A Lenda de Kaito
6 Capítulo 5 – O Terremoto
Notas iniciais

Kaito olhou para a beirada da cratera. O corpo de Nia estava jogado no meio das pedras. Imóvel. Ele engoliu seco, o coração batendo na garganta.
— Mãe?
Nenhuma resposta. O som do fogo crepitando nos destroços era a única coisa na rua. Ele deu um passo. Depois outro. As pernas tremiam tanto que mal aguentavam o peso do próprio corpo. Kaito tropeçou no asfalto quebrado e se jogou de joelhos do lado dela. As mãos dele tremiam sem parar. Ele esticou os dedos devagar e encostou no ombro dela.
Nada. A pele dela estava fria.
O pânico rasgou o peito dele de uma vez só.
— MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃE!
O grito destruiu a garganta de Kaito. A respiração dele saiu totalmente do controle. O ar entrava em engasgos curtos e desesperados. O peito subia e descia rápido demais. Ele agarrou a blusa rasgada dela com as duas mãos.
— Mãe, olha pra mim. — A voz dele quebrou no meio da frase, fina e desesperada.
Ele sacudiu o corpo dela de leve, tentando acordar ela na marra. A dificuldade de aceitar o que estava acontecendo travou a mente dele.
— Não... não, não, não. — As lágrimas desceram grossas, lavando a fuligem do rosto dele. — Mãe, levanta. A gente tem que ir.
Kaito encostou a testa no ombro dela. O choro sufocou a voz dele, que foi baixando até virar um sussurro quebrado.
— Mãe... por favor.
Foi aí que Nia se mexeu. Um tremor muito fraco percorreu o corpo dela. Ela abriu os olhos devagar. O verde estava nublado, opaco e quase sem vida. Ela ergueu o braço direito. O movimento foi lento, como se a mão pesasse uma tonelada, mas ela conseguiu pousar os dedos sujos na bochecha do filho. O toque era frágil demais.
Kaito soluçou alto. Ele colocou a própria mão por cima da dela, apertando os dedos frios contra o rosto para tentar esquentar ela.
— Eu tô aqui, mãe. Eu tô aqui.
Nia tentou sorrir. Os lábios dela tremeram e racharam. Com o último pingo de energia, ela escorregou a mão pelo pescoço e puxou a corrente que ficava escondida debaixo da roupa. Uma pequena chave dourada apareceu. Ela deixou a chave cair na palma da mão de Kaito.
— O que... é isso? — Kaito sussurrou, tremendo.
Os olhos de Nia focaram nele uma última vez. A voz saiu como um sopro ralo.
— A... bra.
O peito dela desceu. E não subiu mais. A mão dela escorregou do rosto de Kaito e bateu no chão de pedra com um som surdo. A pouca luz que ainda restava nos olhos verdes se apagou de vez.
O tempo parou. Kaito não se mexeu. Ele ficou olhando para o rosto dela, segurando a própria respiração. Ele esperou. Esperou o peito dela subir de novo. Esperou qualquer som de ar saindo daquela boca entreaberta.
Nada.
Ele pegou a mão dela caída no asfalto e apertou com força contra a própria testa. O calor do toque já estava desaparecendo rápido. O frio começou a tomar conta da pele dela.
— Mãe... — ele sussurrou.
Silêncio. Apenas o barulho das chamas crepitando longe. Um buraco escuro e gelado engoliu o estômago dele.
— Mãe, acorda.
Nada. O rosto dela continuava completamente imóvel e vazio. A dor que bateu nele não cabia no corpo. A negação rasgou de uma vez, deixando apenas o desespero absoluto.
Uma pequena pedra solta no asfalto, bem ao lado do joelho dele, começou a vibrar. Depois outra. Um pedaço quebrado de concreto rolou sozinho.
Lágrimas grossas desciam pelo rosto de Kaito e pingavam no chão sujo. Uma rachadura fina abriu bem debaixo da bota dele. O estalo foi seco e rápido. Ele nem piscou. Kaito continuava segurando a mão de Nia, alisando os dedos sem vida dela. Ele só conseguia chorar, implorando em silêncio para ela acordar. Ele não percebia o que estava acontecendo ao seu redor.
A rachadura aumentou. O asfalto cedeu alguns centímetros. A dor que bateu nele não cabia mais no corpo. A negação rasgou de uma vez, deixando apenas o desespero absoluto. Kaito jogou a cabeça para trás e abriu a boca. O grito destruiu a garganta dele. Não foi um choro comum. Foi um rugido violento e cru de uma alma sendo despedaçada de dentro para fora.
— AAAAAAAHHHHHHHH!!!
E então, algo dentro dele respondeu com fúria. O verde dos olhos de Kaito sumiu, engolido por um branco ofuscante. Uma onda de força bruta explodiu do corpo dele.
O chão rugiu de verdade.
O tremor engrossou de uma vez só, violento e pesado. Não vinha do fundo da terra. Vinha dele. Torres de aço ao longe balançaram como se fossem de papel. Paredes inteiras ao redor da quadra começaram a rachar e desmoronar. As pedras se soltavam das construções, e o ar ficou pesado, quase impossível de respirar.
Zaofu inteira tremia. O caos se alastrava pela cidade, mas no olho daquela destruição, encolhido no meio da rua rasgada, Kaito não escutava nada. Ele não via as casas caindo. Apenas olhava para o rosto vazio da mãe. O terremoto rasgava a cidade, sem que ele fizesse a menor ideia de que a força esmagadora saía de dentro dele.
Do meio das ruínas da casa de terracota, uma Sombra saiu mancando. Âmbar caminhou com dificuldade, o pelo dourado sujo de gesso branco e poeira. Ela correu até Kaito. A felina enfiou a cabeça gigante debaixo do braço do garoto e esfregou o focinho com força no ombro dele. O toque quente. A respiração ofegante do animal. Kaito piscou.
O transe quebrou. O branco ofuscante sumiu dos olhos dele num piscar de luz, e o verde comum voltou, opaco e exausto. O chão parou de tremer na mesma hora.
O peso da realidade caiu inteiro sobre ele. Lágrimas grossas rolaram pelo rosto sujo de fuligem. Kaito jogou os braços em volta do pescoço de Âmbar e chorou descontroladamente, soluçando alto até o peito doer. Âmbar cheirou o corpo de Nia estirado no asfalto e soltou um grunhido longo, baixo e triste.
Passos pesados cortaram o choro. O som de botas batendo no concreto quebrado e armaduras de metal tilintando ecoou pela rua. Kaito levantou a cabeça devagar, apertando o pelo de Âmbar.
— Foi ele! — uma voz gritou no meio da fumaça.
Um pelotão de soldados da polícia de Zaofu surgiu do meio da poeira, cercando a cratera. Âmbar percebeu a ameaça na hora. Ela se soltou do abraço de Kaito e pulou para a frente dele. A felina arrepiou os pelos das costas e rosnou ferozmente, mostrando as presas.
— Imobilizem a fera! — o capitão ordenou, apontando o braço.
Três soldados giraram os pulsos. Correntes grossas de metal dispararam dos braceletes da armadura. O aço chicoteou no ar e enrolou apertado nas patas e no pescoço de Âmbar. Ela rosnou alto, tentando morder as correntes, mas os guardas puxaram os cabos e bateram o animal de costas no chão, cravando o metal na terra.
Kaito se assustou. Ele tentou levantar, mas as pernas falharam. Ele olhou em volta, encarando os rostos dos soldados. O peito dele apertou. Kaito viu o suor escorrendo na testa do guarda mais novo. Viu os passos incertos. Eles recuavam de leve, com as armas na mão. Estavam com muito medo dele.
— Prendam o garoto! — o capitão gritou de novo, mantendo distância de segurança.
— O quê? Eu? O que foi? — Kaito perguntou. A voz saiu fina e completamente confusa.
Dois guardas balançaram os braços. Algemas de metal saltaram no ar. Elas voaram como cobras de aço, bateram nos pulsos de Kaito e fecharam com um estalo brutal, dando um tranco que prendeu as mãos dele com força nas próprias costas.
— Cuidado com ele. — o capitão murmurou com os dentes cerrados, segurando o cabo de aço. — Ele causou tudo isso.
Kaito travou. Ele virou o rosto. A fumaça escura estava baixando. Ele finalmente enxergou a rua. O asfalto estava rasgado em placas gigantescas, atiradas para os lados. A casa dos vizinhos, onde ele costumava sentar na varanda, tinha virado uma pilha de pedras e poeira. Canos estourados jorravam água suja no concreto arrebentado. Pessoas com as roupas rasgadas saíam mancando do meio dos escombros, amparadas umas nas outras. E todos os olhares, cheios de terror e lágrimas, apontavam direto para ele.
Eu fiz isso? O pensamento bateu frio e afiado na cabeça dele. Eu fiz tudo isso.
Dois guardas agarraram Kaito pelos braços e levantaram o garoto no tranco. Eles começaram a arrastar ele sem dó pelo asfalto destruído. Âmbar debatia o corpo contra o chão, arranhando as correntes e uivando em desespero, tentando chegar até o dono.
— Âmbar! — Kaito gritou, jogando o corpo para trás, tentando se soltar.
Os soldados não pararam. Eles puxaram Kaito até um camburão da polícia e jogaram o garoto lá dentro. Ele caiu de lado no banco de metal frio, machucando o ombro algemado.
Kaito se arrastou até a porta. Antes que o guarda batesse a chapa pesada de aço, Kaito olhou pela fresta. A última coisa que ele viu no meio da rua destruída foi a mãe. Caída na poeira. Sozinha. Sem vida.
A porta fechou com um estrondo seco. Escuridão total.
Fale com o autor