A Lenda de Kaito
2 Capítulo 1 – Recomeço
Notas iniciais
O céu parecia chorar junto com o mundo. Quatorze anos tinham passado desde que o Avatar desapareceu. E ninguém sabia se a Korra ainda estava viva. As nações esperavam, mas a espera virou uma Sombra que crescia a cada dia. Diziam que ela ainda vivia, escondida entre os espíritos; outros achavam que o ciclo tinha quebrado para sempre.
Mas no coração do Reino da Terra, agora uma potência global protegida por muralhas de metal e jade, ainda tinha uma esperança: que o próximo Avatar ia nascer de novo para trazer a luz de volta para a escuridão. O sol subia sobre Zaofu, banhando os domínios de metal em um ouro calmo. Mas Kaito não via nada disso, porque sua mente afundava em um pântano espiritual.
A lama puxava os pés dele para baixo e um frio grosso subia pelas pernas. Cada passo pesava toneladas. Na neblina escura, um vulto parou. Dois olhos vermelhos queimavam no escuro, presos em uma figura que vestia um manto preto que nem balançava com o vento. Nas mãos da criatura, uma fumaça suja comia o ar ao redor, enquanto o pântano inteiro gemia.
A Sombra andou devagar, olhou fundo e falou:
— Raava.
A mão pálida subiu. O ar travou no peito do Kaito antes de um clarão branco estourar nos olhos dele, jogando o garoto de volta para a realidade, puxando o ar de uma vez só no quarto.
Kaito abriu os olhos de repente. Puxou o ar com força, o coração batendo feito um tambor no peito. O suor gelado escorria pelo rosto dele. O quarto estava em silêncio absoluto. A luz fraca da manhã começava a entrar pela cortina. Por alguns segundos, ele não conseguiu separar o pesadelo da vida real.
— Raava... — O nome escapou da boca dele, em um sussurro seco.
Ele olhou para o lado. A mãe dele continuava dormindo na outra cama. O rosto da Nia estava calmo. A luz do sol iluminava os fios prateados misturados no cabelo escuro e as linhas marcadas de quem já tinha sobrevivido a muita coisa. A cadeira de rodas de metal, fria e parada ali perto, era a prova disso. Kaito soltou a respiração. Ela estava bem. Eles estavam seguros.
Ele jogou o lençol velho para o lado e sentou na beirada da cama.
No chão, o Âmbar levantou a cabeça. O bicho esticou as patas e espreguiçou o corpo musculoso, uma mistura ágil de felino com cervo. A luz matinal batia na pelagem dourada cheia de manchas escuras e refletia nos chifres longos do animal, que pareciam galhos de madeira dura e polida.
Ele andou devagar até o Kaito e esfregou o focinho quente na mão do garoto. Soltou um grunhido baixo, que vibrou na garganta como um trovão distante.
Kaito sorriu fraco e fez carinho no pescoço do animal. O toque firme e quente puxou a mente dele de vez para a realidade. O pesadelo ia ter que ficar para trás. O dia não ia esperar.
Kaito foi para a cozinha. O ar ali era sempre mais leve. O sol da manhã entrava pela janela e batia direto no bule de metal no fogão. O cheiro doce do chá de jasmim já tomava conta da casa.
Ele não inventou muito. Cortou duas fatias grossas de pão, jogou na chapa quente e encheu duas tigelas com o mingau feito de leite de ovelha-coala que já borbulhava. Colocou do lado um pote de geleia de morangos-de-fogo adoçada com mel de abelha-escorpião, e era isso. O ritual simples que mantinha o mundo dos dois no eixo.
Com a xícara quente na mão, ele voltou para o quarto. Nia já estava de olhos abertos.
— Bom dia. — Ele falou baixo.
Nia virou o rosto. O sorriso apareceu fácil, repuxando as linhas de expressão ao redor dos olhos verdes.
— Acordou cedo de novo. — Ela murmurou, a voz ainda pesada de sono. — Não precisa fazer o café sozinho todo dia, Kaito.
Ele sentou na beirada da cama e entregou a xícara para ela.
— É só chá e mingau, mãe. Nada demais.
Nia pegou a xícara com as duas mãos. Soprou o vapor, tomou um gole e fechou os olhos. A paz daquele momento era real e quase palpável.
— Você tem as suas coisas da Academia para se preocupar. — Ela abriu os olhos, encarando ele com aquele olhar de mãe que sempre acha que o filho está escondendo algo. — Tem que cuidar de você.
Kaito sorriu e balançou a cabeça.
— A gente é uma equipe, lembra?
Ele deu um empurrãozinho de leve no ombro dela. Nia riu, um som solto que preencheu o quarto.
— Uma equipe onde a mãe velha só dá trabalho.
— Você não é velha. — Kaito rebateu na hora. — Só tá inventando desculpa para comer na cama.
Ela levantou uma sobrancelha, fingindo indignação.
— Ah, é? Então vai buscar o meu pão antes que eu levante daqui e corra uma maratona em volta de Zaofu.
Kaito deu uma risada sincera. O aperto escuro no peito, herança do pesadelo, sumiu de vez. Aquele momento, o cheiro do chá e a voz da mãe... aquilo era a vida real.
Kaito deixou o quarto e foi para o banheiro.
Ele abriu a torneira. A água fria bateu no rosto e lavou de vez o resto do sono. Apoiou as mãos na pia e encarou o espelho.
O garoto refletido no espelho parecia frágil demais para Zaofu.. A pele clara pontilhada de sardas, o cabelo escuro e cacheado caindo sem jeito na testa, e os ombros estreitos. Ele puxou o ar e estufou o peito, mas as costelas continuavam marcando sob a pele. Na Academia de Metal Toph Beifong, os outros aprendizes já pareciam pequenas montanhas. Kaito parecia um graveto.
Ele vestiu a túnica verde-escura do uniforme. O tecido era grosso, feito para aguentar o tranco dos treinos. Mas o peso de verdade estava na última peça. Kaito passou o cinto metálico ao redor da cintura e travou a fivela. O metal gelado encostou no corpo dele. Era do pai. Uma herança pesada demais para a cintura fina dele.
O olhar de Kaito caiu sobre um pequeno castiçal de prata, esquecido na borda da pia.
Ele parou. Respirou fundo e esticou a mão direita na direção da peça.
Ele buscou a conexão. Tentou sentir o metal. Concentrou a energia e fez o movimento rápido com os dedos, puxando o ar para si.
O castiçal nem se mexeu.
Kaito cerrou os dentes. Ele firmou a postura, dobrou um pouco os joelhos e tentou de novo. Dessa vez com força. Ele contraiu os músculos do braço, puxando o chi do estômago direto para a ponta dos dedos. A testa suou. Ele exigiu que o metal obedecesse.
Nada. O castiçal estava mudo e imóvel.
Kaito soltou o ar de uma vez. O braço caiu solto do lado do corpo. A frustração bateu seca, feito um soco no estômago. O castiçal continuava ali, intacto, esfregando a falta de talento na cara dele.
Kaito abaixou a cabeça e olhou para o cinto brilhando na própria cintura.
“O seu pai teria conseguido.”
A frase rasgou a mente dele. Rápida e cruel. Não precisava de mais nada para explicar o buraco que ele sentia no peito.
Ele jogou água no rosto mais uma vez e bagunçou o cabelo. O mundo lá fora já estava acordado, e o dia não ia esperar ele virar um mestre. Tinha que ir.
Kaito saiu do banheiro. A luz da manhã batia no chão de pedra, iluminando a poeira que flutuava no ar. O uniforme verde-escuro da Academia de Metal ficava um pouco largo nos ombros dele, mas o cinto do pai apertava a cintura e mantinha tudo no lugar.
A cama desarrumada no canto lembrava as horas mal dormidas e os pesadelos, mas ele balançou a cabeça para espantar a memória.
A Âmbar estava no pé da cama. O animal esticou as patas e soltou um grunhido grave, como se avisasse que já estava pronto para sair. A mãe dele já estava sentada na cama, prendendo o cabelo. Os fios prateados se misturavam com o escuro. Ela olhou para o Kaito e deu um sorriso leve.
— Tá bonito. — A voz da Nia saiu mansa, quebrando o silêncio do quarto.
Kaito corou de leve. Ele deu um sorriso torto e ajeitou a gola da túnica, um pouco sem jeito.
— Obrigado, mãe. Já vou indo.
Antes que o Kaito virasse para a porta, a Nia levantou a mão direita. Dois dedos esticados. O ar do quarto zumbiu.
A cadeira de rodas de metal não apenas deslizou até ela. O material estalou, vivo, respondendo ao comando da dobradora. Mas a Nia não sentou. Com um giro seco do pulso, as placas da cadeira se desmontaram no meio do ar.
Pedaços grossos de aço voaram. As placas se encaixaram nas pernas dela, formando uma estrutura de suporte que abraçava suas coxas e panturrilha. O som do ferro ecoou forte. Barras pesadas travaram ao redor dos joelhos dela. Uma estrutura fina e rígida subiu pela espinha, encaixando nas costas com cliques secos e violentos.
A Nia travou o maxilar. O suor brotou na testa dela na mesma hora. As veias do pescoço e do braço saltaram enquanto ela segurava a tensão nos dedos. Não era mágica. Não era nenhum milagre espiritual curando a deficiência dela. Era a força bruta de uma mulher dobrando o metal para obrigar o próprio corpo quebrado a obedecer.
O aço rangeu, lutando contra a gravidade. E ela subiu. Devagar. Centímetro por centímetro.
Nia ficou de pé.
Os suportes nas pernas dela tremiam sem parar, soltando estalos baixos sob a pressão insana do peso. Ela respirava curto, puxando o ar com esforço, mas a coluna estava reta. O olhar dela pegava fogo. Uma guerreira segurando a própria estrutura na marra, maior do que qualquer limitação.
Kaito sentiu um nó na garganta. Ele via a dor nos olhos da mãe, mas também via uma força absurda. Ela estava de pé. Respirando fundo, mas de pé.
Depois de alguns segundos, ela relaxou a postura. O metal desceu fluido de novo, montando a cadeira atrás dela, e ela sentou. Respirava um pouco mais rápido, mas exibia um sorriso teimoso no rosto.
Kaito foi até ela.
— Mãe... — A voz dele saiu baixa. — Você acha que um dia eu vou conseguir dobrar metal desse jeito como você e o papai?
Nia olhou para ele. O sorriso continuou lá, mas os olhos ficaram mais sérios. Ela segurou a mão do filho.
— Você não precisa ser como o seu pai, Kaito.
Ele engoliu seco e ergueu os olhos, sentindo o peso do cinto de metal na cintura.
— Mas eu quero ser forte.
Nia apertou a mão dele de leve.
— Então fique forte. Só não tente virar outra pessoa para conseguir isso.
Kaito sentiu um arrepio. A frase bateu direto onde doía, mas, ao mesmo tempo, tirou um peso enorme das costas dele. Ele assentiu devagar, deu um beijo na testa dela e saiu do quarto.
Do lado de fora, o ar de Zaofu estava fresco. Kaito subiu nas costas de Âmbar. O animal dourado andou com passos macios pela rua de pedra, deixando a casa simples para trás.
Tudo parecia normal. O barulho da cidade acordando, o cheiro de metal limpo e o céu claro.
Mas de repente, o Âmbar parou.
O animal travou as patas no chão. Os chifres curvaram para trás e o pelo dourado do pescoço arrepiou inteiro. Kaito olhou em volta. A rua estava vazia.
— O que foi, garota? — Ele sussurrou, apertando as pernas contra o bicho.
Âmbar não rosnou. Ele só olhou fixo para o céu. E então, o vento parou. O barulho de Zaofu sumiu por completo. Por um segundo, Kaito ouviu. Bem perto do ouvido, como se tivesse alguém logo atrás do ombro dele:
— Raava.
Kaito virou o corpo de uma vez só, com os olhos arregalados. Nada. Só o vento batendo nas folhas de novo.
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