A Lenda de Yuuki - Livro 1: Medos
5 Estrelas
Notas iniciais
A fogueira estalava na nossa frente enquanto o silêncio era constante e insuportável. Desde que aceitei Ming-Wa como companheira, Wei manteve-se de cara amarrada, me ignorando de todas as formas possíveis.
Já haviam se passado cinco dias desde que isso aconteceu, e ela não parece aceitar. Ming-Wa, por outro lado, é sociável – do jeito dela – mas procura manter uma distância, acho que não pretende se relacionar conosco.
O silêncio está me matando, acho que é hora da Avatar acabar com isso, para vivermos em paz e harmônia.
–– Ahem! –– Ambas direcionaram os olhares para mim.
–– Deseja algo, Avatar? –– Ming-Wa perguntou, com um tom formal.
–– O que houve, Yuuki? –– Wei também perguntou, mas no estilo “Wei”.
Há tantas coisas erradas que nem consigo começar…
–– Sim, eu desejo algo, Ming-Wa. E você ainda me pergunta o que houve, Wei?
Ambas olharam para mim, confusas. Continuei falando.
–– Vocês duas não se falam. Na verdade, você não fala nem mais comigo, Wei! Só porque Ming-Wa está conosco. Não vai ser possível continuar a viagem se vocês não se derem bem. –– Tentei explicar da forma mais simples e calma que consegui. Me levantei. –– Ficarei com o Pip essa noite. Se quiserem continuar comigo, se resolvam, e me encontrem no topo daquela colina ao amanhecer.
–– E se não aparecermos? –– Perguntou Wei.
–– Irei ter a certeza de que tudo que disseram para mim não passaram de palavras vazias. –– Virei as costas para as duas, subi no Pip, e voei até o topo da colina que eu havia indicado anteriormente.
O céu estrelado iluminava muito bem a noite. Era possível observar tudo ao meu redor com uma clareza surpreendente. Haviam flores laranjas que brilhavam junto aos vaga-lumes que as cercavam, como uma dança. Isso me fez lembrar de como é o mundo espiritual, e de que faz muito tempo que não vou até lá. Talvez essa seja uma boa oportunidade.
Sentei na grama macia, cruzei minhas pernas, e me concentrei. Não demorou muito até o momento em que meu espírito alcançou o equilíbrio e chegou ao mundo espiritual.
Uma paisagem maravilhosa veio me cumprimentar. Flores, lago e campos, tudo era bonito e vívido. Inclusive, uma certa criaturinha voadora.
–– Yuuki!! Você veio me visitar! –– Junji apareceu assim que pus os pés no mundo espiritual.
–– Eu ainda estou tentando descobrir como que você aparece tão rápido. Não fazem nem dez segundos da minha chegada.
–– É segredo…. –– disse ele, misteriosamente.
–– Então, o que você tem feito por aqui? –– Perguntei.
––Sem você? Nada de mais… Você que é toda a diversão daqui, ué!
Isso é tão lindo. Nunca que na minha vida eu poderia imaginar que um espírito se importaria mais comigo do que um humano.
–– Obrigada, Junji! Infelizmente depois que eu descobri que eu era o Avatar, fiquei muito ocupada, treinando, viajando, sendo atacada por uma assassina que consequentemente virou uma companheira de viagem… essas coisas.
Apesar de eu não conseguir identificar a expressão no rosto do Junji – que na verdade, não existe – eu conseguia sentir a sua surpresa.
–– O que?! Você foi atacada por uma assassina?! Aquelas que matam as pessoas?! –– Ele agarrou minhas bochechas como ele sempre faz. –– Yuuki, isso está ficando perigoso demais!
–– Ah, relaxa, Junji. No final eu descobri que ela era uma pessoa confusa, só isso.
–– Um dia você não vai ter tanta sorte, Yuuki... –– ele disse, meio cabisbaixo.
Por um lado, Junji tem razão. Foi extremamente inconsequente da minha parte trazer uma pessoa contratada para me matar comigo. É como se eu fosse a tribo da Água dos tempos antigos convidando a Nação do Fogo para um jantar...
–– Tá, Yuuki, me conta mais de como é ser o Avatar!
–– O que aconteceu com a sua depressão de agora pouco? –– dei um peteleco nele.
–– Depressão? Eu sou inedepressível... Isso existe?
–– Claro que não, seu tolo!
E foi assim que continuou minha pequena viagem ao mundo espiritual.
***
Imóvel.
Sem vida.
Essas seriam as palavras perfeitas para descrever o olhar da Ming-Wa, que logo após a saída da Yuuki, permaneceu fixo nas chamas selvagens da fogueira.
As estrelas brilhavam com louvor no infinito e escuro céu, mas nem isso chamava a sua atenção.
[...]
O silêncio ensurdecedor fora interrompido subitamente.
–– Por que você olha tanto para as estrelas? –– Ming-Wa questionou, mexendo na fogueira com uma vara.
–– Porque elas são lindas, e iluminam nossos caminhos solitários e escuros na noite. Elas são nossos guias, elas são as únicas que perfuram a escuridão da noite.
–– É assim que eu a vejo. –– Levantou a cabeça e olhou em direção à colina onde Yuuki havia se dirigido. –– Ela foi a única capaz de perfurar a escuridão da minha alma, a única que trouxe um feixe de luz para meu ser.
Fiquei em silêncio, apenas ouvindo o que Ming-Wa tinha a dizer. Suas palavras eram sinceras, e foi neste momento que pude perceber um simples brilho de vida em seus olhos.
–– Eu não sei quanto a você, mas eu quero estar ao lado dela mais do que tudo. Quero ajudá-la a enfrentar todos os perigos, todos os obstáculos que ela venha a encontrar. Eu não vou deixar que uma simples rixa sem sentido tire isso de mim.
Ming-Wa se levantou e foi em minha direção, logo em seguida, estendeu sua mão.
–– Wei, vamos ser amigas?
Um sorriso cheio de vida, que ofuscou a morte em seu olhar.
***
–– Ugh... mais cinco minutos, Nazai...
–– Será que todos os Avatares tinham sono pesado?
–– Como diabos vou saber? Sou uma viajante do tempo?
Me levantei devagar, coçando os olhos, na esperança de que isso me ajudasse a se adaptar mais rapidamente à claridade do dia.
Assim que minha visão se tornou clara, pude ver Wei e Ming-Wa conversando, como se fossem melhores amigas há anos.
É tão bom saber que pude, de alguma forma, uni-las.
Wei, ao me ver acordada, exclamou.
–– Vamos logo, sua dorminhoca! Pensei que você queria ser uma mestra na dobra de fogo!
–– Já tão cedo? –– Me queixei.
–– Sim! –– Wei me mandou um sinal de positivo. –– E a MinMin vai ajudar a gente!
Min...Min?
Aparentemente, nem a própria Ming-Wa entendeu o motivo de tal apelido.
–– Ei, quem deixou você me dar apelidos?!
–– O seu apelido já estava criado no momento em que você revelou o seu nome. Eu só não havia usado ele antes porque não sabia se devia confiar em você. –– Wei estreitou os olhos. –– Mas agora posso usá-lo sem medo!
Por algum motivo muito estranho, Wei parecia uma criança. Será que ela sempre foi assim e só agora está se revelando?!
–– Eu desisto. –– Ming-Wa levou a mão ao rosto, desistindo de compreender o que estava acontecendo.
–– Não sei o que aconteceu entre vocês duas ontem à noite, mas parece ter sido bom...
Wei e Ming-Wa coraram instantaneamente. O que eu disse de errado?
–– N-Não aconteceu nada demais... S-só c-conversamos n-né...?
–– Para de gaguejar, MinMin! Assim vai parecer que fizemos algo de errado! –– Wei agarrou os ombros da Ming-Wa e a chacoalhou violentamente, obviamente entrando em pânico.
É, acho que quem desiste agora sou eu...
Fale com o autor