A Lenda de Kaito
12 Capítulo 11 - O Príncipe de Omashu
Notas iniciais

Kaito estava afundado no sofá, com os joelhos encolhidos. O quarto era absurdamente grande. Dava quase o tamanho da casa inteira onde ele morava no Anel 7 de Zaofu. Todo aquele espaço vazio só fazia ele se sentir ainda menor ali dentro. Ele ainda vestia a calça de pijama amarrotada. O pão estava intocado na mesinha de centro, e o chá já tinha esfriado completamente.
Ele devia estar no banho. A roupa da recepção real novinha estava passada e pendurada num cabide no canto da parede, esperando por ele. Mas o corpo pesava toneladas, e ele não conseguia desviar o olho da televisão.
A tela exibia a Avenida Principal de Cidade República ao vivo. O repórter no canto da tela quase gritava no microfone para conseguir cobrir o barulho. O que devia ser uma recepção diplomática chata e protocolar tinha engolido a rua inteira. O evento virou uma festa absurda.
A câmera deu um giro e mostrou o tamanho do caos. Tinha gente espremida contra as grades de contenção. Policiais suavam a camisa para conseguir segurar a multidão. Um mar de cabeças e dezenas de bandeiras balançavam no ar em uma histeria coletiva. E tudo isso por causa de um único convidado. O barulho da rua vazava pelos alto-falantes da televisão, mas a voz do repórter preenchia o quarto vazio.
“O príncipe Bumi IV, de dezesseis anos, herdeiro do trono de Omashu, chega agora à Cidade República como representante oficial de Omashu...”
Kaito apoiou o queixo no joelho, acompanhando o letreiro de urgência vermelho passando no rodapé da tela.
"Além de participar de reuniões com o governo, ele permanecerá na cidade para auxiliar no treinamento do recém-descoberto e controverso Avatar Kaito.”
Kaito estalou a língua e afundou um pouco mais no estofado. Controverso. Era um jeito educado de a mídia lembrar que ele tinha derrubado metade do próprio bairro. Ele quase esticou a mão para pegar o controle remoto e abaixar o volume, mas a voz engravatada da TV continuou despejando informações.
“Vale lembrar que, nos últimos anos, o jovem príncipe, que carrega o nome de seu ancestral e homônimo, o lendário Rei Bumi, se tornou uma das figuras mais populares da nova geração, ganhando notoriedade ao aproximar Omashu das demais nações.”
Kaito revirou os olhos. O noticiário parecia um comercial barato. Estavam vendendo um herói perfeito. O professor de terra dele ia ser um cartaz de propaganda política ambulante. A rua estava entupida de gente. Crianças vestiam as cores de Omashu. Garotas gritavam espremidas nas grades de contenção. Jornalistas brigavam por qualquer centímetro de espaço. Ele é amado, Kaito pensou. Tentou engolir a inveja, mas o pensamento bateu forte no estômago. Ele é quem devia ser o Avatar. Não eu.
A avenida inteira estava decorada. Nada de verde e dourado do antigo Reino da Terra. Era a nova identidade de Omashu. Bandeiras de fundo marrom e faixas verde-escuras balançavam ao vento. No centro, o emblema circular bege da nação independente.
Um carro oficial muito longo parou suavemente. A pintura era um marrom tão escuro que parecia madeira polida, cortada por faixas verde-floresta. A porta abriu. Flashes de câmeras explodiram como uma tempestade.
O príncipe desceu.
Ele não parecia uma escultura intocável. Mas o corpo denunciava anos de treino sem precisar exibir um único músculo. Ombros firmes. Pernas fortes. Uma postura irritantemente reta de quem parecia nunca tropeçar na vida. A pele era de um tom oliva quente. O cabelo escuro e muito longo estava preso para trás de um jeito cerimonial.
O traje formal era impecável. Uma túnica marrom, longa e estruturada, com gola e painéis laterais em verde-escuro. Linhas geométricas beges bordavam as mangas. O símbolo de Omashu reluzia discreto no fecho do cinto. No peito, uma única medalha de condecoração civil.
Kaito, afundado no sofá, bufou e cruzou os braços. Seus olhos grudaram na tela. Ele levantou de supetão e parou na frente do espelho de corpo inteiro do quarto. Olhou para o próprio reflexo, depois para a TV.
A comparação era quase uma piada.
Na tela, Bumi exibia braços firmes que preenchiam as mangas da túnica perfeitamente. Kaito levantou o próprio braço. Magrelo. O príncipe tinha o cabelo liso, escuro e comprido, balançando de um jeito heroico no vento. Kaito passou a mão na própria cabeça. Os cachos pretos estavam amassados de um lado só, rebeldes e bagunçados. Bumi caminhava com a coluna tão reta que parecia ter engolido uma espada. Kaito tentou estufar o peito e endireitar as costas, mas durou exatos três segundos antes de ele voltar a ficar todo largado e curvado para frente. Ele suspirou e olhou bem para o rosto do príncipe na televisão. Os traços marcantes, o sorriso confiante, o maxilar desenhado.
— Tá... — Kaito resmungou sozinho, cruzando os braços de novo. — Ele é bonito e daí.
Na tela, a histeria da multidão piorou quando Bumi acenou na direção das grades. As pessoas empurraram com força. O peso da massa fez a base de pedra de uma das barricadas de contenção estalar e inclinar perigosamente para frente. Dois guardas da Cidade República arregalaram os olhos, recuando antes que a estrutura cedesse em cima da primeira fileira de pessoas.
Bumi nem interrompeu a caminhada. Ele não levantou os braços, não assumiu postura de dobra, nem fez um movimento brusco. O príncipe apenas deu um passo firme, e a ponta da bota dele bateu no asfalto. O movimento foi tão sutil, tão rápido, que os repórteres, as câmeras e a maioria dos olhos mais atentos na rua nem perceberam. Mas Kaito percebeu.
A pedra sob a barricada deslizou para cima alguns centímetros e se encaixou perfeitamente, travando a estrutura de volta no lugar com um baque sólido. Ninguém caiu. Ninguém se machucou. Bumi continuou conversando e acenando para uma criança como se absolutamente nada tivesse acontecido.
No quarto, o estômago de Kaito afundou. Doeu assistir àquilo. Há poucos dias, ele tinha destruído metade de Zaofu porque perdeu o controle da terra e deixou o medo dominar. E ali estava Bumi. Usando o mesmo elemento, no meio de centenas de pessoas histéricas, sem machucar ninguém, sem sequer mudar a expressão do rosto. Aquilo não era só poder. Era controle absoluto. E Kaito percebeu o quanto ele ainda estava longe disso.
Um grupo de repórteres finalmente furou o cordão de isolamento. Eles empurraram os microfones quase no rosto do príncipe.
— Príncipe Bumi! Aqui da Gazeta de Ba Sing Se... — uma repórter gritou, sem fôlego. — Omashu apoia o Avatar publicamente, mas Zaofu e Ba Sing Se fecharam as portas. Como você vê essa divisão entre Omashu, Zaofu e Ba Sing Se?
Kaito inclinou a cabeça perto da tela. Ele esperava a resposta diplomática de sempre. Aquela cheia de veneno e ataques disfarçados. Bumi parou de andar. Ele olhou direto para a lente da câmera. A luz do sol bateu no rosto dele, puxando um tom esverdeado forte dos olhos castanhos.
— Eu não vim para Cidade República dizer o que Zaofu ou Ba Sing Se devem fazer — Bumi respondeu. A voz saiu calma, sem um pingo de pressa. — Eu vim representar Omashu. E a nossa posição é bem simples. Kaito, acabou de descobrir que é o Avatar de um jeito traumático e precisa de condições seguras para aprender. A gente pode discordar sobre geopolítica, claro. Mas não precisamos arrastar o Avatar para nossas políticas.
Kaito parou de respirar por um segundo. Ele relaxou os ombros no sofá sem nem perceber.
Ele é rápido nas respostas... Kaito pensou, quase chocado. Bumi não atacou Zaofu. Não ofendeu o Rei da Terra. Defendeu Omashu. Defendeu o próprio Kaito em rede mundial. Tudo isso sem disparar um único tiro diplomático que pudesse causar uma crise nova.
— Príncipe, você já conhece o Avatar? — outro jornalista atropelou a colega. — Como acha que ele vai ser?
Kaito apertou os lábios. Pronto. Lá vinha o elogio ensaiado. O discurso forçado de que ele ia salvar o universo. Bumi deu um sorriso curto. Contido.
— Eu ainda não conheci o Kaito. Então seria muita pretensão da minha parte prever na televisão quem ele vai se tornar. — O príncipe arrumou o punho da túnica de forma casual. — O que eu posso dizer é que ninguém devia ser julgado antes de ter a chance de aprender e mostrar seu verdadeiro potencial.
Kaito ficou em absoluto silêncio.
A irritação e o ciúme que ele sentia um minuto atrás evaporaram. Sobrou apenas um respeito cauteloso. Bumi não usou o nome dele para fazer propaganda barata. Ele não prometeu um herói infalível para a mídia. Bumi deu uma chance a ele. E, naquele momento, isso era tudo que Kaito mais precisava.
Kaito estufou o peito de frente para a televisão. Ele arrumou a postura, deixou a coluna reta feito um cabo de vassoura e levantou a mão, imitando o aceno elegante e perfeitamente contido do príncipe.
— Eu não vim para dizer o que Ba Sing Se deve fazer... — Kaito sussurrou para a sala vazia, engrossando a voz.
A porta do quarto abriu num solavanco. Mayka entrou apressada, com a prancheta colada no peito. Ela parou no meio do tapete. Kaito travou na mesma hora. Ele continuou com a mão no ar e a coluna dura. A calça do pijama estava amarrotada e o cabelo amassado de um lado só. O quarto inteiro ficou em um silêncio absoluto.
Mayka olhou para a televisão. Olhou para a mão erguida de Kaito. Um sorriso malicioso puxou o canto da boca dela.
— Você tava imitando o príncipe?
Kaito ficou vermelho até a raiz do pescoço. Ele abaixou o braço num pulo e encolheu os ombros.
— Não... Eu tava... alongando o ombro. Acordei com cãibra.
Mayka riu pelo nariz, sacudindo a cabeça.
— Certo. Vai se vestir logo. A comitiva chegou adiantada. A gente tem menos de dez minutos.
Kaito correu para o banheiro. A roupa que o Lótus Branco trouxe estava dobrada em cima da pia, mas junto com ela tinha um pacote que Opal enviou para ele. Tirou o pijama e vestiu a outra. Ele saiu do banheiro e parou de frente para o espelho do quarto. A túnica cerimonial era de um cinza-chumbo pesado, com um corte moderno e assimétrico que batia pouco acima dos joelhos. O tecido grosso refletia a luz quase como metal escovado. Por baixo, ele vestia uma camisa preta de gola alta bem ajustada.
Nas bordas internas e laterais da túnica, linhas finas verde-escuras quebravam o cinza. Nos ombros e nos antebraços, pequenas placas de metal prateado fosco traziam os padrões geométricos clássicos de Zaofu. A calça escura entrava em botas pretas com grevas de prata. No peito, um broche pequeno e discreto do Lótus Branco. E, segurando a túnica moderna na cintura, o velho cinto de couro e metal de seu pai.
Mayka virou para ele. Ela parou de respirar por um segundo. Os olhos dela desceram da cabeça até a bota de Kaito.
— Não!
Kaito franziu a testa.
— O quê?
— Não, não, não, não. — Mayka apontou a caneta para ele como se tivesse achado uma arma escondida. — Que roupa é essa? Você tá vestido de Zaofu.
— Eu sou de la, lembra?
— Hoje não! — Mayka puxou o rádio comunicador da cintura, já entrando em pânico. — Você vai receber o príncipe herdeiro de Omashu vestido de cinza, prata e verde? Três dias depois de Zaofu suspender os contratos com o governo dele?
Kaito olhou para a própria manga.
— É só uma túnica.
— Pra você é uma túnica. Pra diplomatas, é uma declaração de política externa com mangas! — Mayka bufou. Ela olhou para o relógio de pulso. — Quanto tempo a gente tem até eles subirem pro andar do presidente?
— Você falou dez minutos.
— Agora a gente tem três... e não dá tempo de trocar. — Mayka fechou os olhos e apertou a ponte do nariz. — Claro. Perfeito. Excelente. Eu adoro meu trabalho.
Kaito deu um passo para trás.
— Foi a roupa que a Mestra Opal mandou nas minhas coisas.
Mayka abriu os olhos. Ela olhou bem para o garoto. Ela sabia o que tinha acontecido. Sabia que Kaito foi banido da cidade pelo presidente Zhen, e mandar ele trocar de roupa significaria que eles chegariam atrasados. A tensão nos ombros dela diminuiu. Mayka suspirou.
— Tá bom.
Kaito levantou o rosto.
— Tá?
— Eu continuo odiando isso diplomaticamente. — Ela foi até ele e arrumou a gola preta da camisa. — Mas até que ela ficou boa em você... Agora presta atenção no que vai acontecer lá fora.
Mayka assumiu o tom de assessora de novo.
— Quando o príncipe chegar na sala de recepção, ele vai cumprimentar o presidente Unan primeiro. Você fica quieto e deixa ele fazer a primeira saudação respeitosa pra você.
Kaito assente concordando.
— Ok não fazer nada...
— Você não é um chefe de estado nem da monarquia. — Mayka cortou rápido, olhando no fundo do olho dele. — Então você deve mostrar respeito ao príncipe e se curvar com uma saudação.
Kaito piscou rápido, absorvendo a informação.
— Omashu é vital pra nós agora — Mayka continuou, ajeitando a prancheta. — Eles estão apoiando você enquanto Zaofu e Ba Sing Se fecharam as portas. O falecido Rei Bumi III era um homem muito querido e lutou do lado da Avatar Korra nas rebeliões de Gaoling. Você tem que agradecer à Rainha Regente Shaiya por mandar o príncipe pra te ensinar dobra de terra.
Kaito bufou de leve, incomodado.
— Mas eu já sei dobrar a terra...
Mayka parou. O olhar dela ficou cortante e sério.
— Kaito, ele impediu uma barricada de pedra de duas toneladas de desabar em cima da multidão agora pouco usando só a ponta da bota, sem fazer o menor esforço. Ele tá aqui pra te ajudar. O apoio dele é fundamental. Tenta não arrumar problema com ele.
O sermão acertou o peito de Kaito em cheio. A marra sumiu na mesma hora. Mayka suavizou o tom.
— A gente tá do mesmo lado. Se a conversa ficar difícil, ou se você não souber o que falar, lembra da nossa regra. Aperta a mão em punho três vezes que eu entro no meio e corto o assunto, tá legal?
Kaito puxou o ar devagar, sentindo o peso da túnica de Zaofu nos ombros.
— Entendido... Não vou ofender o príncipe.
Kaito estava ao lado do presidente Unan no salão de recepção do Palácio. Os flashes cegavam e o barulho de vozes parecia uma tempestade. Bumi estava a poucos metros de distância, cercado por repórteres antes mesmo de conseguir chegar à área reservada.
Um jornalista esticou o microfone.
— Príncipe Bumi! Seu pai dizia que a República Unida era a segunda casa diplomática de Omashu. O que significa voltar aqui seguindo os passos dele?
Kaito prestou atenção. Por meio segundo, o sorriso de Bumi sumiu. Foi um atraso quase imperceptível. Um piscar de olhos, e a expressão confiante voltou.
— Meu pai amava esta cidade — Bumi respondeu, a voz perfeitamente modulada. — Espero honrar essa amizade sem precisar imitar ele em tudo.
Outra jornalista atropelou:
— Faltam menos de dois anos para a sua maioridade e eventual coroação. Essa visita já faz parte da preparação para o trono?
Bumi abriu um sorriso largo.
— Minha mãe diria que tudo que eu faço desde que aprendi a andar faz parte da preparação.
A multidão ao redor riu. Mas Kaito estava num ângulo diferente. Ele baixou os olhos e viu que, atrás das costas, longe das lentes das câmeras, Bumi apertava os dedos com força, torcendo as mãos.
Finalmente, a segurança cortou a imprensa. Bumi caminhou até eles. Ele era muito maior pessoalmente. Os passos não faziam barulho, mas eram firmes. Unan fez as honras da apresentação. Bumi parou de frente para Kaito e, exatamente como Mayka previu, o príncipe curvou o corpo primeiro. Ele fez a saudação tradicional da Terra, e Kaito retribuiu com uma saudação desajeitada.
Depois, Bumi ofereceu a mão. Kaito apertou, a mão do príncipe era quente e áspera, marcada pelos calos da dobra de terra. A mão de Kaito estava gelada e suada de nervoso. Bumi não fez nenhuma careta.
Na televisão, os olhos de Bumi pareciam simplesmente castanhos. Mas agora, de perto, Kaito percebeu pequenas manchas verdes espalhadas ao redor da íris, reveladas pela luz dos lustres de cristal. Por algum motivo, ele continuou olhando tempo demais. Kaito soltou a mão dele. O cérebro deu um branco total. Ele esqueceu completamente a frase que Mayka mandou decorar. O que eu ia falar mesmo?
— Eu... — Kaito gaguejou, tentando salvar a situação. — Queria agradecer muito a Rainha... Shu...
— Shaiya — Mayka soprou logo atrás do ombro dele.
Kaito fechou os olhos, querendo afundar no mármore.
— Eu sabia.
Bumi sorriu. O olhar dele desceu para a roupa de Kaito. O cinza-chumbo, as placas de metal, as linhas verdes.
— Trabalho de Zaofu?
Kaito travou. Ele ouviu Mayka prender a respiração atrás dele.
— É...
Bumi tocou de leve no acabamento metálico da túnica.
— Bonito, Zaofu sempre teve uma moda única.
Kaito piscou.
— É nós somos muito... bons... — Kaito olha pra Mayka que arregala os olhos — Em... moda?
— Foi uma pergunta? — Bumi franziu a testa
Kaito abre a boca para dizer, mas Bumi percebe o nervosismo e olhou para o cinto metálico no meio da cintura de Kaito.
— Esse cinto também é de lá?
Kaito tocou a fivela.
— Era do meu pai.
Bumi mudou o tom na hora. Foi sutil, mas o ar de brincadeira sumiu.
— Ótima escolha. — Ele aponta para a faixa do cabelo — Tambem tenho algo do meu pai.
Um diplomata barrou Unan no meio do salão. Mayka virou de costas na mesma hora, rolando a tela da prancheta para caçar alguma falha no cronograma do jantar. E, por um milagre, Kaito e Bumi ficaram sozinhos perto de uma pilastra de mármore. Longe dos flashes. Longe das perguntas intermináveis.
Bumi passou os olhos pelo salão. Ele checou os cantos, garantiu que nenhuma câmera apontava na direção deles, enfiou dois dedos na gola verde-escura e puxou o tecido grosso para longe do pescoço. O príncipe soltou o ar pesado pela boca.
— Se mais uma pessoa me chamar de “símbolo de esperança” hoje, eu juro que me jogo de uma janela.
Kaito piscou, pego de surpresa. Bumi nem piscou de volta. Apontou com o queixo para a parede de vidro mais próxima.
— Aquela ali. É mais baixa. — Bumi pisca para Kaito — Eu sou príncipe, não idiota.
Kaito prendeu a respiração, mas não aguentou. Uma risada curta escapou pelo nariz. Bumi deu um sorriso torto, amassando a gola com os dedos.
— Como você consegue fazer isso? — Kaito perguntou, encostando o ombro na pedra fria da pilastra.
— Me jogar da janela?
— Não. — Kaito apontou de leve para o salão entupido de embaixadores velhos, luzes e taças de cristal. — Isso tudo. Parecer que você não tá nem aí.
O sorriso de Bumi sumiu. Ele baixou os olhos para a própria mão, esfregando o anel com o polegar.
— Eu fico nervoso.
Kaito franziu a testa.
— Não parece.
Bumi ergueu o rosto.
— Esse é o truque.
Bumi encostou as costas na pilastra, dividindo o peso com a parede.
— Minha mãe me arrasta pra essas cerimônias desde que eu tinha sete anos. Na primeira vez que eu precisei cumprimentar um embaixador de Ba Sing Se, a minha cabeça deu branco. Esqueci o nome do cara no meio da frase.
Kaito riu baixo.
— Sério?
— Chamei ele de "senhor" durante quinze minutos de conversa.
— Funcionou?
— O velho achou que eu era extremamente educado.
— Então você sempre foi bom nisso.
Bumi balançou a cabeça devagar.
— Não. Eu fiquei bom em parecer bom nisso. É muito diferente.
A frase desceu quadrada. Kaito parou de rir na hora.
Bumi virou o rosto para o mar de engravatados e luzes piscando.
— Depois de um tempo apanhando, você aprende os atalhos. Onde colocar as mãos pra elas não tremerem. Quando sorrir de canto. Quando calar a boca. Como puxar o ar pro pulmão sem ninguém perceber que seu coração tá socando a garganta.
Kaito observou o perfil do amigo. A postura de pedra. O controle.
— E o nervosismo passa?
Bumi soltou uma risada curta e seca.
— Nunca.
Ele ajeitou a gola verde-escura de vez. Alinhou os ombros, ergueu o queixo. O garoto exausto evaporou, e o Príncipe Herdeiro de Omashu vestiu a máscara outra vez, intocável e polido.
— Você só aprende a não deixar ele mandar em você.
Kaito ficou em silêncio. Ele olhou para o garoto ao lado dele. A roupa oficial, o peso do nome, a expectativa do mundo inteiro. Então ele não nasceu assim, Kaito pensou. Havia muito suor escondido debaixo daquela coroa perfeita. E, pela primeira vez no dia, Kaito achou que as coisas talvez dessem certo.
A transição do saguão de recepção para a sala de jantar foi um alívio, mas a tensão do primeiro encontro ainda pairava no ar. Enquanto caminhavam pelos corredores do Palácio, Kaito tentou quebrar o gelo.
— Eu já sei dobrar terra... — Kaito soltou. Ele queria soar casual, mas a frase saiu quase como um desafio.
Bumi caminhava do lado dele, com as mãos cruzadas nas costas.
— Eu ouvi falar. Mas a dobra de Omashu é um pouco... diferente do que vocês fazem la em Zaofu.
— Diferente como?
— Menos cabos de aço e engrenagens e mais montanhas caindo em cima da sua cabeça. — Bumi deu um sorriso de canto. — Quem sabe a gente não troca umas ideias amanhã? Ou umas rochas.
Kaito soltou uma risada curta. Ele sabia provocar.
O jantar oficial foi servido na residência presidencial. A mesa era imensa. De um lado, o presidente Unan e a esposa dele. Do outro, Kaito e Bumi. O menu era uma daquelas invenções diplomáticas chiques e esquisitas. O prato principal era um ensopado exótico do Polo Norte, cheio de tentáculos roxos e algas que cheiravam a chulé.
Kaito cutucou a comida com o garfo, desconfiado. Ele olhou de soslaio para Bumi. O príncipe cortou um pedaço da carne estranha, sorriu educadamente para a esposa do presidente e colocou na boca.
O sorriso de Bumi durou exatamente até a mulher virar o rosto para responder a um garçom. No mesmo milissegundo, a máscara do príncipe caiu. Ele engoliu a comida quase sem mastigar e fez uma careta mínima de repulsa, apertando os olhos antes de virar um copo inteiro de água de uma vez só.
Kaito arregalou os olhos. Ele inclinou a cabeça na direção de Bumi.
— Não gostou? — sussurrou.
Bumi abriu um sorriso largo e charmoso para um diplomata na outra ponta da mesa. Ele continuou sorrindo e, sem mover os lábios um único milímetro, murmurou de volta:
— Odeio comida da Tribo da Água.
Kaito engasgou. Ele teve que afundar o rosto no guardanapo de linho e tossir para disfarçar a risada que estourou no meio da garganta. A esposa de Unan olhou para ele, confusa. Bumi apenas continuou mexendo o ensopado, com a postura mais elegante do mundo.
Kaito limpou a boca, ainda segurando o riso. Bumi não era tudo aquilo que falavam na TV. Ele era só um garoto preso num traje cerimonial chique, comendo comida ruim por pura educação. Assim que a sobremesa acabou, o clima na mesa mudou. A parte social do evento tinha chegado ao fim. O presidente Unan limpou a boca e se levantou, abotoando o paletó.
— Principe Bumi — Unan chamou, o tom agora era estritamente político. — Meus ministros já estão aguardando na sala presidencial. Nós temos uns assuntos para discutir e adoraria sua companhia.
Bumi se levantou de imediato. A postura descontraída sumiu. O representante de Estado assumiu o controle.
— Eu estou pronto, presidente.
Kaito empurrou a cadeira para trás e se levantou junto, ajeitando a túnica cinza de Zaofu. Ele deu um passo para seguir os dois. Uma mão bateu no peito dele. Mayka surgiu do nada, parando Kaito no meio do caminho.
— Eu não vou? — Kaito perguntou, franzindo a testa.
— Não.
Kaito olhou para Mayka, indignado.
— Mas eu sou o Avatar, não é?
Mayka cruzou os braços.
— É uma reunião bilateral fechada entre Omashu e a República Unida.
— Eu sei.
— Você governa Omashu? — ela perguntou.
— Não.
— Governa a República?
— Não.
Mayka abriu os braços.
— Então você não faz parte de nenhuma das duas delegações.
Kaito bufou. A sensação de ficar de fora, de ser tratado como uma criança que não podia participar da conversa dos adultos, voltou a morder o estômago dele. Ele olhou para Bumi, que já estava na porta da sala de jantar com Unan. O príncipe parecia ter o mundo nas mãos. Ele tinha quase a mesma idade de Kaito, mas já entrava em salas onde decidiam rotas comerciais, tarifas e o abastecimento de cidades inteiras.
Antes de sair, Bumi percebeu o olhar cruzado de Kaito. O príncipe pediu licença a Unan com um aceno de cabeça e caminhou de volta até a ponta da mesa. Ele parou do lado de Kaito. O sorriso de capa de revista não estava lá.
— Avatar Kaito... — Bumi murmurou, afrouxando discretamente a gola verde-escura da túnica — não vejo a hora de começar nosso treino amanhã, esteja preparado.
Kaito piscou, surpreso.
— Vou estar! — Kaito disse parecendo soar determinado
Bumi deu um tapinha no ombro de Kaito, com um olhar de pura exaustão.
— Boa resposta...
O príncipe virou as costas e caminhou para a sala presidencial para encarar a burocracia. Kaito ficou parado ali, vendo a porta dupla de madeira se fechar. A inveja que ele estava sentindo sumiu de vez. O príncipe perfeito ia passar a madrugada inteira discutindo imposto de carvão. Kaito nunca esteve tão feliz por não governar nada.
— Você devia ir descansar... — Mayka disse. A voz dela carregava a exaustão de quem só queria sumir e dormir.
Kaito voltou para o quarto gigante e impessoal. O peso do dia desabou nas costas. Ele tirou a túnica de Zaofu, vestiu uma calça frouxa qualquer e se jogou na cama enorme, encarando o teto. O cérebro não desligava.
Será que Bumi dormia com roupas bordadas a mão por alfaiates reais? Ele franziu a testa no escuro. Por que eu tô pensando no pijama do Bumi?
— Pelo amor dos espíritos... — resmungou, virando de lado.
A perna bateu num peso quente. Âmbar estava esparramada no meio do colchão. Ele empurrou Âmbar com o pé, mas ela só soltou um resmungo e rolou pesada pro canto. Kaito bufou. Enfiou a cara no travesseiro e apertou os olhos. Tentou expulsar o príncipe da cabeça. O sorriso fácil, a mão firme, o cabelo irritante. E conseguiu, o cérebro esvaziou, mas outra coisa preencheu o espaço.
A terra.
O coração deu um soco na costela. O ar sumiu do quarto. Amanhã ele teria que dobrar de novo. A ficha caiu, fria e esmagadora. Ele não movia uma única pedra desde o ataque. A última vez que a dobra fluiu pelo corpo dele, o controle quebrou. Zaofu rachou ao meio, o asfalto abriu.
A mãe dele morreu.
Kaito cravou as unhas no lençol. O peito subia e descia rápido, lutando contra o escuro. A mão inteira tremia. Bumi fazia a dobra parecer um jogo simples lá fora, mas Kaito só enxergava um monstro dormindo debaixo do piso. E amanhã, ele ia ter que acordar esse monstro de propósito.
— Amanhã... — sussurrou, a garganta completamente seca.
Não parecia o início de um treinamento. Parecia uma ameaça.
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