A Lenda de Kaito
10 Capítulo 9 - Cidade República
Notas iniciais

O aeródromo militar ficava afastado de Zaofu. Era só uma pista de concreto batido no meio de um descampado de terra seca, longe o suficiente para o domo da cidade não ser mais que uma linha cinza no horizonte. O cheiro forte de querosene de aviação empurrava o gosto de fumaça e fuligem pra longe.
Um Satoplane bimotor esperava no fim da pista. A fuselagem vermelha fosca com o logo prateado da Sato Airlines vibrava de leve. O motor da direita já roncava baixo, engolindo o ar frio da tarde.
Kaito andou devagar até a escada de alumínio do avião. Ele ainda usava a túnica branca do funeral. O tecido pinicava o corpo suado. A barra da calça estava suja com a lama da beira do lago. Ele parou antes de colocar o pé no primeiro degrau e virou para trás.
Mestre Wei estava ali. O professor olhou para o garoto, com os ombros tensos, e enfiou a mão no fundo do bolso do casaco grosso. Ele tirou uma peça de metal polido.
— Isso era da sua mãe — Wei falou, jogando a peça pro Kaito.
Kaito pegou no ar. O metal era pesado e gelado. Era um distintivo oficial da Polícia de Zaofu. O número de identificação de Coronel Nia estava gravado fundo no aço, arranhado por anos de serviço nas ruas.
— O Lótus Branco sabe muita coisa sobre o Avatar, mas eles são uns cabeças-duras que não entendem nada de metal. — Wei deu um meio sorriso cansado. — Lembre da coragem que carregava esse distintivo. Não esqueça de onde você veio, garoto.
Opal parou do lado do Wei. A matriarca vestia as roupas vermelhas e amarelas de uma verdadeira Mestra do Ar. O rosto dela ainda carregava o luto da filha do sobrinho Zhen, mas a postura era impecável. Ela esticou a mão enrugada e entregou um livro grosso. A capa metálica escura estava com alguns arranhões, com detalhes discretos em ouro nas pontas.
— A minha mãe, Suyin Beifong, escreveu isso — Opal disse baixo. — São as técnicas originais e os segredos de dobra de metal da nossa família. É uma relíquia. Minha mãe deixou ele pra mim, mas eu não dobro o metal... Então eu quero que fique com você.
Kaito olhou pro livro pesado na mão. Depois pro distintivo. Depois pra velha matriarca. O nó na garganta dele fechou com força. Ele apertou os dois presentes contra o peito.
— Obrigado. — Kaito engoliu seco. — Por tudo.
Opal fez uma reverencia.
— Boa sorte Avatar Kaito.
Kaito guardou o distintivo no bolso e segurou o livro firme contra o peito. Ele virou de costas, pronto para subir os degraus de metal. Mas o barulho alto de um motor cortou o vento da pista. Um caminhão de transporte da força tática freou com um solavanco a poucos metros do Satoplane. A poeira seca subiu em volta dos pneus pesados. Kaito travou o passo e franziu a testa, apertando o livro na mão. Jinora parou do lado dele. Um sorriso leve e tranquilo quebrou a tensão no rosto da monge.
— Eu te prometi, não foi? — Ela apontou para o veículo. — Tenho uma surpresa pra você. O Mestre Wei mexeu uns pauzinhos lá dentro para soltar ela a tempo da decolagem.
A rampa traseira do caminhão despencou com um estrondo metálico. Antes mesmo da grade abrir inteira, um vulto dourado explodiu lá de dentro.
Âmbar.
A leopardo-veado cravou as patas no concreto da pista e correu com tudo na direção dele. Ela soltou um grunhido alto, rasgado e desesperado, o pelo do pescoço todo arrepiado pelo vento. Kaito largou a mochila no chão. Ele mal teve tempo de abrir os braços. O animal gigante saltou e bateu contra o peito dele com tanta força que jogou Kaito de costas no concreto duro.
Ele não ligou para a dor. A felina enfiou as patas no peito dele e esfregou o focinho quente com força no rosto do garoto. Ela bufava, tremia e passava a língua áspera na pele dele, limpando a fuligem e as lágrimas secas sem parar.
Kaito agarrou os pelos grossos do pescoço de Âmbar. O cheiro de terra molhada e mato invadiu o nariz dele na mesma hora. Ele afundou o rosto no meio das manchas douradas, segurando a gata com toda a força que ainda sobrava nos braços.
E pela primeira vez desde que o teto de casa desabou, Kaito sorriu genuinamente. Um sorriso de verdade. Largo. O peito sacudiu e os olhos encheram d'água, mas dessa vez não era de dor. O estômago esquentou. Ele olhou para Jinora e Mestre Wei por cima do ombro da gata e concordou com a cabeça, mudo de gratidão.
O motor do Satoplane roncou mais alto, avisando que a pista estava livre para decolar. Kaito se levantou com dificuldade, empurrando o peso da gata, e esfregou a cabeça dela. Ele não olhou mais para trás. Subiu os degraus de alumínio com a Âmbar colada na perna dele. Não importava o que estava esperando por ele na Cidade República. Ele não estava mais sozinho.
O Satoplane acelerou e decolou rasgando o céu cinza. Kaito encostou a testa no vidro frio da pequena janela. Zaofu foi encolhendo lá embaixo. Ele viu o domo de metal. A fumaça preta que ainda subia das ruínas do Anel 7. Em poucos minutos, a cidade sumiu de vez, engolida pelas nuvens brancas. Ele soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
Âmbar estava deitada no chão da cabine, com a cabeça gigante e pesada apoiada no colo dele. A felina roncava baixo, exausta depois de tudo que aconteceu. Kaito fez carinho com os pés no meio das orelhas dela, sentindo o pelo macio entre os dedos.
O avião era muito silencioso por dentro. Só dava para ouvir o zumbido abafado do motor e o vento do ar condicionado. Kaito mexeu no painel embutido no braço da poltrona de couro. Uma tela desceu do teto e ligou com um chiado rápido.
A imagem mostrou um palco enorme sendo montado numa praça. Bandeiras das quatro nações balançando no vento. O letreiro da notícia piscava em letras garrafais embaixo: O NOVO AVATAR FOI ENCONTRADO EM ZAOFU
Kaito soltou um sorriso curto. Um alívio meio besta esquentou o peito dele. Talvez não fosse tão ruim assim. Talvez as pessoas lá fora entendessem que ele não queria machucar ninguém. Ele tocou no painel de novo e trocou de canal. O alívio sumiu na mesma hora.
Um letreiro vermelho ocupava metade da tela: AVATAR ACIMA DA LEI?
A imagem cortou para as ruínas do Anel 7. Pessoas chorando, cobertas de poeira branca, carregando pedaços de concreto. E então, o presidente Zhen Beifong apareceu no palanque oficial do governo. Ele usava uma braçadeira preta de luto. O rosto dele não transbordava ódio ou loucura. Exalava apenas uma seriedade pesada e cansada. A postura de um líder ferido que precisava manter a ordem.
— Zaofu sofreu a maior tragédia de toda a sua história — a voz de Zhen saiu controlada, firme, sem tremer uma única vez. — Dezenas de civis perderam a vida ontem. Incluindo a minha própria filha. E a força colossal que derrubou os nossos prédios não veio de fora. Veio daquele que esperamos a quatorze anos, o garoto Avatar.
Zhen olhou direto para a câmera. O tom de voz dele era de um político implacável, cobrando uma dívida.
— O título de Avatar não dá o direito de ninguém ficar acima da justiça. Zaofu exige responsabilidade. O Avatar precisa responder pelo terremoto que causou. Eu conversei hoje de manhã com o Rei da Terra. Ba Sing Se declarou apoio total a nós. Os trens e os portos do Reino da Terra estão fechados para o Avatar e a Ordem do Lótus Branco a partir de hoje. Nós não vamos cruzar os braços enquanto o mundo acoberta alguém que causa tanta destruição e foge sem prestar contas.
— Mas ele me expulsou... — Kaito diz indignado e Jinora olha para ele.
— Eu sei Kaito, isso é só politica...
A repórter voltou para a tela falando rápido. Ela disse que a Nação do Fogo e as Tribos da Água estavam em silêncio absoluto. Que o mundo estava rachando no meio. Mas Kaito não ouvia mais nada. As palavras de Zhen batiam no ouvido dele como socos. Ameaça. Terrorista. Ele apertou as mãos no encosto da poltrona. O estômago revirou com tanta força que ele achou que ia vomitar ali mesmo. O suor frio desceu pela nuca.
A mão de Jinora apareceu na frente dele e tocou no painel. A tela apagou num estalo. O silêncio do avião voltou pesado e sufocante.
— Não fique vendo isso. — Jinora falou baixo, mas a voz era firme.
Kaito continuou encarando a tela preta. O reflexo do próprio rosto assustado estava ali.
— Mas... Ele tá certo. — Kaito murmurou. A voz saiu espremida e tremendo na garganta. — Eu preciso assumir a responsabilidade. Mestra Jinora, o mundo inteiro tá se dividindo por minha causa! E eu nem sei dobrar outro elemento ainda!
Ele virou o rosto pra ela. Os olhos verdes estavam cheios d'água, carregados de culpa e vergonha pura.
— Eu devia ser o cara que traz paz. Mas eles me odeiam. E se eu não conseguir fazer nada disso? E se eu só piorar tudo de novo?
Jinora segurou o braço dele. O olhar da mestra do ar não tinha pena. Tinha a segurança de quem cresceu vendo a história se repetir.
— Meu avô Aang fugiu quando descobriu que era o Avatar. Korra passou a vida enfrentando pessoas que juravam que o mundo estaria melhor sem ela.— Ela deu um sorriso triste e compreensivo. — O caminho de um Avatar nunca é fácil, Kaito, mas eles sempre encontram o caminho.
Kaito engoliu seco, afundando na poltrona. Ele alisou a cabeça de Âmbar para tentar se acalmar.
— Eu tô com medo. — Ele confessou num sussurro.
— Eu sei. — Jinora apertou o braço dele de leve. — Mas o que importante é saber que você não está sozinho nessa.
Antes que Kaito pudesse responder, o rádio do avião chiou e a voz do piloto soou nos alto-falantes.
— Atenção. Iniciando descida.
Kaito virou o rosto para a janela. As nuvens grossas abriram devagar. E lá estava. A Cidade República. O sol do meio-dia batia nos milhares de arranha-céus de vidro e metal que brotavam do chão. Dirigíveis imensos cruzavam o ar. Ruas entupidas de carros, pontes suspensas gigantescas cortando a água escura da baía, e lá no meio, se erguendo soberana em uma ilha, a imensa estátua do Avatar Aang segurando o cajado.
A escala do lugar era absurda. Deixava os maiores prédios de Zaofu parecendo brinquedos. Kaito segurou a respiração. Aquela era realmente a maior cidade do mundo.
O avião pousou na pista com um solavanco forte. Antes do avião parar, Kaito deixou a túnica suja do funeral para trás e vestiu o peso de sua nova vida. A calça verde-escura e a túnica moderna em verde e bege traziam ombreiras e punhos metálicos que forçavam uma postura mais firme. Na cintura, ele apertou o cinto de metal do pai, sua última âncora, enquanto as botas metálicas reluzentes e o broche do Lótus Branco cravado no peito completavam o visual.
Ele não parecia mais só um garoto de luto do Anel 7, mas exatamente quem o mundo esperava que ele fosse. Assim que a porta do avião desceu formando a rampa, o vento úmido da Cidade República bateu de frente, fazendo Kaito dar o primeiro passo pesado na escada e quase recuar.
Foi uma tempestade de luzes. Flashes espocavam sem parar, como relâmpagos, cegando a visão dele. O ar era denso, sufocado pela gritaria absurda. Atrás de barricadas grossas de ferro, uma multidão gigante esmagava as equipes de segurança da cidade. Era um caos completo.
Do lado esquerdo, o delírio. Pessoas sorrindo, balançando bandeiras das quatro nações e erguendo cartazes coloridos. "Bem-vindo, Avatar Kaito!", "Estamos com você!". Uma multidão cantando o nome dele.
Mas do lado direito, o clima pesava como chumbo. O ódio cortava o ar. Gritos de "Terrorista!" e "Assassino!" batiam nele feito pedradas. Ele viu placas com um X vermelho gigante pintado bem em cima do rosto dele. "FORA AVATAR!", dizia uma faixa. O coração de Kaito disparou. O mundo inteiro conhecia o rosto dele. E metade desse mundo odiava ele de morte. Ele respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos.
Os guardas do Lótus Branco agiram rápido. Eles fecharam um círculo fechado ao redor de Kaito e de Âmbar. Os mantos brancos balançavam, formando uma muralha que bloqueava as câmeras e os xingamentos. Eles guiaram o garoto a passos rápidos pela pista, até o interior de um hangar gigante.
As portas pesadas de aço se fecharam. O som da multidão virou apenas um eco abafado. Kaito esfregou os olhos, tentando tirar as manchas dos flashes da visão.
Foi quando ela apareceu.
A garota andava rápido, batendo uma prancheta na lateral da perna. O cabelo loiro-escuro estava preso num coque firme, mas algumas mechas soltas teimavam em cair pelo rosto. Ela vestia um blazer bege impecável de corte reto e uma calça escura, prática. O olhar castanho claro dela era afiado. Focado. Ela não devia ser muito mais velha que ele, talvez uns quinze ou dezesseis anos, mas exalava uma autoridade absurda.
Kaito travou no lugar. O coração dele, que já estava batendo rápido pelo pânico, deu um pulo diferente. Ele achou ela linda. Provavelmente a garota mais bonita que ele já viu na vida. O medo do mundo lá fora sumiu por dois segundos, engolido por um nervosismo idiota. Ela parou na frente dele. O olhar dela varreu o garoto sujo e exausto de cima a baixo.
— Você é o Avatar Kaito. — Ela afirmou. A voz saiu limpa, rápida e direto ao ponto. — Eu sou Mayka Rensai. Assessora de comunicação designada para o Avatar. O meu trabalho a partir de agora é garantir que você não seja mastigado vivo por essa cidade.
Kaito tentou falar alguma coisa, mas a boca estava seca. Ele só conseguiu piscar. Âmbar cheirou a mão da garota, bufando baixo. Mayka nem se encolheu. Ela só fez um carinho rápido no pescoço do animal sem desviar o olhar de Kaito.
— A gente tem menos de cinco minutos antes de você subir naquele palco e dar seu primeiro discurso oficial. — Mayka disse rapido, batendo a ponta da caneta na prancheta repetidas vezes. — Regra número um: não fale de Zaofu. De jeito nenhum.
Kaito engoliu seco. A realidade voltou a esmagar o estômago dele.
— Eles vão perguntar de Zaofu? — A voz dele saiu fina, quase falhando.
— Com certeza. — Mayka cortou, sem perder o ritmo. — Eles vão cutucar a sua ferida até você sangrar em rede mundial. É o trabalho deles. O seu trabalho é desviar. Responda curto. Seja honesto no que puder, mas pelo amor dos espíritos, não dê munição pra eles.
Kaito piscou, o cérebro processando a informação devagar. Ele começou a esfregar as mãos suadas na calça, o pânico tomando conta.
— Dar munição pra eles? — Ele perguntou. As bochechas dele esquentaram de vergonha por ser tão leigo naquilo. — Como assim?
Mayka parou. Ela soltou um suspiro curto, percebendo que estava falando com um garoto apavorado e não com um político treinado. A postura de general de relações públicas amoleceu um pingo. Ela enfiou a mão no bolso do blazer e tirou uns cartõezinhos de papel, presos por um clipe de metal.
— Toma. — Ela estendeu os cartões para ele. Kaito viu que estava tudo escrito à mão, com uma letra cursiva e impecável. — Eu mesma anotei os tópicos mais seguros. Se der branco, olha pra baixo e lê. Se a pergunta for muito difícil e você não souber o que responder, não fale besteira. Só fica quieto que eu puxo o microfone na mesma hora.
Kaito segurou os cartões de papel, mas as mãos dele não paravam de tremer. Foi quando Mayka deu um passo pra perto. O cheiro do perfume dela, algo que lembrava madeira e chá quente, invadiu o ar e deixou a cabeça do garoto ainda mais tonta. Sem aviso, ela segurou a mão dele, parando o tremor na mesma hora. O toque dela era quente e firme.
— Escuta. — Ela olhou bem no fundo dos olhos verdes dele. — Ninguém espera que você seja perfeito hoje. Eles só querem ver qual é a tua. Fica perto de mim, respira fundo, e se a coisa apertar, deixa eu guiar você. Certo?
O coração de Kaito deu um salto no peito que não tinha nada a ver com os repórteres lá fora. Ele engoliu seco, incapaz de formular uma frase completa de primeira. No meio daquele furacão de política, luto e ódio, a pressão firme da mão dela deu alguma coisa concreta para Kaito focar.
— Certo. — Ele conseguiu responder, endireitando um pouco as costas.
Mayka soltou a mão dele devagar. Ela deu um sorriso de canto. Rápido, discreto, mas que fez o estômago de Kaito dar um solavanco de nervoso.
— Então vamos lá apresentar o Avatar ao mundo.
Câmeras Varrick imensas presas em gruas mecânicas varriam o palco do lado de fora. O estalo dos flashes não parava. O espaço reservado para a imprensa estava lotado de jornalistas se empurrando com microfones na mão. Kaito sentiu as pernas pesarem toneladas quando subiu os degraus do palanque. Mas antes de olhar para a multidão nervosa lá embaixo, ele olhou para o alto.
A Cidade República era muito diferente de Zaofu. Há décadas, a Avatar Korra tinha deixado os portais abertos, e o mundo físico dividia o ar com o espiritual. Kaito sabia disso na teoria, mas ver ao vivo era um choque. Dezenas de espíritos estavam empoleirados nas árvores da praça e nas bordas dos arranha-céus de vidro. Alguns pareciam coelhos brilhantes e fofos flutuando perto dos galhos. Outros tinham formas grotescas, gotejando lama com olhos espalhados por corpos deformados.
Na multidão lá embaixo, algumas pessoas apontavam e cochichavam com medo. Mas Kaito percebeu que a maioria já não ligava mais. Espíritos menores andavam no meio dos humanos, desviando de pernas e sapatos como se fossem apenas cidadãos normais da metrópole. De repente, o vento na praça mudou. Uma sombra imensa cobriu o palco por um segundo.
Um pássaro gigante cortou o céu. As penas eram de um azul intenso, quase escuro, faiscando com pequenas correntes de eletricidade estática. O pássaro trovejante desceu rasgando o ar e pousou no topo do prédio bem de frente para Kaito. As garras de energia cravaram no concreto. A criatura abaixou a cabeça enorme. Dois olhos prateados, brilhantes e antigos, focaram direto em Kaito.
Ele parou de respirar. Ele sustentou o olhar da fera. E então, o medo desapareceu. No meio de todos aqueles flashes, do barulho e do pânico, uma paz profunda lavou a mente dele. O estômago relaxou. Encarar aqueles olhos prateados trouxe uma tranquilidade absoluta, como se, pela primeira vez desde que Zaofu desabou, ele finalmente estivesse em casa.
A conexão quebrou com um aperto forte e repentino na mão direita dele. O presidente da Cidade República, Unan, estava ali. O terno azul-marinho dele era impecável. O cabelo grisalho penteado para trás não tinha um fio fora do lugar. Unan sacudiu a mão de Kaito com força, ostentando um sorriso calculado de político.
— É um prazer ter você aqui, Avatar Kaito — Unan falou rápido, quase no automático.
Kaito abriu a boca.
— O prazer é...
Mas Unan não esperou. Ele soltou a mão do garoto, deu as costas na mesma hora e andou a passos largos até o centro do palco. Ele abriu os braços para a multidão, absorvendo a euforia do momento.
— Boa tarde, Cidade República! — Unan gritou no microfone. A voz dele retumbou pelas caixas de som e a praça foi ao delírio. Ele fez uma pausa dramática, deixando o barulho assentar. — O Avatar Aang e o Senhor do Fogo Zuko fundaram esta cidade para provar que a união era possível. Desde a fundação, a Cidade República sempre esteve próxima ao Avatar, e dessa vez não vai ser diferente! A Avatar Korra salvou a nossa cidade inúmeras vezes e deixou de herança um portal aberto para o Mundo Espiritual. O mundo esperou quatorze anos por este momento. E hoje, a espera acabou. Temos a enorme honra de apresentar o novo guardião do nosso futuro. Bem-vindo à Cidade República, Avatar Kaito!
A praça explodiu num barulho ensurdecedor. Metade do som era aplauso. A outra metade, vaias arrastadas e furiosas. Unan fez um gesto largo com a mão, cedendo o lugar no microfone. Ele respirou fundo. Kaito se arrastou até o centro do palco. O suporte do microfone era alto demais. Ele puxou a trava para baixo, e a caixa de som soltou um chiado agudo que fez a primeira fileira de jornalistas encolher os ombros.
Kaito engoliu seco. Ele olhou para a praça lotada. Debaixo dos holofotes, a realidade batia muito mais forte. Ele viu as faixas verdes de apoio, mas os olhos dele grudaram direto nas placas com o grande "X" vermelho pintado em cima do rosto dele. Nos cartazes chamando ele de terrorista. Nos rostos furiosos no meio da multidão. As mãos dele começaram a tremer. Kaito abaixou a cabeça e olhou para os cartões de papel que Mayka escreveu. A letra cursiva impecável dançava na visão dele.
— O-O-O-O-O-Oi... — Kaito pigarreou. A voz falhou, espremida pelo nervosismo. Ele engrossou a garganta, o coração socando as costelas. — Meu... meu nome é Kaito. E eu... eu vim de Zaofu.
Ele travou. As palavras sumiram da mente. O barulho da multidão pareceu engolir o ar da praça inteira. O pânico subiu rápido. Kaito virou o rosto para a lateral do palco, procurando a única âncora que tinha naquele momento. Mayka estava lá. Ela não desviou o olhar e com uma expressão tranquila, ela deu um aceno positivo e discreto com a cabeça. Um gesto da boca ela falou sem voz: você consegue, continua... O estômago de Kaito esquentou. Ele abaixou os cartões, puxou o ar e voltou para o microfone. Dessa vez, sem ler o papel.
— Eu sei que tem muita gente desconfiada de mim agora — ele falou, a voz ganhando um pouco mais de firmeza. — Olhando pra essas placas de protesto... eu entendo vocês. Sendo bem honesto, eu também tô apavorado. Eu ainda não sei de tudo. Mas eu prometo que vou dar o meu melhor pra aprender, e pra ser o Avatar que o mundo precisa.
O silêncio na praça durou dois segundos, antes de um aplauso tímido e algumas vaias misturadas tomarem o ar. Kaito soltou os ombros, suando frio. Mayka não perdeu tempo. Ela assumiu o microfone do lado esquerdo do púlpito, a voz firme e estritamente profissional cortando a bagunça.
— Agradecemos a atenção de todos, agora vamos abrir para algumas perguntas... — Mayka apontou com a caneta, escolhendo a dedo e ignorando os repórteres que gritavam mais alto. — Você de óculos, do Clarim da República.
Um homem de terno risca de giz se esticou por cima da grade, quase derrubando o microfone.
— Shu Jin, do Clarim! Avatar Kaito, o presidente Zhen Beifong declarou que você é uma ameaça global. Como você justifica a destruição de Zaofu? Você é um herói em treinamento ou uma bomba-relógio prestes a explodir de novo?
O estômago de Kaito afundou. A regra número um de Mayka tinha acabado de quebrar na primeira pergunta. Ele olhou para os cartõezinhos de papel na mão, mas não tinha nenhuma resposta pronta para aquilo. As luzes das câmeras focaram direto no rosto suado dele.
— Eu... — Kaito gaguejou, sentindo o suor frio descer pelas costas. Ele apertou a base de ferro do microfone com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Eu não sou uma bomba. Zaofu era a minha casa. Eu não queria que nada daquilo acontecesse. Foi um acidente. Um acidente horrível.
A resposta saiu tensa, desesperada e muito real. O clima na praça pesou na mesma hora. Mayka puxou o próprio microfone para perto, agindo no puro reflexo para salvar a situação antes que os abutres atacassem de novo.
— O repórter da Nação do Fogo, ali — ela apontou, mudando o foco no ato.
Um homem mais velho levantou um gravador pesado.
— Kento, da Chama do Sol. O mundo inteiro tá acompanhando os rumores sobre um terrorista dominador de fogo negro em Zaofu. Você já se comunicou com o Senhor do Fogo Kuzon III para discutir o assunto? Como você pretende enfrentar essa ameaça terrorista dessas tendo apenas treze anos?
— Eu tenho quatorze... — Kaito rebateu no automático, mas logo se arrependeu. Corrigir a idade daquele jeito não passava confiança nenhuma.
Ele tentou formular a resposta diplomática dos cartões, mas não conseguiu filtrar o pensamento. A imagem da Sombra explodindo junto com a mãe dele piscou na cabeça. O peito subiu e desceu rápido. A respiração acelerou.
— Olha, pra ser bem sincero com você... — A voz de Kaito tremeu um pouco. — Essa tal Sombra me assusta pra caramba.
Mayka tossiu alto e seco no microfone dela, arregalando os olhos. Kaito tomou um susto, abaixou a cabeça rápido e puxou um dos cartões, lendo no desespero:
— Digo... eu vou começar meu treinamento imediatamente e ainda não falei com o Senhor do Fogo... mas eu tô aqui pra ficar mais forte e trazer o equilíbrio ao mundo.
Não adiantou ler o cartão. O estrago já estava feito. Metade da praça ficou em absoluto choque. Um burburinho subiu rápido na multidão de jornalistas. Um Avatar confessando medo de uma ameaça em rede mundial era algo inédito.
— Por que ele te assusta? — o jornalista da Nação do Fogo disparou de novo, ignorando as regras de Mayka.
Kaito respirou fundo. Ele podia desviar de novo, mas não recuou. Ele apertou os olhos e, quando os abriu, o rosto de menino assustado tinha sumido, trocado por uma expressão dura de raiva e luto.
— Porque ele matou a minha mãe na minha frente.
A voz dele cortou o barulho da praça como uma faca cega. O silêncio engoliu a multidão na mesma hora. Kaito inclinou o corpo para frente, as palavras ganhando um peso esmagador.
— Eu não vou parar até descobrir o que ele quer e impedir que faça isso com mais alguém.
A honestidade nua e crua na voz do garoto pegou a imprensa inteira de surpresa. O barulho dos flashes dobrou de velocidade, até as vaias diminuíram. Outras hesitam. Uma mulher abaixa um cartaz. O silêncio que caiu sobre os repórteres era de puro respeito pela promessa impossível daquele garoto.
Mayka percebeu o timing perfeito. Antes que qualquer outro jornalista abrisse a boca para estragar o momento, ela agiu.
— Com essa determinação, nós encerramos a coletiva. — A voz dela saiu firme e inabalável, não dando margem para questionamentos. — O Avatar Kaito vai se recolher agora para iniciar o treinamento com a Mestra Jinora e a Ordem do Lótus Branco. Agradecemos a presença de todos.
A equipe de segurança formou uma barreira ao redor do palco na mesma hora. Kaito virou as costas e desceu os degraus de metal quase correndo. As pernas dele tremiam tanto que ele quase tropeçou nos próprios pés.
Assim que cruzou a lona para os bastidores e saiu da visão das câmeras, ele encostou as costas na parede de concreto e soltou todo o ar do pulmão de uma vez, escorregando devagar até sentar no chão gelado.
Kaito estava sentado no chão gelado, com a cabeça entre os joelhos. O som de passos duros e rápidos parou bem na frente dele. Ele olhou pra cima. Mayka estava lá. O rosto dela estava fechado. A mandíbula travada. Ela apertava a prancheta contra o peito com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Kaito engoliu seco, esperando o esporro.
— Eu quebrei a sua regra número um em cinco minutos — ele murmurou, o estômago embrulhado. — E ainda disse em rede mundial que eu tava morrendo de medo. Foi um desastre total. Pode gritar.
Mayka ficou parada por dois segundos. A expressão dela era de puro fuzilamento. Ela abriu a boca para falar, mas travou. Respirou fundo, enchendo o peito, e soltou o ar de uma vez só. E então, toda a postura de Relações Públicas desabou. Ela jogou a prancheta de qualquer jeito em cima de uma caixa de som ali perto.
— Você não quebrou a regra. Você triturou a regra e jogou no lixo. — Ela resmungou. Mas a voz não tinha raiva. Tinha puro cansaço.
Mayka apoiou a mão na parede de concreto e chutou os dois sapatos de salto alto pra longe. Ela soltou um gemido longo de alívio, esticando os dedos dos pés no chão. Kaito piscou, surpreso. Ela levou as mãos até o coque perfeito, puxou os grampos de uma vez e balançou a cabeça. O cabelo loiro-escuro caiu solto e bagunçado pelos ombros dela. Em questão de cinco segundos, a assessora impecável desapareceu. No lugar dela, sobrou apenas uma garota normal de dezesseis anos, exausta depois de um dia horrível.
Ela escorregou pela parede de concreto e sentou no chão sujo, encostando o ombro bem do lado do dele. Kaito sentiu o cheiro de chá e madeira do perfume dela de novo, mas dessa vez o ar estava leve. Ele viu ela abraçar os próprios joelhos, descalça. A química entre os dois mudou. Não era mais a chefe e o cliente. Eram só dois adolescentes perdidos no meio de uma guerra de adultos.
O silêncio ficou entre eles por alguns segundos. O barulho da multidão lá fora parecia vir de outro planeta. Mayka virou o rosto. O olhar afiado dela sumiu de vez, dando espaço para uma empatia muito real.
— Sinto muito — ela falou bem baixo.
Kaito piscou.
— Pelo quê? Pela entrevista?
— Não. — Ela balançou a cabeça de leve. — Pela sua mãe... e por Zaofu. Eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas... eu sinto muito mesmo. Ninguém devia passar pelo que você passou e ainda ter que enfrentar aquele bando de repórteres urubus.
Kaito sentiu um nó subir na garganta. Ele não esperava aquilo. Ele engoliu seco e apertou as próprias mãos no colo.
— Obrigado — foi só o que ele conseguiu dizer, num sussurro.
Mayka concordou com a cabeça. Ela deixou o peso do momento passar, dando tempo pra ele respirar. Depois de um suspiro longo, ela deu um sorriso torto, mudando o assunto pra não deixar o garoto desabar de novo.
— Mas... falando sobre a coletiva. Podia ter sido muito pior.
Kaito franziu a testa, sem entender a mudança.
— Pior? Eu passei vergonha na frente do planeta inteiro.
Mayka deu um sorriso de canto. Rápido, sincero, e que fez o coração de Kaito bater um pouco mais forte.
— Foi um desastre, Kaito — ela concordou, num tom leve. — Mas um desastre carismático.
— Como assim?
— O mundo tá cansado de políticos perfeitos mentindo na televisão de terno. Hoje eles viram um garoto apavorado, gaguejando, mas que quer consertar as coisas de verdade. — Ela esticou a mão e encostou no braço dele, dando um aperto rápido e encorajador. — Você foi humano... E às vezes, é só disso que eles precisam pra não jogar pedras.
Kaito olhou para ela. Agora, sem o salto alto e com o cabelo solto, a máscara de chefe implacável tinha sumido de vez. Ela realmente não era muito mais velha que ele.
— Quantos anos você tem? — Kaito perguntou, a curiosidade cortando o restinho de tensão que sobrava no ar. — Quinze?
— Dezesseis. — Ela respondeu, cruzando as pernas descalças no chão de concreto.
Kaito franziu a testa.
— E como uma garota de dezesseis anos vira a relações públicas oficial do Avatar?
Mayka deu um sorriso presunçoso. Ela ergueu o queixo e ajeitou a gola do blazer, imitando a pose engessada de antes.
— Porque eu sou incrivelmente boa no que eu faço.
Kaito soltou uma risada fraca. Foi a primeira risada de verdade que ele deu o dia inteiro. Mayka não aguentou manter a pose e riu junto. O som era leve, solto e sem nenhum filtro diplomático. Ela deixou a cabeça encostar na parede fria e olhou para o teto do galpão.
— Tá bom, tá bom. Eu sou muito boa no que eu faço, mas... — Ela balançou a mão no ar, despreocupada. — Ter pais absurdamente ricos e com muita influência na Cidade também ajuda a abrir umas portas.
Kaito balançou a cabeça, achando graça da sinceridade nua e crua dela. O peso do mundo lá fora ainda existia. Ele ainda era o Avatar, Zaofu ainda estava em ruínas e a Sombra ainda estava solta. Mas, sentado ali no chão sujo com Mayka, ele sentiu que pelo menos não ia precisar enfrentar aquele circo inteiro sozinho.
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