A Lenda de Kaito

11 Capítulo 10 - A Sala de Guerra


Um dia depois de sobreviver à primeira coletiva de imprensa da vida, Kaito descobriu que existiam coisas piores do que cinquenta jornalistas gritando o nome dele. Ele tinha passado a noite em uma suíte enorme no andar de segurança do Palácio Presidencial da Cidade República. A cama era gigante e o colchão parecia engolir o corpo, mas ele não pregou o olho por mais de dez minutos seguidos. A cabeça simplesmente não desligava.

Ele tomou um banho gelado de madrugada para tentar acordar o corpo. Vestiu a roupa limpa que os guardas do Lótus Branco deixaram dobrada em cima da poltrona. No café da manhã, tentou empurrar meio pão para dentro, mas a comida desceu arranhando a garganta seca. Eles chamaram aquilo de noite de sono. Mas descansar de verdade? Nenhuma chance.

Kaito encontrou Mayka e Mestra Jinora logo na saída da ala de segurança do palácio. Jinora vestia o manto amarelo e vermelho dos Nômades do Ar, exalando aquela calma de sempre. Mayka, por outro lado, já estava de volta à sua armadura de guerra: cabelo puxado num rabo de cavalo esticado, blazer impecável e um rádio comunicador preso na cintura.

— Dormiu bem? — Mayka perguntou, batendo a caneta na prancheta.

— Mais ou menos — Kaito resmungou, esfregando o olho.

Mayka parou de andar e semicerrou os olhos, encarando o rosto do garoto. As olheiras dele estavam fundas e arroxeadas. Ela enfiou a mão no bolso, puxou um frasquinho de vidro com um líquido bege dentro e levantou até a altura da bochecha de Kaito, comparando os tons.

— É... o que eu tenho aqui é mais claro— ela murmurou para si mesma, balançando a cabeça.

Ela guardou o vidro, puxou o rádio comunicador da cintura e apertou o botão.

— Equipe de imagem, eu preciso de maquiagem pro Avatar na sala de espera do terceiro andar. Pele morena clara, subtom quente. Tragam uma base de cobertura média e um corretivo potente. A cara dele ta péssima.

— Ai... — Diz Kaito franzindo a testa — Eu não preciso de maquiagem.

Mayka soltou o botão do rádio e cravou o olhar nele.

— Você quer ser fotografado com essa cara de sapo-ornitorrinco?

Kaito calou a boca na mesma hora. Ele nunca tinha visto um sapo-ornitorrinco na vida, mas imaginou que a criatura devia ser bem feia. Ele cruzou os braços, aceitando a derrota. Jinora deu uma risada baixa e encostou a mão nas costas dele para guiar o caminho.

— O presidente Unan convocou a gente para uma reunião importante, Kaito — a mestra explicou suavemente. — Vamos.

Eles andaram por corredores imensos. O Palácio Presidencial era um colosso de vidro, mármore e metal dourado, banhado pela luz da manhã. Mas o que impressionou Kaito de verdade não foi a arquitetura. Foram as pessoas.

Ele via funcionários com as roupas verdes do Reino da Terra discutindo com diplomatas de vermelho da Nação do Fogo. Guardas da Tribo da Água patrulhando junto com policiais da Cidade República. Todo mundo trabalhando junto, no mesmo ritmo. Kaito sentiu um aperto estranho no peito. Aquilo era o legado do Avatar Aang. Décadas de suor e sacrifício para criar um lugar onde as nações não se matassem. Aang uniu o mundo. E tudo o que Kaito conseguiu fazer até agora como Avatar foi explodir a própria cidade.

O peso daquela comparação esmagou os ombros dele. Enquanto andavam, Kaito ouvia os cochichos vazando das mesas. É ele. O novo Avatar. Parece tão novo. Será que ele aguenta? Cada sussurro batia como um vento frio nas costas dele.

Até que o corredor acabou. Eles pararam na frente de uma porta dupla, reforçada com placas grossas de aço e obsidiana. Em cima, um letreiro de metal reluzia: SALA DE GUERRA — ACESSO RESTRITO. Kaito encarou a placa. Sala de Guerra. A palavra incomodava fundo no estômago dele. Ele tinha acabado de chegar na Cidade República. E eles já estavam falando em guerra.

Jinora parou de frente para a porta dupla. Dois guardas do Lótus Branco fecharam o grupo logo atrás, parados feito duas estátuas.

Mayka suspirou e baixou a tela da prancheta.

— A mídia tá rachada no meio — ela falou baixo. — Não dá pra fingir que não teve repercussão. A gente precisa controlar a narrativa antes de amanhã cedo, ou os líderes lá dentro vão enxergar você mais como um risco do que como uma esperança.

Jinora cruzou os braços e balançou a cabeça de leve.

— Mayka, ele tá só começando. Ele não precisa ter todas as respostas do mundo hoje.

— Eu sei, mas o mundo não tem a mesma paciência, Mestra Jinora — Mayka rebateu. — As pessoas estão com medo. E quando elas têm medo, procuram um culpado rápido.

Eles deram mais um passo em direção à entrada, mas dois guardas do palácio cruzaram as lanças na frente da porta de aço.

— Credenciais — um dos guardas pediu, com a voz grossa.

Jinora puxou um cartão metálico de dentro do manto e mostrou. O guarda olhou para o cartão, olhou para Kaito e acenou com a cabeça. Acesso liberado para os dois. Então o guarda olhou para Mayka, analisando a garota segurando uma prancheta.

— Apenas líderes de Estado e o Avatar. Assessoria de comunicação fica do lado de fora.

Mayka franziu a testa. Ela abriu a boca para brigar, mas engoliu em seco. Ela suspirou, aceitando a derrota. Não ia arrumar confusão na porta da reunião mais importante do ano.

— Tudo bem. Eu tenho muita coisa pra resolver mesmo. — Ela deu de ombros, já puxando o rádio comunicador da cintura.

Antes de se afastar pelo corredor, ela percebeu que Kaito estava travado. O garoto olhava fixamente para a placa de "SALA DE GUERRA". Ele engolia seco, suando frio de novo, com medo de não saber o que fazer lá dentro. Mayka tapou o microfone do rádio e olhou para ele.

— Ei. Relaxa, la dentro vai ser fichinha comparado com a coletiva.

Kaito apontou para a placa de metal acima da porta.

— O nome não ajuda muito.

Mayka deu um sorriso de canto.

— Ta você ganhou.

Kaito arregalou os olhos. Mayka deu um tapinha no ombro dele.

— Boa sorte lá dentro.

Ela virou as costas e saiu andando rápido pelo corredor, já apertando o botão do rádio. “Sala de crise, aqui é a Mayka, preparem os recortes da coletiva de imprensa pra agora...” Kaito soltou o ar e endireitou os ombros. Jinora encostou a mão nas costas dele. O toque foi quente e trouxe o garoto de volta para a realidade.

— Kaito, esquece os jornais por enquanto — Jinora falou suave, olhando bem nos olhos dele. — Deixa eles falarem. Lá dentro, você não precisa carregar o peso de nada ainda. Só escuta e aprende. Você não tá sozinho.

Kaito concordou com a cabeça. O medo de falhar continuava ali, gritando feito um alarme, mas ele puxou o ar e tentou manter a postura. Um dos guardas digitou o código no painel embutido. A porta pesada deslizou para os lados com um chiado mecânico de pressão. O ar frio e tenso de dentro da sala bateu no rosto dele.

Jinora parou por um momento, encarando o escuro da sala.

— Tá pronto? — ela perguntou.

Kaito sabia que a pergunta tinha um peso muito maior. Ele apertou os punhos e deu o primeiro passo pra dentro. Era a hora.

O ar condicionado da Sala de Guerra era quase agressivo de tão gelado. Não havia janelas, não havia decorações luxuosas. O espaço era circular e escuro, projetado para que o foco fosse apenas uma coisa: o enorme mapa holográfico que flutuava acima da mesa de metal no centro do salão.

Kaito parou de andar, absorvendo o tamanho do problema.

As luzes azuis, vermelhas e amarelas piscavam no mapa tridimensional da Terra, marcando anomalias espirituais e crises políticas ativas. Mas o que segurou o olhar do garoto não foram os pontinhos de alerta. Foram as fronteiras.

A escola pública de Zaofu tinha ensinado bem. Kaito bateu os olhos no antigo Reino da Terra e viu as três grandes fatias do que antes era um único continente. A imensidão de Ba Sing Se e os territórios do Rei da Terra ocupavam quase tudo. Mas ali no canto, o seu antigo lar, Zaofu, brilhava como um estado minúsculo, cercado por muralhas. Mais para o sul, Omashu também cravava o próprio território independente.

Kaito desviou o rosto do mapa e olhou para as telas de comunicação ao redor da parede curva. A maioria estava ligada. Hologramas em tamanho real aguardavam a reunião começar. Mas três telas estavam apagadas, exibindo letreiros vermelhos e silenciosos.

ZAOFU — CONEXÃO RECUSADA

BA SING SE — CONEXÃO RECUSADA

AGNA QEL'A — DESCONECTADO

O coração de Kaito afundou. Ele esperava o ódio de Zhen. Mas ver a recusa do Rei da Terra oficializada ali, na mesma cor vermelha, mostrava o tamanho do buraco diplomático que ele tinha aberto. Dois governos gigantescos que não queriam nem sentar na mesma reunião que ele.

E ainda tinha o Norte. Agna Qel'a. O sinal inativo piscava devagar na tela apagada. Kaito franziu a testa, o estômago embrulhando de um jeito diferente. Ele entendia a raiva de Zaofu. Entendia o Rei da Terra comprando a briga. Mas a Tribo da Água do Norte? Ele nunca tinha visto a neve na vida. O que ele tinha feito para ofender eles?

Jinora, que estava parada logo ao lado dele, percebeu o garoto travado encarando a tela de Ba Sing Se.

— Eles também não vieram por minha causa? — Kaito sussurrou para ela, a voz carregada de culpa.

Jinora suspirou de leve e olhou para ele, a expressão sempre serena ganhando um traço de compaixão.

— Não é tão simples, Kaito — ela respondeu baixo.

E não era. Na tela do lado, a Rainha Regente Shaiya, de Omashu, estava conectada. O terceiro grande pedaço do Reino da Terra compareceu. Se Zaofu e Ba Sing Se bateram a porta na cara do Avatar, Omashu viu uma oportunidade perfeita de ganhar poder no meio daquela rachadura política. O jogo de xadrez já estava acontecendo muito antes daquele terremoto.

— O Avatar está presente — a voz grave e autoritária cortou o silêncio da sala.

O presidente Unan estava na cabeceira da mesa. O paletó já tinha sumido, as mangas da camisa estavam dobradas, e ele apoiava as duas mãos no metal, encarando os hologramas dos líderes mundiais. Unan não parecia estar ali para defender Kaito. Ele parecia um homem segurando as rédeas de um mundo desesperado pra entrar em guerra.

Do outro lado da mesa circular, os hologramas piscavam.

O Senhor do Fogo, Kuzon III, tinha os braços cruzados e os cabelos negros, já grisalhos nas têmporas, estavam perfeitamente presos, e os olhos dourados permaneciam fixos em Kaito. O Chefe Atka, da Tribo da Água do Sul, vestia roupas misturando peles tradicionais com tecidos industriais modernos, refletindo a transformação do Sul numa das maiores potências comerciais do mundo.

E na última tela, um nômade do ar. Ele tinha as clássicas setas azuis, mas a postura era diferente, organizada e muito mais executiva que os nômades pacíficos que Kaito costumava imaginar. Kaito olhou da tela do monge para Jinora. Depois olhou de volta para a tela. Tinha algo muito parecido no formato do rosto. Jinora deu um sorriso muito pequeno no canto da boca e respondeu a pergunta muda do garoto:

— Meu filho mais velho, Monge Tang. Líder do conselho da Nação do Ar.

Kaito piscou rápido, o cérebro tropeçando na própria surpresa. Então o líder da Nação do Ar era filho da Jinora. Era conexão demais para a cabeça de um garoto do Anel 7 de Zaofu absorver de uma vez só.

Jinora não sentou nas cadeiras de chefes de Estado. Ela parou do lado direito de uma poltrona no centro do círculo. Uma cadeira reservada especificamente para Kaito. Atrás do encosto de couro escuro, o símbolo de Raava estava cravado no metal. A cadeira parecia ter duas toneladas a mais que as outras. Unan olhou para o garoto. O presidente apontou para o assento.

— Essa cadeira ficou vazia por mais de catorze anos — Unan declarou, com a voz firme e o olhar voltando para o mapa holográfico. — Sente. Nós temos muito que discutir hoje.

Kaito sentou e encarou a todos.

— A palavra é sua, Rainha Shaiya — Unan liberou, cruzando os braços.

Na tela, a governante regente de Omashu endireitou a postura. O rosto dela estava duro feito pedra. Shaiya exalava aquele tipo de autoridade antiga que não precisava levantar a voz para calar a sala inteira. Ela vestia um robe cerimonial em marrom profundo, estruturado sobre os ombros e marcado por amplas faixas em verde-escuro que desciam pelo torso. Detalhes geométricos em bege mineral e metal fosco acompanhavam a gola alta, os punhos e as bordas do tecido, misturando a elegância da realeza com a solidez quase arquitetônica de Omashu. As placas discretas sobre os ombros lembravam pedra talhada muito mais do que uma armadura de guerra.

Os cabelos pretos e longos caíam pesados pelas costas, presos por peças geométricas de metal escurecido com pequenas pedras verdes incrustadas, mantendo a identidade da cidade sem transformar o verde na cor dominante.

Ela não tinha a cara de uma diplomata disposta a ceder. Com o queixo erguido e os olhos verde-jade, frios e calculistas, varrendo a sala virtual, a Rainha Regente de Omashu parecia uma muralha viva. E ela foi direto ao ponto.

— Ba Sing Se bloqueou as principais ferrovias continentais, e Zaofu suspendeu contratos de metal, tecnologia e transporte com Omashu. Nossos comboios estão sendo retidos nas fronteiras e os entrepostos comerciais ligados a Omashu foram congelados.

O Monge Tang concordou devagar na tela ao lado, esfregando o centro da testa, bem onde começava a clássica seta azul. O filho mais velho de Jinora aparentava uns cinquenta anos, mas passava longe da aura mística de quem vivia meditando nas nuvens. Com a cabeça totalmente raspada, a barba perfeitamente aparada e uma túnica vinho de corte mais estruturado exibindo um broche dourado, Tang parecia muito mais um político exausto. Ele tinha os mesmos olhos castanhos da mãe, mas a postura rígida deixava claro para Kaito que aquele homem não lidava apenas com espíritos, e sim com problemas bem mais concretos.

— Os carregamentos de madeira e metal para a renovação do Templo do Ar do Oeste, viajavam em comboios contratados pela Nação do Ar e escoltados pelo Lótus Branco. A carga inteira foi barrada na fronteira. Estão com os vagões presos em Ba Sing Se.

Kaito sentiu o peso das palavras bater no peito dele. Ele olhou de relance para a tela da Nação do Fogo. O Senhor do Fogo Kuzon estava em absoluto silêncio. Mas os olhos dourados dele cravavam direto em Kaito. Era um olhar pesado, analítico, que parecia arrancar informações só de encarar. Kaito se ajeitou na cadeira, esfregando as mãos na calça, incomodado com a pressão daquele olhar.

— Se esse embargo continuar — Shaiya elevou o tom de voz, chamando a atenção de volta para Omashu — eu vou ser obrigada a tomar atitudes mais drásticas. Meu exército vai abrir essas rotas à força.

— Peço calma, Rainha Regente Shaiya — Unan interveio rápido, levantando a mão. — Não vamos escalar isso para um conflito armado. Eu vou marcar uma reunião diplomática com o Rei da Terra e o presidente Zhen de Zaofu para tentar amenizar a situação.

Shaiya lançou um olhar absolutamente gelado para a câmera.

— Eu não quero que você amenize a situação, Unan. Eu quero que você resolva o embargo.

Antes que o presidente pudesse responder, o Chefe Atka pigarreou alto na tela da Tribo da Água do Sul.

— Já que o assunto é Zaofu... eu recebi uma comitiva oficial do presidente Zhen ontem à noite aqui no Sul.

A Sala de Guerra ficou em silêncio.

— Eles vieram pedir o apoio militar e político da Tribo da Água do Sul — Atka continuou, o tom ficando muito sério. — O pedido formal era para que o Avatar fosse responsabilizado e preso pelos crimes que cometeu em Zaofu.

O estômago de Kaito despencou. O ar sumiu do pulmão. Ele abriu a boca no reflexo, projetando o corpo para frente para se defender.

— Eu não...

Unan levantou a mão direita na mesma hora. O gesto foi seco, ordenando que Kaito parasse de falar imediatamente.

— O Avatar Kaito não é terrorista e não será entregue a Zaofu com base numa acusação política. — Unan declarou, com uma autoridade que não deixava margem para discussão. — O que aconteceu durante o terremoto será investigado com o devido processo legal.

Atka deu de ombros, relaxando a postura na cadeira.

— Eu sei. Eu disse na cara da comitiva que não apoiaria essa loucura. A Avatar Korra era aqui do Sul. Eu era soldado do pai dela e cresci vendo o preço que ela pagou para proteger esse mundo. Não vou ajudar ninguém a transformar o sucessor dela num bode-expiatório político antes de uma investigação. — Atka abriu um sorriso largo e repentino, quebrando todo o clima pesado de guerra. — Mas, já que estamos do mesmo lado, eu quero muito que o Avatar grave um comercial em rede mundial para as Indústrias Varrick. As vendas iam explodir.

Unan suspirou, esfregando a ponte do nariz com os dedos.

— Nós não vamos discutir publicidade no meio de uma crise internacional, Chefe Atka.

Atka deu uma risada alta que ecoou pelos alto-falantes da sala. Ele olhou para Kaito pelo monitor, deu uma piscadinha clara e fez um sinal de telefone com a mão, pedindo para o garoto entrar em contato depois. A tensão absurda que esmagava a sala quebrou por um segundo. Kaito não aguentou. Ele deu um sorriso de canto de boca, achando graça da cara de pau do líder do Sul.

Unan balançou a cabeça, desistindo de consertar Atka, e virou o rosto para a tela da Nação do Fogo.

— Senhor do Fogo Kuzon. Tem algo a dizer sobre a crise no Reino da Terra?

Kuzon continuou em silêncio. Ele apenas fez um sinal negativo com a cabeça, devagar. Ele não olhava para Unan. Os olhos dourados e severos do líder da Nação do Fogo continuavam cravados em Kaito, inabaláveis.

Unan apoiou as mãos na mesa e assumiu o controle final da reunião.

— Está decidido. Em dois dias, vou convidar o Rei da Terra, o presidente Zhen e a Rainha Shaiya para uma cúpula fechada. Voltarei com uma resposta definitiva na nossa próxima reunião.

O silêncio que se seguiu à discussão sobre o Reino da Terra foi quebrado pela voz de Unan. O presidente suspirou, encerrando o assunto dos embargos. Mas a postura dele não relaxou. Pelo contrário, ele apoiou as duas mãos na mesa holográfica e encarou os líderes nas telas.

— O caos político em Ba Sing Se e Omashu é o nosso problema mais barulhento hoje — Unan declarou, a voz grave e perigosamente calma. — Mas temo que não seja o mais perigoso. Chefe Tatsu, mostre a eles por favor.

O Chefe de Polícia Tatsu deu um passo à frente, saindo das sombras da lateral da sala. A expressão dele era de pura exaustão. Ele apertou alguns botões no painel metálico da mesa. O mapa mundial sumiu. No lugar dele, dezessete fotografias piscaram em holograma no centro da Sala de Guerra. Homens. Mulheres. Jovens. Idosos. Pessoas com roupas caras e gente que parecia não ter muito dinheiro. Kaito olhou para os rostos completamente diferentes flutuando no ar.

— Dezessete desaparecidos na Cidade República nas últimas semanas — Tatsu relatou, cruzando os braços enormes.

O Senhor do Fogo Kuzon franziu a testa na tela, impaciente.

— Isso é caso de segurança interna, Presidente Unan. Não de segurança global.

— Foi exatamente o que nós achamos no início, Senhor do Fogo — Tatsu respondeu, assumindo a explicação. — Seria um caso simples, se fosse um sequestro comum. Mas não tem pedido de resgate. Não tem luta, não tem corpo, não tem sangue, não tem sinal de arrombamento nas portas. — Tatsu apontou para as fotos. — Eles saíram voluntariamente. Deixaram as carteiras, os documentos, o dinheiro, as famílias. Alguns literalmente levantaram da cama no meio da noite e saíram andando na rua de pijama.

Chefe Atka estreitou os olhos azuis, buscando a lógica mais óbvia.

— Algum tipo de drogas?

— Nenhuma substância foi encontrada.

— Uma seita? — a Rainha Shaiya sugeriu, o rosto duro ganhando um traço de curiosidade mórbida.

— Foi a nossa segunda hipótese. E a gente começou a investigar sério. — Tatsu respondeu, trocando as fotos por trechos de depoimentos. — Até começarmos a interrogar as famílias.

O clima na sala esfriou um pouco.

— Os parentes relataram comportamentos bizarros um pouco antes do sumiço — Tatsu continuou. — O marido dessa mulher aqui disse que ela acordou do nada, olhou pro nada e falou: "Ele voltou". Quando o marido perguntou quem, ela respondeu: "Meu filho". O garoto tinha morrido afogado há quatro anos.

Um arrepio subiu pela nuca de Kaito. Tatsu puxou outro arquivo.

— O irmão desse rapaz relatou que ele abriu a porta de casa de madrugada dizendo "Ela aceitou meu pedido de casamento". Uma adolescente sumiu depois de repetir pros pais "Eu estou gravida!". Outra desaparecida falou "Eu consigo dobrar!".

Kaito engoliu seco. Ele esqueceu a regra de ficar quieto.

— Eles estavam escutando alguma coisa?

Tatsu olhou para Kaito e concordou devagar.

— Uma voz, Avatar. E a parte pior: não era a mesma voz. Cada vítima escutou uma voz diferente.

— Alguma delas viram olhos vermelhos?

— Nenhum relatório de olhos vermelhos. — Chefe Tatsu diz folheando alguns casos

A Sala de Guerra ficou em um silêncio absoluto. O detalhe era aterrorizante. Uma isca perfeita. Kaito apertou os dedos no braço da cadeira de couro. Se no meio da noite ele escutasse a voz de Nia chamando por ele... ele iria atrás. Qualquer um iria. Tatsu apertou outro botão.

— E então nós fomos checar as câmeras de segurança.

Um vídeo granulado de vigilância pública apareceu rodando no ar. Mostrava uma calçada vazia de Cidade República. A mulher na tela era a mesma que estava dizendo que estava grávida.

Ela caminhava devagar. Mas não andava como alguém em transe ou controlada. Ela parou no meio-fio e começou a gesticular animada. Ela sorria. Limpava lágrimas de alívio do rosto. Em um momento da gravação, ela desceu a mão e acariciou a própria barriga com um cuidado enorme. Só que a imagem era clara. Ela era magra. A barriga era perfeitamente reta. Não tinha nenhum sinal físico de gravidez no corpo dela. Mesmo assim, ela esticava a mão para frente. Ela ficou ali, sorrindo e conversando com o nada absoluto durante vários minutos.

Só que não tinha ninguém ali. Kaito apertou os olhos, prestando atenção no vídeo. A qualidade era ruim, mas perto do poste de luz, logo na frente da mulher... o ar parecia distorcido. Não era uma pessoa com roupas de camuflagem. Era uma silhueta borrada. Uma luz errada. Uma Sombra fora de foco que não deveria existir no quadro. A mulher deu a mão para o vazio e saiu andando, sumindo da visão da câmera.

— Pra onde eles foram? — O Senhor do Fogo perguntou, a voz perdendo completamente o tom controlado de antes.

Tatsu puxou o mapa de Cidade República. Dezessete pontos vermelhos piscaram nas ruas. Kaito não conhecia a metrópole, mas o padrão do funil era óbvio na hora.

— Os sumiços começaram em distritos diferentes — Tatsu explicou, ampliando a imagem e mostrando as setas de trajeto. — Mas todos convergem pra cá. O Distrito do Portal. A Selva Espiritual. Alguns foram vistos entrando no meio da vegetação. Outros foram filmados perto das ruas de acesso principal. Em cinco casos, as câmeras simplesmente perderam o sinal sem explicação alguns minutos antes do desaparecimento.

Tatsu apoiou as duas mãos na borda da mesa holográfica, a expressão pesada.

— Se eu acreditasse somente nos relatórios no papel, eu chamaria de uma coincidência bizarra. — O policial levantou a cabeça e olhou diretamente para a monge do ar. — Mas eu não acredito em dezessete coincidências assim.

A Sala de Guerra continuava em absoluto silêncio. Todos os líderes mundiais encaravam Jinora nas telas. A mestra do ar cruzou as mãos na frente do corpo.

— O chefe Tatsu me pediu uma consultoria e eu comecei a investigar o Distrito do Portal dois dias antes da tragédia de Zaofu — Jinora explicou, com a voz muito calma, mas carregada de uma gravidade que fez Kaito prender a respiração. — Eu fui pessoalmente até a Selva Espiritual. O portal físico não estava fechado. A luz estava lá. Eu conseguia ver o outro lado. Mas quando eu tentei atravessar... o portal não deixou.

A Rainha Shaiya franziu a testa.

— O que você quer dizer com "não deixou"? Ele te repeliu? Uma barreira física?

— Não. Foi muito mais estranho. — Jinora balançou a cabeça de leve. — Eu caminhei para dentro da luz. Eu senti a mudança de pressão do Mundo Espiritual no meu rosto. Mas quando eu abri os olhos... eu continuava exatamente no mesmo lugar, no mundo físico. Como se eu tivesse atravessado uma porta e saído pelo mesmo lado em que entrei. Tentei três vezes. O resultado foi o mesmo. Isso nunca aconteceu comigo.

Unan apoiou as mãos na mesa, a expressão ficando ainda mais tensa.

— E depois?

— Eu tentei do jeito tradicional — Jinora continuou. — Projetei o meu espírito para o Mundo Espiritual. Eu consegui entrar. Rastreei essa energia estranha e o caminho me levou até um pântano.

Jinora fez uma pausa. A armadura de calma inabalável dela rachou pela primeira vez na reunião.

— Uma névoa muito densa começou a fechar ao meu redor. Era pesada. Eu tentei manter a concentração, mas quanto mais eu avançava, mais a névoa forçava a entrada na minha mente. Ela não estava só bloqueando a visão. Ela estava procurando alguma coisa dentro de mim.

Kaito se inclinou na cadeira, engolindo em seco.

— E o que aconteceu?

Jinora olhou para o garoto e depois para a tela, onde o Monge Tang prestava atenção em cada palavra da mãe.

— No meio daquele pântano... eu ouvi uma voz me chamando. A voz do meu pai. Tenzin.

O Monge Tang abaixou a cabeça, fechando os olhos. O mestre Tenzin era o avô dele e a sua maior inspiração.

— Eu dei um passo na direção da voz — a mestra concluiu, a voz baixa e tensa. — E então a névoa esmagou o meu espírito. A conexão simplesmente quebrou. Fui expulsa. Como se o próprio Mundo Espiritual tivesse me cuspido de volta para o meu corpo físico.

Ela apertou as mãos em cima da mesa, as juntas dos dedos ficando brancas.

— Em toda a minha vida de meditação, isso nunca tinha acontecido. O que quer que esteja lá dentro, tem total controle do ambiente. E sabia exatamente o que usar para quebrar a minha guarda.

A sala voltou a mergulhar num silêncio sufocante. A isca não era burra. Era cruel. E estava puxando todo mundo que chegava perto.

— Na manhã do ataque a Zaofu, voltei ao Portal para uma segunda tentativa. — Jinora olhou para Unan e depois para Kaito. — Uma energia absurda, antiga e brutal. Eu conhecia aquela energia, só poderia ser Raava. O Avatar tinha se revelado, e a energia vinha direto do Reino da Terra. Logo depois, os sismógrafos da República Unida detectaram o epicentro em Zaofu.

Kaito arregalou os olhos.

— Então não foi uma coincidência. Você não tava lá por acaso.

— Não existem coincidências desse tamanho — Jinora confirmou. — Eu abandonei o portal e fui direto para Zaofu.

— Isso não está acontecendo só em Cidade República...

A voz do Chefe Atka cortou a conclusão da mestra. O líder da Tribo da Água do Sul estava com as duas mãos cruzadas na frente do rosto no monitor. Toda a postura leve e brincalhona dele tinha sumido.

— Quando o Chefe Tatsu descreveu os casos agora pouco... o padrão bateu perfeitamente com os relatórios da minha guarda — Atka explicou, a voz grave e seca. — Nós temos nove pessoas desaparecidas na Tribo da Água do Sul. Mas não são moradores da capital. São caçadores veteranos. Exploradores. Equipes de pesquisa do gelo. Três expedições diferentes.

Tatsu cruzou os braços, já imaginando a resposta.

— Onde eles sumiram, Chefe Atka?

— Nas montanhas mais isoladas da tundra. Cada vez mais perto do Portal Espiritual do Sul. — Atka suspirou. — Nós encontramos um acampamento semana passada. Intacto. Comida nas panelas, barracas montadas, roupas térmicas, armas e os veículos de neve desligados. Tudo perfeito. Mas não tinha uma alma viva lá.

Kaito cravou as unhas no couro da cadeira. O terror daquela imagem era pior do que ver um monstro de fogo negro destruindo prédios. Um acampamento vazio no meio do nada.

— Tinha marcas de luta? — Unan perguntou.

— Não — Atka respondeu rápido. — Tinha pegadas. Elas saíam das barracas e caminhavam todas na mesma direção. Sem correr. Ninguém tentou fugir de nada. Eles simplesmente levantaram e foram. E nós só sabemos disso tudo porque achamos um sobrevivente.

A Rainha Shaiya se inclinou para frente na tela dela, curiosa pela primeira vez na reunião.

— O que ele disse?

— Ele foi encontrado quase congelado até a morte numa fenda de gelo, uns três quilômetros longe do acampamento — Atka relatou. — O cérebro do coitado tá destruído pelo trauma e pelo frio, mas ele não para de repetir a mesma frase em loop. Ele diz: "Eu ouvi minha avó".

Atka olhou direto para a câmera, a expressão endurecida.

— A avó dele morreu de febre do gelo quando ele ainda eram criança.

Kaito sentiu o estômago despencar. As peças estavam encaixando de um jeito terrível.

— Ele contou que viu uma luz distante — Atka continuou. — E no meio da nevasca, ele ouviu ela chamando. Os outros homens da expedição começaram a andar na direção da luz do portal e ele seguiu junto. Ele só saiu do transe porque escorregou e caiu dentro de uma ravina. Bateu a cabeça e desmaiou. Quando acordou debaixo da neve, estava sozinho.

Um frio pesado tomou conta da Sala de Guerra. O presidente Unan esfregou a testa, processando o pesadelo. Um inimigo que invadia a mente, que usava a dor e o desejo das pessoas como corrente, arrancando as vítimas de casa sem dar um único tiro.

Jinora deu um passo até a ponta da mesa holográfica, e o mapa rodou sob o comando dela. Dois pontos vermelhos brilharam. Um na Cidade República. Outro na extremidade da Tribo da Água do Sul.

— Nós temos três grandes portais físicos conhecidos no mundo — Jinora falou, com os olhos fixos no mapa. — Se a Cidade República está sofrendo com isso, e o Sul também está perdendo pessoas em direção ao portal...

A mestra do ar levantou a cabeça, e o terceiro ponto vermelho piscou no mapa, lá no topo do mundo.

— E Agna Qel'a?

O nome da capital da Tribo da Água do Norte ecoou pelas paredes metálicas da sala. Atka soltou um chiado de frustração.

— O Norte cortou todas as comunicações com o Sul desde a crise em Zaofu. Eles se fecharam em uma bolha de isolamento e não vão compartilhar relatórios de desaparecidos com a gente tão fácil.

— Nós precisamos entrar em contato com eles imediatamente — Jinora alertou, a voz subindo de tom. — O Norte tem uma grande concentração de energia espiritual. Se o portal de lá estiver agindo da mesma forma, ou se eles estiverem perdendo pessoas e acharem que a culpa é do Avatar ou do Sul...

O Senhor do Fogo Kuzon quebrou o silêncio, a voz grave cortando a tensão pesada que restou da fala de Jinora.

— Então estamos dizendo que estamos sob um ataque espiritual?

— Não — Jinora respondeu de imediato. A precisão dela não deixava espaço para histeria. — Estou dizendo que pessoas estão sendo atraídas para os portais. Não sabemos o que acontece depois disso.

Kuzon inclinou a cabeça na tela, analisando a monge.

— Temos que definir o tamanho dessa ameaça!

— E rápido — Jinora concordou.

Kaito escutava aquilo e a mente dele começou a rodar rápido. A frase de uma das vítimas, que Tatsu leu do relatório minutos atrás, martelava na cabeça dele. Ele me mostrou.

O ar condicionado gelado da Sala de Guerra sumiu por um segundo. Kaito sentiu o cheiro de ozônio e pedra queimada de Zaofu. Ele lembrou do rosto distorcido da Sombra. Lembrou da sensação nojenta de ter a própria mente escancarada e revirada. A Sombra não jogou apenas fogo nele. Ela jogou os desejos dele de volta na cara dele. O pai vivo. Nia andando de novo. Uma vida onde ele não precisava carregar o mundo nas costas nem ser o monstro que esmagou o Anel 7.

— Essas pessoas... — Kaito falou baixo. A voz dele reverberou no silêncio metálico da sala. O presidente Unan e os líderes nas telas viraram para ele. — Acho que elas estavam vendo o que mais queriam...

Kuzon franziu a testa e encarou Kaito

— Como sabe disso?

Kaito apertou os punhos no colo, sentindo o suor frio na palma da mão.

— Ele fez isso comigo em Zaofu.

Jinora virou o corpo inteiro na direção de Kaito. O olhar da mestra perdeu o tom diplomático e ficou puramente atento. Ela não sabia dessa parte da história.

— Como assim, Kaito? — Unan perguntou.

O garoto engoliu seco. A atenção concentrada dos homens mais poderosos do mundo pesava como chumbo, mas ele puxou o ar e falou direto pro mapa holográfico, sem conseguir olhar para os adultos.

— Lá em Zaofu... quando a Sombra me encurralou. Ele tentou negociar comigo. — Kaito soltou a respiração devagar. — Ele sabia coisas sobre mim. Coisas que ninguém sabia. Ofereceu a vida que eu mais queria ter. Ele parecia saber exatamente o que eu mais queria.

A sala inteira congelou. Ninguém ousou interromper. Kaito levantou o rosto e olhou para a marcação vermelha no mapa onde ficava o portal de Cidade República.

— Ele não manda você seguir ele — Kaito falou, a voz quase sumindo. Ele fez uma pausa, engolindo o gosto amargo do terror. — Ele faz você querer seguir seus desejos mais profundos.

O peso da frase caiu como uma bigorna em cima da mesa.

O Chefe Atka esfregou o rosto na tela, derrotado pela lógica terrível do garoto. O jogo inteiro tinha mudado de figura. A hipótese agora era infinitamente mais perigosa. A Sombra não era uma força bruta destruindo prédios. Era uma entidade inteligente pescando mentes.

A Sala de Guerra chegou no limite da própria inteligência. Eles tinham uma teoria sólida, mas o buraco negro de dúvidas continuava lá. E foi nesse momento que Jinora deu o golpe final na mesa.

— Então nós precisamos considerar fechar os portais.

A frase caiu como uma bomba na sala. O Monge Tang arregalou os olhos na tela, perdendo a postura burocrática por um segundo.

— Mãe... você sabe o que isso significa. A Avatar Korra deixou eles abertos por um motivo. A união dos mundos é sagrada.

— Temporariamente, Tang — Jinora rebateu, sem piscar. — Até descobrirmos o que está do outro lado caçando as pessoas.

O Senhor do Fogo Kuzon concordou na mesma hora.

— É a única decisão lógica. Cortem o acesso, cortamos a ameaça. A Nação do Fogo apoia o fechamento imediato.

O Chefe Atka esfregou a nuca, hesitando.

— O portal do Sul movimenta rotas inteiras de comércio e peregrinações, mas... se isso parar os desaparecimentos, eu concordo.

O presidente Unan olhou direto para a mestra do ar. Ele era um homem prático.

— Você consegue fechar o da Cidade República, Mestra Jinora?

— Não.

A resposta de Jinora foi seca. O silêncio que tomou a sala não foi de confusão. Unan não precisou perguntar quem conseguiria. Devagar, Unan virou o rosto para a cadeira com o símbolo milenar. Nas telas, os líderes fizeram o mesmo. Todos os olhares convergiram para Kaito. O ar sumiu do pulmão do garoto.

— Eu... — Kaito engoliu seco, apertando as mãos no braço da cadeira de couro. A sala inteira esperava. — Eu nunca fiz algo assim... Mas... eu posso tentar.

— Absolutamente não.

A voz de Jinora cortou a hesitação dele. Ela deu um passo à frente, interceptando o olhar dos líderes.

— A Avatar Korra precisou de uma arma espiritual e todo seu poder do Estado Avatar para abrir o portal — Jinora declarou, com um tom que não aceitava debate. — Esqueceram da explosão que abriu uma cratera no meio cidade que hoje é a floresta espiritual? Kaito ainda não tem o treinamento suficiente para tentar algo assim...

O Senhor do Fogo Kuzon cruzou os braços na tela.

— O tempo não está do nosso lado, Mestra Jinora.

— E sei mas podemos arriscar perder o Avatar... — ela rebateu, inabalável.

O peso daquela discussão esmagou Kaito contra o encosto da cadeira. Ele não ia treinar apenas para aprender a jogar pedras ou cuspir fogo. Pessoas comuns estavam sumindo todos os dias. E a única pessoa no planeta capaz de trancar a porta por onde o monstro puxava elas era ele.

Unan apoiou as mãos na borda da mesa metálica, os olhos azuis cravados nas luzes vermelhas piscando no mapa. A Sala de Guerra tinha chegado no limite. Eles tinham uma teoria sólida. Mas o buraco negro de dúvidas continuava lá.

— Então nós descobrimos o "como" — Unan quebrou o silêncio. A voz dele era pura frustração controlada. Ele levantou o rosto, encarando os líderes nas telas. — Mas o resto é um apagão. Por que ele tá levando pessoas comuns? Pra onde elas vão depois que o portal engole elas?

O presidente olhou para Tatsu, depois para Jinora, e finalmente para o mapa.

— Elas ainda estão vivas? Essa Sombra tá montando um exército de sonâmbulos? — Unan apertou os dedos na borda de metal. — E a pergunta principal: será que algum deles vai conseguir voltar?

Ninguém respondeu. Nenhuma das telas fez um único som. Jinora abaixou os olhos e Kaito continuou paralisado na cadeira de couro. Unan fez uma longa pausa. O silêncio esmagador tomou conta do Palácio Presidencial. Os olhos azuis do presidente varreram o holograma mundial, calculando as peças como um mestre prestes a fazer uma jogada definitiva num tabuleiro de Pai Sho. Quando ele finalmente voltou a falar, o tom de dúvida sumiu. Sobrou apenas o comandante.

— Chefe Tatsu — Unan disparou, ajeitando a postura. — Prepare um esquadrão especializado. Isole o perímetro do portal espiritual da Cidade República e monte guarda pesada. Ninguém chega perto do portal. E tente falar com os espíritos aliados que vivem na cidade para conseguir informações do outro lado.

Tatsu concordou com um aceno firme. Unan virou para a direita.

— Mestra Jinora, pegue uma comitiva de dobradores de ar e organize uma “expedição espiritual” para Agna Qel'a. Nós precisamos saber exatamente o que tá acontecendo na Tribo do Norte e por que eles fecharam as portas.

Jinora assentiu, a expressão voltando a ser a de uma líder. O presidente não parou. Ele cravou os olhos na tela da Nação do Fogo.

— Senhor do Fogo Kuzon. Por favor reúna qualquer registro, lenda ou informação militar do seu país sobre essa Sombra e os poderes de fogo negro que o Avatar descreveu. A gente precisa descobrir quem ele é.

Kuzon não argumentou. Apenas confirmou com a cabeça.

— Chefe Atka — Unan continuou. — Por favor coloque a sua guarda em alerta máximo. Ninguém mais deve se aproximar do portal do Sul. E reúna o máximo de informações e relatórios que puder mandar para nós.

O olhar de Unan cruzou a sala virtual. A distribuição de tarefas cobria a emergência, mas a solução definitiva ainda estava sentada ali, congelada na cadeira de couro do Avatar.

— E o que ele precisa para estar pronto, Mestra Jinora? — o presidente perguntou. — Como preparamos ele?

Jinora olhou para Kaito.

— Antes de qualquer dobra de energia ou tentativa de manipular a estrutura dos portais, ele precisa criar estabilidade. Controle absoluto. — Jinora explicou, a voz serena, mas firme. — E no ciclo Avatar, isso sempre começa dominando o próprio elemento nativo.

Kaito abaixou os olhos para as próprias mãos, lembrando do chão de pedra do Anel 7.

— Terra — ele murmurou.

— Terra — Jinora confirmou. — Ele precisa ser um mestre na dobra de terra primeiro.

Na tela à direita, a Rainha Regente Shaiya endireitou a postura. O cálculo político nos olhos verdes jade dela brilhou na mesma hora. Se Zaofu e Ba Sing Se tinham fechado as portas, Omashu seria o pilar do novo Avatar.

— Nesse caso, Omashu pode ajudar — a voz imponente de Shaiya atraiu a atenção da mesa inteira. — O Reino da Terra pode estar quebrado, mas não viraremos as costas. Eu enviarei meu filho, o Príncipe Bumi para a Cidade República o mais rápido possível. O Avatar terá o mestre de terra que precisa.

Unan concordou devagar, reconhecendo a jogada perfeita da rainha com um leve aceno de cabeça. O presidente então finalmente tirou os olhos das telas e do mapa holográfico. Ele virou o rosto para a cadeira com o símbolo milenar. O olhar de Unan cruzou direto com o de Kaito, e, por um segundo, a frieza do estadista sumiu.

— Avatar Kaito — Unan chamou, a voz soando pesada, mas inesperadamente franca. — Se concentre no seu treinamento. Aprenda os elementos. Encontre a sua estabilidade e tente se conectar com o Mundo Espiritual. Tente conversar com a Avatar Korra. Ela enfrentou essa Sombra, ela pode saber de alguma coisa crucial sobre o que nós estamos lidando.

Kaito engoliu seco, sentindo cada palavra pesar feito chumbo nos ombros.

— Eu confio em você Avatar Kaito — Unan continuou, batendo o nó dos dedos na mesa de metal. — Você ainda é a nossa melhor opção pra vencer isso.

Um burburinho começou a preencher a Sala de Guerra. Líderes globais cochichando com seus próprios assessores fora de quadro, o som vazando pelos alto-falantes. Eram soberanos, pessoas acostumadas a ditar os rumos do mundo, não a receber ordens. Mas, pela primeira vez desde que a reunião começara, ninguém tinha uma resposta melhor que de Unan.

As telas começaram a apagar uma a uma, cortando as transmissões e mergulhando o perímetro da sala de volta na penumbra. Mas Kaito não se mexeu. Ele continuou paralisado na cadeira de couro, olhando fixamente para os três pontos vermelhos que ainda pulsavam no mapa holográfico.

Cidade República.

Polo Sul.

Polo Norte.

Vinte e seis pessoas já tinham desaparecido. E, em algum lugar lá no escuro, do outro lado do véu, alguma coisa sabia exatamente o que cada uma delas mais desejava ouvir.

Kaito abaixou as mãos e levou os dedos até o metal frio do cinto de Gao. Pela primeira vez desde que a casa dele desmoronou, aprender a ser o Avatar deixou de parecer um título político, uma punição ou uma promessa distante. Tinha gente esperando que ele aprendesse rápido.

Porque a porta estava escancarada. E ele era a única pessoa no mundo que talvez pudesse fechá-la.