A Lenda de Yuuki - Livro 1: Medos
4 Não Sabia
Notas iniciais
–– Isso, Yuuki! Como você conseguiu fazer isso tão depressa? –– Wei perguntou, surpresa.
–– Eu era obrigada a treinar a dobra de fogo, apesar de nunca conseguir. Por isso eu conheço os movimentos. – Disse a ela enquanto criava rajadas de fogo com os pés.
Desde que confrontei Vaatu – e ganhei – recuperei a conexão total com Raava, o que me permite dobrar os elementos. Agora posso finalmente utilizar do treinamento que tive no passado.
Me firmei em uma base, e provoquei a Wei:
–– Vamos, será que consegue me derrubar? –– Sorri.
–– Ei, garota, você só aprendeu a controlar umas bolinhas de fogo, não fica se achando. –– Ela disse, entrando em posição. –– Você não vai aguentar nem dez segundos.
–– Veremos.
Ao dizer isso, soltei diversas bolas de fogo na direção dela. Como esperado, Wei neutralizou quase todas com fogo de mesma intensidade, e as que sobraram, ela desviou.
–– Bom golpe, Yuuki, mas não se compara ao meu.
Wei chutou duas vezes o ar, em um movimento rápido, um chute em cima, e outro em baixo, deixando apenas um pequeno espaço entre as duas linhas de fogo. Pulei por entre elas facilmente. Durante o pulo, me concentrei, e com o balançar dos braços em direção a Wei, fiz o fogo se virar contra ela.
Assim que Wei dissipou as chamas, me encontrou logo atrás da cortina de fogo que desaparecia. Seu punho vinha em direção ao meu rosto.
De alguma forma, senti que ela faria isso, e rapidamente me agachei, criando assim, a situação perfeita para uma rasteira limpa. E foi exatamente o que fiz. Wei caiu de bunda no chão.
–– Ai! Essa do-! Espera! Era para você estar no chão, não eu! –– Wei disse enquanto apontava para mim, furiosa. –– Você roubou! Aquele pulo por entre as chamas, nenhum dominador de fogo conseguiria fazer aquilo.
–– Mas um dominador de ar sim. Esqueceu que eu vivia como uma nômade do ar? E que o Nazai tentou me ensinar dobra de ar? E que ah! Eu leio muitos livros? –– Declarei.
A jovem dominadora de fogo que me salvou anteriormente estava com o rosto todo vermelho. Estou tentando descobrir se era de raiva ou vergonha.
–– Você não pode usar dobra de ar! É trapaça! –– Wei exclamou, cruzando os braços, e virando a cabeça para o lado, desviando do meu olhar.
–– Ninguém disse que não podia, ou por acaso você falou: “Yuuki, nada de dominação de ar!”? –– Ironizei, imitando a voz dela.
Wei apenas continuou de braços cruzados, me olhando pelo canto dos olhos.
–– Ah, deixa disso, Wei. Vem, levanta. –– Estendi a mão para ela. –– Na próxima eu prometo não usar dobra de ar.
–– Acho bom, Avatar. –– Virou as costas para mim e subiu no Pip. Acho que ela não quer muito papo.
Nunca imaginei que eu era capaz de dominar um elemento, imagina dois. É a primeira vez na minha vida que me sinto realmente feliz, é como se eu tivesse encontrado uma parte de mim que estava faltando.
Entretanto, essa calmaria não vai durar muito tempo, eu sinto. Aquele homem, o assassino do Nazai, ele ainda está por aí, e ele virá atrás de mim.
Mas dessa vez, eu estarei pronta!
*
Horas se passaram desde meu pequeno treinamento com Wei, e a noite finalmente chegava.
–– Tudo pronto, Wei?
–– Sim, Yuuki, pode ir.
–– Pip, yip yip!
Assim que o treinamento foi finalizado, além de descansarmos, fizemos um plano do que fazer. O mundo ainda não sabe que o Avatar voltou, e quero que continuem pensando assim, pelo menos por enquanto. O mundo não está preparado para essa notícia.
Nosso primeiro objetivo é encontrar alguém que esteja disposto a ensinar a dobra de terra.
–– Então, minha cara Avatar Yuuki. Temos três principais locais onde podemos encontrar mestres de dominação de terra: Ba Sing Se, Zaofu, e Cidade Republica. –– Wei declarou.
–– Ba Sing Se e Cidade Republica são escolhas que até fazem algum sentido, porém Zaofu? Não é lá que vive o Clã do Metal?
–– Sim, e é exatamente por isso que vamos para lá! A dobra de metal é uma espécie de desenvolvimento avançado da dobra de terra. Logo, se eles sabem dobrar metal, terra não é problema. Fora que é lá que vive os descendentes da lendária Toph Beifong, a criadora da dobra de metal.
Bom, está aí algo que eu não sabia. Quem sabe quando eu chegar lá eu não aprenda a dobrar metal também?
–– Tudo bem. Próxima parada, Zaofu. Só espero que não aconteça nenhum imprevisto até chegarmos lá.
–– Isso é meio impossível. Você é o Avatar, ou seja, um chamariz de problemas... –– Wei disse enquanto fazia alguns gestos com as mãos.
–– Hehe... você tem razão.
Não posso me preocupar tanto, afinal o que pode acontecer conosco, em pleno ar? Não é como se qualquer pessoa pudesse voar assim.
–– Eh... Yuuki. O que é aquilo ali? –– Wei apontou para uma sombra nas nuvens.
Eu e me boca grande...
–– Prepare-se, Wei. ––Disse a ela com um tom sério.
–– Me preparar para o quê?
–– Para o impacto.
Um avião veio em nossa direção. Pip desviou com maestria da máquina voadora gigante, mas obviamente o problema estava apenas começando.
–– Olha, alguém pulou do avião! –– Exclamou Wei.
Wei tinha razão, alguém havia pulado do avião. Seu destino? Pip.
[THUMP]
O maluco que tinha pulado do avião na realidade era uma maluca. Ela segurava duas adagas, ambas continham escrituras, porém ilegíveis.
Ela usava uma máscara simples, totalmente branca, nenhum detalhe a mais. Seus cabelos longos e azuis flutuavam junto ao vento. Além da máscara, ela vestia uma calça e uma regata, ambas extremamente coladas ao corpo. Aparentemente foram projetadas para serem flexíveis em combate.
–– Estou aqui para acabar com você, Avatar. –– A misteriosa mulher disse, apontando uma das adagas na minha direção.
Algo não está se encaixando aqui. Como diabos essa mulher sabe sobre mim?
–!
É claro! O assassino do Nazai! Ela deve o conhecer, ou melhor, deve trabalhar com ele. Preciso de respostas, e ela pode nos dar.
–– Vamos conversar, não quero entrar em conflitos desnecessários. Por que você quer me matar? Como você sabe que sou o Avatar?
–– Não há mais espaço para o Avatar nesse mundo. Um ser que se mete nos assuntos de todos, clamando que está fazendo o bem não merece existir! Não cabe a você decidir o que é certo ou errado, as pessoas devem fazer o que acharem correto. –– A mulher começa uma saraivada de golpes, tentando acertar meus pontos vitais.
Os golpes eram precisos, porém lentos. O mais difícil era ter que se equilibrar em cima do Pip, enquanto evitava que a mulher caísse também. É estranho, mas eu não achava certo ataca-la, e isso a deixou furiosa.
–– Por que você não ataca?! Eu não sou digna de lutar com você?!
Uma das adagas veio em direção ao meu rosto, e como se uma voz me dissesse o que fazer, parei a adaga com minha mão esquerda.
–– Ugh...
Sangue escorria por entre meus dedos e pela a faca.
–– O que você está fazendo?! Quer tanto morrer?! –– A mulher gritava, parecia desesperada.
Segurei firme a adaga, e com um movimento rápido a puxei. A mulher veio junto à adaga, e nesse momento eu...
... a abracei.
–– O que você... está...? – Ela não mais gritava, mas sussurrava no meu ouvido, chorosa.
–– Eu sei como é se sentir assim, com raiva do mundo, com raiva do Avatar. Entretanto, eu aprendi que o Avatar não decide o que é certo ou errado. O Avatar também é humano, e ele também erra. –– Sussurrei para ela.
A assassina ficou sem palavras, e sua força sumiu repentinamente. A mulher forte de antes estava ajoelhada, chorando. Me ajoelhei também.
–– Por favor, deixe-me te ajudar.
–– Como você pode me ajudar?! Impondo alguma ordem de Avatar?! –– Ela gritava em desespero.
Ela estava perdida, assim como eu estava.
–– Não, permita-me guia-la. Me deixe mostrar o que é um Avatar de verdade. Eu quero lhe ajudar a encontrar um lugar no mundo também. –– Sorri.
A mulher manteve a cabeça baixa, em silencio.
–– Pip, vamos descer.
–– Uoooo!
[...]
Assim que o Pip aterrissou, Wei a pegou e a ajudou a descer. Desci logo em seguida, dizendo.
–– Você está livre para fazer o que quiser. –– Me sentei, virada de costas para a assassina.
Era possível ver a confusão no rosto de Wei, ela simplesmente não entendia o que eu estava fazendo.
–– Wei, dê as adagas para ela.
–– O que?! Você está maluca?! –– Ela rugiu.
–– Dê a ela, e não importa o que aconteça, quero que me prometa que não fará nada com essa mulher. –– Disse a Wei, encarando-a.
Wei apenas confirmou com a cabeça, embora parecesse preocupada. E m seguida, pegou as adagas que estavam na sela do Pip, e as entregou para a mulher. Ela por sua vez, ficou encarando suas adagas.
–– Seja qual for a sua decisão, a respeitarei.
Pude ouvi-la se aproximar. Acho que meu apelo não funcionou. Quem diria que eu seria o primeiro Avatar a morrer um dia depois de descobrir que é o Avatar. Seria cômico, se não fosse trágico.
Desculpe, Nazai. Acho que logo, logo vou te encontrar no mundo espiritual...
[...]
[KLUNK]
–– Eu não consigo. Não posso, isso não está certo! Cadê o Avatar mau que me disseram que existia? O mestre dos quatro elementos que esmaga qualquer um que não concorda com as suas opiniões? –– A mulher gritava, chorando, socando o chão.
Me levantei, e ela me acompanhou com os olhos. Levei minha mão até seu rosto, e retirei sua máscara. Um rosto lindo e suave estava escondido atrás da máscara branca. Ela aparentava ter quase trinta anos de idade.
–– Você tem medo de que tudo que lhe ensinaram seja mentira. Você não precisa passar por isso sozinha, eu estou aqui. Nem mesmo eu estou sozinha.
Sim, Raava está comigo, Wei também.
–– Eu não sei o que fazer. Eu nunca imaginei que um dia falaria isso, mas, por favor, me ajude, Avatar. –– A assassina dos cabelos azuis se ajoelhava, de cabeça baixa, para mim, implorando por ajuda.
–– Vamos apenas ser amigas por enquanto. Pensaremos no que fazer depois, pode ser? – Sorri para ela. – Agora vem, levanta. –– Estendi a mão para ela. – Ah, acabei de lembrar que você nunca me disse seu nome.
–– Meu nome é Ming-Wa, peço desculpas por tudo que fiz a você, Avatar. –– Ming-Wa fez um gesto com as mãos, uma espécie de reverência.
–– Não se preocupe, no fim deu tudo certo, e é isso que importa. –– A respondi, confortando-a.
As coisas estão ficando cada vez mais malucas, e minha vida de Avatar acabou de começar. Primeiro Nazai morre, agora mandam uma assassina para me matar. Será que não posso só, sabe, aprender as outras dobras tranquilamente?
Enquanto minha mente viajava para outros lugares, Wei se aproximava, aparentemente brava e chocada.
–– Posso falar com você um minuto –– ela olhou para Ming-Wa –– a sós?
–– Cla- –– Wei me puxou sem nem esperar minha resposta.
–– O que você tem na cabeça? Ela podia ter te matado. –– Apontou para Ming-Wa, indignada.
–– Mas não matou. –– A respondi.
–– Não me interrompa! Eu estou preocupada, ela é uma assassina e você aceita ela assim, tão facilmente? –– Wei declarou, maneirando o tom.
–– Ela só precisa de ajuda... a verdade é que eu me vi nela. Ela precisa de alguém com quem possa contar, alguém que a ajude quando ela precisar. Olha, vamos acampar aqui essa noite, estamos de cabeça quente, e cansadas, só precisamos de um descanso.
Wei pareceu não engolir muito bem a conversa. Entretanto, não dei muita atenção para isso e me direcionei até o Pip. Quando percebeu que estava indo embora, Wei pronunciou.
–– Posso te perguntar uma coisa?
Parei por um instante, olhando as estrelas. –– Claro, o que foi?
–– Como sabia que ela não ia te matar?
Olhei para Wei, e a respondi.
–– Eu não sabia.
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