Notas iniciais
Olá, cara leitor(a). Antes de começar a ler, gostaria que lesse aqui. Novamente tive uma notável demora em atualizar a história e, em vez de novamente pedir desculpas, já quero deixar claro aqui que não vou mais dizer que tentarei atualizar mais rapidamente. Porque eu sei que não vou. A real é que estou tendo não apenas um monte de tarefas prioritárias e que me demandam maior foco de tempo, mas que minha vida segue uma rotina mais agitada e cheia (coisas da vida adulta) e vai permanecer assim. Estou procurando me organizar e sendo produtiva em várias áreas de coisas que me propûs a manter e fazer. Porém, a escrita não consta na prioridade mais prioritária e fatalmente acaba ficando "um pouco pra depois" (inclusive, dei uma engavetada nos meus originais enquanto sigo focando em produzir no cosplay e outras áreas). Por isso, peço paciência com minhas demoras em atualziar, mas saiba que faço isso pra poder, quando me foco em escrever cada capítulo, fazer o melhor e o mais caprichoso possível. Dito isso, deixo para comentar sobre esse capítulo nas notas finais. Boa leitura.

~*~


Crystal fechou os olhos e relaxou mente e corpo.
Direcionou seus pensamentos para os sons e sensações da natureza. Os suaves raios de sol tocando na pele, o gosto salgado da maresia em sua boca, o vento refrescante em seus cabelos, o cheiro do mar e o canto dos Wingulls que sobrevoavam o céu. Mas o que mais a inebriava eram os sons das ondas do mar se quebrando conforme chegavam na margem da areia. Adorava aquele som. Era como se o mar lhe chamasse. Uma estranha vontade de aceitar a liberdade do oceano e tornar-se parte dele.
— Crystal, pega logo senão vai derreter!
Abriu os olhos e diante de si estava um enorme sorvete de casquinha, com calda e tubinhos recheados. Pegou-o da mão de Alice, que mantinha outro igual para si.
— Pode comer tranquila que não tem Vanillite nenhum no meio!
Crystal riu pela amiga lembrar-se do que havia lhe contado sobre a vez que abocanhou o Pokémon sorvete distraída, achando que era um sorvete de baunilha.
— Não pensei que o sorvete daqui fosse tão grande!
— Depois da viagem até aqui naquele trem lotado, acho justo que a gente se empanturre de sorvete! Opa, rápido! Vamos sentar ali antes que alguém sente!
Alice apontou para um dos bancos colocados na extensão semicircular que permitia uma visão turística do cenário a frente.
E aquele cenário era de uma beleza estonteante.
O sol irradiava sobre todo o oceano, que se estendia infinitamente, a água tão azul que parecia ter sido pintada. Era possível ver algumas embarcações, grandes e pequenas, bem como a praia de areia brilhante ao sol.
Olivine era a cidade de Johto que muitos consideravam “perfeita” no sentido econômico. Ao mesmo tempo em que era uma cidade turística com suas belas e agradáveis praias, era também um pólo econômico importante devido a extensa zona portuária, que recebia contêiners de importação e exportação que iam e vinham de todas as regiões do mundo.
Graças á isso, a cidade cresceu exponencialmente nos últimos anos, com o governo de Johto investindo muito em melhorias para o constante desenvolvimento da cidade, que já começava a rivalizar com Goldenrod no título de maior metrópole de Johto.
Olivine ainda era uma das cidades mais antigas de Johto/Kanto, perdendo apenas para a anciã Ecruteak. Lendas e certos registros históricos diziam que fora em Olivine que outrora houvera um grande reino e no qual ocorrera uma violenta e sangrenta batalha em tempos antigos.
Cystal e Alice saborearam seus sorvetes enquanto contemplavam o oceano.
— Essa paisagem é mesmo espetacular.
— É. – Alice suspirou. – E lá na frente, bem pra lá, fica o arquipélago das Ilhas Chamouti.
— Dizem que as praias das Ilhas Chamouti são belíssimas. Mas as praias de Olivine são muito bonitas também! E mesmo daqui de cima dá pra ver que a praia está cheia. — Crystal colocou a mão na testa, improvisando uma viseira para enxergar melhor na claridade que se refletia no mar. — Também, com o sábado de sol e calor que está fazendo hoje...pessoal deve estar aproveitando á beça!
A treinadora recostou-se no banco e comeu mais um pouco do sorvete antes de continuar.
— Eu adoro praia, sabe. – falou. – Desde criança eu adorava quando ia viajar com os meus tios até aqui. Era tipo “a grande viagem” que fazíamos uma vez por ano. Eu ficava brincando de fazer montinhos de areia fingindo que eram castelos á beira-mar...mas o que eu gostava mesmo era do oceano. Se deixassem, eu só queria ficar brincando na água, pulando as ondas...minha tia ficava doida com medo de eu ir muito pro fundo ou acabar pegando uma insolação por ficar tantas horas no sol e na água salgada. Não sei explicar, mas é como se o mar fosse algo que fizesse parte de mim, algo que eu precisasse, sabe? Bom, dizem as tradições que tem todo aquele lance do mar limpar nossa energia. De levar energias ruins e trazer boas, revitalizar. De repente, pode ser isso...mas acho que eu fui destinada a adorar o mar afinal, o meu sobrenome é Marine! – ela riu. – Mas, lembrando agora, faz mais de ano que não vou á praia. A última vez foi em Hoenn, durante minha primeira Jornada Pokémon, mas eu nem entrei na água. Em Olivine mesmo, a última vez que fui eu tinha uns onze anos...uau, faz um bom tempo!
Crystal parou de falar, notando que Alice estava quieta comendo seu sorvete.
— Ah, minha nossa, desculpa! – Crystal exclamou, corando constrangida. – Eu fiquei falando sem parar, dando uma de tagarela com assunto desinteres...
— Vamos à praia.
— ...hã?
— Termina logo esse sorvete e vamos descer até a praia ali na frente e dar um mergulho no mar.
— ...a-agora?!
— Sei que tá um sol forte, mas até chegar lá e nos trocarmos, já será final de tarde e podemos aproveitar bem!
— Mas...eu preciso focar na minha jornada Pokémon. Sinto que tenho me dedicado menos do que deveria, o tempo está passando rápido, preciso treinar meus Pokémon, planejar uma nova estratégia para enfrentar o ginásio daqui e...
— É só uma diversãozinha básica por algumas horas. – Alice estreitou os olhos. – Ou você não está querendo ir à praia?
— ...ló-lógico que eu quero ir!
— Então trate de terminar esse sorvete e vamos!
— ...s-sim, senhora!
Se estivesse em jornada sozinha, Crystal sabia que estaria tão focada em conseguir insígnias e treinar seus Pokémon. Que iria se convencer de que não poderia perder tempo com outras coisas, mesmo que fosse para se divertir um pouco. Havia agido assim durante sua jornada Pokémon por Hoenn.
Ainda bem que não estava sozinha na jornada por Johto.

~*~


Crystal olhou para o próprio reflexo no espelho do trocador. Ainda que sempre levasse um maiô no fundo da mochila, não pensou que acabaria realmente o usando.
E que não iria gostar muito do que via.
— E ai, já está pronta?
A cortina do trocador foi aberta e Alice entrou, fazendo Crystal tomar um sustinho.
— A-Alice, alguém pode me ver vestida assim!
— Mulher, a gente vai vestida assim na praia, não tem que ficar preocupada e...
Alice mediu a amiga de cima á baixo.
— O...o que foi...?
— E esse traje de banho?
— Ah, esse maiô... – Crystal murmurou. – É o único que eu trouxe na mochila. Ele é da época que eu fazia aulas de natação.
— Olha, não é por nada não e até entendo que você possa ter algum apego emocional, mas...ele é um pouco sem graça.
— Não tem problema! – Crystal deu um sorriso forçado. — Ele é um pouco velho, mas não tem um rasgo sequer!
Alice fez “hum”, saiu do trocador e fechou a cortina, enquanto Crystal voltava a se olhar no espelho, não satisfeita com o que via ali. De fato, aquele maiô era antiquado e mesmo que não tivesse nenhum rasgo, estava desbotado.

“ Mas quem estou tentando enganar? O que mais me incomoda é o meu corpo magricela e sem graça...”


A cortina do trocador se abriu novamente.
— Aqui, usa esse biquini! – ordenou Alice estendendo um conjunto preso no cabide. – É sua numeração e a cor pink combina com o seu cabelo!
— Mas...não estou com dinheiro pra...
— Eu já comprei pra você, veste.
— Comprou?! Eu não...
— É presente! Veste.
—Não precisava ter gastado comigo de novo...
— VESTE.
Á ordem e expressão de Alice, Crystal obedeceu enquanto Alice fechava a cortina do trocador para que a amiga se vestisse.
Crystal colocou o biquíni e realmente era bonito, contrastando bem com seu cabelo tingido de azul. O biquini ainda possuía o detalhe bem charmoso de miçangas coloridas em formato de pokébolas.
Não demorou para que a cortina do trocador fosse novamente aberta por Alice.
— Ah, eu sabia que esse ia ficar bom em você!
— Hãn...é um biquini muito bonito, mas...não sei se combina comigo...
— Por quê?
Crystal apertou os lábios e tornou a se olhar no espelho. O problema não era o biquíni, mas o seu corpo. Mas como dizer que não se achava atraente?
— É igual o meu, só muda a cor, que é roxo!
Isso era verdade. Porém, embora os biquinis fossem praticamente iguais, quem os vestiam não tinham corpos semelhantes. Alice possuía um corpo curvilíneo, com quadril e seios de tamanhos atrativos.
— E você está ótima, vamos!
Resignada, Crystal vestiu seu camisetão com estampa de Pikachu surfista e acompanhou Alice para fora da área dos trocadores.
— Agora temos um problema... – a treinadora comentou. – Onde vamos colocar nossas mochilas? Tipo, minha pokégear eu posso deixar na minha pochete presa na cintura. Fica estranho, mas é o que dá pra fazer junto com o cinto de pokébolas e...
— O problema já está resolvido!
Alice indicou uma grande parede na qual havia fileiras de prateleiras individuais com portinholas acopladas com um painel digital.
— Ah, são Guarda-Tudo! – exclamou Crystal se aproximando. – E esses são digitais, iguais aos que tinha nos estádios da Liga Pokémon de Hoenn!
— Eu já ia achar estranho se não colocassem isso aqui na praia. – Alice comentou enquanto colocava sua mochila e sua bolsinha de pokébolas – Eu usava muito eles quando ia em eventos, baladas e shows...é muito prático pra não ter que ficar carregando um monte de coisa. E esses com painéis com impressão digital são muito melhores do que aqueles antigos com chaves, que era mais fácil de perder. E se der qualquer problema – ela apontou. – Tem um funcionário pra nos ajudar.
Após deixarem seus pertences, registrarem as digitais e efetuarem o pagamento, as duas garotas estavam prontas para curtir a praia. Crystal ficou um pouco receosa ao ter que deixar suas pokébolas ali, mas era melhor do que ficar andando com o cinto por cima do biquini.

~*~


Crystal sentiu a areia fofa em seus pés, colocando a mão sobre a testa para ver melhor à frente.
A praia se estendia por um longo caminho, com muitas pessoas e Pokémon ali, todos aproveitando o ensolarado fim de tarde.
— O pessoal aqui na praia está bem animado!
Alice tinha razão. Havia uma quantidade grande de pessoa, mas não ao ponto de deixar a praia lotada. E muitos ali estavam na companhia de seus Pokémon.
Em uma rápida análise, Crystal viu um marrombeiro correndo á beira-mar na companhia de seu Machoke, na beira da água, uma mãe com um garotinho de boia nos braços aprendendo a nadar ao lado de seu Wooper , duas crianças brincavam na areia junto de seu Piplup, que fazia bolhas de água para diverti-las, uma moça se bronzeava na areia na companhia de um Dewott, que ficava atento a qualquer um que fosse tentar mexer com ela, algumas pessoas e seus Pokémon lutadores jogavam vôlei de praia (a “cortada” que o Croconoaw de um treinador fez na jogada foi digna de um profissional). E, mais ao longe, um surfista “pegava uma onda” na companhia de seu Golduck.
— Essa é uma praia que permite a presença de Pokémon junto de seus donos e treinadores!
— Ué, tem praia que não permite? – indagou Alice. – Por quê?
— Bom, tem algumas regras, mas normalmente é porque...cuidado!
Crystal não terminou de falar, pois se jogou por cima de Alice, fazendo ambas caírem na areia a tempo de evitar que um raio as atingisse.
— O...o que foi isso?!
Á pergunta de Alice, ambas viram que o raio veio da direção em que dois jovens treinadores realizavam uma batalha Pokémon entre um Lotad e um...
— Mas que merda é essa de usar um Pikachu numa praia lotada e ainda na margem da água?!
— ...é por esses motivos que muitas praias não permitem pokémon. – Crystal resmungou. – Tem treinador que não se toca...
— Não é todo lugar que deve meter uma batalha Pokémon! Eu vou...
— Eita, duas gostosas se pegando!
— Poxa, queria tá aí no meio delas...
Crystal corou ao ouvir o comentário e perceber que ainda estava praticamente em cima de Alice. Se levantou rapidamente, enquanto a amiga fazia o mesmo.
— Tão olhando o quê, seus tarados? Recolhe essa Pikachu agora!
— ...pika... – balbuciou um dos treinadores olhando boquiaberto para as duas garotas de biquíni.
— Que “pika” o quê?! — continuou Alice, irritada. – Vocês tem noção do perigo de fazerem uma batalha pokémon nessa praia cheia de gente? Ainda mais usando um Pikachu!
— Eu não gosto de discutir, mas ele tá certa! – Crystal criou coragem e se manifestou. – Por pouco o ataque do seu Pikachu não a atingiu! E se atingisse uma criança?!
Os treinadores tentaram se explicar, mas Alice estava disposta a tomar medidas drásticas. Gritou e acenou para um homem enorme de vermelho (que Crystal logo viu tratar-se de um salva-vidas) que, ao ver a agitação se aproximou acompanhado por seu Poliwrath.
— O que é esse rebuceteio aqui?
— Esses treinadores mentecaptos estão colocando as pessoas em risco aqui!
— Ei, mente-sei-lá não somos não!
— Cala a boca que vocês não estão em posição de retrucar nada! – Alice acusou. – O Pikachu de vocês quase me atingiu com um raio!
— Não foi!
— Foi sim, tão querendo se fazer de desentendidos?! – Alice apontou para Crystal. — Ela tá de prova! Se não fosse ela ter me salvado, eu poderia ter levado um choque! E se eu levasse, podem ter certeza que meu tutor ia arruinar a vida de vocês!
— Tá querendo chantagear a gente?!
— Não. Tô ameaçando mesmo.
— ...eu gostaria de ser chantageado por essas duas...
— É pra você ficar do meu lado, Gerson!
A discussão continuou acalorada, o que acabou atraindo os banhistas mais próximos, que começaram a rodear e darem seus palpites até que o salva-vidas apitou e todos se calaram, levando mãos aos ouvidos devido ao barulho estridente (principalmente Alice que praguejou um palavrão por ser a que estava mais perto do homem).
— Deixa eu ver se entendi...por acaso estava acontecendo uso de Pokémon elétrico nas dependências desta praia?
— Esses dois estavam tendo uma batalha Pokémon totalmente amadora...
— Era batalha profissional, senhor!
— Profissional nada! – ralhou Alice irritada pela interrupção. – Se fosse não teria...
— Me deixem falar! — ralhou o salva-vidas. – A presença de Pokémon na praia é permitida...
— Rá, viu só?! – um dos treinadores encarou Alice com soberba. – Não vai poder nos...
— Mas o uso de Pokémon para batalhas Pokémon não é permitido nas dependências da praia!
— Rá pra quem, hein? – Alice rebateu, olhando e imitando a pose de soberba do treinador.
Assim que os treinadores foram “convidados” a se retirarem da praia pelo salva-vidas (sensatamente eles evitaram de discutir diante do Poliwrath ameaçador), Crystal notou os banhistas próximos comentando coisas do tipo “tinha que ser treinador pokémon...”, “sempre esses treinadores querendo enfiar Pokémon em todo lugar...”, “treinador Pokémon é tudo um bando de molecada estúpida sem noção...” e afins.
Nos últimos tempos estava começando a haver uma crescente intolerância das pessoas para com os treinadores pokémon. Ainda que as Ligas Pokémon fossem os maiores espetáculos do mundo e os produtos relacionados aos monstrinhos liderassem a movimentação da economia mundial, o preconceito e irritação de quem não era treinador Pokémon em cima dos treinadores ia ficando cada vez mais escancarado.
Crystal sempre achou absurdo esse tipo de coisa, afinal, ela era uma treinadora pokémon. E quem ofendesse e criticasse treinadores pokémon era meio que uma ofensa para ela também.
Porém, vendo as atitudes de treinadores daquele tipo, de acharem que só por serem treinadores pokémon poderiam usar e batalhar com Pokémon em tudo que é lugar, começava a entender porque as pessoas que não eram acabavam tendo uma visão ruim dos treinadores.

“Mas não são todos os treinadores pokémon que agem assim...as pessoas não deveriam generalizar ou a situação toda pode piorar muito...”

— Espero que esses dois aprendam! Que droga, tô parecendo um bife á milanesa, cheia de areia... – Alice bufou, ambas mãos na cintura. – Enfim...se permitem que as pessoas tragam pokémon nessa praia, porque você não trouxe os seus, Crys?
— Ah, é que na verdade...meio absurdo eu falar isso sendo que eu gosto tanto de praia, meu sobrenome tem a ver com mar, mas...eu só tenho um Pokémon desse tipo.
— Mesmo que seja só um, já tá valendo! Meus Pokémon são todos do tipo Fogo, então não tem muito sentido eu soltar um deles aqui. Mas se quiser, podemos voltar lá no Guarda-Tudo pra você pegar suas pokébolas! Se não me engano, vi uma máquina de Troca de Pokémon ali também...
— Não precisa! O meu Pokémon de água é um pouco, digamos...grande e pode assustar...
— Que raios de Pokémon é esse?
— ...Gyarados.
Os olhos de Alice se arregalaram e ela sorriu empolgada.
— Caramba, você tem um Pokémon desses?! Demais! Por que não usa ele nas batalhas?! Um tanque de guerra desses te daria muitas vitórias!
— É...que é um pouco...complicado. – Crystal deu um sorriso forçado. – Meu Gyarados...ele...é um pouco...anti social para se soltar em uma praia lotada e tal...
A verdade é que Crystal não queria admitir que o fato de não soltar e tampouco utilizar o seu Gyarados no time e em batalhas era pelo fato vergonhoso de que seu Pokémon não a obedecia.
E Gyarados havia deixado bem claro que não aceitava-a como sua treinadora naquelas fracassadas e humilhantes tentativas de batalha no ginásio de Lavaridge, em Hoenn.
— Bom, vamos pro mar. – Alice despertou Crystal de seus pensamentos. — Quero tirar essa areia do meu corpo!
E as duas assim fizeram. Foram até o mar de mãos dadas e, ao sentir a sensação agradável da água em seus pés, todo o aborrecimento recente e o receio de expor seu corpo se dissiparam. Finalmente estava no mar e aquela era uma sensação tão boa!
Quando a primeira onda bateu em suas costas, todo seu corpo tremeu de frio, mas não demorou para que se acostumasse. As duas brincaram um pouco na água, observando os demais banhistas e logo relaxaram, deixando que a água chegasse até seus pescoços.
— Tem bastante ondas hoje. – falou Alice enquanto as duas pulavam no momento que a onda vinha para minimizar o impacto.
— O mar está agitado. – murmurou Crystal. – É como se...algo estivesse chamando...
Crystal sentiu seu corpo e mente relaxarem. Fechou os olhos, deixando que a água e o balanço das ondas a envolvesse.

“Tenha cuidado. Embora o oceano seja benéfico, ele pode convencê-lo a se tornar eternamente parte dele.”

— Olha a onda!
Crystal sentiu a água gelada bater com força em seu peito, atingindo seu rosto e fazendo a água salgada entrar em sua boca. Ela engasgou, arfando e se debatendo.
— Tá tudo bem? – perguntou Alice segurando seu braço.
Crystal afirmou com a cabeça.
— O que você estava fazendo?
— Hãn?
— Você fechou os olhos, voltada para o mar, seu corpo todo começou meio que a boiar...
— Eu...eu de repente me senti tão mole, sei lá... – Crystal deu uma tossidinha, sentindo ainda o gosto de água salgada na língua. – Bom, dizem que entrar no mar é bom pra renovar as energias...tipo, você lava as energias ruins e mentaliza as coisas boas que deseja...
— Ei, veja!
Crystal olhou na direção que Alice apontava e viu o seu pingente de cristal que flutuava na água ainda preso pelo cordão em seu pescoço.
O cristal brilhava forte e as cores dentro dele pareciam se mover de acordo com o balanço da água. Crystal o pegou em mãos, o erguendo na direção do sol e nesse momento, a luz que se refletiu nele foi tão forte e cheia de cores que as duas garotas precisaram fechar os olhos.

~*~


O sol já estava se pondo quando ele chegou na cidade litorânea. Estacionou a moto no alto da colina, na estrutura semicircular e tirou o capacete. Seus cabelos esvoaçaram com o vento salgado que vinha do oceano a frente.
Mas a paisagem estonteante não lhe causava interesse. Pois Basho tinha uma missão a cumprir. Uma missão importante e irritante. Afinal, fora designada em cima da hora e, por seu nível e capacidade foi ordenado por Igni que ele fosse o responsável por realizá-la.

Afinal, você agora é um membro do Supremo Conselho. E diferente dos outros membros, você é um agente Rocket de elite e um dos únicos que eu tenho convicção que não vai cometer erros. E além disso, vossa majestade parece aceitar bem a sua presença. Agora vá, encontre Lugia e o traga de volta.”


Não que Basho obedecesse por ter orgulho de ser um Agente Rocket de elite ou que fosse um soldado fanático que acreditava na ideologia exagerada com que a Equipe Rocket captava pessoas. Basho obedecera prontamente a ordem súbita dada por Igni em plena madrugada, porque era capaz de cumprir a missão e também...porque tinha um interesse particular.

“Há potencial em você, Basho. E isso não pode ser suprimido e tampouco desperdiçado.”


Potencial. Sim, era o que todos sempre lhe diziam. E ele fingia ser impelido por isso, pois sabia que era uma forma de ocultar o que pudesse realmente querer. Igni percebia isso nele e incentivava.
Basho supunha sobre os jogos de Igni. Igni era mais do que inteligente: era esperto. O fato de colocar Basho para que ficasse próximo de Lugia poderia ser uma faca de dois gumes. Afinal, Igni sabia que ele, Basho, não era um agente Rocket fiel a Equipe Rocket.
Mas até que ponto Igni especulava? Aliás, o que Igni, particularmente, realmente aspirava?
Enquanto observava o mar do alto daquela colina, Basho recordou-se da conversa que tivera com o chefe da equipe de cientistas Rocket, Shiranui, pouco tempo depois que havia sido nomeado e apresentado por Igni como o novo membro do Supremo Conselho Rocket.

~*~


Sempre que estava no laboratório privativo de Shiranui, Basho não podia deixar de notar em como tudo ali era extremamente limpo, claro e bem organizado.
O chão, as paredes, os móveis...era tanto branco que chegava a doer a vista.
O que havia em cores ali eram os líquidos nos diversos tubos e jarros de ensaio e os vidros contendo embriões de Pokémon devidamente preservados, além da enorme estante de livros os quais eram protegidos por portas de vidro.
Tudo era muito branco e transparente.
Basho conhecia Shiranui á tempo e convivência suficientes para saber as excentricidades que o cientista possuía e mantinha. Mas Shiranui era brilhante e inteligente. Com uma formação profissional e conhecimentos avançados invejáveis nas áreas científicas, químicas, médicas, genéticas e arqueológicas.
E sem escrúpulos.
Sem dúvidas, uma das mais ideais e preciosas aquisições da Equipe Rocket.
Então, era esperado que a organização cedesse aos pedidos excêntricos do cientista em troca dos excelentes resultados pertinentes aos trabalhos que realizava para os planos ambiciosos e criminosos da organização.
Uma porta branca se abriu na parede e um homem elegante, de cabelos e barba grisalhos por volta de seus sessenta anos e vestindo um longo jaleco branco apareceu. Por um rápido momento em que o homem abriu a porta e saiu por ela, logo a fechando, Basho conseguiu ter um vislumbre do laboratório, que tinha uma iluminação escura e esverdeada, com um cheiro característico de elementos químicos e sangue.
Basho conhecia Shiranui o suficiente para saber como aquele laboratório era e o que realmente era feito ali. Ele mesmo já estivera diversas vezes naquele local, acompanhando os processos e absorvendo as informações que lhe seriam relevantes para determinadas missões em que foi escalado.
Aquelas duas salas, poeticamente, representavam as duas faces de Shiranui.
— Sei o quão ocupado o senhor é e não irei lhe tomar muito de seu tempo. – Basho falou.
— Estou com um tempo vago até começar a analisar os resultados do novo experimento no qual estou trabalhando. Sente-se. Aceita um chá?
Basho assentiu e sentou-se em uma das poltronas diante da grande mesa de vidro que possuía apenas um notebook, enquanto Shiranui prontamente preparava a bandeja com um bule e duas xícaras e as colocava na mesa, sentando-se na poltrona restante.
O rapaz franziu as sobrancelhas ao ver a inusitada chaleira em forma de Psyduck. Aquele tipo de adorno destoava totalmente do estilo e personalidade do cientista.
Gênios e suas excentricidades.

Esperou que Shiranui servisse o chá e tomasse o primeiro gole e então fez o mesmo antes de começar a falar.
— Solicitei que tivéssemos uma conversa pois sendo agora um dos membros do Alto Conselho, tenho alguns...questionamentos que gostaria de conversar e, quem sabe, obter algumas respostas. E o doutor é o único com quem eu posso conversar.
— Dois gênios com uma capacidade intelectual superior aos outros. – Shiranui falou, pousando sua xícara na mesa. – É muito difícil para pessoas como nós conseguirmos conversar de forma equiparável com alguém. Há muitas pessoas espertas e inteligentes na Equipe Rocket, mas como eu e você...creio que devemos ser os únicos. Pelo menos atualmente.
Além de ser brilhante e sem escrúpulos, Shiranui também era soberbo. Porém, a verdade que, tal como Basho, Shiranui era realmente excelente em suas funções e conhecimento, de modo que era aceitável que tivesse a si mesmo em alta conta.
— Há Igni.
— ...Igni é diferente. Eu o conheço há muito tempo e posso dizer com convicção que ele é diferente de nós. Diferente de todos e qualquer um.
— Como ele chegou até aqui? – Basho perguntou, sem demonstrar muito interesse. – Quando eu entrei na Equipe Rocket, ele já era a “sombra” de Giovanni mas de onde ele veio e como Giovanni o encontrou?
A voz de Shiranui era sutil.
— A pergunta a ser feita deve ser não como Giovanni encontrou Igni e sim...como os pais de Giovanni encontraram Igni.
Basho estreitou suavemente os olhos.
— Você sabe, mas vou salientar mesmo assim que...o que for dito entre nós agora, entre nós deve permanecer.
Basho assentiu. Shiranui pareceu refletir enquanto mexia lentamente a colher na xícara de chá.
— Como sabe, Giovanni herdou a Equipe Rocket de sua mãe, após o falecimento dela e ela por sua vez tinha herdado a organização do marido, o fundador da Equipe Rocket. Porém, Giovanni logo mostrou ser plenamente capaz de comandar e ampliar a organização. Inclusive por ter contribuído e apoiado a pesquisa que culminou na criação de Mewtwo.
Sim, Basho sabia muito bem disso. Sabia também que Shiranui foi um membro da equipe coordenada pelo cientista que criou aquele que foi, por muito tempo, considerado o Pokémon mais poderoso do mundo.
— Longe de mim dizer que Giovanni não tinha capacidade para comandar e coordenar a Equipe Rocket. Ele teve e muito. Diferente da mãe, que era mais interessada no dinheiro que a organização poderia fornecer, Giovanni era um líder ambicioso e sabia ver e prestigiar o potencial de pessoas que a sociedade condenava. Eu fui um desses beneficiados.
Sim, Basho também sabia disso. Ele também era um desses. Só conseguira acabar com sua vida anterior porque Giovanni o ajudou, em troca de que ele se tornasse um Rocket. Para Shiranui, até onde sabia, era pertencendo a organização que o cientista poderia fazer todas as pesquisas e experiências que desejava.
— Quando Giovanni herdou a Equipe Rocket de sua falecida mãe, Igni foi uma “herança” que veio junto com os demais bens.
— ...como assim?
— Que fique entre nós, mas... – Shiranui continuou. — Atualmente não resta mais ninguém da Equipe Rocket que viveu o período de Madame Boss no poder. Exceto Igni. Ele conviveu... intimamente com Madame Boss e seu marido durante muitos anos e posteriormente foi igual com Giovanni.
— Desculpe, mas cronologicamente isso não faz muito sentido. Igni não aparenta ter mais do que...
Basho não terminou de falar pois sua mente começou a processar, cogitar...possibilidades e suposições. Não demonstrou, mantendo seu semblante de estátua.
— Vivemos em um mundo repleto de coisas intrigante e curiosas. – Shiranui olhou para o rapaz por cima dos pequenos óculos que usava. – Não é mesmo?
Silêncio.
— Igni sempre esteve com Madame Boss até sua morte e posteriormente sempre esteve ao lado de Giovanni. – Shiranui continuou, dessa vez em um tom de confidência. – Tanto mãe quanto filho tinham um grande...apreço por ele.
— Pelo que sei, Madame Boss partiu sem deixar rastros e Giovanni herdou a Equipe Rocket. Giovanni partiu sem deixar rastros e Igni herdou a Equipe Rocket. Seria mentira de minha parte dizer que estou cogitando algumas hipóteses bem contundentes e ousadas.
— Meu jovem...se quiser adentrar mais à fundo, irá iniciar uma partida sem chance de voltar atrás.
— Minha sede por conhecimento não aceita voltar atrás.

~*~


Desde aquela conversa, Basho havia pensado e cogitado muitas coisas, investigando e reunindo informações, chegando a certas hipóteses que cada vez faziam mais sentido e lhe davam mais certezas.
Há muito tempo que não tinha um nível de interesse daqueles e certamente por isso que aceitava e se dedicava tanto às ordens de Igni relacionadas a Lugia.
Tirou do bolso da jaqueta preta que usava uma espécie de rastreador com tecnologia de ponta. O ligou, verificando as informações acerca da localização daquele cujo seu dever era encontrar, resgatar (se fosse necessário) e trazer para a base Rocket com segurança e discrição.
Quando Lugia soubesse que estava sendo rastreado dessa forma, certamente ficaria furioso. Esperava que ficasse. Seria...interessante assistir Lugia confrontando Igni e o comandante da Equipe Rocket ter que reagir sem o deboche velado.
Não que Basho fosse o tipo de pessoa que gostasse de “ver o circo pegar fogo” para usar um termo popular. Não era alguém impelido por esses interesses simplórios. Era porque...gostaria de saber como a situação aconteceria entre aqueles dois. Quem sabe através disso alguma informação se soltasse, algum indício. De como Igni soubera de Lugia e a maldição. Por que parecia que Igni e Lugia se conheciam há muito mais tempo do que o período que o rei estava na organização. Qual relação Igni poderia ter com a partida de mãe e filho. E quem ou talvez o quê, realmente era Igni.

~*~

Notas finais
Terminando o capítulo aqui... Ufa, esse capítulo deu trabalho para escrever e durante o processo de escrita dele, cenas que eu havia planejado foram descartadas para cena nova que surgiu. Primeiramente, vamos falar de mais um momento de Crystal e Alice. Acho que toda grande obra de aventura precisa ter o clássico e famigerado "episódio na praia". Não que eu tenha colocado isso na história por esse motivo, logo verão que, além de mostrar um pouco do cotidiano do mundo pokémon, faz parte de gancho pra acontecimentos que se seguem/seguirão. Mas espero que essa parte tenha ficado atrativa, de vermos mais um pouco da dinâmica entre as protagonistas. E temos a parte trabalhosa para escrever, que surgiu enquanto eu escrevia o capítulo e não sabia quais cenas entrariam. Precisava que tivesse algo do Basho e depois de pensar, tentar desenvolver, escrever, apagar e refazer, a ideia surgiu e procurei encaixar ali algumas informações valiosas para se levantar questionamentos. O bule de Psyduck foi o ponto final (e esse bule realmente existe para vender, mas é bem carinho). Enfim, acho que a última cena, com conversas subtendidas e pensamentos de Basho podem te fazer cogitar hipóteses...huum, o que será a verdade? É isso. Até o próximo capítulo.