A Lenda de Kaito
3 Capítulo 2 – A Academia
Notas iniciais

Montado nas costas da Âmbar, Kaito avançava rápido. O Anel 7 era a borda esquecida de Zaofu. As ruas por ali ainda eram de pedra solta e terra batida. As casas pequenas se amontoavam umas nas outras, cobertas com placas de metal improvisadas e marcadas de ferrugem. O cheiro de lenha queimada e poeira enchia o ar frio da manhã. Era a periferia nua e crua.
Mas a Âmbar apertou o passo, e a paisagem mudou de vez.
Quando eles cruzaram os portões pesados para o Anel Central, o mundo pobre sumiu. A pedra suja virou calçada de aço escovado. O silêncio do subúrbio foi engolido pelo rugido da metrópole. Prédios imensos rasgavam o céu, erguidos com fachadas espelhadas e estruturas de metal polido que chegavam a cegar debaixo do sol.
O som das máquinas e da multidão se misturava com o apito agudo dos trens magnéticos deslizando por trilhos brilhantes no alto. O cheiro de terra sumiu, trocado pelo aroma limpo e jardins perfeitamente desenhados. A cidade era um organismo vivo, rico e que nunca parava.
A felina dourada chamava a atenção de quem passava, com os passos macios e rápidos, mas os olhos amarelos dela só focavam nas barracas de comida da rua. O cheiro de massa quente e mel subiu grosso no ar.
Kaito não diminuiu o ritmo. Ele só enfiou a mão no bolso lateral, puxou uma tira grossa de carne seca e jogou para cima e para frente. Âmbar esticou o pescoço, abocanhou o petisco no ar com um estalo forte de dentes e engoliu de uma vez só, sem perder a passada. Kaito deu um sorriso e inclinou o corpo para a frente, pedindo mais velocidade. Estava atrasado.
O coração de Zaofu pulsava forte ao redor, mas o foco dele estava logo ali na frente: a Academia de Dominação de Metal Toph Beifong.
Kaito parou na frente dos portões. O barulho lá dentro era uma mistura constante de batidas secas e engrenagens girando. Pelo portão aberto, ele viu um aluno mais velho fazer uma chapa grossa de aço se curvar no meio só com um giro rápido do pulso. Logo do lado, uma garota que não dobrava nada desmontava um motor pequeno e remontava as peças em questão de segundos.
Mas hoje o clima estava diferente. Um carro preto e comprido bloqueava metade da passagem principal. Policiais de Zaofu faziam um cordão de isolamento com os rostos tensos. E, bem na base da estátua gigante de pedra da Toph Beifong, três homens conversavam baixo. Eles vestiam mantos azuis e brancos, com ombreiras discretas e o desenho de uma flor costurado no peito.
A Lótus Branca.
Kaito travou. O coração dele deu um salto e bateu na garganta. Ele olhou para o símbolo no peito dos guerreiros e lembrou direto da caixa de madeira escondida debaixo da cama da mãe. Aquele era o mesmo uniforme que o pai usava quando era vivo.
Nia quase nunca falava daquele tempo. O pai nunca foi descrito nas histórias dela como um homem perfeito ou um herói sem defeitos. A mãe só dizia que ele tinha lutado ao lado da Avatar Korra. Sobre a batalha final, ou sobre como ele realmente morreu, ela sempre ficava em silêncio. Um silêncio cheio de buracos que asSombrava a casa há quatorze anos.
“O que a Ordem estava fazendo em Zaofu depois de tanto tempo? Eles vieram atrás de quem? O que isso tinha a ver com a cidade?”
Kaito engoliu seco. Ele abaixou a cabeça, apertou as alças da bolsa e passou rápido pelo cordão de isolamento, tentando se misturar com a multidão de alunos que entrava no prédio. Ele não queria chamar atenção. Tinha que chegar logo na sala de aula.
Kaito entrou na sala de aula escorregando pela porta. O laboratório era enorme, cheio de bancadas de aço escovado e janelas que iam do chão ao teto. Mestre Wei Beifong já estava encostado na mesa principal. O cabelo grisalho preso em um coque firme, a postura reta. O olhar dele parecia ler a alma de todo mundo ali dentro.
— Vamos direto ao ponto. — Wei falou, sem precisar levantar a voz para que a sala inteira ficasse em silêncio. — Vocês estão falhando porque tratam o metal como se ele fosse pedra.
Wei pegou uma barra de aço lisa da mesa. Ele não fez postura de luta. Só segurou a peça na altura do peito.
— A pedra é bruta. Ela resiste de frente. O metal não. Ele já passou pelo fogo, já foi derretido e forjado. Quando vocês tentam amassar o aço na base da força pura, estão brigando com a forja. É por isso que os braços de vocês doem no fim do treino e a peça mal sai do lugar.
Ele levantou apenas dois dedos. A barra de aço na mão dele se contorceu de forma fluida e formou um nó perfeito no meio. Tudo em um segundo. Sem um pingo de suor.
— Esqueçam a casca polida. — Wei jogou o nó de metal na mesa com um estrondo seco. — Vocês precisam focar na terra que sobreviveu ao fogo. As impurezas invisíveis. Fechem os olhos. Procurem os grãos de terra presos lá dentro e dobrem eles. O aço é só a roupa que a terra tá vestindo. Se vocês guiarem a impureza, o metal inteiro segue o movimento.
Ele cruzou os braços e percorreu a turma com o olhar.
— O alvo de vocês é a terra dentro da barra na mesa, não o metal. Dobrem a terra, e o metal vai obedecer. Comecem.
O barulho de metal rangendo tomou conta do lugar na mesma hora. Um garoto na primeira fileira suou frio, apertando os dentes e forçando os braços até a barra de ferro na mesa dele formar um "U" torto. Uma garota ao lado tentou fazer a mesma coisa, mas usou força demais, e a barra escapuliu, batendo forte no chão. Wei apenas balançou a cabeça de leve enquanto caminhava pelo corredor central. Ninguém prestava muita atenção no outro. Todo mundo só tentava dobrar a própria barra.
Kaito estava no fundo da sala. A barra de metal na frente dele continuava reta e intacta.
Ele esticou as mãos. Os olhos fechados com força. Ele contraía os músculos, puxava o ar e tentava sentir as malditas impurezas de terra presas ali no meio. Mas não sentia nada. Era só um pedaço frio e morto de metal. A frustração bateu pesada. A respiração dele acelerou enquanto ele olhava de relance para o cinto de metal na própria cintura.
Wei andou devagar até o fundo da sala e parou do lado de Kaito. O mestre observou o garoto suando e a barra perfeitamente reta na mesa.
— Pare de tentar dobrar.
Kaito franziu a testa. Ele soltou o ar e abaixou as mãos, olhando para o mestre, confuso.
— Mas eu vim aqui para isso.
Wei sorriu. Um sorriso curto e tranquilo.
— Então talvez seja esse o seu problema.
No fim da aula a sala esvaziou aos poucos. O barulho dos alunos conversando sumiu no corredor, e logo as Sombras da tarde começaram a esticar pelo chão do laboratório. Kaito continuava plantado na bancada, encarando a barra de metal perfeitamente reta.
Wei se aproximou devagar. O mestre olhou para o garoto suado, depois para o cinto de metal brilhando na cintura dele. Ele entendia muito bem o peso que travava aquelas mãos.
— Você tá brigando com fantasmas, Kaito. — A voz do Wei saiu baixa e calma.
Kaito soltou o ar, frustrado.
— Eu não acho a terra, Mestre. É só metal.
Wei encostou os dedos na barra.
— O metal é teimoso porque ele já se dobrou ao fogo. Ele aprendeu a ser rígido. Se você usar força pura, ele te quebra de volta. — Wei olhou fundo nos olhos dele. — Gao também demorou para entender isso.
A menção ao pai fez Kaito engolir seco. A mãe dele quase nunca falava sobre o passado do pai, e ouvir aquele nome ali, de repente, pegou ele de surpresa. Kaito levantou o olhar.
— O senhor... conheceu o meu pai? — Ele perguntou, a voz saindo um pouco falha de curiosidade.
Wei deu um sorriso curto e nostálgico.
— Conheci. Fui professor dele. E da sua mãe também. — O mestre suspirou, o olhar se perdendo por um segundo nas memórias. — A Nia era um prodígio. Ela escutava o metal como ninguém logo nos primeiros dias. Fiquei muito triste quando soube do acidente dela. Zaofu perdeu muito naquele dia.
Kaito sentiu o peito apertar, mas ficou em silêncio.
— Mas o Gao... — Wei soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. — Ele era o completo oposto. Tinha muita dificuldade. Era cabeça dura e teimoso feito uma mula-caramujo. Mas ele não desistia por nada. Ele suava sangue no treino. E foi com esse esforço absurdo que ele se tornou um grande mestre.
O professor deu um passo para trás, cruzando os braços, e voltou o olhar para a barra de ferro na mesa de Kaito.
— Ele só conseguiu dobrar no dia em que parou de brigar com o metal e parou de tentar provar para todo mundo que era forte. Não tente dominar a peça, Kaito. Só escuta.
Kaito respirou fundo. Ele soltou a tensão dos ombros e tirou o peso do mundo das costas. Não forçou o ar, não contraiu os músculos. Apenas encostou os dedos na superfície polida da barra de metal.
Fechou os olhos.
O som da sala de aula começou a ficar abafado. O barulho de ferro rangendo sumiu. A voz do Wei sumiu. O metal debaixo dos dedos dele deixou de ser apenas algo frio e duro. Um silêncio absoluto tomou conta de tudo. Ele ouvia apenas a própria respiração.
Puxa o ar. Solta.
Nenhuma energia bruta. Nenhuma força. Apenas a quietude. E então, no meio desse silêncio perfeito, uma voz cortou o nada:
— Raava.
O som não feriu, mas arrepiou até os ossos. Kaito abriu os olhos de uma vez.
Ele não estava mais na Academia.
A bancada de aço sumiu. O chão virou lama preta e viscosa. O ar fedia a água parada e podridão. Árvores imensas e tortas se erguiam ao redor, com as raízes podres mergulhadas na água escura. O pântano. O mesmo pesadelo de antes, mas agora parecia real demais. Estava vivo.
Uma figura saiu da névoa. O manto negro não balançava com o vento. O capuz escondia parte do rosto pálido, mas os fios de cabelo branco e os olhos vermelhos brilhavam como fogo puro no escuro.
— Então é você... — A voz do monstro não veio do ar, ecoou direto na cabeça do Kaito. Um som pesado, carregado de fúria e tempo. — Como você conseguiu se esconder de mim por catorze anos?
Kaito deu um passo para trás. A bota afundou na lama fria. O arrepio que subiu pela espinha paralisou os músculos dele.
— Quem... é você? — A voz do garoto saiu em um fio trêmulo.
A Sombra deu um passo. O pântano secou onde o pé dele tocou.
— Quem escondeu você? Aqueles covardes da Lótus Branca? — A voz carregava ódio, mas também um desprezo antigo.
Antes que Kaito conseguisse recuar, a Sombra avançou rápido demais. A mão pálida esticou no ar e os dedos quentes encostaram direto no peito do garoto.
Kaito engasgou. Um calor absurdo queimou os músculos dele.
A Sombra puxou a mão devagar. E, junto com os dedos, uma linha grossa de energia branca e brilhante começou a sair de dentro do peito do Kaito. A luz pulsava, pura e quente, iluminando o pântano morto. O monstro respirava fundo, sugando aquela força vital. Kaito sentiu a própria consciência apagar.
Mas então, uma segunda voz ecoou na mente dele. Não era o trovão do monstro. Era uma voz feminina, antiga e luminosa, que parecia vir da própria luz sendo roubada:
— Kaito! Resista!
A palavra não foi um som, foi uma onda de choque dentro da cabeça dele. O impacto deu força para os músculos travados. Kaito jogou o corpo para trás com um puxão violento, quebrando a conexão e caindo de joelhos na lama.
Mas a Sombra não se importou.
O monstro fechou a mão pálida ao redor do fio de luz branca que conseguiu roubar. Ele fechou os olhos e apertou os dedos, absorvendo a energia brilhante direto para a própria pele. Ele parecia mastigar a informação. Saborear a essência do garoto.
Quando a Sombra abriu os olhos vermelhos de novo, um sorriso macabro rasgou o rosto. Os dentes ficaram à mostra na escuridão do capuz.
— Zaofu... — A Sombra sussurrou. O nome da cidade soou como uma sentença de morte. Ele inclinou a cabeça, os olhos cravados no Kaito ajoelhado. — Te achei.
Kaito puxou o ar de uma vez só, em um engasgo desesperado, e abriu os olhos.
O pântano sumiu.
Ele estava de volta à sala de aula, ofegante, com as duas mãos agarradas na borda da bancada. O coração batia tão forte que doía nas costelas. O cheiro de água podre desapareceu, substituído por um cheiro forte de ozônio e metal quente.
O laboratório estava em um silêncio mortal, mas não estava parado.
Todas as barras de ferro das bancadas vazias estavam retorcidas. Elas tinham dobrado sozinhas no mesmo ângulo exato, e todas as pontas apontavam na direção do Kaito.
E não era só isso. As pequenas esferas de metal que os alunos usavam antes estavam flutuando a um palmo de altura das mesas. Elas vibravam sozinhas no ar, soltando um zumbido baixo e contínuo.
O Mestre Wei estava parado a poucos metros de distância. O rosto dele estava tenso. Ele levantou a mão direita e girou o pulso com força para baixo, tentando obrigar as esferas a voltarem para as bancadas.
O maxilar do mestre travou. As veias do pescoço e do braço saltaram. Wei grunhiu, colocando todo o peso da própria dobra, mas as esferas não desceram nem um único centímetro. O metal ignorou um dos maiores mestres de Zaofu. Estava completamente preso na energia que emanava do garoto.
Até que Kaito soltou a borda da mesa.
O choque da realidade quebrou a conexão. A vibração parou na mesma hora. As esferas caíram todas juntas. O baque seco do aço batendo nas mesas de ferro ecoou feito um tiro no silêncio do laboratório.
Wei soltou a respiração pesada, os ombros caindo de exaustão. Ele abaixou a mão devagar, o olhar fixo em Kaito, carregando uma mistura de choque e fascínio profundo. Ele deu dois passos lentos e parou do lado do garoto.
— Você apagou. — A voz do Wei saiu baixa, cortando o ar pesado. — Entrou em um transe. Eu chamei o seu nome, sacudi o seu ombro e você não piscou. Ficou de olhos abertos, mas não estava aqui.
Kaito encarou o mestre. As mãos dele ainda tremiam em cima da bancada.
— Eu... eu não dobrei isso. Eu não fiz força. Então o que aconteceu?
Wei olhou para a barra de metal contorcida na mesa do aluno. Ele passou o dedo perto da superfície, sentindo o calor estranho que ainda saía da peça.
— Você travou o metal da sala inteira. — Wei voltou os olhos sérios para o garoto, a voz carregada de uma gravidade que Kaito nunca tinha ouvido. — Eu forcei a dobra com tudo que eu tinha para baixar aquelas esferas. E não consegui. Você não usou técnica, Kaito. Você usou algo muito maior. Esse nível de dobra... eu nunca vi isso na minha vida inteira.
O garoto engoliu seco, lembrando dos olhos vermelhos no escuro e do toque gelado roubando a luz do peito dele.
— Eu não sei o que eu vi lá, Mestre Wei.
O professor cruzou os braços. A Sombra da preocupação deixou o rosto dele mais velho de repente.
— É exatamente isso que me preocupa. O que você viu no transe, Kaito?
Kaito hesitou. O som da voz rasgada da Sombra e o sorriso macabro no escuro ainda passavam como um filme na cabeça dele. O peito formigava frio bem onde os dedos dela encostaram.
Mas Kaito olhou em volta. Viu as barras retorcidas, o laboratório vazio e o olhar intenso do mestre em cima dele. O pânico de parecer um maluco bateu forte. Ele já carregava o peso gigante de ser o filho do Gao, não precisava virar o aluno esquisito que tinha alucinações bizarras e destruía a sala de aula. O rosto dele começou a esquentar.
— Eu... vi uma Sombra. — Kaito engoliu seco e desviou o olhar rápido, passando a mão no cabelo e forçando uma risada nervosa. — Deve ter sido só uma queda de pressão. Eu apaguei de pé, né? Que vergonha.
Ele começou a juntar as coisas dele na bancada, fugindo do olhar do mestre.
— Desculpa pela bagunça, Mestre Wei. Eu acho que não comi direito no café da manhã e acabei pirando.
Wei continuou encarando ele em silêncio. O mestre sabia muito bem que uma queda de pressão não paralisava as esferas no ar nem entortava o aço de um laboratório inteiro. Mas ele também viu o garoto se fechar como uma ostra, morrendo de vergonha.
Wei soltou um suspiro longo e não forçou a barra.
— Vá para casa, Kaito. O seu treino acabou por hoje. Descanse.
— Obrigado, Mestre.
Kaito jogou a bolsa no ombro às pressas, com as bochechas queimando pela cena que tinha feito. Ele fez uma reverência rápida e saiu marchando para fora da sala.
Mas assim que ele pisou no corredor e o ar fresco da Academia bateu no rosto dele, a vergonha sumiu, engolida por um pavor silencioso.
Ele diminuiu o passo e levou a mão até o peito, apertando a blusa bem no lugar onde a Sombra tinha tocado. A desculpa de pressão baixa podia servir para fugir das perguntas do Wei, mas não enganava ele mesmo. O frio na pele era real. A energia que foi arrancada dele era real.
E o sorriso da Sombra ainda ecoava na cabeça dele, mais nítido do que o barulho de Zaofu lá fora.
E a Sombra, seja la quem ele fosse, sabia onde ele estava.
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