A Lenda de Cristal
47 Capítulo 46
Notas iniciais
~*~
As “tias” sacerdotisas haviam dito para que ela não entrasse, que ficasse no aposento sagrado e rezasse. Isso há horas, desde que Ela, a Suprema Sacerdotisa de Além Marm tinha começado a sentir as dores. “Era o momento”, ouvira dizerem. E todas as sacerdotisas começaram a se movimentarem, preparando as coisas.
A pequena menina quis ajudar, quis ficar perto da Miríade, pois a amava tanto...ela sempre havia lhe acalentado quando sentia dor, medo...e agora que Miriáde estava sentindo a mesma coisa, queria poder ajuda-la. Mas todos disseram que não podia, porque era muito pequena.
A pequena menina não entendia, afinal não era “muito pequena” para os estudos e ensinos dos ritos. Para isso, diziam que ela já era capaz.
Quando Miriáde havia dito que “quando o bebê viesse” seria um pouco difícil e doloroso, mas depois tudo ficaria bem., realmente esperou por isso.
Mas não parecia que seria assim. O “logo” estava demorando demais e era evidente para a menina, mesmo que com sua pouca idade, que o que Miriáde estava passando era muito difícil e doía muito.
A suprema sacerdotisa gritava de dor, chorava e se desesperava. As outras sacerdotisas, servas dela, tentavam ajudar, mas não havia muito o que pudessem fazer do que já estavam fazendo. Era isso o que aquela sacerdotisa matrona disse para todos e até quando Miríade pedia ajuda.
“Você precisa fazer força, estamos aqui para ajudar. Mas você tem que conseguir. Vamos, menina!”
Era estranho que agora todas as sacerdotisas que sempre tratavam Miriáde como a Suprema Sacerdotisa que ela era, sempre chamando-a com respeito e devoção, agora falavam e tocavam nela como se ela fosse uma igual.
E a pequena menina, que sempre vira Miriáde como a Suprema Sacerdotisa, imponente e divina, agora a via tão miúda...e a brancura de sua pele albina quase a faziam parecer um espírito exausto e desesperado, com manchas de sangue na parte debaixo da túnica que usava.
Miriáde andou pelo quarto cambaleando de dor e desespero, segurando a enorme barriga até perder o equilíbrio e ser amparada por duas sacerdotisas, que a levaram de volta para a cama.
Deitada na cama, os gritos de Miriáde se intensificaram. Ela fazia muita força, suava e se debatia, as sacerdotisas ali lhe davam água, passavam compressas úmida em seu rosto, mas o sangue voltou a sair debaixo dela.
“ Isso não é bom...”
“Mais força, senhora. Você consegue!”
“Tragam mais água, depressa!”
“Não desista!”
Eram todas as falas das outras em meio aos gritos da suprema sacerdotisa e o rimbombar da tempestade que acontecia lá fora que deixavam a pequena menina cada vez mais assustada e agoniada.
“O que eu posso fazer por você?”
Foi então que seus olhos assustados se encontraram com os olhos opacos e desesperados de Miriáde.
“Traga o ovo.”
Não conseguiu ouvir em meio a todo aquele barulho da tempestade, mas leu os lábios dela. E a pequena menina soube o que podia e tinha de fazer.
~*~
O ovo ficava cuidadosamente colocado dentro de uma pequena pia batismal coberta de água marinha. Um calor sempre alimentado por um fogo baixo na base da pia, o mantinham aquecido e vivo.
Tal artefato ficava no aposento do templo destinado a guardar os itens sagrados de uso nas cerimônias e cultos. Haviam ali peças de vários tamanhos e formatos, itens de grande valor espiritual. Cada um deles tinha uma função, uma simbologia e uma relação com os deuses ancestrais pokemon.
O pequeno menino de olhos bicolores estava sozinho ali, repassando mentalmente a função de cada um daqueles itens conforme havia aprendido. Saber era necessário para o dever que iria herdar futuramente. Mas no momento, repassar mentalmente o que havia aprendido sobre cada peça o ajudava a não se concentrar nos gritos que ecoavam distantes vindos do final do corredor lá de cima.
Queria poder fazer algo para ajudar Ela. Afinal, se ela estava tão machucada e com tanta dor, ele podia curá-la.
Disse isso ao sacerdote ancião, mas ele respondeu que naquela situação, a habilidade dele não poderia fazer nada.
“Essa é uma dor que a Suprema Sacerdotisa deve passar. Cabe a nós apenas esperar e rezar.”
E então o sacerdote ancião o deixou ali. Por um tempo o menino rezou, mas suas preces não foram atendidas pois lá em cima, Miriáde continuava gritando e gemendo. Ora mais forte, ora mais fraco. E ainda havia a tempestade lá fora. Ele não conseguia se concentrar e rezar com tudo aquilo, mesmo se quisesse.
A porta da sala em que estava foi aberta e empurrada, atraindo sua atenção. Viu a pequena menina entrar decidida em seus passinhos e ir até a pia batismal na qual o ovo estava mergulhado.
O menino ficou ali parado, contemplando o quanto o cabelo dela era bonito e multicor, com madeixas douradas e acobreadas. Será que um dia seus cabelos brilhariam daquele jeito também?
Foi então que viu ela puxar um banquinho de madeira para subir nele e estender suas mãozinhas para dentro da pia batismal.
— O que você tá fazendo, Flâmia?!
— Vou pegar o ovo.
— Não pode! – ele falou, indo decidido até ela. – Sabe que não pode mexer, é sagrado!
— A Suprema Sacerdotisa me pediu pra levar até ela. E eu vou levar!
O menino a puxou para que descesse do banquinho.
— Eu pego o ovo pra você. Acha alguma coisa pra colocar ele.
Flâmia olhou ao redor e viu atrás da porta, algumas cestas de vime, correndo para pegar uma.
O menino olhou o ovo dentro da água fervente, mordendo o lábio. Decidido, mergulhou os dois bracinhos e sufocou um grito de dor, pegando o ovo e o tirando das águas, colocando-o na cesta que Flâmia lhe estendeu.
Com o peso do ovo, ela colocou a cesta no chão e o menino se ajoelhou ao seu lado, arfando de dor por suas mãos e braços estarem vermelhos e com princípio de queimadura.
— Igni, você tá machucado!
— Não...se preocupe...sabe que eu me...curo rápido.
Um estrondo rasgou os céus e iluminou a sala, causando um sobressalto nas duas pequenas crianças. E então novamente os gritos de Miriáde ecoaram.
— Eu tenho de levar pra ela agora antes que acabe!
— ...você viu...?
Flâmia não o encarou, mas Igni sabia.
— Eu vou também.
~*~
Mas, embora tivessem saído juntos da sala e cientes de estarem desobedecendo as ordens, as duas crianças não seguiram pelo mesmo caminho. Pelo menos não juntas.
Flâmia sabia o que tinha de fazer e precisava chegar a tempo. Se Igni tomava a direção oposta, era porque tinha de ser assim.
~*~
Seus olhos refletiram o grande clarão que cortou o céu escuro. Levou as pequenas mãos aos ouvidos, sabendo o que viria a seguir.
O estrondo do trovão ecoou por toda aquela fortaleza de pedra, mais alto que o vento uivante e a violência das ondas que se chocavam na margem do penhasco. A chuva caía torrencialmente e, em uníssono, o barulho das ondas do mar evocava um perigo ameaçador.
Mas, por mais ameaçadora que fosse aquela tempestade, Flâmia não conseguia evitar de assistir. Talvez por ser muito pequena para entender o risco que era ficar debruçada naquele parapeito do corredor ou talvez porque era menos agoniante olhar a tempestade do que assistir o que acontecia no quarto ao final do corredor.
A canção da fúria do mar era fascinante.
Quem ousaria enfrentar aquela tempestade de trovões e mar revoltosos?
Havia alguém. Alguém que chegava as margens agitadas da praia da pequena ilha em que se encontrava o templo sagrado.
Como não havia ali um porto e nem menos um píer, o barco grande foi ancorado a alguns metros no mar e ele balançava com violência pelas ondas. E dele havia partido um bote puxado por um Kingdra, que nadava enfrentando ondas, chuva e vento. Um novo relâmpago cortou os céus e do alto do corredor da torre, ela viu que tinha quatro pessoas no bote. Quando o bote enfim chegou na praia, reconheceu o homem de manto branco que tomava a frente e caminhava em direção ao templo.
O rei Luarne de Além-Mar.
Ele era corajoso. Afinal, quem mais enfrentaria tamanha tempestade para ver Ela, se não fosse alguém corajoso?
Outro relâmpago e um trovão tão estridentes que luz e som fez Flâmia fechar os olhos e levarem suas mãos aos ouvidos. E quando esse som cessou, os gritos e gemidos de dor da mulher atrás da porta ao final do corredor, tornaram a ecoar nas paredes de pedra.
A pequena menina então se lembrou do dever que tinha de cumprir. Pegou com suas mãozinhas, a cesta de vime contendo um grande ovo tão branco e reluzente que parecia uma pérola e seguiu decidido para a porta de onde vinham os gritos.
~*~
A chegada do rei Luarne em meio a violenta tempestade não surpreendeu os residentes do Sagrado Templo Primordial de Além-Mar.
Nada o impediria de estar ali quando aquele momento chegasse. Ela dissera isso. E tudo o que ela dizia sempre acontecia.
Não era a primeira vez que o rei estava ali. Já o havia visto tempos atrás, quando o rei viera até ali e ficara por alguns dias.
Ele era muito imponente, com suas vestes sempre brancas em detalhes azul escuro cujas cores simbolizavam o Guardião dos Mares, um dos principais deuses ancestrais.
Igni observou atrás de uma das pilastras do templo enquanto aquele homem imponente adentrava na área principal do templo acompanhado por quatro soldados. Sabia que eram soldados pois os havia visto antes junto do rei e porque usavam armadura e portavam espadas. Todos estavam com os trajes encharcados da tempestade e os sapatos repletos de lama e areia da caminhada da praia até ali.
O garoto esperou que o grande sacerdote ancião desse uma bronca neles. Afinal, a mínima sujeira no imaculado templo era passível de punição.
Mas isso não aconteceu. Todos foram recebidos sem nenhuma bronca e o sacerdote ancião cumprimentou o rei com uma pequena reverência, então o guiando em direção as escadas que levavam para o corredor da torre lá de cima enquanto os soldados permaneceram na ala principal.
Quando se tornasse o Grande Sacerdote Ancião, não permitiria que forasteiros quebrassem as regras sagradas, quaisquer que fossem elas. Nem mesmo um rei.
Sorrateiramente, o pequeno menino andou pela parte escura atras das pilastras do templo sem fazer ruído. Apesar da pouca idade, já havia aprendido a caminhar silencioso e despercebido.
Igni seguiu o velho sacerdote e o rei a uma distância segura. Acompanhava o som dos passos nos degraus de pedra e o tremeluzir de suas sombras na luz das tochas fixadas nas paredes de pedra.
Quando virou na entrada que dava acesso ao longo corredor, o vento forte dos parapeitos abertos e o som das águas revoltosas do mar ressoaram alto. Igni viu o rei ir em direção á porta no final daquele corredor, sua longa capa branca e azul escura, bordada na forma da lendária fera do mar, ondulando atrás de si.
O menino não sabia muito bem o que achar do rei. Talvez porque não o conhecia além do pouco que havia visto antes ou talvez porque era uma criança muito pequena para entende-lo. Mas tinha curiosidade em observá-lo.
Tão absorto em observar o rei, só agora, quando o sacerdote ancião abria a porta ao final do corredor, que Igni percebeu que os gritos que antes vinham dali de dentro, haviam parado.
Achou aquilo estranho e, pela forma que o sacerdote ancião e o rei pararam diante da porta recém aberta soube que, o que houvesse acontecido ali, não era bom.
Então Igni se esgueirou de forma silenciosa e imperceptível em sua pequenez e entrou no quarto.
~*~
Flâmia conseguiu entrar novamente no quanto ao final do corredor, tão silenciosa e imperceptível como da outra vez. Ficou no canto mais escuro, assistindo as movimentações das sacerdotisas angustiadas e mesmo a matrona, na beira da cama com as mãos sujas parecia ter...desistido.
Viu que Miriáde estava deitada na cama, exausta e pálida. Ela já tinha a pele extremamente branca e os cabelos igualmente brancos que outrora a faziam parecer um ser feito de luz, agora a faziam parecer um fantasma.
E havia o sangue. Tanto sangue...
Os tecidos da cama encharcados de sangue, os panos jogados em uma bacia ao lado da cama manchados de sangue e na túnica que ela vestia também havia sangue.
Tudo aquilo era sangue dela.
Flâmia olhou aquilo assustada.
“Não há mais o que fazer. Está sufocando e ela já não tem mais forças.”
“ Só nos restaria...”
“ Fazer isso mataria ambos!”
“Não podemos decidir. Ela ou o rei devem escolher. Ele está á caminho.”
“Não temos mais tempo!”
“ Mesmo que seja Dele, sei bem que o rei não aceitaria que ela parta.”
“Será ela ou a criança.”
A pequena menina ouviu aquilo as falas sussurrantes das sacerdotisas enquanto a tempestade lá fora enfraquecia.
Percebeu então que a Suprema Sacerdotisa encarava de forma vaga, mas fixa, para ela. A via mesmo na penumbra. Lentamente, estendeu um braço em sua direção.
— Dê-me o ovo.
Mesmo exausta pela dor, a voz dela continuava linda. Todos no aposento silenciaram, vendo Flâmia caminhar com o ovo na cesta, que começara a rachar.
A Suprema Sacerdotisa pegou o ovo, aconchegando-o em um dos braços. Com o outro braço, contornou a própria barriga protuberante e ergueu um pouco o corpo, respirando com força como se reunisse forças.
Tudo o que aconteceu em seguida foi atordoante para Flâmia.
Uma das sacerdotisas a afastou da cama, a matrona tomou a dianteira e a Suprema Sacerdotisa gritou. Gritou tão alto e cm tanta força, que seu grito se sobressaiu diante do trovão que rasgou o céu e clareou o quarto.
Flâmia viu quando ela gritou mais uma vez, sangue jorrou entre suas pernas e algo saiu. O ovo em seus braços se rompeu e Miriáde pegou o que acabara de sair de dentro de si, entre gritos e lágrimas.
A pesada porta do aposento foi empurrada e a atenção de todos os presentes se voltou momentaneamente para o rei Luarne que entrava, o sacerdote ancião atrás de si.
Mas Flâmia não despendeu mais do que dois segundos de atenção parta o rei. O que lhe importava era Miriáde e o que estava acontecendo nos braços dela.
Quando o pequeno Igni conseguiu, após seguir o rei, se esgueirar para dentro do quarto e se aproximar de Flâmia, ele notou as lágrimas que escorriam pelo pequeno rosto dela. E, ao olhar na direção que ela olhava, se viu surpreso juntamente com todos os presentes.
A suprema sacerdotisa Miriáde jazia morta em sua cama de sangue.
E, aninhados em seu peito, aconchegados um em cada braço, estavam uma criança e um lugia recém nascidos.
A tempestade que urgia do lado de fora havia cessado, o som do oceano ecoava distante e o silêncio de todos ali pairou nas paredes de pedra.
Então, a criança e o pokemon, acalentados e unidos nos braços da sacerdotisa falecida, emitiram seus primeiros sons, seus primeiros choros.
Seus primeiros sopros de vida.
Destinados a nascerem juntos.
~*~
“Viva!”
Sentiu o espasmo do seu corpo, o ar entrando em seus pulmões e cuspiu água para fora. Tossiu, enquanto piscava e arfava, seu corpo sendo movido para que deitasse de lado.
— Crystal! Crystal!
— Calma, ela vai ficar bem.
Tudo era confuso. Enquanto tossia e procurava respirar, ouvia diversas vozes sem discernir direito o que era dito. Sombras de pessoas moviam-se ao seu redor e sentiu uma mão massageando suas costas. Quando cuspiu mais um pouco de água por ter gorfado, sentiu o gosto salgado na boca e nariz.
— Deem espaço, espaço gente!
Aquela voz era familiar.
Respirou pausadamente, esperando que seu corpo se acalmasse para então procurar entender o que estava acontecendo.
Viu a praia e o mar á frente, pessoas que olhavam pra ela...mas o que eram aqueles “flashes” de um corredor de pedra, gritos, fios brancos e tanto sangue?
— Crys, fala comigo!
Reconheceu a voz de Alice e ergueu um pouco o corpo, sentando-se na areia, a cabeça meio zonza. E o gosto salgado em sua boca era insuportável ao ponto de arder a garganta.
— ...água...quero água.
Tossiu tão logo falou, mas não demorou para que lhe estendessem uma garrafinha de água, a qual segurou e levou aos lábios, ávida.
— Beba devagar, senão vai engasgar.
Ela assim o fez e conforme sua percepção voltava, percebeu Alice sentada ao seu lado.
— Crys, como você está?
— Vi...viva... – respirou, passando a mão no rosto. – O que...aconteceu?
— Você desmaiou do nada na água e quase se afogou! A gente estava de boas na água, de repente você tombou e no primeiro momento, pensei que tinha mergulhado. Mas aí percebi que você não se mexia, eu te puxei e gritei por ajuda. Fiquei desesperada!
— E eu ouvi, corri pra ajudar! Mas quando vi que eram você e a Alice, mandei que o Pidove fizesse um estardalhaço pra chamar atenção do salva-vidas e...
— KENTA?!!! – Crystal gritou, interrompendo a fala do rapaz. – O...o que você tá fazendo aqui?!
A forma surpresa como Crystal falou fez o garoto, agachado na sua frente, sorrir um pouco envergonhado.
— É...eu tô em jornada pokémon por Johto, lembra? Eu tava aqui na praia descansando um pouco depois de ter feito um bico na entrega de panfletos para o quiosque lá da frente. Sabe como é, o Bolsa Treinador não paga toda nossa Jornada...
— Ei, garota. Como está se sentindo?
A pergunta do salva-vidas (o mesmo que havia apartado a discussão dela e Alice contra os dois treinadores que haviam feito uma batalha Pokémon na praia) fez com que a explicação de Kenta ficasse pra depois. Enquanto o salva-vidas a examinava, Crystal respondeu que sentia-se melhor e que não precisaria ir para o hospital.
— De toda forma, recomendo que vá mesmo assim. Precisa que eu a acompanhe?
— N-não, senhor! Meus amigos estão aqui e estou bem. Muito obrigada.
Após se despedirem do salva-vidas, os três jovens ainda permaneceram sentados ali na areia observando a praia. E, enquanto Crystal sentia seu corpo se acalmar, notou os banhistas curiosos se dispersarem, mas ainda lançando olhares em sua direção. Abaixou a cabeça, querendo poder se esconder.
— Crys, você tá passando mal?
— Não...eu só estou envergonhada por ter me afogado no raso! E...preocupado vocês.
— Ah, deixa disso! – bufou Alice. – Não foi culpa sua!
— Não entendo o que me aconteceu...eu estava super bem, Como eu fui meio que apagar assim?
— Isso já aconteceu antes? – Kenta perguntou. – Acho bom você fazer uns exames...lembra quando você tinha sei lá, uns doze anos e as vezes tinha umas tonturas e...
— Eu tô bem! Fiz meu check-up anual antes de iniciar jornada em Johto. Sabe como minha tia é, ela exige que eu esteja bem pra seguir jornada. – suspirou, emburrada. – O dia estava tão legal e me acontece isso...
— Calma, o dia ainda não acabou! – Alice tocou em suas costas, em sinal de incentivo. – Vamos nos trocar, comer alguma coisa e dar uma voltinha aqui pela orla da praia. Você relaxa e ficamos conversando, o que acha?
— É..pode ser...
Crystal sentiu-se um pouco melhor em receber o acolhimento de Alice e Kenta. Eram seus melhores amigos, na verdade, seus únicos amigos além de seus Pokémon.
— AAAAAAAH! – gritou, olhando ao redor do próprio corpo. – Meus Pokémon, cadê eles?!
Cadê meu cinto de pokébolas?! Ai, meu Arceus! O mar levou!
— Crys, calma! Seu cinto de pokébolas está junto com o meu lá no Guarda-Tudo do vestiário, lembra? – Alice fez sinal de “positivo” com o polegar. – E só abrem com nossa impressão digital.
Crystal se lembrou, sentindo certo alívio, a boca aberta como a de um Goldeen. Então ela riu, seguida pelos dois amigos.
— Acho que eu engoli água salgada demais mesmo! Pelo menos meus pokemon estão bem!
— E você está bem né! – Kenta falou, se levantando. – É muito bom ter encontrado você por aqui! Se a gente tivesse combinado, não daria tão certo!
— Vamos, gente! Eu e a Crystal precisamos nos trocar e dali vamos procurar algum lugar pra comer!
— Opa, deixa comigo! – falou Kenta. — Sei de um lugarzinho ótimo e com preço bom que fica aqui perto!
Os três seguiram para fora da praia, conversando normalmente. Crystal realmente parecia bem enquanto conversava com Kenta e isso deixou Alice aliviada.
Pelo menos, Crystal só dera por falta de seu cinto de pokébolas, que estava no Guarda-Tudo. Mas Alice sabia que não iria demorar para que ela notasse a ausência de seu estimado colar com o pingente de cristal que sempre carregava no pescoço.
Não sabia como abordar o assunto quando Crystal desse pela ausência do item, item esse que mantinha escondido em seu frufru de cabelo enrolado no pulso. Teria que dizer a verdade.
Sabia que o desmaio de Crystal ali na água não havia se dado por uma tontura ou algo do tipo. Tinha quase a completa certeza de que foi algo relacionado aquele cristal. Não era a primeira vez que algo de estranho se manifestava nele e refletia algo em Crystal. Mesmo que ela não admitisse, Alice suspeitava. E agora, depois daquele brilho intenso que o cristal tivera enquanto estavam na água e o desmaio dela, Alice estava ainda mais convicta.
Crystal estava sendo de alguma forma afetada por aquele item.
Foi pensando em como falar sobre isso para a amiga que ambas chegaram até o vestiário, pegaram seus pertences no Guarda-Tudo e se trocaram enquanto Kenta havia ido até o quiosque entregar os panfletos que não havia terminado de entrega, combinando de encontrá-las na saída da praia que dava para a avenida principal.
Enquanto ambas aguardavam Kenta voltar, Alice pensou em como poderia abordar o assunto, mas então Crystal soltou uma exclamação, tateando o peito assustada.
— Meu colar...cadê meu colar?! Arceus, eu perdi?! Onde está? – tirou a mochila dos ombros e começou a verificar os bolsos externos. – Eu não guardei aqui, tenho certeza que não tirei do pescoço, eu nunca tiro! Será que caiu no vestiário enquanto eu me trocava? Não...eu olhei bem se não tinha esquecido nada antes de sair...ah, só falta o cordão ter arrebentado quando eu estava na água!
Alice percebeu que, no desespero que a treinadora estava, ela bem que poderia ter a falta de noção de voltar a praia para procurar o artefato.
— Calma, Crys...seu colar está comigo.
— Nossa, que bom! Já estava assustada pensando que pudesse ter perdido!
Crystal estendeu a mão para pegar o item, mas em um gesto instintivo, Alice a afastou dele, deixando-a confusa.
— Crys...acho que não é bom você ficar usando essa coisa.
— Oxe, o que é isso do nada?
— Não é do nada! Eu...eu não tenho certeza, mas tenho quase certeza...de que tem alguma coisa nesse cristal que tá mexendo com seu corpo, sua cabeça, sei lá!
— Que besteira, Alice. Eu tenho esse colar desde que eu nasci e nunca tive nenhum problema!
Alice apertou o cordão d pingente em sua mão.
— Lembra daquela vez no hotel que o pingente tava queimando e você tendo um pesadelo?!
— ...aquilo foi coincidência e foi tipo, há meses! Dá meu colar.
Crystal tentou pegar e Alice se afastou, colocando a mão que segurava o pingente para trás.
— Quando estava na água e com o sol em cima de você, essa pedra brilhou forte, muito forte. Acho que já estava brilhando, aí refletiu nos raios de sol, não sei porque não de pra ver direito porque era luz. E aí quando eu pude enxergar de novo, você tava com a cara na água!
Crystal se irritou.
— Ah, pára! Vai dizer agora que eu desmaiei por causa do cristal do meu colar que tenho desde sempre?
— Eu não sei, mas acho que sim! É melhor você parar de usar essa coisa, levar pra analisarem sobre o que é esse negócio meio líquido e meio fumaça que tem dentro dele, vai que é algo radioativo!
— Alice, isso soa absurdo demais. Esse cristal não é radioativo.
— Tá, pode não ser. Mas tem alguma coisa nele! De repente ele é mágico e por alguma razão está reagindo á você.
Crystal suspirou, com um sorriso irritado.
— Olha, eu até queria ser alguém especial numa história de fantasia, mas eu sei que sou apenas alguém normal vivendo nesse mundo real. Esse tipo de coisa, de artefato mágico, não existe!
— Será que não?
Crystal não respondeu, se limitando a encarar a amiga com irritação.
Se sentia cansada, frustrada consigo mesma, tanto fisicamente quanto...e havia acabado de quase se afogar. Estava irritada sem saber o por quê e só queria não ter mais nada que pudesse lhe irritar mais. Aí vinha Alice com esse papo de historinha de ficção, fazendo a “caveira” entre ela e seu pingente de cristal.
Enquanto olhava para a amiga, que se mantinha decidida em não lhe devolver o que era seu, notou todos os atributos de Alice que a tornavam tão bonita e atraente. Por isso Alice era popular, por isso Alice tinha até um cara tão poderoso á fim dela.
Se pudesse ter uma coisa, nem que fosse um cristal mágico, que a pudesse torná-la minimamente alguém interessante e especial, Crystal queria manter isso.
Sentiu seus olhos arderem. E por algum motivo, uma angústia se instaurou em seu peito e por que estava tendo em sua mente imagens borradas de algo que parecia ter acontecido e havia não somente visto, mas sentido, porque seu peito estava doendo. Mas doendo pelo que via ou doendo pelo que sentia ao ver?
Alice não entendia o que estava acontecendo. Do nada Crystal começou a chorar e isso a fez se arrepender de ter entrado no assunto do cristal, mesmo que o tivesse iniciado por sua preocupação para com a amiga. E então ouviu Crystal murmurar, cabisbaixa.
— Por que ela teve que partir?
— ...que...quem teve que partir?
Crystal piscou, parecendo retomar a noção de onde estava e o que estava acontecendo.
— Não me lembro...
~*~
Sentia-se exausto. Seu corpo e cabeça pesados que mal conseguia manter os olhos abertos. Sua mente também estava confusa, como se lembranças de sua distante vida passada e de sua vida atual se misturassem. E esse fluxo de pensamentos aliados a dor, o tonteava.
Havia voado na forma de pokemon por um longo tempo, sei saber para qual direção estava indo. Isso acontecia com frequência desde que havia voltado a ser humano. Voou sobre o mar ainda no céu escuro ao mesmo ao amanhecer, continuou voando.
Cada vez mais cansado, cada vez com mais sono...
Deixou que o instinto de Alma o levasse para onde desejava poder voltar.
O templo de além-mar.
“Não pode ir para lá. Não ainda. Há muito o que precisa fazer.”
“Sim. Não posso ir, não ainda.”
Essa certeza o manteve nos céus até chegar á uma praia de uma minúscula ilha rochosa. Aquele lugar não lhe era estranho...já estivera ali algumas vezes. Ah, sim. Era a pequena ilha que, durante aquele tempo infindável no qual estivera preso na forma de fera com sua consciência humana semiadormecida, voltava de forma instintiva como um Pokémon migratório.
Não havia nada ali além da praia, rochas com pequenas cavernas e o que parecia um curioso e intrigante altar rústico de pedras pertencente a eras há muito esquecidas. E havia um campo florido. Um agradável e belo campo florido.
Ali Lugia pousou, sob relva e pétalas. E, na medida que o dia amanhecia, Lugia conteve a dor e procurou relaxar seu corpo de fera, enquanto o mesmo se transformava até a forma humana.
Lugia não tinha certeza se havia dormido de cansaço ou desmaiado de dor. Mas quando acordou, pelo céu nublado, não conseguia discernir quanto tempo havia ficado ali.
Notou uma espécie de manto cinza puído sobre seu corpo. Aquilo não era seu. Quando havia se transformado no subsolo do Templo Ancestral, havia destruído suas vestes.
De toda forma, aquele manto já ajudava que não ficasse completamente nu até sentir que seu corpo estivesse pronto para se transformar novamente e decidisse se voltaria pelo mar ou pelo ar.
Mas...voltar para onde?
Não tinha mais um lar para voltar.
Colocou o manto, o prendendo da melhor forma que podia e caminhou em direção as rochas, subindo por um caminho semelhante a uma trilha que levava até o altar rústico de pedras.
Ao chegar ali, observou as ruínas e, além delas, fora da ilha bem ao longe, três pequenas ilhotas pareciam curiosamente alinhadas.
Lugia então sentiu um arrepio incômodo percorrer seu corpo e ao virar-se, notou atrás do altar, uma criatura o observando, completamente imóvel.
O que era aquilo?
Um Pokémon? Nunca vira um daquele antes.
Tinha pele cinza, uma aparência animalesca e humanoide, uma estranha fusão de ambas... estranho e assustador.
E havia algo incômodo naquele ser além de sua aparência. Era uma aura de poder. Um poder aterrador. Como um dos deuses ancestrais.
Lugia e o pokémon sustentaram o contato visual.
“ O que é você?”
~*~
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