A Lenda de Kaito
13 Capitulo 12 - O Treino
Notas iniciais

Kaito encarava o teto. Ele praticamente não tinha fechado o olho a noite inteira. Toda vez que fechava os olhos Zaofu, a Sombra, a mãe voltavam a sua mente. O peso de Âmbar esmagava as pernas dele. A leopardo-veado dormia esparramada, ocupando metade da cama. O silêncio da manhã foi esmagado por uma sequência de batidas frenéticas na porta.
— Kaito! — a voz de Mayka soou abafada pela madeira, carregada de urgência.
Ele abriu um olho. Âmbar abriu um também.
— Finge que não ouviu — Kaito sussurrou. A leopardo-veado soltou um bocejo longo, fechou o olho e apoiou a cabeça na perna dele de novo.
A maçaneta girou de uma vez. Mayka entrou no quarto como um furacão. Kaito tomou um susto enorme. Ele deu um pulo na cama e cruzou os braços na frente do peito na mesma hora, vermelho de vergonha por estar sem camisa. Mayka nem piscou para o susto dele. Ela parou no meio do quarto e olhou ao redor. A túnica cerimonial cara que ele usou no jantar estava jogada de qualquer jeito no chão.
— Você devia organizar isso aqui, sabia? — Ela desviou da roupa amassada e marchou direto para a janela. — E que cheiro é esse?
Ela abriu o vidro com força, deixando o vento frio entrar.
— A culpa é da Âmbar — Kaito se defendeu, apontando para a felina, que apenas levantou a orelha.
Mayka ignorou a desculpa. Ela se aproximou da cama e semicerrou os olhos para o rosto de Kaito. As olheiras dele entregavam tudo.
— Você dormiu? — ela perguntou.
— Não o suficiente.
— Então não dormiu... — Mayka suspirou e jogou um pacote de roupas em cima do colchão. — Veste! A gente não tem muito tempo.
Kaito soltou os braços e puxou o pacote. Era uma roupa de treino nova. Uma túnica cinza leve, sem mangas, com calças escuras no mesmo tom. Nos acabamentos, faixas para os punhos e linhas finas em verde-escuro.
— Pelo visto todo o meu trabalho de figurino agora vai ser baseado na moda de Zaofu — Mayka resmungou, cruzando os braços. — O presidente Unan quer que você não perca as características da sua terra natal. O mundo tem que ver que você se importa com Zaofu.
Kaito apertou o tecido cinza da túnica. O tom de brincadeira sumiu do rosto dele.
— Eu me importo com Zaofu.
O olhar de Mayka suavizou.
— Eu sei, mas todo mundo lá fora também precisa saber.
Ela puxou a prancheta de baixo do braço e tirou uma pequena câmera portátil das Indústrias Varrick do bolso da jaqueta.
— E é por isso que eu vou tirar umas fotos do treino hoje.
Kaito arregalou os olhos.
— Fotos? Pra quê? Pensei que o treino fosse secreto...
— E é, só vou bater umas duas fotos de longe e ir embora. — Ela guardou a câmera de volta. — Eu tô elaborando uma matéria pra mostrar o seu progresso como Avatar. Quero que as pessoas vejam você de verdade.
Kaito ficou em silêncio, olhando para a garota na frente dele. Ela estava acordada tão cedo quanto ele, brigando com a mídia e elaborando estratégias para garantir que o mundo enxergasse o melhor dele, mesmo quando ele próprio não conseguia ver.
— Obrigado, Mayka — Kaito falou. A voz saiu baixa e sincera. Ele percebeu que nunca tinha agradecido o esforço dela de verdade. — Por tudo.
Mayka parou de anotar. Ela olhou para ele, meio pega de surpresa.
— De nada, Kaito. É só o meu trabalho.
Kaito abriu um sorriso.
— Você faz muito bem o seu trabalho.
As bochechas de Mayka ficaram vermelhas na hora. Ela tentou segurar, mas um sorriso escapou. Kaito reparou, pela primeira vez, que ela tinha uma covinha no canto do rosto quando ria daquele jeito. Ela limpou a garganta rápido, escondeu o sorriso e desconversou, batendo a caneta na prancheta.
— Se veste logo. A comitiva do príncipe Bumi já saiu e eu não quero chegar atrasada.
— Comitiva? Esse cara não sabe andar sozinho?
— Você tambem não! — Responde Mayka — Se troca logo...
Mayka virou de costas para dar privacidade enquanto Kaito jogava o pijama na cama. Ele vestiu a calça cinza e a túnica sem mangas, amarrando as faixas nos punhos antes de calçar as botas de couro.
Quando já ia sair, os olhos dele pararam na mesinha de cabeceira. A chave da casa do Anel 7 estava largada ali sobre a madeira. Kaito pegou o metal e ficou rodando a chave entre os dedos, o polegar acompanhando os dentes irregulares, bem no momento em que Mayka espiou por cima do ombro e viu o que ele segurava.
— Quer levar?
— Quero.
Ela tirou uma corrente simples de metal prateado que usada e entregou para ele sem falar nada.
— Você vai me dar isso? — Kaito pergunta surpreso
— Eu compro outra depois... — Mayka disse sem dar muita importância e volta dar aquele sorrisinho com a covinha.
Kaito passou a chave pela corrente, pendurou no pescoço e escondeu o metal debaixo da túnica leve. A peça bateu fria contra o peito, e ele fechou os dedos ao redor dela por um segundo, puxando o ar fundo. O nervoso de dobrar terra de novo ainda queimava no estômago, mas, com o peso da chave encostado na pele, era como se a mãe dele estivesse ali junto.
Eles desceram com Âmbar para o pátio exterior do Palácio, onde o ar frio e úmido da manhã beliscou o rosto dele. Jinora já estava esperando na grama. O manto laranja e amarelo batia com o vento, acompanhando o cabelo grisalho que caía solto até os ombros, mas a velha mestra não estava sozinha.
Ao lado dela, uma garotinha vestindo roupas de monge um pouco grandes demais estava sendo arrastada pela grama. O cabelo escuro caía em duas tranças grossas que balançavam com o esforço de tentar segurar as rédeas de um filhote de bisão voador inquieto, que batia a cauda minúscula sem parar.
Assim que as patas encostaram no gramado molhado, Âmbar soltou um ronronar alto e arrepiou o pelo de felicidade com o espaço aberto. Ela deu um salto longo e disparou pelo pátio, esbanjando uma energia que as paredes do quarto do palácio vinham reprimindo há dias.
A corrida, porém, parou num solavanco quando Âmbar cravou as garras na grama ao notar os bisões voadores. O pelo das costas espetou e ela encolheu o corpo, soltando um rosnado territorial contra os animais gigantes. O bisão de Jinora não deu a mínima para a ameaça, apenas abaixou a cabeça imensa com muita calma e deu uma lambida molhada bem no meio da cara da felina.
Âmbar piscou, totalmente desarmada pela baba. Ela chacoalhou a cabeça, pulou para o lado e bateu a pata na grama em provocação, fazendo Pepper responder com um resmungo grave e um balanço de cauda. Em poucos segundos, as duas já estavam correndo pelo pátio numa brincadeira pesada e desajeitada. O pequeno filhote viu aquilo, soltou um guincho animado e entrou na confusão, tropeçando nas próprias patas enquanto tentava acompanhar o ritmo da felina e da velha bisão.
Aya acompanhou a leopardo-veado com os olhos arregalados.
— Vó Jinora, olha o tamanho do gato dele! — Aya gritou maravilhada.
— Kaito, essa é minha neta, Aya — Jinora apresentou, ajeitando a gola do manto. — Ela veio junto para treinar voo com seu novo bisão.
Aya acenou com a mão livre bem na hora em que o filhote espirrou, soltando uma lufada de ar que empurrou a garotinha um passo para trás.
— O nome dele é Fiapo! — Aya avisou, puxando a corda de novo e rindo.
Jinora tirou um apito de madeira da túnica e soprou, não emitindo nenhum som para os ouvidos humanos, mas fazendo as orelhas de Âmbar e do pequeno Fiapo levantarem na mesma hora.
Uma sombra gigante cobriu o pátio quando Pepper encerrou a brincadeira e pousou com um baque pesado perto deles. A bisão voadora já não era a mesma, carregando um pelo grosso mais ralo em algumas partes, a ponta lascada em um dos chifres e a grande seta da testa puxando para um cinza desbotado de velhice. Ainda assim, os olhos castanhos continuavam imensos e mansos.
— Todo mundo a bordo — Jinora chamou, alisando o focinho sardento de Pepper. — Você também, Âmbar.
Âmbar rosnou baixinho, medindo a altura da sela antes de dar um salto preciso e se encolher logo atrás de Kaito e Mayka. Perto dali, Aya tentava escalar o pelo bagunçado de Fiapo, escorregando duas vezes até finalmente conseguir se ajeitar nas costas do filhote.
Jinora puxou as rédeas de couro.
— Pepper... Yip Yip.
Pepper bateu a cauda larga no chão com um estrondo seco que fez a grama tremer, estourando uma ventania no pátio que jogou poeira e mato úmido para todos os lados.
O estômago de Kaito subiu até a garganta quando a gravidade simplesmente parou de puxar. A imensa bisão rasgou o ar e subiu rápido, pesada e ao mesmo tempo assustadoramente ágil. Logo atrás, Fiapo decolou com um pulo desajeitado, batendo as seis patas curtas de qualquer jeito no ar até conseguir estabilizar o voo e seguir a velha Pepper.
O vento bateu forte no rosto de Kaito. A Cidade República engoliu a paisagem lá embaixo. Ele encostou na borda da sela e olhou. Prédios de vidro. Ruas entupidas de carros. Linhas de trem cruzando avenidas.
— A gente não ia treinar na arena do Palácio? — Kaito gritou para vencer o barulho do vento.
Mayka segurou os óculos no rosto.
— O presidente achou melhor um lugar mais... isolado. — Ela fez uma pausa — Nós vamos para as montanhas.
Kaito fechou a cara, sentindo a raiva subir quente pela garganta. Eles queriam esconder ele, tirar o Avatar de perto da cidade civilizada como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir e ferir a diplomacia. Mas, ao olhar de novo para baixo e ver os milhões de pessoas espremidas naquelas ruas, a raiva murchou na mesma hora, cedendo espaço para um nó de pânico no estômago. Eles tinham razão. Se ele perdesse o controle de novo no meio de todo aquele vidro, asfalto e gente, não ia sobrar nada, e o isolamento acabava sendo a melhor saída para todo mundo.
Sentada na cabeça de Pepper, Jinora olhou para trás, e os olhos calmos da mestra do ar estudaram o rosto tenso de Kaito em silêncio.
— Muito ansioso para o treino? — Jinora perguntou. A voz soou clara mesmo com o barulho do vento.
Kaito engoliu em seco. Ele apertou a corrente fina com a chave no pescoço.
— É que... que eu... não dobrei nada desde Zaofu.
Jinora puxou as rédeas de leve, acomodando o peso na sela.
— Não fique pensando nisso.
— E se eu não conseguir dobrar nada?
— Então amanhã você tenta de novo. — Jinora olhou para ele. — Você não precisa dobrar uma montanha hoje, comece com uma pedrinha...
A frase grudou na cabeça dele.
Pepper e Fiapo pousaram em um vale largo cercado por paredões de pedra sólida, levantando uma nuvem de poeira que demorou a baixar. Quando Kaito desceu da sela, a bota de couro afundou na terra solta, subindo um cheiro forte de mato seco. Com o peito ainda apertado de ansiedade, ele olhou em volta esperando dar de cara com uma comitiva grandiosa cheia de bandeiras, tendas chiques e uma tropa de soldados.
Mas não tinha nada. Só o vento batendo no mato alto e o príncipe Bumi.
Bumi estava sentado bebendo um suco verde que mais parecia lodo prensado, usando como banco uma rocha que devia ter dobrado há pouco tempo. Longe da formalidade do dia anterior, o príncipe vestia calças leves verde-escuras e uma túnica marrom sem mangas, deixando os braços musculosos e marcados expostos sob a luz da manhã. Estava descalço, com os pés firmes na terra e o cabelo preso de um jeito bem solto. Com exceção de dois guardas de Omashu parados bem longe fazendo a segurança, o vale estava vazio.
Assim que viu o grupo, Bumi deixou o copo na pedra, ficou de pé e fez uma reverência clássica e polida. Kaito tentou retribuir o cumprimento na mesma moeda, mas sem um pingo daquela classe real, acabou parecendo um robô travado.
— Está um belo dia para treinar, Avatar Kaito — Bumi disse com a voz mansa, mas cheia de pose.
— Sim, está — Kaito concordou, olhando para o céu azul.
Bumi desviou o olhar para Mayka e deu dois passos na direção dela, abrindo aquele sorriso de capa de revista.
— É um treino particular, senhorita — Bumi falou, apontando para a câmera. — Mas se quiser, eu posso te dar uma sessão fotográfica exclusiva.
Kaito sentiu um calor esquisito e incômodo subir pelo pescoço, uma irritação que ele não entendeu de onde veio. Mayka, porém, nem piscou, sustentando o olhar no príncipe com uma expressão séria.
— As fotos são para o Avatar — ela cortou, com o tom mais seco do mundo. — Mas eu tenho certeza de que o príncipe consegue encontrar qualquer garota em Cidade República que adoraria a sua calorosa companhia.
O sorriso de Bumi travou. Completamente sem graça e nada acostumado a levar foras, o herdeiro de Omashu engoliu em seco. Lá atrás, os dois guardas se entreolharam, segurando um sorriso discreto. Kaito não teve a mesma educação e abriu um sorriso largo e óbvio que todo mundo percebeu. Tentando recuperar a pose, Bumi piscou para Mayka, forçando o carisma.
— Então tente buscar o meu melhor ângulo.
— Você não precisa sair nas fotos — Mayka rebateu, encarando ele de frente. — O artigo que a gente está criando só precisa das imagens do Avatar.
Bumi ficou vermelho na hora. Kaito não sabia dizer se era vergonha pura ou raiva por ter o ego amassado, mas o príncipe apenas balançou a cabeça devagar e olhou de Kaito para ela.
— Tudo bem, garota do Avatar.
Assim que Bumi virou de costas, os guardas trancaram a cara e voltaram para a posição de estátua na mesma hora. Sem dar a mínima para o clima, Mayka puxou a pequena câmera portátil Varrick do bolso da jaqueta e apontou direto para os dois.
Bumi abriu a base na terra, estufou o peito e levantou o queixo, assumindo uma postura de dobra tão heroica que parecia uma estátua esculpida direto para os livros de história. Kaito tentou acompanhar erguendo os braços e dobrando os joelhos, mas ficou duro feito uma tábua, parecendo um boneco de madeira prestes a cair de cara no chão.
Mayka suspirou e abaixou a câmera.
— Não. Isso está horrível.
Kaito soltou os braços na mesma hora, aliviado.
— Desculpe.
— Eu estava falando dele — Mayka cortou, apontando a lente para o príncipe.
Bumi desmanchou a pose na hora, ofendido.
— O quê?
— Muito artificial — Mayka explicou, sem cerimônia. — O mundo já tem foto suficiente de você posando. Fiquem normais, pelo amor dos espíritos.
Enquanto Kaito relaxava os ombros com um sorriso de alívio por não precisar mais fingir, Bumi cruzou os braços, ainda com cara de tacho pelo fora.
Click. Mayka bateu a foto de surpresa.
— Pronto, perfeito. — Ela guardou a câmera de volta no bolso. — Eu disse que queria o Avatar de verdade. Já tenho o que eu preciso.
Jinora, que assistia à cena de longe com um sorriso manso, aproveitou a deixa e se aproximou do grupo.
— Eu preciso voltar para o Templo do Ar da Ilha para tratar de alguns assuntos — a mestra avisou.
Mayka ajeitou a prancheta debaixo do braço.
— Eu vou com você. Pode me deixar em Cidade República?
Jinora assentiu e virou para Bumi.
— Deixo o Avatar em suas mãos, Príncipe Bumi.
Bumi fez uma reverência cortês, já recuperado do baque no ego.
— Vamos cuidar bem dele, Mestra Jinora.
O som da decolagem de Pepper sumiu no céu, deixando apenas o vento batendo nas folhas secas do mato alto. Assim que Kaito e Bumi ficaram sozinhos no vale, o ar de seriedade que Jinora impunha evaporou por completo.
— Se deu bem, Avatar! — Bumi soltou uma risada, dando um soco leve no ombro do garoto. — A sua assessora é linda.
Kaito franziu a testa, desviando o olhar.
— O quê? Eu não sei do que você está falando.
Bumi riu mais alto. Ele passou o braço pesado pelo pescoço de Kaito, puxando o garoto para um abraço lateral esmagador enquanto os dois caminhavam.
— Tem muito que aprender ainda, garoto. — O príncipe soltou o pescoço e apertou o braço de Kaito, testando o músculo quase inexistente. — Pelos espíritos, vocês não comem em Zaofu? Olha para essa estrutura. O problema dos dominadores de metal é esse: a força fica toda no equipamento e o corpo some.
Kaito puxou o braço de volta. O estômago afundou. Falar de Zaofu e de magreza acendia memórias de fome que ele queria manter enterradas.
— Eu ainda não domino metal.
Bumi dobrou o próprio braço, fazendo o músculo grosso saltar sob a pele.
— Por isso mesmo. Em Omashu a gente não se escora em subdobra para resolver as coisas. A terra bruta já é forte o suficiente, mas você precisa de estrutura física para aguentar o peso dela.
O comentário desceu atravessado. A imagem do asfalto sujo e da mãe dividindo o pouco de comida que tinham cruzou a mente de Kaito. Ele cravou os olhos em Bumi, a voz saindo dura.
— Nem todo mundo teve a sorte de crescer num palácio comendo banquete o dia inteiro, príncipe. Algumas pessoas são magras porque estavam muito ocupadas tentando sobreviver.
Bumi parou de andar na mesma hora. O sorriso presunçoso desmanchou. Ele abaixou o braço, percebendo no ato que a brincadeira de academia tinha acabado de pisar em uma ferida. O príncipe olhou para a grama e soltou um suspiro pesado pelo nariz.
— É. Você tem razão — Bumi assumiu, a voz perdendo todo o tom de superioridade. — Isso foi ignorante da minha parte. Me desculpe.
Kaito piscou, pego totalmente de surpresa. Ele esperava uma resposta arrogante ou uma defesa de ego, mas recebeu um pedido de desculpas limpo e direto. Bumi não deu tempo para o silêncio constrangedor se esticar. Ele apenas assentiu, virou de costas e caminhou sozinho pelo mato até ficar a uns cem metros de distância para focar no treino.
— Quero que você jogue a maior pedra que conseguir em mim! — Bumi gritou lá de longe, abrindo os braços em um equilíbrio perfeito, como se estivesse esperando uma montanha inteira cair em cima dele.
Kaito encarou o príncipe e depois abaixou os olhos para a poeira no chão. A mente dele engatou de vez, arrastando o garoto direto para Zaofu. O terremoto rachando a avenida principal, a Sombra explodindo os prédios, o rosto da mãe dele ensanguentado. Tentando espantar a memória, Kaito puxou o ar, abriu a base, cravou a bota e fez o movimento de dobra, mas o chão continuou absolutamente morto. Uma onda quente de vergonha queimou a nuca dele.
— Tenta de novo! — Bumi incentivou com sua voz irritante.
Kaito socou o ar. Nada. Ele pisou firme, socou de novo, e de novo, e de novo. A terra não cedeu um milímetro.
Percebendo que havia algo errado, Bumi abaixou os braços e caminhou de volta. Ele parou bem na frente de Kaito e começou a analisar a postura do garoto em silêncio. Os pés completamente cravados de tensão. Os ombros duros esmagando o pescoço. Os punhos apertados até os nós dos dedos ficarem brancos e a respiração curta, presa na garganta. Bumi entendeu o problema na mesma hora.
— Você está segurando — Bumi sentenciou.
— Não estou.
— Está, sim.
— Eu sei dobrar terra Bumi — Kaito rebateu, a irritação já vazando na voz.
— Eu não disse que você não sabe.
— Então qual é o problema?
Bumi apontou com a cabeça para as botas de Kaito.
— Você está com medo dela.
Kaito fechou a cara na mesma hora, os dentes trincados de raiva.
— Eu não tenho medo da terra.
Bumi ergueu o rosto e sustentou o olhar furioso do garoto com uma calma absurda.
— Então por que você pede desculpa para ela toda vez que tenta dobrar?
O silêncio engoliu Kaito. Ele abriu a boca para se defender, mas a voz simplesmente não saiu. Movido puramente pela teimosia, ele forçou o corpo a tentar dobrar mais uma vez, mas os músculos travaram no meio do caminho e o chão continuou intacto. Sem pressionar, Bumi apenas virou as costas e sentou em uma pedra baixa ali perto, esperando o garoto aceitar o próprio bloqueio.
— Tire as botas.
Kaito olhou para ele, desconfiado.
— Por que as botas?
Bumi franziu a testa, confuso.
— Quer tirar mais alguma coisa?
Kaito engoliu em seco e sem graça.
— Não nada.
Kaito desamarrou os cordões de couro e puxou as botas pesadas, afundando a sola nua no chão. O frio da terra solta do vale subiu pela pele dele na mesma hora. Era o primeiro contato real que ele tinha com a terra pura depois de semanas isolado no metal e na pedra polida do templo.
— Quem ensinou você a dobrar lá em Zaofu? — Bumi perguntou, observando o garoto mexer os dedos do pé na poeira.
Kaito apertou os lábios. A mão dele subiu por instinto, encostando no formato da chave escondida debaixo da túnica. A imagem do quintal esburacado da casa no Anel 7 cruzou a mente dele. O rosto suado da mãe.
— Foi a minha mãe — ele respondeu. A voz saiu um pouco mais presa na garganta, hesitando. — Ela dizia que a terra não era só um peso morto. Que eu tinha que... escutar o chão primeiro. Sentir a vibração, e só puxar quando ele deixasse.
O sorriso presunçoso de Bumi deu lugar a uma expressão de respeito silencioso.
— Então ela já fez metade do meu trabalho.
Kaito soltou a chave.
— Como assim?
Bumi bateu o próprio calcanhar descalço no chão, levantando uma nuvem fina de poeira.
— Escutar o adversário, entender o terreno e esperar o momento exato de agir. A minha família chama isso de Jing neutro.
Kaito cruzou os braços na defensiva.
— Isso é só um jeito enfeitado de falar "não fazer nada".
— Não fazer nada é covardia, o Jing neutro é paciência — Bumi corrigiu. O príncipe desencostou da pedra e ficou de pé, a postura séria de um verdadeiro mestre assumindo o controle. — Parece a mesma coisa, mas só para quem é desesperado e age por impulso. A terra avisa tudo o que vai acontecer antes mesmo de você precisar mandar ela fazer qualquer coisa, Kaito. Tente escutar.
Kaito fechou os olhos, tentando focar apenas na sensação do solo debaixo da sola do pé, mas o escuro da mente fez o exato oposto. Os gritos de Zaofu, as explosões da Sombra e o som pesado de concreto desabando bateram na cabeça dele de uma vez só. O garoto abriu os olhos num solavanco, puxando o ar seco pela boca.
— Do que é que você tem tanto medo? — Bumi perguntou. A voz saiu grave e sem nenhum traço de deboche.
— Eu não tenho medo! — Kaito rebateu na hora, a voz falhando na ponta.
Bumi apenas sustentou o olhar, lendo a tensão nas mãos trêmulas do garoto.
— Quer falar de Zaofu?
Kaito engoliu a seco, apertando os próprios dedos na tentativa de amassar o tremor.
— Não sei como isso pode ajudar em alguma coisa.
— Tem claramente alguma coisa aí dentro querendo sair, e você está gastando toda a sua energia para não deixar.
O garoto encarou a poeira. A resistência física dele simplesmente cedeu. Kaito dobrou os joelhos e sentou de qualquer jeito na terra solta. Bumi não disse uma palavra. Apenas acompanhou o movimento, sentando do lado dele, e esperou.
E então, mantendo os olhos cravados na grama amassada para não ter que encarar o príncipe, Kaito começou a falar. Contou sobre o dia do ataque. Da Sombra rasgando a avenida de metal, do rosto ensanguentado de Nia, e daquele pânico puro de sentir que o próprio poder tinha saído do controle e virado uma arma letal contra si mesmo.
— É muita coisa para carregar sozinho — o príncipe disse, depois de um longo tempo em silêncio. — Eu sinto muito pela sua mãe.
Kaito deu um aceno curto com a cabeça. A sinceridade limpa na voz de Bumi desarmou o resto da defensiva que ainda pesava nos ombros dele.
— Eu acho que você está bloqueado — Bumi concluiu, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Bloqueado?
— Acontece com alguns dobradores. O nosso chi costuma ser bloqueado de fora para dentro, por causa de um golpe físico no meio de uma luta, por exemplo. Mas outras vezes, Kaito, o bloqueio vem direto de dentro.
Bumi soltou o peso do corpo de uma vez. Ele jogou as costas para trás e caiu deitado direto na terra seca, levantando uma nuvem rala de poeira ao redor dos ombros. O príncipe esticou as pernas, cruzou as mãos atrás da nuca e ficou encarando o céu, completamente relaxado, como se aquele chão duro e sujo fosse o colchão mais caro do palácio de Omashu.
— Vem — Bumi chamou, batendo a palma da mão na poeira ao lado dele. — Se joga.
Kaito engoliu a seco e cedeu. Ele dobrou os joelhos primeiro, sentindo o tecido da calça raspar no cascalho, e então deixou as costas caírem devagar. A terra era dura, fria e cheia de pedrinhas irregulares, mas o contato mandou uma vibração sólida direto para a espinha dele.
— Fecha os olhos — Bumi instruiu, a voz perdendo qualquer traço de deboche. — Pensa em tudo isso. Em Zaofu, nessa Sombra estranha e no caos. Mas em vez de segurar o impacto, deixa a terra sugar esse bloqueio. Devolve o peso para ela.
Kaito obedeceu. Ele apertou as pálpebras, e o escuro trouxe o trauma de imediato, misturando o barulho de metal rasgando com a sensação do chão cedendo debaixo das próprias botas. A imagem do asfalto engolindo os prédios e o grito da mãe fizeram o peito do garoto apertar até doer. Os ombros dele encolheram tensos e o ar travou na garganta, deixando ele a um milésimo de segundo de abrir os olhos e levantar em um pulo, sufocado pelo próprio pânico.
Foi quando o primeiro impacto bateu no chão.
Um baque abafado e pesado. Bumi tinha socado a terra seca bem do lado dele. Depois veio outro soco. Mais um, firme e constante. O pulso viajava pela poeira, atravessava a pele e batia direto na espinha de Kaito, cortando o pânico com um choque físico. Não era um terremoto destruindo uma cidade. Era um ritmo calmo e cadenciado, como um coração de pedra batendo devagar debaixo da superfície.
— Respira — Bumi pediu, a voz estável vindo lá de cima. — Deixa a terra levar tudo embora.
O nó na garganta de Kaito queimou, mas, dessa vez, em vez de prender o ar e se encolher para se proteger, ele forçou o próprio corpo a ceder. O garoto soltou uma respiração tremida pela boca e deixou as costas pesarem de vez contra o solo.
A cada soco de Bumi, a vibração subia pelos ossos dele. E a cada batida, Kaito sentia o peso da Sombra, do medo e da culpa escorrendo pelas costas, afundando na terra e se espalhando para o fundo do vale. A terra não estava ali para quebrar. Ela estava ali para segurar ele.
Aos poucos, o barulho de concreto desabando sumiu. A imagem do desastre foi se desfazendo, substituída apenas pela sensação quente da poeira embaixo dele e pelo formigamento contínuo na pele. Ele não estava mais caindo. Estava ancorado.
— Estou sentindo... — Kaito murmurou, a voz rouca quase sumindo no barulho do vento.
Bumi soltou uma risada baixa e orgulhosa.
— Eu sabia que você não ia decepcionar. Deixa a terra levar tudo. Escuta o que está embaixo de você.
Kaito respirou mais fundo. A cada batida de ar nos pulmões, a vibração ficava mais clara. A cabeça esvaziou. Ele conseguiu sentir o peso dos dois guardas de Omashu patrulhando muito longe dali. Sentiu a densidade das raízes velhas das árvores. Chegou a sentir a movimentação minúscula das formigas cortando o chão perto do ombro dele. Tudo pareceu ficar incrivelmente mais leve.
— Como se sente? — Bumi perguntou.
— Me sinto parte da terra.
— Excelente.
Bumi deu um salto e ficou de pé num movimento só. Com um chute sutil no solo, a terra nas costas de Kaito deslizou e empurrou o garoto para cima, botando Kaito de pé em um solavanco perfeito.
— Agora podemos começar — Bumi disse.
Kaito sorriu, finalmente mais confiante. Ele assumiu a base, bateu o pé no chão com vontade e abriu os braços.
— Agora não dobra nada — Bumi cortou.
Kaito quase tropeçou, parando o movimento na metade.
— Você me trouxe até aqui pra eu não dobrar?
— Exatamente. — Bumi andou para o lado, saindo do campo de visão dele. — Fecha os olhos.
Kaito bufou, mas fechou. Bumi começou a andar em círculos silenciosos ao redor dele.
— Onde eu tô? — o príncipe perguntou.
Kaito apontou para a direita. Uma pedrinha voou e bateu direto no ombro dele.
— Ai! — Kaito reclamou.
— Errado. De novo!
Bumi andou. Kaito apontou. Errado. Outra pedrinha bateu na perna dele. Kaito tentou de novo. Errado. Até que ele relaxou o peso nos calcanhares. Ele parou de tentar escutar com os ouvidos e focou na sola do pé.
Tum
Um passo descalço muito leve bateu na poeira. A vibração minúscula percorreu o solo e formigou no calcanhar esquerdo de Kaito.
— Esquerda — Kaito disse.
O silêncio reinou no vale. Kaito abriu os olhos. Bumi estava parado exatamente à esquerda dele, de braços cruzados e sobrancelha erguida. Kaito abriu um sorriso involuntário. Era um sucesso ridículo de pequeno. Mas era real.
— Bom... — Bumi andou um pouco mais longe. — Agora de novo. Fecha os olhos.
Kaito fechou. O exercício continuou. Kaito errou mais duas vezes e começou a se frustrar de novo. A tensão voltou para os ombros. Ele abriu os olhos para reclamar com Bumi. Mas ele não olhou para o príncipe. O olhar dele parou em uma formação de pedra alta e pontiaguda no canto do vale.
Pousado na ponta da pedra, estava um pássaro grande de penas azuis e brilhantes. O pássaro espiritual o encarava de volta com grandes olhos prateados. Kaito o reconheceu na mesma hora. Era a mesma criatura que tinha visto na chegada à Cidade República. O pássaro abaixou uma das garras e bateu na pedra.
A vibração desceu pelo pilar de rocha, viajou por debaixo do mato seco e encostou na sola do pé de Kaito. Ele sentiu. Por um segundo, aquela mesma sensação de paz absoluta que ele teve no cais lavou o corpo inteiro dele.
— Kaito... — Uma voz feminina soou dentro dele
— Sentiu? — Bumi perguntou, ali perto.
Kaito virou o rosto para o príncipe.
— Você viu o pássaro?
— Que pássaro? — Bumi olhou ao redor, confuso.
Kaito voltou o rosto para o pilar. Não tinha mais nada lá. Só pedra vazia.
— Tinha um pássaro ali — Kaito engoliu em seco.
Bumi olha para o pilar e volta a olhar para Kaito confuso. Ele se aproximou e chutou uma pedra solta na grama. Não era um pedregulho. Era uma pedra do tamanho exato de uma maçã-carambola.
— Levanta ela — Bumi mandou.
Kaito abriu a base. Puxou a mão para cima. Nada aconteceu.
— Não empurra com os músculos — Bumi avisou. Kaito tentou de novo, focando na força dos braços. A pedra não se mexeu um milímetro. — Você tá pensando em Zaofu de novo.
Kaito parou e abriu os olhos, irritado.
— Como você sabe?
— Porque toda vez que você pensa na sua cidade, você prende a respiração. A energia não flui.
Era um detalhe ridículo, mas a observação do príncipe foi tão precisa que Kaito soltou o ar que nem tinha percebido que estava segurando. Ele fechou os olhos e respirou devagar, transferindo toda a atenção para o peso do próprio corpo contra a poeira e para a pedra bem na frente dele. Sentindo a presença de Bumi parado à direita e a energia silenciosa do vale ao redor, o garoto não buscou poder nem tentou abrir crateras, procurando apenas uma conexão pura, e no instante em que a rocha no chão respondeu com um tremor físico, Kaito arregalou os olhos.
— Não olha pra ela — Bumi falou baixo. — Continua escutando a terra.
Kaito manteve os olhos na pedra e levantou as mãos muito devagar, guiando a energia das costas para os dedos até a rocha descolar do mato e flutuar no ar. Ela subiu um, dois, talvez três centímetros, tremendo suspensa por três segundos inteiros antes de o foco dele escorregar e a pedra cair de volta na poeira. Completamente imóvel e com os ombros duros de tensão, Kaito olhou em volta percebendo que o asfalto não abriu, nenhum pilar rachou ao meio e ninguém estava gritando de pânico, pois a terra não ia engolir a montanha só porque ele tinha movido uma pedra inofensiva.
Kaito olhou para Bumi. O príncipe não fez espetáculo. Ele não bateu palma, não gritou que o Avatar tinha voltado, nem fez festa. Bumi só estava lá, de braços cruzados, com um sorriso muito sutil e satisfeito no canto da boca.
— De novo — Bumi pediu.
Kaito olhou para a pedrinha no chão. Depois olhou para a própria mão suja de poeira e suor. Um sorriso aliviado e genuíno começou a quebrar a tensão no rosto dele.
— De novo — Kaito concordou.
Fale com o autor