A Lenda de Kaito
7 Capítulo 6 - Sob Custódia
Notas iniciais

A poeira cinza ainda engolia Zaofu. O gosto de terra seca e metal queimado grudava no céu da boca de Kaito. O camburão da polícia balançava forte pelos buracos que agora rasgavam o asfalto. Kaito olhava pela grade estreita da porta traseira, vendo as ruínas do seu bairro ficarem para trás. Mas o pesadelo não acabou quando o carro cruzou os portões pesados do Anel Central.
O coração de Kaito afundou. O centro da cidade, a área mais segura e blindada de Zaofu, também estava destruído.
Prédios imensos de arquitetura perfeita estavam inclinados. As grandes avenidas de concreto racharam ao meio, abrindo fendas fundas na terra. Vigas de aço retorcidas. O terremoto não tinha atingido apenas o Anel 7. Tinha quebrado a cidade inteira.
Kaito abaixou a cabeça e olhou para as próprias mãos sujas, presas pelas algemas de aço. Ele era só um garoto de quatorze anos. Um dobrador medíocre que mal conseguia levantar pedras grandes na Academia sem cansar.
Como? A dúvida bateu afiada na mente dele. Como eu poderia ter causado tudo isso?
A escala da destruição era absurda. Impossível para uma pessoa só. Ele não lembrava de puxar toda aquela terra, não lembrava de querer derrubar a cidade. Mas os prédios caídos estavam bem ali, passando pela fresta da porta.
Fui eu mesmo?
O carro freou com um tranco forte. As portas traseiras abriram de uma vez. Kaito apertou os olhos contra a luz do sol embaçada pela fumaça, mas logo foi cegado por um clarão artificial muito mais forte.
Luzes brancas contínuas explodiram bem na cara dele.
Dois guardas agarraram os braços dele e o puxaram para fora do camburão sem nenhum cuidado. Eles estavam no pátio da Delegacia Central. O lugar estava lotado de tendas médicas improvisadas e desabrigados, mas uma barreira de policiais suados lutava para segurar uma multidão furiosa. E no meio da multidão, a imprensa.
Homens com câmeras de vídeo gigantes e pesadas apoiadas nos ombros empurravam os guardas para filmar Kaito. Repórteres esticavam os braços, passando microfones de cabo grosso por cima dos escudos da polícia, quase batendo no rosto do garoto.
— O terremoto foi um ataque direto ao presidente?! — um repórter gritou, a voz esganiçada.
— É verdade que o garoto estava com o dragão negro?
— Os olhos dele ficaram brancos! A polícia confirma?
A fofoca já tinha engolido Zaofu. Os moradores nas tendas se amontoaram nas grades, apontando e gritando. Um senhor mais velho apertou os olhos na confusão.
— Peraí... aquele ali não é o garoto da Nia?
O estômago de Kaito despencou. Ele olhou para o homem, esperando alguma pena. Nenhuma.
— Não importa de quem ele é filho! — uma mulher com a testa sangrando gritou. Ela socou o escudo do policial na frente dela. — Olha a nossa cidade! Ele tem que pagar por isso!
Uma pedra voou da multidão e bateu na escadaria de metal, bem do lado da perna de Kaito.
— Terrorista!
A palavra bateu no ouvido de Kaito e afundou no estômago como chumbo. As luzes das câmeras cegavam os olhos vermelhos dele, filmando cada tremor de medo do seu corpo. Ele abaixou a cabeça, olhando para as algemas de aço que prendiam os pulsos. Ninguém ali sabia o que realmente aconteceu no Anel 7. Ninguém sabia que a mãe dele estava morta.
Ele tropeçou no primeiro degrau da escadaria da delegacia, mas os guardas puxaram ele pelo braço com truculência. Eles forçaram Kaito a subir rápido, fugindo dos flashes, e o empurraram para dentro do prédio. As portas pesadas se fecharam nas costas deles com um baque surdo.
E então, o barulho sumiu.
Os gritos de ódio da multidão, as perguntas ensurdecedoras dos repórteres, as luzes das câmeras. Tudo desapareceu na mesma hora. Sobrou apenas o som seco das botas dos guardas ecoando no corredor frio.
Eles arrastaram Kaito por corredores vazios até uma sala de interrogatório no fundo da delegacia. Um dos soldados abriu a porta de chapa grossa e jogou Kaito lá dentro. O garoto perdeu o equilíbrio e caiu pesado de joelhos no piso de metal frio.
O guarda segurou a maçaneta para trancar a porta.
O pânico bateu na garganta de Kaito. O transe do medo e do assédio dos jornalistas quebrou por um segundo e ele se deu conta de uma coisa. Ele não via a gata desde que os soldados cravaram as correntes nela no asfalto destruído.
— Espera! — Kaito gritou. Ele tentou levantar, os ombros estalando de dor por causa das mãos presas nas costas. — Cadê ela?
O guarda parou com a porta entreaberta. Ele franziu a testa, impaciente.
— Quem?
— Âmbar. Minha leopardo-veado. Pra onde vocês levaram ela?
O soldado olhou para o garoto com puro desprezo.
— A fera tá sob custódia da força tática. Foi direto pro setor de contenção máxima na prisão militar.
O desespero sufocou Kaito de vez. Ele deu um passo trêmulo para a frente.
— Ela não fez nada! Ela só tava assustada.
O guarda puxou a porta de ferro.
— Não podemos dizer o mesmo que você... — O soldado respondeu com a voz gelada.
A frase cortou fundo. O baque da porta batendo fez Kaito recuar. A tranca pesada girou por fora com um clique alto. Sala sem janela. Quatro paredes de aço liso e sujo. Uma mesa de ferro soldada no chão e uma luz fluorescente branca que zumbia fraco no teto.
O clique metálico da fechadura quebrou o silêncio. Kaito levantou a cabeça devagar. A luz branca machucou os olhos dele.
Um homem alto entrou na sala. A armadura da polícia de Zaofu brilhava limpa, sem um arranhão. O rosto dele era duro, marcado por cicatrizes finas no maxilar. Delegado Jiao. Ele puxou a cadeira de ferro arrastando os pés no chão e se sentou de frente para Kaito, que continuava encolhido no canto. Dois guardas pararam na porta, bloqueando a saída.
— Onde ele tá? — Jiao perguntou. A voz era seca. Direta.
Kaito piscou, confuso. A garganta dele doía.
— Quem?
— Não se faz de idiota comigo. — Jiao inclinou o corpo para a frente, apoiando os braços na mesa. — O dobrador de fogo. O cara de preto. E a droga daquele dragão. Vocês combinaram o ataque?
Kaito balançou a cabeça sem parar. As lágrimas voltaram a cair e rasgar a fuligem no rosto dele.
— Eu não sei. Eu nunca vi ele na vida. Aquela Sombra atacou a gente... ele atacou a minha mãe.
O delegado deu uma risada curta e sem humor.
— Mentira. Tem meia dúzia de testemunhas dizendo que você tava no centro do terremoto. Que a força esmagadora saiu de você. O cara de preto sumiu. O dragão sumiu. E Zaofu tá em ruínas. Você vai me dizer agora pra quem você trabalha.
— Pra ninguém! — Kaito gritou. A voz saiu falha e desesperada, ecoando no metal da sala. — Eu não sei o que ta acontecendo. Eu só quero a minha mãe. Por favor, tira essas algemas. Deixa eu ver ela. Eu preciso enterrar ela.
A expressão de Jiao não mudou um milímetro. Ele olhou para o garoto sujo e chorando com puro nojo.
— Chore mesmo, garoto — Jiao falou, as palavras cortando o ar como facas. — Pode chorar. Porque lá fora tem centenas de famílias que perderam a casa, a vida e tudo que tinham por sua causa. Acha que a sua dor é especial? Você é um terrorista.
Por sua causa.
As palavras bateram no peito de Kaito como pedras. O estômago afundou. A imagem de Nia caindo sem vida no asfalto piscou na mente dele. As casas desabando. As pessoas correndo com sangue no rosto. A multidão gritando na porta da delegacia.
O pânico tomou conta de vez. Kaito começou a puxar o ar, mas ele não entrava. O peito dele subia e descia numa velocidade absurda. Ele abraçou os joelhos com força, as unhas arranhando as próprias calças.
— Não... não fui eu... não fui eu...
O chão da sala vibrou. Foi sutil no começo. Um zumbido fraco na sola da bota do delegado. Depois, a mesa de ferro soldada no chão começou a tremer, batendo no concreto. A luz fluorescente no teto piscou loucamente, fazendo um barulho elétrico alto e irritante.
Os dois guardas na porta recuaram um passo, levando as mãos trêmulas para os cabos de aço na cintura. Jiao levantou devagar. Os olhos do delegado se arregalaram. Ele finalmente percebeu o perigo. O garoto não precisava encostar na terra. O metal da delegacia inteira estava gemendo.
Kaito apertava os olhos, soluçando e tremendo de pavor. O tremor engrossou. O prédio inteiro começou a balançar, reproduzindo o mesmo som assustador do Anel 7.
— Segurem ele! — Jiao gritou para os guardas, recuando para a parede.
Mas antes que alguém pudesse dar um passo na direção de Kaito, uma confusão estourou no corredor do lado de fora. Gritos confusos. Som de metal batendo. Passos pesados de botas militares recuando de forma desordenada.
A porta de chapa grossa foi escancarada com um estrondo violento. O metal bateu na parede com tanta força que amassou. O tremor parou na mesma hora. Kaito abriu os olhos, ofegante.
Na porta, os dois guardas estavam paralisados, encolhidos contra o batente. Atrás deles, uma senhora de cabelos brancos curtos estava parada. Ela se apoiava em uma bengala de madeira, mas a postura dela era impecável. Os olhos verdes carregavam o peso de mais de oitenta anos e uma fúria silenciosa e arrepiante. Apenas a presença dela fez o delegado Jiao engolir seco e perder toda a pose. Era Mestra Opal Beifong.
E logo atrás da matriarca, vestindo as roupas vermelhas e amarelas dos Nômades do Ar, estava Mestra Jinora. Os olhos calmos da mestra do ar encontraram Kaito encolhido no chão da cela. E pela primeira vez naquele dia, alguém olhou para ele sem ver um monstro.
Opal bateu a ponta de madeira da bengala no piso de metal. O som seco cortou o ar da sala.
— Fora. — A voz dela não era alta, mas carregava o peso de uma montanha.
O delegado Jiao tentou abrir a boca.
— Mestra Beifong, ele é um terroris...
— Eu disse fora! — Opal gritou. A fúria no rosto enrugado fez o delegado dar um passo para trás. — Peguem seus guardas e saiam dessa sala agora. Se alguém encostar um dedo nesse garoto, nunca mais trabalharão na cidade da minha família. Entenderam?
Os guardas engoliram seco e correram para o corredor. Jiao abaixou a cabeça, derrotado, e saiu logo atrás. Opal acompanhou ele, batendo a porta de ferro e deixando os próprios gritos ecoando longe pelo corredor.
O silêncio voltou. Mas agora não era esmagador.
Jinora caminhou devagar até o canto da sala. O tecido das roupas de monge farfalhou baixo. Ela abaixou até ficar na altura de Kaito e olhou bem nos olhos dele. O olhar dela era quente, calmo e seguro.
— Você tá bem, Kaito? — Ela perguntou com a voz suave. — Tá com fome?
Kaito balançou a cabeça. Ele não conseguia falar. Jinora suspirou e um sorriso triste apareceu no rosto dela.
— Eu conheci seus pais. Eles eram pessoas incríveis. Eu queria muito ter conhecido você numa situação melhor.
A menção da família fez o queixo de Kaito tremer.
— Minha mãe... — A voz dele falhou de vez.
— Eu sei. — Jinora tocou o joelho dele de leve. — A Nia tá recebendo todo o cuidado e o respeito que o corpo dela merece. Logo você vai poder ver ela, eu prometo.
Ouvir aquilo quebrou a última barreira de Kaito. O choro explodiu, rasgando o peito dele. Jinora não hesitou. Ela chegou perto e passou os braços em volta do garoto. Kaito desabou no ombro da monge, agarrando o tecido da roupa dela como se fosse a única coisa que segurava ele no mundo.
— Me desculpa... — Kaito soluçou no pescoço dela. — Me desculpa.
— Você não tem nada pra desculpar. Nada. — Jinora alisou o cabelo sujo dele.
Eles ficaram ali até a respiração de Kaito acalmar um pouco. Jinora afastou o corpo de leve e segurou os ombros dele.
— Consegue me contar o que aconteceu lá?
Kaito fungou. Ele enxugou o rosto na manga rasgada da camisa e contou tudo. Falou da Sombra. Da explosão de fogo. Do dragão negro destruindo o teto. E da mãe lutando e quase matando a Sombra. Jinora escutou tudo sem interromper. A expressão dela ficou séria.
— As câmeras de segurança da rua gravaram parte do ataque — Jinora falou, a voz firme. — A gente sabe que vocês foram atacados. Ninguém nunca vai poder culpar você por aquilo.
Ela enfiou a mão dentro da manga da túnica e puxou um pequeno monitor portátil de metal. A tela de vidro acendeu.
— Mas a câmera da rua também gravou isso aqui.
Jinora virou a tela para Kaito. Era uma gravação da rua destruída. Ele estava lá, ajoelhado no asfalto do lado do corpo da mãe. O terremoto começou a rasgar o chão ao redor. Jinora tocou na tela e deu um zoom direto no rosto do garoto. Kaito congelou. Os olhos dele na gravação não eram verdes. Eram dois poços de luz branca e ofuscante. Brilho puro.
— O que é isso? — Kaito sussurrou. O ar sumiu do pulmão dele.
Jinora olhou fundo nos olhos do garoto.
— Você é o Avatar, Kaito.
A frase bateu nele como um soco. A lembrança da Sombra invadiu a cabeça dele na mesma hora.
“Então você é o Avatar?” A lembrança das palavras da Sombra volta com tudo.
A respiração de Kaito acelerou. O peito dele começou a subir e descer rápido demais. Ele empurrou o chão com as botas, se arrastando para trás até bater as costas na parede fria de metal.
— Não... não, não, não. — Kaito balançou a cabeça freneticamente. — Não pode ser eu. Eu não quero isso. Eu só quero a minha mãe. Eu quero a Âmbar. Eu quero voltar pra minha casa.
— Ei. — Jinora esticou as mãos, tentando confortar ele. — Eu sei que é muita coisa pra digerir de uma vez só. Mas não é um erro. Todos os templos do ar ao redor do mundo confirmaram. O Avatar voltou exatamente na mesma hora em que o terremoto começou aqui em Zaofu.
Kaito apertou os olhos, chorando de novo. A negação gritava dentro dele, mas a voz de Jinora não deixava espaço para dúvida.
— Só pode ser você, Kaito — ela disse suave. — A gente pode fazer os testes mais tarde, mas isso só ia comprovar o que eu já sei. Você é o Avatar.
Antes que Kaito pudesse dizer qualquer coisa, a porta de ferro abriu com um solavanco. Opal parou no batente. O rosto dela estava sério, mas ela olhou para Kaito com uma Sombra de pena.
— Acabei com a palhaçada do delegado, mas a gente tem que ir agora. — Opal olhou para Jinora. — Meu sobrinho, o presidente Zhen, quer ver ele no Palácio. Pessoalmente.
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