A Lenda de Kaito

8 Capítulo 7 – Banido


Notas iniciais
Espero que gostem XD

Os corredores do Palácio Presidencial de Zaofu não pareciam o coração do governo mais seguro do mundo. Pareciam um hospital de campanha. Kaito caminhava cercado. Opal ia na frente, abrindo caminho com a bengala. Jinora andava logo ao lado dele. E, fechando o cerco, quatro guardas de elite seguiam cada passo do garoto, com as mãos tensas apoiadas nos cabos de aço da armadura.


O lugar inteiro fedia a fumaça e antisséptico. Dobradores de metal já trabalhavam espalhados pelo saguão, empurrando chapas grossas de aço e retorcendo as colunas e paredes rachadas para garantir que o teto do prédio não desabasse. Médicos passavam correndo com macas. Soldados gritavam ordens em rádios chiando.


No meio da confusão, Kaito tropeçou de leve. A corrente curta das algemas deu um tranco pesado, puxando os ombros dele para trás e machucando os pulsos já cortados.


— Tirem isso dele — Jinora pediu. Ela parou no meio do corredor e encarou o capitão da escolta. — Ele não é uma ameaça. Deixem ele pelo menos conseguir andar direito.


O guarda balançou a cabeça, irredutível.


— Sinto muito, Mestra Jinora. Ordens diretas da segurança nacional. O garoto não será solto até o presidente mandar. As algemas ficam.


Jinora apertou os lábios, contrariada, mas Kaito abaixou a cabeça e voltou a andar antes que a discussão aumentasse. O metal frio continuava apertando a pele suja dele. Eles viraram o corredor. No centro de um salão aberto, um mapa holográfico gigante piscava em vermelho, mostrando bairros inteiros que simplesmente deixaram de existir.


O palácio era um centro de crise. Kaito abaixou a cabeça, desviando dos olhares dos funcionários e guardas. Mesmo no andar mais alto do governo, ele ainda era tratado como o suspeito principal. Jinora olhava para ele de canto de olho, o rosto tenso, sabendo que não podia tirar aquelas algemas até resolver a situação política. Opal ia na frente, abrindo caminho com a bengala, o rosto fechado e impenetrável.


Quando eles chegaram perto das pesadas portas do gabinete presidencial, um homem vestido com farda militar de Zaofu sai gritando ao telefone.


— Eu não quero saber o que o embaixador disse! — a voz dele vazava grossa pelo metal. — Zaofu foi atacada. Um dobrador de fogo montado em um dragão negro destruiu o Anel 7 e vocês querem falar de diplomacia? Manda a Cidade República ir pro inferno!


O som de um comunicador sendo desligado no soco encerrou a briga. Antes que o silêncio tomasse conta, Opal empurrou a porta. Kaito entrou na sala esperando encontrar o monstro político que mandou prendê-lo. Mas o que ele viu fez o estômago dele travar.


A sala estava na penumbra. As enormes janelas blindadas estavam trincadas, deixando a luz suja e esfumaçada de Zaofu entrar fraca no carpete. Zhen Beifong não estava sentado atrás da mesa presidencial, despachando ordens. Ele estava encolhido em um sofá de couro no canto da sala.


Ele segurava uma fotografia nas duas mãos.


Na imagem, uma menina de uns quatorze anos sorria, vestindo as roupas verdes e prateadas tradicionais de Zaofu. Zhen não tirou os olhos do papel quando a porta abriu. O cabelo dele estava bagunçado, os ombros caídos. Ele não parecia um presidente. Parecia só um pai que não tinha mais forças para ficar de pé.


Opal parou. Ela olhou para o sobrinho, depois para a foto nas mãos dele. Ela não precisou perguntar nada. A bengala de madeira encostou na parede. A matriarca se aproximou devagar e colocou uma mão velha e trêmula no ombro de Zhen.


— Zhen... — Opal sussurrou.


Ele não respondeu. Opal puxou a cabeça do presidente contra o peito dela e o abraçou apertado. Um abraço simples. Sem política. Sem protocolos.


— Eu sinto muito — ela disse.


Zhen fechou os olhos. A voz dele saiu rasgada e seca.


— Ela tava no Anel Central.


Kaito ficou parado na porta. Jinora olhou para ele, e Kaito acompanhou o olhar dela até a foto na mão do presidente. A compreensão bateu nele como um balde de água gelada.


Ele também perdeu alguém.


A raiva e o medo que Kaito sentia daquele homem sumiram por um segundo. Kaito abaixou a cabeça. Até aquele momento, Zhen era o cara que ia destruir a vida dele. Mas agora, olhando para aquele sofá, Kaito viu um reflexo dele mesmo.

Opal soltou Zhen e deu um passo para trás. O presidente respirou fundo, passou a mão no rosto e deixou a fotografia em cima da mesa de centro. Ele se levantou. A postura dura de político voltou ao corpo dele, mas os olhos verdes ainda estavam vermelhos.


Ele olhou para a porta. Os olhos dele encontraram Kaito.


Zhen analisou o garoto de cima a baixo. Sujo de fuligem, algemado, com as roupas rasgadas, cheirando a fumaça e escombros. Zhen viu um garoto destruído. Mas também viu o rosto de quem estava no epicentro do terremoto que matou a filha dele.


— Olha pra mim — Zhen mandou. A voz saiu baixa e perigosa.


Kaito não conseguiu levantar o rosto.


— Eu disse pra olhar pra mim! — Zhen gritou.


Kaito ergueu a cabeça devagar. As lágrimas voltaram a arder nos olhos verdes dele.


— Sabe quantas pessoas morreram hoje, garoto? — Zhen perguntou, dando um passo na direção dele.


Kaito engoliu seco. A voz dele saiu em um sussurro quase inaudível.


— Eu não sei o que aconteceu.


Zhen trincou o maxilar.


— Você não sabe? Metade da minha cidade desabou e você não sabe?


— Eu só... eu só tava tentando salvar a minha mãe. — A voz de Kaito quebrou.


Ouvir sobre a mãe fez Zhen travar o maxilar com mais força. Ele não amoleceu. O fato de Kaito estar sofrendo pela mãe não apagava o fato de que a filha dele não ia voltar para casa. Jinora deu um passo para a frente, entrando na linha de visão de Zhen.


— Presidente, o Kaito não teve culpa do que aconteceu.


— Eu sei que ele tava sob ataque, Mestra Jinora — Zhen cortou, gesticulando para a janela destruída. — Mas meu time de inteligência ainda não descobriu quem atacou Zaofu. Nem por quê.


Jinora respirou fundo. Ela olhou para Kaito com tristeza, e depois encarou Zhen.


— Eu temo que eu saiba o motivo.


Zhen apertou os olhos.


— Qual?


— Kaito é o Avatar.


O silêncio engoliu a sala. O barulho das sirenes lá fora parecia ter sumido. Zhen olhou para Kaito. Olhou para as algemas, para o rosto sujo de choro. Depois olhou para Jinora, esperando que fosse uma piada de muito mau gosto.


— Ele?


— Sim. — Jinora confirmou.


Zhen puxou o ar com força pelo nariz. Ele passou a mão pelo cabelo, virou de costas e olhou para a fotografia da filha na mesa. E então, o controle sumiu. Zhen virou o corpo de uma vez só e deu um soco brutal na borda da mesa principal. A dobra de metal respondeu à raiva pura dele. O aço maciço da mesa amassou e entortou para baixo com um barulho ensurdecedor de metal rasgando. O baque fez Kaito pular para trás.


— Eu perdi a minha filha! — Zhen gritou, a voz rasgando a garganta. Ele apontou para a janela. — Um dobrador de fogo atacou a minha cidade montado num dragão. A minha cidade tá destruída. E agora você me diz que esse garoto é o Avatar?


Zhen andou na direção de Jinora, o rosto vermelho de ódio e dor.


— O Avatar deveria trazer equilíbrio. Não deveria? — Ele apontou o dedo bem na cara de Kaito. — Então me diz, Mestra Jinora. Esse é o Avatar que devia salvar o mundo? Porque eu só tô vendo um garoto do Anel 7 que trouxe destruição a minha cidade.


As palavras bateram em Kaito com força total. O peito dele afundou.


— Zhen! — Opal bateu a bengala no chão, entrando no meio. — Recomponha-se


Zhen olhou para a tia. Os olhos dele transbordavam ódio e lágrimas não derramadas.


— A minha filha morreu tia.


A frase caiu como uma bigorna. Ninguém tinha resposta para aquilo. Opal ficou em silêncio. Jinora abaixou os olhos. Kaito olhou para a fotografia da menina na mesa. Depois pensou em Nia. A lembrança do toque frio da mãe no asfalto quebrado esmagou o que restava do coração dele. O choro voltou a descer pelo rosto dele, incontrolável.


Zhen percebeu.


— Tá arrependido, Avatar?


O título ecoou na cabeça de Kaito. Avatar. Todo mundo estava chamando ele assim agora. E a palavra parecia um veneno. Para Kaito, ser o Avatar não significava esperança. Significava morte. Culpa. Terremotos. Significava perder a mãe e perder a Âmbar.


— Você devia ter protegido essas pessoas — Zhen acusou.


Kaito começou a tremer dos pés à cabeça.


— Eu não sabia... — ele sussurrou.


— Você é o Avatar.


— Eu não sou...


— É exatamente isso que você é!


O desespero tomou conta. Kaito jogou a cabeça para trás e gritou com toda a força que ainda tinha nos pulmões:


— EU NÃO SOU O AVATAR!


A sala tremeu. Começou pequeno. Os copos de vidro na estante começaram a vibrar e bater uns nos outros. A fotografia da filha de Zhen deslizou sozinha pela mesa de centro. O lustre enorme de metal pendurado no teto balançou forte, soltando pedaços de gesso e poeira no carpete. Kaito olhou para os lados, em pânico. Ele tentou parar, mas a terra não obedecia a razão, obedecia ao medo dele. Ele não controlava nada. Jinora correu e segurou os ombros dele com firmeza.


— Kaito... Olha pra mim. — A voz dela era calma, cortando o caos. — Não precisa controlar tudo agora. Só respira.


O garoto puxou o ar em engasgos. O tremor parou devagar. O lustre parou de balançar.


— Eu não quero ser o Avatar — Kaito soluçou, encostando a testa no ombro de Jinora. — Eu só quero a minha mãe.


O silêncio doeu em todo mundo naquela sala. Jinora fechou os olhos.


— Eu sei.


Jinora ergueu a cabeça e encarou Zhen.


— Ele precisa ir pra Cidade República. A Ordem do Lótus Branco precisa começar o treinamento dele.


— Não. — Zhen respondeu na mesma hora.


— Ele precisa aprender os quatro elementos, Sr Presidente.


— Ele é cidadão de Zaofu — Zhen retrucou frio.


— Ele é o Avatar.


— E também é o responsável pelo que aconteceu aqui! — Zhen gritou. — Ele precisa ser julgado pelo que fez.


A ponta da bengala de Opal bateu no chão. O som não foi alto, mas fez o ar tenso da sala inteira parecer pesar uma tonelada. Ela caminhou devagar, se colocando exatamente entre Jinora e o sobrinho.


— Chega, Zhen — a voz dela saiu baixa, arrastada pelo cansaço, mas firme o suficiente para fazer o presidente engolir o grito na mesma hora.


Opal esticou a mão enrugada e tocou o braço de Zhen. O corpo dele estava duro, tremendo de pura raiva contida. A expressão da matriarca não tinha fúria. Tinha apenas um luto profundo e compartilhado.


— Eu sei que tá doendo — ela falou suave, os olhos verdes cravados no rosto do sobrinho. — Você acabou de perder a sua menina.


Zhen apertou os lábios e desviou o olhar. O maxilar dele tremeu, a pose de político quebrando de vez sob o toque da tia. Opal então virou o rosto devagar e olhou para Kaito. O olhar da velha mestre do ar amoleceu, varrendo a fuligem, as algemas e o terror nos olhos do garoto.


— E ele perdeu a mãe.


As palavras caíram pesadas no carpete. O silêncio tomou conta do gabinete. Jinora suspirou baixo e deu um passo para trás, respeitando a dor daquela família. Kaito fungou. Ele olhou para o chão e encolheu os ombros, o nó na garganta sufocando ele de novo ao ouvir a tragédia falada em voz alta daquele jeito. Opal apertou o braço de Zhen, chamando a atenção dele de volta.


— Vocês dois tão sangrando por dentro — ela continuou, a voz mansa, mas inabalável. — Mas tentar curar essa ferida procurando um culpado agora só vai transformar a dor de vocês em ódio. E eu não vou permitir que o ódio termine de destruir a nossa família. A família Beifong durante gerações ajudou o Avatar a levar equilíbrio ao mundo...


Quando Zhen finalmente voltou a encarar o garoto, a raiva explosiva tinha sumido. Sobrou apenas um pragmatismo de chumbo. Zhen virou o rosto. Ele olhou para a fotografia da menina na mesa. Ele ficou em silêncio por muito tempo. O peito dele subia e descia devagar, até a respiração voltar ao normal.


— Você tá banido de Zaofu Avatar.


Kaito congelou no lugar. Ele piscou as lágrimas para longe.


— Que...?


— Nunca mais pise aqui.


— A minha mãe morreu aqui — Kaito falou. O tom era de puro desespero.


Zhen não piscou.


— Eu sei. Mas você também morreu pra essa cidade. Não volte.


O presidente cruzou os braços e olhou com desprezo para as algemas de aço nas costas do garoto.


— Você tem sorte de ser o Avatar — Zhen murmurou com a voz gelada. — Se não fosse, estaria sendo levado direto pra uma prisão militar agora mesmo.

Sorte?

A palavra ficou flutuando no ar. Kaito olhou para as próprias mãos presas. O pensamento invadiu a mente dele, amargo e gelado. Ele descobriu que era a pessoa mais poderosa do mundo, e em troca, perdeu a mãe, a casa, o bairro, a liberdade e a leopardo-veado que cresceu com ele. E agora estava sendo expulso da única cidade que conheceu.


Que sorte. Ser o Avatar não era um presente. Era a pior maldição que ele podia imaginar. Jinora tocou o braço dele de leve. Ela não tentou dizer que tudo ia ficar bem. Seria mentira.


— Vamos — ela chamou.


Kaito olhou uma última vez para Zhen. Ele olhou para a fotografia da menina na mesa. Ele sabia que aquele homem estava quebrado por dentro, assim como ele. Mas saber disso não diminuía a dor de nenhum dos dois. Ele virou as costas e caminhou para fora do gabinete. Jinora seguiu logo atrás.


Opal não foi. Ela permaneceu parada no meio da sala destruída. Ela olhou para o sobrinho, observando o homem poderoso desabar no sofá de novo. Zhen pegou a fotografia com as mãos trêmulas. O polegar dele alisou o rosto da menina no papel.


— Ela tinha quatorze anos.


Opal fechou os olhos. A dor de uma família inteira pesando nos ombros dela.


— Eu sei.

Kaito olhava para os próprios pés. O chão de metal refletia a sujeira e o sangue seco na roupa dele. Ele andava devagar, arrastando a corrente das algemas. O silêncio do corredor doía mais que os gritos de Zhen. Faltava algo ali. Faltava o pelo macio de Âmbar esbarrando na perna dele. Faltava tudo.

— A gente vai pra Cidade República — Jinora falou. A voz mansa cortou o som seco das botas no chão. — O Lótus Branco tem um complexo protegido lá. Você vai ter espaço pra treinar. Vai estar seguro.

Kaito parou de andar de solavanco. A corrente deu um tranco. A palavra desceu rasgando pela garganta dele. Seguro.

— Eu não quero ir pra Cidade República. — A voz dele saiu fraca, tremendo. Ele levantou o rosto para a mestra do ar. Os olhos verdes estavam vermelhos, inchados de tanto chorar. — Eu não conheço ninguém lá. Eu não sei ser o Avatar. Eles... eles vão mesmo me culpar por isso? Eles vão dizer que eu matei a minha própria mãe?

Jinora apertou os lábios. A expressão dela murchou. Assistir ao pânico esmagando um garoto de quatorze anos era insuportável.

— E a Âmbar? — O desespero fez Kaito dar um passo trêmulo na direção dela. Os guardas em volta tencionaram os braços, mas Jinora fez um sinal rápido com a mão para eles recuarem. — Eles jogaram ela numa jaula blindada no escuro. Ela é só um animal, ela não entende o que tá acontecendo. Vão deixar ela presa lá pra sempre?

Jinora soltou o ar devagar. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, e olhou bem fundo nos olhos do garoto.

— Eu não vou mentir pra você, Kaito. O mundo lá fora tá com medo, e muita gente vai tentar usar você como bode expiatório pra essa tragédia. Mas eu não vou deixar.

Ela tocou o ombro dele de leve, o tecido sujo da camisa amassando sob os dedos dela.

— E sobre a Âmbar... eu te dou a minha palavra. Eu vou falar com a Opal agora mesmo. A gente vai tirar ela daquela prisão e mandar ela em segurança pra Cidade República. Mas pra isso dar certo, você tem que me ajudar. A gente precisa sair daqui.

Kaito engoliu o nó que bloqueava a respiração. Ele ia apenas concordar com a cabeça e seguir Jinora pelos corredores. Ele ia aceitar que perdeu tudo. Mas o aperto no peito não deixou. O presidente tinha acabado de expulsar ele de Zaofu para sempre. Ele nunca mais ia voltar.

Os passos dele pararam. A corrente das algemas deu um tranco leve.

— Eu não posso ir agora. — A voz dele saiu rasgada e seca.

Jinora parou e olhou para ele, preocupada.

— Kaito, o presidente Zhen foi muito claro. Nós não temos tempo.

— Eu não vou nem poder ir no enterro dela. — As lágrimas encheram os olhos de Kaito de novo. Ele não tentou esconder. O queixo dele tremia. — Eles me expulsaram. Vão enterrar a minha mãe e eu nem vou estar aqui.

Jinora abaixou o olhar. A dor daquele garoto era pesada demais.

— Podemos dar um jeito nisso.

— Antes dela morrer... — Kaito fungou e puxou o ar com força. — Antes da Sombra atacar a gente, ela escondeu uma chave na minha mão. Falou pra eu fugir.

Kaito olhou bem fundo nos olhos da monge.

— Eu preciso voltar lá nos escombros, Mestra Jinora. Eu preciso saber o que ela queria me entregar. Por favor. É a única coisa que me sobrou.

Jinora olhou para os guardas armados ao redor. Eles estavam tensos, loucos para tirar o garoto do palácio. Mas quando ela olhou de volta para Kaito, ela não viu uma ameaça à segurança global. Viu apenas um filho implorando por uma despedida.

Ela concordou com a cabeça.

— Tudo bem. A gente vai com você.

O comboio militar parou na entrada do Anel 7. Kaito desceu do carro e o cheiro denso de fumaça e ferro queimado desceu rasgando pela garganta dele. O bairro parecia um cemitério de aço. Prédios residenciais inteiros estavam tombados. Postes retorcidos soltavam faíscas na poeira grossa que ainda pairava no ar. O silêncio era absoluto e assustador. Eles caminharam pelas ruas arrebentadas, acompanhados de perto pelos guardas de elite. Então, Kaito travou o passo.

Eles chegaram no cruzamento. O corpo de Nia não estava mais lá. As equipes médicas do governo já tinham recolhido tudo. No lugar exato onde a mãe dele deu o último suspiro, só existia uma cratera funda no asfalto. O chão estava afundado, formando um buraco imenso cercado por marcas pretas do fogo da Sombra. Ver aquele espaço vazio, o buraco que o próprio descontrole dele abriu na terra, bateu nele como um soco físico. Ele perdeu o ar.

Um dos guardas empurrou as costas dele de leve, forçando o garoto a andar. Kaito engoliu o choro seco e continuou até o fim da rua. A casa dele não existia mais.

O teto desabou por completo. As paredes grossas de chapa de aço cederam para dentro, esmagando os cômodos. Kaito reconheceu um pedaço do sofá da sala espremido debaixo de um bloco pesado de concreto. Roupas rasgadas e fotos velhas da família estavam espalhadas e misturadas com a terra solta. A vida inteira dele virou entulho.

Kaito ignorou a escolta. Ele andou até a montanha de escombros e caiu de joelhos. A corrente curta das algemas deu um tranco forte nas costas dele, machucando os pulsos cortados de novo. Ele não ligou. Sentindo o gosto amargo de poeira na boca, ele torceu o corpo para a frente e começou a cavar com as mãos presas. Os dedos tremiam, arranhando a terra dura e puxando pedaços soltos de madeira e pedra.

Jinora parou alguns passos atrás dele. A roupa amarela de monge balançava devagar no vento sujo de fuligem. Ela não disse nada. Apenas cruzou os braços e ficou ali, garantindo em silêncio que os guardas não interrompessem Kaito enquanto ele sangrava as mãos na terra.

O esforço de arrastar entulho com os pulsos presos cobrava o preço. Kaito arfava, o suor escorrendo e ardendo nos cortes do rosto.

— Você tá procurando alguma coisa específica? — Jinora perguntou baixo

Kaito parou de cavar. A respiração dele falhou.

— Minha mãe... — O choro travou a garganta dele por um segundo. Ele sentou nos calcanhares. — Ela me entregou uma chave. Antes de morrer.

Jinora franziu a testa.

— Uma chave?

Kaito abriu a mão esquerda. A peça dourada brilhava fraco no meio dos dedos ralados e sujos de fuligem.

— É de um cofre. Ela deixavam escondido debaixo do piso do quarto.

Ele guardou a chave no bolso da calça rasgada e levantou. Ele andou com dificuldade por cima da montanha de entulho, se orientando pelo que restou da fundação, até chegar no lado direito da casa. Onde ficava o quarto dos pais. A cama de casal estava completamente esmagada debaixo de uma viga de aço.

Kaito caiu de joelhos de novo. Ele enfiou as duas mãos no vão estreito debaixo da viga caída. A corrente das algemas enroscou em um ferro retorcido. Ele puxou com raiva. O aço rasgou a pele do pulso dele, mas ele ignorou a dor e continuou afastando telhas quebradas e pedaços de gesso.

Ele afundou os braços até alcançar o chão original da casa. Tateou o piso cego debaixo dos destroços com as pontas dos dedos. Então, ele sentiu a junta metálica. A placa solta debaixo de onde a cama ficava. Kaito cravou as unhas na fresta e puxou a tampa para cima com um grunhido de esforço. O compartimento secreto estava escuro. Ele afundou as mãos presas lá dentro. Os dedos bateram em algo liso, pesado e gelado.

— Achei. — Kaito murmurou ofegante.

Ele firmou os braços e puxou a caixa pesada de aço para fora da terra. Era um cofre pesado de aço. A caixa estava bem amassada pelo desabamento, mas a fechadura parecia inteira. Ele enfiou a chave dourada no buraco e tentou girar. Nada. Ele forçou um pouco mais, arranhando a mão na quina afiada do metal. A chave não girava.

Jinora abaixou do lado dele.

— Deixa eu dar uma olhada. — Ela analisou o metal retorcido. — O impacto amassou o mecanismo por dentro. Acho que isso foi feito pra abrir com dobra de metal.

Dobra de metal. Kaito lembrou das aulas na Academia. Da voz do Mestre Wei.

Foca na terra dentro da chapa. O metal não dobra na força, dobra na paciência.

Ele fechou os olhos. O som das sirenes e o vento frio sumiram. Ele colou a mão no aço gelado do cofre. Sentiu a textura. Sentiu a sujeira e as partículas da terra presas lá dentro. Ele imaginou as engrenagens travadas e empurrou o metal de volta para o lugar. A chave girou quase sozinha. Um clique seco ecoou. Destrancou.

Kaito levantou a tampa de ferro. O ar em volta pareceu congelar.

A tampa pesada cedeu com um rangido metálico. Kaito olhou para dentro.

A primeira coisa que ele viu foi o tecido escuro e resistente. O uniforme da força de segurança. As duas adagas de metal polido do pai dele descansavam em cima da roupa perfeitamente dobrada. As lâminas ainda brilhavam intactas. O peito de Kaito apertou com força. Ele tocou o cabo frio de uma das adagas, sentindo a garganta fechar.

Mas tinha mais uma coisa ali dentro.

Enrolada num pedaço de pano desbotado no fundo do cofre, tinha uma estátua pequena. Kaito soltou a adaga e puxou o objeto com as duas mãos trêmulas e algemadas.

Era um totem esculpido em uma madeira branca e perfeitamente lisa, quase parecendo marfim. Os veios da madeira acompanhavam as curvas de um símbolo cravado no centro. O entalhe antigo não estava morto. Ele emitia uma luz azul muito fraca e constante, que pulsava de dentro para fora. A energia fluía pela madeira como se a peça inteira estivesse respirando na mão dele. Kaito franziu a testa. Ele nunca tinha visto aquilo na vida. Não fazia ideia do que era.

— Eu me lembro disso.

A voz de Jinora tirou Kaito do transe. Ela deu um passo para perto dos destroços. Ela olhava fixamente para o cofre aberto. O olhar dela estava sombrio, carregado de um passado que Kaito não conhecia.

— Fui eu que entreguei essa caixa pra sua mãe — Jinora falou baixo. O vento sujo bagunçou o cabelo dela. — Anos atrás. Depois que o Gao morreu.

Kaito levantou a cabeça. Os olhos vermelhos dele cruzaram com os da mestra do ar.

— Você sabia o que tinha aqui dentro? — Kaito ergueu a pequena estátua brilhante. — O que é isso?

Jinora balançou a cabeça devagar.

— Eu não sei. Esse objeto estava com o seu pai no dia em que ele morreu. Quando recolheram as coisas dele, o totem estava junto. Eu entreguei o baú fechado pra Nia.

Ela olhou para a luz azul pulsando na mão do garoto e estreitou os olhos. A energia espiritual que saía da madeira era densa e antiga. Jinora franziu a testa, desconfiada. Mas antes que ela pudesse falar qualquer coisa, aconteceu.

Kaito apertou os dedos em volta da madeira entalhada. A luz azul estourou. Não foi um brilho normal. Foi um clarão que engoliu o som e o ar ao redor. O vento parou. O cheiro de fumaça de Zaofu simplesmente sumiu.

Quando Kaito piscou, a casa destruída não estava mais lá.

A luz baixou. O ar ficou pesado e úmido, cheirando a lodo e mato molhado. Água escura cobria tudo até onde os olhos dele conseguiam enxergar. Árvores imensas com galhos grossos e retorcidos saíam de dentro da água. Cipós caíam do alto. O silêncio ali era esmagador.

Bem no centro da água parada, um homem flutuava.

A pele dele era pálida demais e cheia de cicatrizes antigas. O peito estava nu. Tinha um machucado enorme no centro do peito, roxo e latejante, brilhando com uma energia doente. Cipós grossos saíam da água e se amarravam direto na ferida aberta dele. O homem virou o pescoço devagar. O rosto jovem e quebrado encarou Kaito. Os olhos dele eram dois poços vermelhos, vivos e cruéis. Exatamente iguais aos da Sombra de Zaofu.

A boca do homem não se mexeu. Mas a voz dele ecoou direto dentro da cabeça de Kaito, pesada e absoluta.

— Eu posso devolver sua mãe, jovem Avatar. Só me dê o totem.

O pânico travou a garganta de Kaito. O homem flutuou centímetros na direção dele.

Então veio o tranco. O peito de Kaito foi puxado para trás com violência. A água do pântano sumiu. O clarão cortou a visão dele e ele caiu sentado em cima dos escombros de Zaofu, puxando o ar com tanta força que engasgou. O barulho das sirenes e o cheiro de queimado invadiram a cabeça dele de novo. O totem de madeira branca continuava firme na mão suja e algemada dele.

Jinora já estava agachada do lado do garoto. Ela não parecia apavorada. O olhar dela era muito atento e analítico. Ela avaliou a respiração irregular do garoto e o resquício de energia no ar. Como a maior líder espiritual da Nação do Ar, ela não precisava que ninguém explicasse. Ela sabia perfeitamente o que Kaito acabou de fazer. Ele tinha cruzado para o Mundo Espiritual. A monge segurou o ombro dele com firmeza.

— O que você viu lá?

Kaito precisou de um momento para puxar o ar de volta. O peito dele subia e descia rápido. Ele olhou para Jinora, a voz ainda tremendo pelo choque.

— Eu vi a Sombra. — Ele engoliu seco, apertando a madeira branca. — Ele tá vivo. Ele tava num pântano escuro, cheio de água e cipós... se curando no Mundo Espiritual.

Jinora franziu a testa. O rosto dela ficou mais pálido sob a sujeira de fuligem.

— Ele falou comigo — Kaito continuou, o medo escorrendo em cada palavra. — Direto na minha cabeça. Falou que podia me dar tudo que eu quisesse... se eu entregasse o totem pra ele.

Kaito ergueu o totem. A luz azul iluminou os olhos arregalados de Jinora. A mente da monge trabalhou rápido e as peças finalmente começaram a se encaixar.

— Korra... — Jinora sussurrou, olhando para o nada. Ela estava ligando os pontos de uma tragédia de quatorze anos atrás. — No dia em que a Korra morreu, ela estava numa missão secreta no Mundo Espiritual. O seu pai, Kaito... Gao e um esquadrão pequeno entraram lá com ela.

Kaito travou. Ele não sabia de nada daquilo.

— O relatório oficial da morte dizia que uma força escura, uma Sombra, perseguiu eles até a saída. — Jinora explicou. A voz dela ia ficando mais tensa a cada palavra enquanto ela olhava para o cofre amassado na terra. — Mas o relatório não falava de totem nenhum.

O vento bateu frio nos escombros.

— A Sombra não tava só perseguindo a Korra — Jinora concluiu, o choque estampado no rosto. — Ele estava caçando o totem.

As perguntas começaram a sufocar o ar entre os dois. O que aquela madeira branca fazia? Por que a Sombra ainda desejava tanto aquilo a ponto de cruzar o mundo e derrubar Zaofu inteira? E o pior de tudo: se a Sombra sabia que o totem existia e agora sabia quem era o Avatar, Kaito corria um perigo absurdo. Jinora esticou as mãos devagar.

— Kaito, você é um alvo com isso na mão. Deixa eu guardar o totem. — A voz dela era firme, quase uma promessa. — Eu preciso estudar essa energia no Templo do Ar e descobrir o que ele quer com isso.

Kaito olhou para a luz azul. Era a última coisa do pai dele. A última coisa que a mãe protegeu com a vida. Mas Jinora tinha razão. Ele concordou com a cabeça e colocou a estátua nas mãos da monge. Jinora guardou o totem rápido dentro da túnica, escondendo o brilho azul.

Antes que eles pudessem falar mais alguma coisa, o capitão da guarda se aproximou pisando com cuidado pelos destroços. Ele parou a alguns passos de distância. A postura continuava rígida debaixo da armadura, mas a voz saiu um pouco mais baixa do que antes.

— Mestra Jinora. — O capitão pigarreou, evitando olhar direto para Kaito. — O comboio tá esperando. O funeral vai começar.

O coração de Kaito apertou com tanta força que doeu fisicamente. A adrenalina da visão sumiu na mesma hora. A realidade bateu de frente. Ele ia dar o último adeus para a mãe e depois ir embora para sempre. Kaito abaixou o rosto. Ele sentiu as lágrimas grossas e quentes acumularem nos olhos de novo, pingando devagar na terra destruída da própria casa.

Notas finais
Espero que tenham gostado e obrigado por lerem :)