo. O demônio nem perdeu tempo abrindo um portal, apenas saiu de casa voando até a esquina, surpreendendo-se ao encontrar João, Larissa e Emanuele, além do próprio César.

Apenas com uma tosse falsa do quinto membro daquele grupo foi que Matheus notou a presença de um garoto loiro de asas brancas. “Um anjo. No que foi que nos metemos dessa vez?”, perguntou a si mesmo em pensamento.

— Já que estão todos aqui, vamos indo – disse César para Jael que abriu um portal branco que emanava uma sensação de calma.

— Para onde vamos? – perguntou Larissa entrando no portal, logo sendo seguida pelos outros.

Os olhos do grupo vagaram pelo lugar. O chão era claro assim como as casas espalhadas. Era tudo muito brilhante e ofuscante, sem falar alegre. Todas as construções eram brancas ou de cores claras, havia também várias árvores e jardins. Pássaros cantavam e rasgavam o céu, assim como seres maiores de asas. Dezenas de anjos se encontravam aqui e voavam ali.

— O paraíso! – disse Jael analisando os garotos e parando os olhos em Matheus. – Eu devia saber que traria o demônio com você.

— Algum problema comigo?

— Quanta insolência! Como se já não fosse ruim o bastante lutar contra o lado dos demônios ainda tenho que aturar um pedaço de esterco deles em meu lar.

Matheus apenas se virou para ele calmamente antes de responder com uma voz tão calma quanto sua aparência sugeria.

— Você chama aqueles anjos-caídos de “lado dos demônios”, porém caso não saiba eu sou o último demônio existente e você não está me vendo lá com eles, ou está? Se está então você tem sérios problemas e a última coisa que preciso lidar é um anjo retardado e esquizofrênico.

João não resistiu em soltar uma risada discreta vendo que a face de Jael ficou vermelha de raiva. Um segundo depois o anjo apontou a lâmina da lança para o outro que afastou-se num pulo.

— Quer mesmo me desafiar, escória?

— Não se ache tanto, pombinha. Quero ver sua atitude quando eu arrancar as suas asas.

César se pôs entre os dois antes que algo mais sério acontecesse, tendo em vista os vários anjos em volta dos demais preparando-se para ajudar Jael se fosse necessário. Na verdade, já era bom o bastante o fato de não terem atacado quando viram o garoto de preto, mas não ia reclamar.

— Melhor parar por aqui. Jael, faça o que tem que fazer. E Matheus – olhou para o menino por cima do ombro –, controle-se um pouco.

Quando Matheus passou por César, o manipulador de luz apenas lhe sussurrou um:

— Desculpa, prometo que vou te compensar – porém não recebeu nenhuma resposta.

O anjo não retrucou, apenas se virou e começou a andar pedindo para que o seguissem. Logo foram conduzidos a um apartamento branco de vários andares e sacadas espaças. Quando entraram posicionaram-se em cima de um pedaço quadrado de azulejo que levantou indo para os andares acima levando-os consigo.

Desceram no que contaram ser o décimo andar e de fato a organização e disposição dos móveis lembrava um apartamento. Uma cozinha, uma sala de estar, um banheiro e um quarto com sete camas.

— Recebi ordens de lhes preparar o estabelecimento adequado – disse Jael quebrando o silêncio. – Demônio, siga-me! Você pode dormir nos estábulos, são apropriados para sua laia.

— Não, obrigado. Não quero dormir no seu quarto – respondeu tão sério quanto o outro.

O garoto de asas brancas estava prestes a pegar sua lança, porém César foi mais rápido.

— Jael, você recebeu ordens para tratar meus amigos como convidados dignos, principalmente pelo fato de estarem dependendo deles. Mesmo sendo um demônio, Matheus é meu amigo e, consequentemente, um convidado. Gostaria de saber o que seus superiores achariam se soubessem que não é capaz de seguir uma simples regra. Na verdade se detesta tanto ele, podemos ir embora e deixar que sejam aniquilados, pessoalmente eu adoraria isso.

O loiro apenas o encarou atordoado e secou a parede, sua cara demonstrava raiva pura, mas ele se virou e foi embora, ouvindo a risada do grupo logo acima.

— Eu disse que ia compensá-lo – comentou e dessa vez o demônio riu alto. – O que vão fazer agora?

— Não sei quanto a vocês, mas vou voltar a fazer o que fazia antes de vocês me ligarem: dormir – disse Matheus se jogando em cima de uma cama e puxando as cobertas.

— Vou meditar – disse João sem muito ânimo.

— Vi um parque ou floresta, sei lá o que era aquilo – começou Manu animada. – Quero ir lá um pouco. Vem comigo, Lari? – perguntou recebendo resposta positiva da amiga.

Como todos já tinham planos, César se dirigiu ao castelo branco situado algumas quadras de onde se encontravam, preparando-se para a reunião na qual os anjos exigiram sua presença, como representante do pequeno grupo. Apenas esperava que os amigos não causassem confusão enquanto estivesse fora.