A Lenda de Kaito
9 Capítulo 8 - O Funeral (Fim do Livro 1 - Zaofu)
Notas iniciais

O comboio militar balançava pelas estradas de terra, se afastando cada vez mais dos anéis de Zaofu. Kaito encostou a testa no vidro frio do carro blindado. A cidade lá fora queimava.
A fumaça preta engolia o céu da manhã. Torres de metal que antes arranhavam as nuvens agora estavam tortas, rasgadas pela metade. Guindastes imensos se moviam devagar no meio da destruição. Focos de incêndio ainda brilhavam no horizonte cinza. Equipes de resgate pareciam formigas cavando o entulho.
O carro freou com um solavanco. Eles chegaram ao lago. O lugar era o oposto da cidade arrebentada. O silêncio ali era absoluto. A névoa da manhã cobria a água calma. Árvores altas cercavam a margem, e flores de lótus boiavam intactas na superfície. Parecia quase irreal depois de ver tanta morte. Era o lugar favorito de Nia. O lugar onde ela ia descansar.
Os guardas empurraram Kaito para fora do carro. A bota dele afundou na terra úmida. Ele deu dois passos e travou. Perto da margem, montaram uma plataforma de madeira. O caixão estava em cima dela. Madeira escura com detalhes grosseiros em metal maciço. Kaito parou de respirar. Ele não chorou. O cérebro dele simplesmente se recusou a processar a imagem.
— Kaito? — Jinora chamou, parando do lado dele.
Ele não respondeu. Os olhos verdes varriam o semicírculo de vizinhos, os monges, as árvores ao redor. Ele procurava qualquer movimento familiar. Qualquer sinal de que a mãe ia sair do meio daquelas pessoas, sacudir a poeira da calça e chamar o nome dele. Mas ninguém se moveu. O vento frio bateu no rosto dele, e a verdade esmagou o peito de uma vez só.
Ela realmente estava ali. Naquela caixa de madeira. E não ia levantar. Kaito engoliu a dor seca e deu um passo para a frente. O metal das algemas bateu nas costas dele. Ele deu outro passo. O barulho da corrente ecoou cruel e alto no meio do silêncio sagrado do lago. Jinora parou de andar. Ela olhou para os pulsos machucados e vermelhos do garoto, depois virou de frente para o capitão da guarda.
— Tirem as algemas dele. — A voz dela saiu baixa, mas não era um pedido.
O capitão hesitou. Ele apertou a mão no cabo de aço da armadura, tenso.
— Mestra Jinora, nós temos ordens do presidente Zhen. Ele determinou que o Avatar...
— Ele não tá diante de um tribunal — Jinora cortou. Ela apontou o queixo para a plataforma de madeira, os olhos brilhando com uma fúria silenciosa. — Ele tá diante da própria mãe.
O capitão engoliu seco, mas não se moveu.
— Se o presidente quiser me responsabilizar depois, ele pode fazer isso — Jinora continuou, incisiva. — Agora, tirem isso dele.
O capitão olhou para Kaito. Olhou para a mestra do ar. Finalmente, fez um sinal com a cabeça. Um guarda se aproximou e a fechadura destravou com um estalo seco.
O aço pesado caiu na terra. Kaito olhou para as próprias mãos livres. Ele esfregou a pele ralada e roxa dos pulsos. Mas o alívio não veio. O olhar dele continuava vazio, cravado no caixão. Não importava estar sem correntes, a liberdade ali não significava nada. A única pessoa que ele queria abraçar estava morta. Jinora percebeu aquilo, e a expressão dela murchou de tristeza.
Kaito voltou a andar. Ele usava uma túnica branca e simples. O tecido áspero raspava nos cortes do braço a cada movimento. Os vizinhos sobreviventes abriram espaço. Roupas neutras, rostos cansados, sujos de poeira e com curativos improvisados. O cheiro doce do incenso dos monges brigava com o cheiro de fumaça que ainda estava grudado na roupa de Kaito. Alguns monges do ar cantavam uma prece antiga, ressoando pela névoa.
Ele caminhou devagar até parar bem na frente do caixão. O corpo inteiro duro de tensão. Nas mãos soltas, ele apertava uma pequena lanterna de papel de arroz. Tinha escrito uma mensagem curta ali dentro. A despedida que não conseguiu dar. O vento gelado secou a lágrima solitária que finalmente escorreu pelo rosto dele. Esse era o momento que ele temia. Ele ia ter que dizer adeus para sempre.
O cheiro de incenso ficou mais forte quando o ritual começou de verdade. Kaito olhou em volta. Os vizinhos do Anel 7 estavam todos ali. Alguns professores da Academia de dobra de metal parados mais atrás. Até algumas crianças que jogavam bola com ele nas ruas de terra apareceram.
Mas o clima estava errado. Ninguém foi até ele. Ninguém abraçou Kaito ou bateu no ombro dele para dar os pêsames. As pessoas apenas olhavam. Alguns tinham pena. Outros pareciam assustados. Alguns poucos carregavam culpa no rosto por estarem vivos e inteiros. Mas a pior parte era o outro tipo de olhar. A reverência misturada com pavor. Eles encaravam Kaito como se ele fosse uma entidade intocável. Mesmo ali, na frente do caixão da própria mãe, ele não conseguia escapar daquele título maldito. Uma senhora velha que morava na mesma rua encolheu os ombros e abaixou a cabeça assim que Kaito cruzou o olhar com ela.
— É ele. — Um homem murmurou na fileira de trás.
— É o Avatar. — Outro sussurrou de volta.
Kaito escutou. A palavra arranhou o ouvido dele. O rosto do garoto fechou na mesma hora e ele virou o pescoço de volta para a plataforma de madeira. Ele trincou os dentes.
Nem aqui tenho paz.
A raiva queimou no estômago vazio dele. Ele não queria ser o salvador de ninguém. Ele não queria dobrar os quatro elementos. Ele só queria ser o filho da Nia. Só isso.
Jinora deu um passo para a frente. O canto dos monges baixou até virar apenas um zumbido fraco no vento. A mestra do ar olhou para a caixa de madeira escura e depois encarou a multidão silenciosa.
— Quando eu conheci a Nia, ela era a Coronel Nia. Uma das oficiais mais renomadas da Polícia de Zaofu. — A voz de Jinora saiu limpa e firme, cortando a névoa fria. — Eu tive a honra de fazer o casamento dela com o Gao lá na Cidade República. Pouco tempo depois, a vida cobrou o preço e a gente acabou perdendo o contato. Mas quando o pequeno Kaito nasceu, eu insisti muito. Eu falei que vinha pra cá ajudar ela.
Jinora deu um sorriso curto e nostálgico.
— Mas vocês conheciam aquela mulher. Ela era teimosa demais pra aceitar ajuda de qualquer pessoa.
Um murmúrio de risadas baixas e respeitosas quebrou a tensão da multidão. As pessoas balançaram a cabeça, concordando. A lembrança do gênio forte de Nia arrancou pequenos sorrisos no meio da tristeza.
Kaito escutou a risada fraca e abaixou o olhar. A memória bateu forte na cabeça dele na mesma hora. O som das rodas de metal arrastando no chão de casa. Ele um pouco mais novo, correndo para empurrar a cadeira de rodas da mãe quando ela tentava subir a rampa da porta. Ela sempre empurrava a mão dele para longe, com a cara fechada. Eu consigo sozinha, garoto. Mas Kaito insistia. Ele voltava, segurava os puxadores de metal com força e não largava. E mesmo contra a vontade, ela bufava, revirava os olhos e deixava ele ajudar.
O peito de Kaito apertou. Ele sentiu falta daquela teimosia.
— A Nia nunca precisou de um título grandioso pra ser importante — Jinora continuou. — Ela era a mulher de verdade que trabalhava dobrado pra garantir que a casa dela e o bairro dela fossem lugares seguros. Ela tinha uma coragem de ferro que muita gente de armadura pesada nunca vai ter na vida.
Jinora virou o rosto e olhou diretamente para Kaito. O olhar dela era quente e cheio de empatia.
— Ela dedicou tudo à família dela. A Nia amava o filho dela mais do que qualquer coisa nesse mundo. Mais do que a própria vida. E ela provou isso.
O silêncio engoliu o lago de novo. As risadas de antes sumiram, engolidas pela realidade da perda. O palco estava pronto. Jinora recuou um passo, deixando Kaito sozinho de frente para o caixão de metal e madeira. Era a vez dele.
Kaito olhou para a caixa escura. Ele apertou a lanterna de papel na mão. Jinora olhou para ele, paciente.
— Você quer dizer alguma coisa? — ela perguntou baixo.
Kaito abriu a boca.
— Eu...
Nada. O som não saiu. O nó na garganta parecia feito de chumbo. Ele tentou de novo, puxando o ar gelado.
— Mãe...
A voz quebrou. Ele abaixou a cabeça, os ombros tremendo.
— Eu não consigo.
Ninguém falou nada. Ninguém forçou Kaito a continuar. O silêncio que tomou conta do lago era muito mais pesado que qualquer discurso. Ele continuou olhando para o caixão. O detalhe do metal maciço cravado na madeira puxou uma lembrança rápida na cabeça dele. Uma cena simples.
Ele devia ter uns seis ou sete anos. Estava no quintal de casa, suado, encarando o chão. Ele fazia a postura, chutava a poeira com força, mas a pedra na frente dele não se movia um milímetro.
— Eu não consigo. — Kaito resmungou, cruzando os braços e chutando a terra de raiva.
Nia rodou a cadeira de rodas e parou do lado dele. Ela segurou o queixo do garoto, forçando ele a olhar direto nos olhos verdes dela.
— Você consegue fazer tudo o que quiser, Kaito. — A voz dela era firme. Sem espaço pra pena. — Mas você vai ter que se dedicar o dobro de qualquer outra pessoa em tudo que fizer. Os médicos me falaram que eu nunca mais ia andar na vida. E o que eu fiz?
O pequeno Kaito olhou para ela. A raiva sumiu, dando espaço para uma admiração pura.
— Você dobrou o metal e criou pernas pra você.
— Isso mesmo. — Ela deu um sorriso de canto, confiante. — Nada é impossível.
De volta ao funeral, Kaito quase sorriu. Mas o movimento morreu antes de chegar na boca. O peito dele doeu com uma força absurda, esmagando o ar do pulmão. Ele percebeu que nunca mais ia ouvir aquela voz de verdade. Mas a lembrança bateu nele como um empurrão nas costas. O fôlego voltou. Ele precisava tentar o dobro agora. Ele apertou a lanterna de papel de novo e levantou o rosto.
— Mãe... — ele chamou. A voz saiu fraca, arranhada. Mas ele continuou. — Eu não sei como fazer isso sem você. Eu achei que a gente ainda tinha tempo.
Kaito engoliu seco. O vento cortou o rosto dele, mas ele não desviou o olhar da caixa de madeira.
— Eu achei que você ia estar lá em casa me esperando. Que ia brigar comigo por ter voltado com a roupa suja de novo. — A voz dele tremeu e perdeu a força. — Eles me expulsaram. Querem me mandar pra longe, pra Cidade República. Mas eu não quero ir. Eu não quero deixar você aqui. E me desculpa... me desculpa mesmo. Eu juro que eu tentei. Eu devia ter conseguido salvar você.
A tristeza deu espaço para uma raiva quente. Queimou o peito dele de baixo para cima. Kaito trincou o maxilar e olhou direto para o metal cravado na madeira escura. Ele não falou mais nada em voz alta. A garganta travou. Mas por dentro, a cabeça dele gritava.
Todo mundo ao redor ficava repetindo que ele era o Avatar. Ele odiava aquilo com todas as forças. Ser o Avatar não era um dom. Ser o Avatar tirou a casa dele. Tirou a cidade dele. E tirou a Nia. Ele puxou o ar rasgando, sentindo os olhos arderem. Ele não queria ser o herói de ninguém. Ele só queria ser o filho dela.
O vento bateu forte nas árvores, balançando os galhos. Kaito abaixou a cabeça, esmagado pela injustiça de tudo aquilo. Foi aí que o cheiro do incenso sumiu por um segundo e outra lembrança invadiu a mente dele. A mesa de jantar da casa velha.
Ele devia ter uns oito anos. Encarava o prato verde na frente dele com nojo. Brócolis-espinafre.
— Eu não vou comer isso. O gosto é muito amargo.
Nia sentada do outro lado, com os braços cruzados e aquele olhar firme de sempre.
— Tem coisas na vida da gente, meu filho, que são exatamente como esse brócolis-espinafre maravilhoso.
O pequeno Kaito empurrando o prato pra longe.
— Pode não ser bonito. — Ela empurrou o prato de volta pra ele, implacável. — O sabor pode ser um pouco amargo. Mas vai fazer bem pra você.
De volta ao lago cinzento, a lembrança bateu forte. As palavras de Nia ecoaram na mente dele. O sabor pode ser amargo. Mas vai fazer bem pra você.
Aquele destino não trouxe nada de bom. Era a coisa mais amarga que Kaito já provou na vida. Um fardo insuportável e doloroso. Mas ele precisava engolir. Precisava crescer. A raiva silenciosa foi esfriando devagar no peito dele, deixando para trás uma determinação de chumbo.
Kaito virou o corpo. Ele parou de olhar para o caixão e encarou a multidão. Os vizinhos. Os professores da Academia. As pessoas do Anel 7 que conheciam ele desde pequeno.
— Eu sei o que vocês estão escutando por aí. — Ele falou alto. A voz cortou o silêncio do lago. — É verdade. Parece que eu sou o Avatar.
Murmúrios nervosos pipocaram na multidão. Pessoas arregalaram os olhos. Algumas deram um passo assustado para trás. Kaito não desviou o olhar de ninguém.
— Eu não pedi isso. Eu não sei ser isso ainda. — Ele respirou fundo, sentindo o peso do mundo empurrando os ombros dele para baixo. — O gosto de tudo isso é amargo demais. Mas eu vou fazer servir pra alguma coisa. Eu vou aprender. Eu vou fazer o melhor que eu puder pra honrar o sacrifício da minha mãe. Do meu pai. E de todas as vidas que a gente perdeu em Zaofu.
Kaito virou de volta para o caixão. O olhar dele estava diferente agora.
— Eu prometo.
O silêncio voltou a tomar conta do lago. O discurso acabou. A promessa estava feita. Kaito deu um passo à frente, diminuindo a distância até a plataforma. Ele esticou o braço devagar e encostou a palma da mão na tampa do caixão. A madeira era dura e fria. O metal grosso cravado nela raspou na pele calejada dele. Ele abaixou a cabeça até quase encostar o rosto no caixão. Ninguém mais escutou o que ele falou. Era só para ela.
— Eu te amo, mãe — ele sussurrou, a voz falhando no final. — Obrigado.
Ele ficou ali. Parado. Respirando o cheiro da madeira escura por alguns segundos que pareceram uma eternidade. O mundo em volta não importava. Então, ele soltou o ar devagar e se afastou.
Um dos monges se aproximou em silêncio. Ele entregou uma lanterna de papel de arroz em branco e um pequeno pincel sujo de tinta preta para Kaito. O garoto segurou o papel fino. A mão dele ainda tremia um pouco pelo frio e pela adrenalina. Ele encostou a ponta do pincel no papel e escreveu apenas três palavras:
Para minha mãe.
Ele devolveu o pincel para o monge. Kaito se ajoelhou na beira do lago. A água gelada encharcou o joelho da calça branca na mesma hora. Ele pegou um isqueiro velho, acendeu a vela pequena presa na base da lanterna e segurou a armação de papel com as duas mãos. A luz amarela e fraca iluminou o rosto sujo de fuligem e lágrimas secas.
Ele encostou a lanterna na água escura e soltou.
A correnteza fraca puxou o papel devagar. A lanterna começou a flutuar, se afastando da margem. Kaito continuou ajoelhado no barro. Foi então que o barulho de passos lentos quebrou o silêncio.
Um por um, os vizinhos do Anel 7 se aproximaram da beira da água. A senhora velha que antes tinha abaixado a cabeça parou do lado dele. Os professores da Academia pararam do outro. As crianças sujas de fuligem. Todos eles seguravam as próprias lanternas de papel. Eles acenderam as velas. Sem dizer nenhuma palavra, eles se abaixaram e colocaram os pequenos barcos de luz na água gelada.
Aos poucos, o lago escuro se transformou. Dezenas, centenas de chamas amarelas começaram a boiar na superfície. As luzes desenharam um caminho brilhante na água, seguindo a lanterna de Kaito, como se estivessem escoltando a mãe dele. O reflexo do fogo nas águas paradas iluminou os rostos cansados de Zaofu. Era uma cena linda. Uma beleza triste e esmagadora, mostrando uma dor coletiva que finalmente ganhava forma.
Kaito olhou para os lados. Ninguém encarava ele como uma ameaça ou como uma lenda intocável naquele segundo. Eles só compartilhavam o mesmo luto. A mesma saudade.
O garoto voltou os olhos para o lago e acompanhou cada centímetro do trajeto. O vento soprou a névoa grossa por cima da água, cobrindo tudo aos poucos. A constelação de luzes foi ficando cada vez menor no meio do lago. Kaito não piscou. As chamas viraram só pontos borrados na neblina. Depois, sumiram de vez.
Quando a névoa engoliu o último resquício de brilho, Kaito sentiu o peito afundar. A verdade bateu nele, pesada e definitiva. Aquelas lanternas não levaram apenas a mãe dele embora. Levaram a infância dele junto. O garoto de Zaofu desapareceu naquela névoa.
Jinora, que acompanhava tudo em silêncio, deu um passo pra frente e colocou a mão no ombro de Kaito.
— Você foi muito forte hoje — a voz dela era um sussurro que trazia um estranho consolo no meio de toda aquela dor. — A sua mãe teria orgulho de você.
Kaito levantou o olhar. Os olhos verdes estavam vermelhos e inchados. Ele assentiu devagar.
— Eu só espero estar à altura do que ela acreditava — ele disse, a voz fraca, mas firme.
Jinora apertou levemente o ombro dele.
— Você não precisa fazer isso sozinho, Kaito. — Ela deu um meio sorriso sereno. — Nenhum Avatar fez tudo sozinho, tem muita gente querendo ajudar você.
Kaito respirou fundo. O vazio que a mãe dele tinha deixado parecia um buraco físico no estômago, mas ele sabia que não podia parar. Ele tinha prometido.
Ele se afastou da margem e começou a caminhar de volta para os carros. O comboio militar esperava na estrada de terra. Kaito passou pelas pessoas do Anel 7 pela última vez. Um professor antigo da Academia de dobra parou na frente dele e, em vez de recuar com medo, abaixou a cabeça em uma reverência lenta e respeitosa. Outras pessoas ao redor começaram a acenar de leve com a cabeça. Eles estavam lá. Eles viram a Sombra atacando o bairro. Eles sabiam que o garoto só tentou defender todo mundo.
Kaito engoliu seco e continuou andando. Então, uma vizinha cortou o caminho. Ela conhecia Nia desde que Kaito era recém-nascido. A mulher parou de frente para o garoto e segurou o rosto dele com as duas mãos calejadas.
— A gente sabe que a culpa não foi sua, querido — ela sussurrou, os olhos cheios de lágrimas. — Nós vimos o que aconteceu. A gente te deseja toda a sorte do mundo. A sua mãe estaria muito orgulhosa de você.
O peito de Kaito afundou. Aquele apoio inesperado quebrou as defesas dele. Ele quase desabou ali mesmo. A mulher puxou ele para um abraço forte, apertado, cheirando a poeira e fumaça.
— Vai — ela falou perto do ouvido dele. — Faz o que ela gostaria que você fizesse, Avatar Kaito.
Ela soltou o garoto devagar. Kaito piscou, surpreso.
Até aquele momento, a palavra "Avatar" tinha o gosto de veneno. Significava destruição, culpa e o ódio do presidente Zhen. Mas saindo da boca daquela vizinha que tinha acabado de perder a própria casa, a palavra soou diferente. Soou como uma bênção. Como esperança. Pela primeira vez desde que o mundo dele desabou, escutar aquilo não rasgou o peito dele de dor. Kaito sentiu o estômago aquecer com uma faísca inédita e muito pequena de orgulho. Ele endireitou a postura, enxugou o rosto molhado e concordou com a cabeça antes de seguir em frente.
Jinora assistia a tudo a poucos passos dali. Ela viu os ombros tensos do garoto relaxarem. Viu a mudança imediata no olhar dele. Um sorriso pequeno e cheio de orgulho apareceu no rosto da mestra do ar. Kaito precisava exatamente daquilo. Ele precisava saber que o povo dele não odiava ele para conseguir carregar esse peso.
Kaito caminhou até o veículo blindado. Jinora parou do lado dele antes dele entrar. Eles ficaram sozinhos por um instante, com o barulho do motor ligado ao fundo. Kaito virou o rosto e olhou para Zaofu no horizonte. A fumaça preta ainda subia pelas cúpulas retorcidas. Ele sabia que tinha sido banido. Ele nunca mais ia voltar.
— Tá pronto? — Jinora perguntou baixo.
Kaito continuou olhando para a cidade.
— Não.
Jinora quase sorriu.
— Eu também não estaria.
Kaito virou o rosto e olhou bem nos olhos da mestra.
— Mas eu preciso ir.
A porta pesada do blindado bateu. Kaito sentou no banco de couro e o comboio começou a andar.
O motor roncou alto, levantando poeira na estrada de terra. Kaito olhou pela janela. Pelo vidro sujo, ele viu um grupo pequeno correndo atrás do carro. Eram as crianças do Anel 7. Os mesmos meninos e meninas que jogavam bola com ele na rua velha. Eles corriam pela beirada da estrada, acompanhando o comboio o máximo que conseguiam, acenando rápido com as mãos sujas de terra.
— Boa sorte, Avatar Kaito! — um dos meninos gritou, a voz fina cortando o barulho do motor.
Kaito encostou a mão no vidro. Ele não conseguiu dar um sorriso aberto, mas o canto da boca dele subiu de leve. O peso nas costas pareceu um pouquinho menor. Ele acenou de volta até as crianças sumirem na poeira. Zaofu começou a ficar para trás rapidamente. Ele viu as ruínas do Anel 7. A Academia. As torres metálicas. As pessoas trabalhando para reconstruir o que sobrou. A fumaça cortando o céu. E, finalmente, o lago calmo. O lugar onde ele enterrou a mãe.
Kaito encostou a testa no vidro gelado. Uma última lágrima caiu pelo rosto dele. Mas ele não soluçou. Não desabou como antes. Não sobrou energia pra isso.
Kaito fechou os olhos enquanto Zaofu desaparecia atrás da fumaça. Ele não sabia o que ia encontrar na Cidade República. Não sabia como ser o Avatar. Não sabia sequer quem ele era sem a mãe. Mas ele continuou olhando pra frente. Porque, pela primeira vez na vida, não tinha mais nada atrás dele.
Muito longe dali, no andar mais alto do Palácio Presidencial destruído, Zhen Beifong não participava de velório nenhum. O gabinete estava mergulhado na penumbra. O presidente continuava sentado sozinho no sofá de couro no canto da sala. Ele apenas olhava para a fotografia da filha adolescente nas mãos. Nenhuma palavra. Nenhum movimento.
O barulho da pesada porta de madeira abrindo quebrou o silêncio. Uma secretária entrou devagar, pisando no vidro quebrado espalhado pelo carpete. Ela segurava um comunicador criptografado e parecia apavorada por interromper o luto dele.
— Senhor Presidente... — ela chamou em um sussurro, sem se aproximar muito. — Eu sinto muito. Mas é uma ligação urgente na linha segura.
Zhen não tirou os olhos da foto.
— Manda esperar.
A secretária engoliu seco. O aparelho tremia na mão dela.
— É o Rei da Terra, senhor. Ele quer falar sobre o ataque. E sobre o garoto.
Zhen parou de respirar por um segundo. O polegar dele, que alisava o rosto da filha no papel, travou no lugar. A menção ao garoto mudou o ar da sala. A dor esmagadora no peito do presidente começou a esfriar rápido, endurecendo nas veias dele até virar um ódio calculista e afiado. Ele guardou a fotografia no bolso interno do paletó sujo e levantou. A postura dura de político voltou a dominar o corpo dele e pegou o comunicador da mão da secretária.
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