A Lenda de Kaito
4 Capítulo 3 - Raava
Notas iniciais
O caminho da Academia até o Anel 7 nunca pareceu tão longo.
Kaito quase correu, com a cabeça fervendo. A vergonha de ter apagado no meio do laboratório na frente do Mestre Wei brigava com a confusão de ter dobrado todo aquele metal sem sequer tentar. Mas nada disso chegava perto do pavor puro que ainda apertava o peito dele. O que não saía da cabeça dele era o toque quente da Sombra, a sensação daquela energia sendo arrancada e a palavra batendo no crânio como um sino: "Raava". Aquela coisa sabia exatamente quem ele era. E pior, sabia onde ele estava.
A casa estava com o cheiro costumeiro de chá de jasmim. Nia estava na mesa da sala, sentada na cadeira de rodas, segurando uma caneca. Kaito entrou e fechou a porta com mais força do que queria. Ele jogou a bolsa no canto, de qualquer jeito, e evitou olhar para a mãe, passando direto em direção à cozinha. Ele só precisava agir naturalmente.
— Oi, querido... Como foi a aula? — Nia perguntou, a voz tranquila.
— Normal. — Kaito respondeu rápido, abrindo o armário para pegar um copo.
Ela acompanhou o movimento dele com os olhos. A postura dura, os ombros encolhidos, a pressa de fugir da conversa.
— Normal? Você tá pálido, Kaito. E a Âmbar entrou com os pelos do pescoço todos arrepiados.
Kaito encheu o copo com água, torcendo para encerrar o assunto ali.
— Foi só cansaço. O treino foi puxado hoje, só isso.
Nia não engoliu a desculpa. Ela guiou a cadeira um pouco mais para perto da entrada da cozinha, diminuindo o espaço entre os dois.
— Puxado como? Sua voz ta tremula e a sua mão tá tremendo. Aconteceu alguma coisa com os outros aprendizes? Alguém brigou com você?
— Mãe, é sério. — Kaito tomou um gole rápido e virou de costas para a pia, encostando ali para tentar parecer relaxado. — Não aconteceu nada. Foi só mais um dia na Academia. Eu só quero tomar um banho e deitar um pouco.
O silêncio pesou na sala por alguns segundos. Nia olhou fundo nos olhos do filho. Ela conhecia cada sinal de mentira e cada tique de nervosismo daquele garoto.
— Engraçado. — A voz da Nia perdeu a leveza e ficou mais séria.
Kaito franziu a testa, já sentindo o suor frio na nuca.
— O que é engraçado?
— O Mestre Wei me ligou agora pouco.
Kaito travou no lugar. O copo quase escorregou dos dedos dele. O estômago deu um nó cego. A primeira rachadura na defesa apareceu, e ele engoliu seco, sentindo a garganta fechar, tentando manter o tom de voz neutro.
— Ah.
— Só "ah"? — A voz de Nia ficou um pouco mais firme.
— Ele exagerou.
Nia não disse nada. Ela apenas observou o filho de costas por alguns segundos. Ela conhecia cada respiração daquele garoto.
— Então aconteceu alguma coisa. — Ela concluiu.
— Não aconteceu nada.
Ele olhou para baixo, encarando o próprio tênis. Nia conhecia aquele gesto perfeitamente.
— Kaito.
— O quê?
— Você está mentindo.
Kaito apertou a beirada da pia. Ele queria muito sustentar a mentira. Queria dizer que o Wei estava ficando velho e confuso, ou que tinha sido apenas uma queda de pressão por causa do calor. Mas ele estava exausto. O peso daquele pântano ainda estava esmagando os pulmões dele.
Ele virou o rosto e olhou para a mãe. Os olhos verdes dela não tinham raiva nem cobrança, apenas uma leitura absoluta de quem ele era. A máscara de Kaito finalmente quebrou. Os ombros dele caíram.
— Eu não sei o que aconteceu, mãe. — A voz dele saiu pequena, quase um sussurro.
Nia guiou a cadeira até ele e segurou a mão do filho. Os dedos dele estavam gelados e suando.
— Senta aqui. — Ela falou, suave, mas firme. — Me conta tudo.
Kaito puxou a cadeira de madeira e sentou. Ele olhou para as próprias mãos, tentando organizar o caos na cabeça.
— O Mestre Wei mandou a gente dobrar uma barra de metal... mas eu não consegui. Ele disse para eu parar de tentar dominar a peça na base da força. Disse para eu escutar o metal. Falou que o meu pai fazia isso, que era teimoso como uma mula-caramujo.
A frase quebrou o gelo. Kaito soltou uma risadinha involuntária e curta, o peito tremendo. Nia puxou ele para perto e deu um abraço apertado. Não era um abraço desesperado, era um abraço de mãe. Aquele abraço que dizia que ele não precisava falar nada se não quisesse.
A compreensão dela tirou uma tonelada das costas do Kaito. Ele soltou o ar devagar, recuando um pouco do abraço, mas continuou perto. Ele hesitou, olhando para o cinto de metal brilhando na própria cintura.
— Mãe... — Kaito murmurou. — Você acha que eu sou parecido com ele?
Nia soube imediatamente de quem ele estava falando.
— Com seu pai?
Kaito assentiu.
— O Mestre Wei falou dele hoje na aula. Ele disse que o papai era muito ruim no metal quando começou.
Nia soltou uma risada sincera. O som encheu a cozinha de leveza.
— Ele era péssimo.
— O mestre também disse que você era um prodígio.
— O seu pai odiava quando eu dizia isso para ele. — Nia sorriu, o olhar se perdendo nas lembranças.
— Por quê?
— Porque ele dizia que você não precisava ser um prodígio para fazer algo importante. O esforço dele era maior que o meu talento, Kaito.
O garoto cruzou os braços, absorvendo a ideia.
— Ele era um bom homem?
Nia olhou para ele, balançando a cabeça devagar.
— Sim... — Nia diz com uma voz saudade — Mas ele era muito teimoso. Orgulhoso. Irritante demais. Tinha dias em que ele fazia coisas que me davam vontade de jogar ele pela janela.
Kaito riu de verdade dessa vez. Nia suspirou, e o sorriso dela ficou mais contido, mais profundo.
— Mas ele era extremamente corajoso, Kaito. E quando chegou a hora de proteger quem precisava... ele não pensou duas vezes.
Ouvir a mãe falar do pai daquele jeito, deu uma coragem nova para Kaito. Ele descruzou os braços. A confiança nela era maior que o medo de parecer maluco.
— Eu não tive uma queda de pressão hoje, mãe. — Kaito falou, a voz baixando de novo.
Nia parou de sorrir, mas a expressão continuou mansa. Ela voltou a fazer um carinho leve no cabelo enrolado dele.
— O que aconteceu de verdade?
— Eu vi uma coisa. Um lugar, muito escuro.
— Que lugar?
— Um pântano fedorento e cheio de lama. Eu fechei os olhos para tentar escutar a barra de metal, como o mestre pediu, e do nada eu estava lá.
A mão de Nia parou por um segundo, mas logo voltou a afagar o cabelo dele para mantê-lo calmo.
— E o que tinha lá?
Kaito hesitou. O frio na pele voltou na mesma hora, arrepiando os braços dele.
— Tinha. Uma Sombra.
Nia ficou mais atenta. A leveza sumiu da cozinha de uma vez só.
— Ele fez alguma coisa com você?
Kaito olhou para baixo de novo. Ele lembrou do toque quente no peito e da luz sendo arrancada. Ele quase engoliu a verdade e disse "nada importante", mas lembrou da coragem do pai que eles tinham acabado de conversar.
— Ele... falou comigo.
— O que ele disse?
Kaito levantou o rosto e olhou fundo nos olhos verdes da mãe.
— Ele olhou para mim e perguntou como eu consegui me esconder dele por catorze anos.
O rosto da Nia mudou na mesma hora. A tranquilidade sumiu, trocada por um alerta puro. Aquilo mudava tudo. Não era um delírio ou um pesadelo ruim causado pelo estresse do treino.
— Kaito... — Ela começou, a voz bem mais baixa.
— E antes de eu acordar, ele falou uma coisa.
— O quê?
Kaito olhou fundo nos olhos verdes da mãe.
— Raava.
O silêncio engoliu a casa inteira. Nia simplesmente congelou. O rosto dela ficou completamente imóvel. O calor materno sumiu, trocado por uma palidez repentina. Lentamente, Kaito viu os dedos dela se fecharem, apertando o tecido da própria saia com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
O garoto sentiu o coração acelerar. Ele deu um passo para trás.
— Você conhece esse nome. — Ele disse, a voz trêmula.
Nia não respondeu. Ela parecia não estar mais ali. Parecia ter voltado quatorze anos no tempo, para o pior dia da vida dela.
— Mãe. — Kaito chamou, o tom subindo de desespero.
Nia finalmente levantou os olhos para ele. A expressão dela era de quem tinha acabado de perder a guerra que lutou em segredo a vida inteira.
— Eu passei quatorze anos... — A voz da Nia saiu falha, rouca, carregada de um pavor contido. — Esperando nunca precisar ouvir esse nome de novo.
Kaito engoliu seco, sentindo um arrepio subir pela espinha.
— O que isso quer dizer? O que esse nome tem a ver com o papai?
Nia engoliu o choro e girou a roda da cadeira. O metal rangeu enquanto ela dava as costas para ele e ia em direção ao quarto. Kaito foi logo atrás, com o coração batendo na garganta. Ela parou do lado da cama e, com um movimento cansado da mão, fez um baú velho de madeira e detalhes em aço deslizar lá debaixo. O mesmo baú onde Kaito tinha visto o uniforme da Lótus Branca. Ela colocou a pesada caixa no colo e suspirou.
— O seu pai não era só um soldado comum da Lótus Branca, Kaito. Ele fazia parte de uma guarda especial. A única missão dele, junto com os outros membros daquela equipe, era proteger a Avatar Korra.
Kaito arregalou os olhos. A respiração dele travou. A mãe continuou, olhando fixamente para a madeira arranhada do baú.
— Ele morreu no exato dia em que você nasceu. Ele deu a própria vida tentando salvar a Avatar. — Nia soltou uma risada amarga, cheia de revolta e dor. — Mas não adiantou de nada. Ele morreu, e a Korra também. Tudo aquilo... foi por nada. Eles fizeram várias cerimônias bonitas, deram medalhas de bravura pro seu pai, mas nada daquilo ia trazer ele de volta. Eu fiquei sozinha. Com as pernas mortas em uma cadeira de rodas, segurando você no colo.
Ela alisou a tampa de madeira com os dedos trêmulos.
— A Mestra Jinora veio me visitar logo depois de tudo. Ela me deu esse baú. Disse que aqui dentro tem alguns itens que estavam com o seu pai naquele dia. E quando ela me entregou isso... ela falou exatamente esse nome que essa Sombra falou para você. Raava. Jinora disse que eu devia guardar a caixa muito bem.
Kaito deu um passo para perto, olhando para a fechadura de metal.
— E o que tem aí dentro?
Nia fechou os olhos. Ela fez um movimento suave com os dedos e o metal zumbiu de leve. Uma pequena chave prateada levitou por debaixo da blusa dela, revelando que estava sempre pendurada em um cordão ao redor do pescoço, direto na pele. A chave pairou no ar por um segundo antes de cair de volta no peito dela.
— Eu não sei. E eu nunca tive coragem de abrir. — As lágrimas finalmente transbordaram e escorreram pelo rosto da Nia. — Eu nunca vou abrir essa caixa, Kaito. Eu sei que faz catorze anos, mas... se eu girar essa chave, é como aceitar que acabou. É dar um adeus definitivo para ele. E eu não quero fazer isso.
Nia enxugou o rosto com as costas da mão, a voz ganhando uma firmeza desesperada.
— A Mestra Jinora sempre quis se aproximar da nossa família. Especialmente de você. Mas eu recusei todas as vezes. Nós viemos morar aqui em Zaofu, no lugar mais escondido do Anel 7, porque eu queria que você crescesse longe de tudo isso, Kaito. Longe da Lótus Branca e de tudo que vem com ela.
Kaito olhou para a caixa de madeira no colo da mãe. O peito dele subia e descia rápido. O pântano. O ar abafado. O toque quente da Sombra arrancando a luz de dentro dele como se estivesse queimando a sua pele.
— Mãe... — A voz dele falhou, engolida pelo medo. — Essa Sombra... foi ela que matou o papai?
Nia fechou os olhos. A dor no rosto dela foi a única resposta necessária antes de ela sussurrar:
— Foi.
Kaito deu um passo para trás, a respiração curta.
— E agora ela quer me matar?
Os olhos verdes de Nia se abriram, cortantes como lâminas de aço. A tristeza sumiu, trocada por uma fúria protetora absoluta e inabalável.
— Ele nunca vai conseguir fazer isso. — Ela disse, apertando os braços da cadeira de rodas com tanta força que o metal rangeu sob os dedos dela. — Não enquanto eu respirar.
O coração de Kaito parecia querer escapar do peito. A cabeça dele girava, esmagada pela verdade que finalmente saía das Sombras. Mas, antes que ele pudesse absorver o impacto daquelas palavras, o chão tremeu.
Um estrondo forte e violento reverberou pela casa. A onda de choque fez as janelas vibrarem com força. Kaito e Nia se viraram na direção da rua ao mesmo tempo. O olhar dos dois se encontrou por um breve instante de puro medo compartilhado. Segundos depois, uma segunda explosão ecoou à distância, ainda mais pesada. E então, o som agudo e desesperador das sirenes rasgou o céu da cidade.
Um alarme geral.
A casa pareceu mergulhar em um silêncio insuportável, contrastando com o caos que despertava do lado de fora.
Nia fechou os olhos e puxou o ar fundo. Quando os abriu de novo, a mãe frágil e apavorada havia sumido. O que restava ali era a prodígio do metal, pronta para a guerra.
Ela cravou as mãos nos apoios da cadeira de rodas. O ambiente ao redor pareceu prender a respiração, até que o metal zumbiu, respondendo de imediato à fúria que irradiava dela. Com um puxão violento dos pulsos de Nia, a estrutura da cadeira estalou e se partiu. Placas grossas de aço deslizaram como se tivessem vida própria, envolvendo as pernas inertes dela, moldando-se aos joelhos, coxas e subindo pela coluna vertebral como um exoesqueleto impecável.
O som seco de engrenagens e metal se encaixando ecoou alto pela sala. E então, escorada pelo puro poder de sua dominação, Nia ficou de pé.
A autoridade que emanava dela era espetacular, imponente, gigantesca. Ela olhou para o filho com uma intensidade feroz que Kaito nunca esqueceria.
— Fique atrás de mim. — Ela ordenou, a voz grave e inabalável.
Kaito obedeceu, com o corpo inteiro tremendo, dando um passo para trás. A tensão eletrizava o ar. Nia ergueu a mão direita. Com um giro rápido e violento do pulso, a fechadura pesada estalou. A porta de ferro escancarou sozinha, batendo com um estrondo ensurdecedor contra a parede de fora.
O barulho da rua invadiu a sala. As sirenes de alerta máximo de Zaofu uivavam, um som que a cidade pacífica não ouvia há décadas. Fumaça escura já começava a manchar o céu azul sobre os anéis superiores.
Com passos pesados e metálicos ditados pela força de sua dobra, Nia caminhou até o batente da porta. Todo o metal solto dentro da casa zumbiu no ar, levitando ao redor dela, pronto para virar arma ou escudo ao menor movimento de seus dedos. Ela encarou o horizonte em chamas, inabalável, com a expressão dura como aço puro.
Kaito deu um passo incerto e parou logo atrás do ombro da mãe para olhar lá fora. O que ele viu fez o ar sumir dos pulmões dele.
A rua, que sempre fora calma e pacata, havia virado um cenário de pesadelo. Uma fumaça escura, espessa e com cheiro de fuligem descia ladeira abaixo, engolindo as casas do Anel 7. Dezenas de pessoas corriam desesperadas em todas as direções, tossindo, tropeçando nas pedras e gritando os nomes de suas famílias no meio da neblina cinza. O pânico era absoluto.
As sirenes de alerta máximo de Zaofu uivavam, rasgando o ar com um som que a cidade não ouvia há décadas.
Kaito olhou para o terror no rosto dos vizinhos em fuga e, depois, para o fogo distante que já começava a manchar os imponentes prédios espelhados dos anéis superiores. O frio que o toque da Sombra tinha deixado em seu peito se espalhou pelo corpo inteiro. Naquele instante, a ficha finalmente caiu.
Zaofu estava sob ataque.
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