A Lenda das Bruxas Vol I - O Início da Lenda
3 Capitulo 2
Notas iniciais

Ao recobrar a consciência, ela estava deitada encolhida no mesmo canto em que a deixaram. A cela era uma escuridão absoluta. Seu corpo inteiro doía.
Ela se sentou, puxou as pernas para baixo do vestido e abraçou os joelhos. Ainda não conseguiu escutar com o ouvido direito e sentiu uma dor latejante atrás do olho, que estava coberto com pus e sangue seco.
Passos ecoaram do lado de fora, e a porta pesada se abriu. A luz da tocha preencheu o recinto; ela virou o rosto quando viu seus pés tomados por cicatrizes e presos a uma corrente pesada. Dois guardas a ergueram do chão e prenderam suas mãos para trás enquanto o que carrega a tocha observava. A corda machucava o seu pulso, mas ela se recusava a deixa-los perceber o quanto sentia dor.
O homem com a tocha seguiu na frente com um sorriso arrogante. Não tinha dentes, e seu hálito fedia a carne podre. O calor da tocha queimava o rosto dela quando ele a puxava para perto.
— Hoje você morre, meretriz de Satanás – Falou ele, e deu um tapa no rosto dela, e sua mão desce-lhe até os seios.
Um ódio fervoroso a preencheu, deixando-a mais forte e determinada.
— Eu o amaldiçoo – Sibilou ela – Você e toda a sua família vão queimar! Lorde Satã virá ao seu leito de morte, e que demônios o atormentem por toda a eternidade.
O homem puxou a mão como se tivesse se queimado.
— Você é a única que irá queimar aqui – Balbuciou um dos guardas.
Para ela, era um pequeno consolo vê-los tão aterrorizados.
Alguém lhe cobriu a cabeça com um saco e ela foi arrastada pelas passagens labirínticas da prisão. Um portão se abriu, as dobradiças rangeram.
Era o lado de fora. O cheiro de pinheiros era fresco. Ela preparou-se para o ódio da multidão, mas só ouviu passarinhos. A luz rubra da alvorada atravessou o tecido do saco que lhe cobria a cabeça. Um corvo grasnou ao sul. Era o sino da morte. O instinto animal assumindo o comando. Ela precisava fugir. Agora.
Tomada pelo pânico, ela saiu correndo às cegas. Os grilhões de ferro batendo nos tornozelos. Ninguém tentou detê-la. Não havia necessidade, ela sabia disso. Ela não conseguiu ir muito longe antes de cair de cabeça no chão molhado. Os guardas riram e gritaram seu nome.
— Parece que ela quer logo sentir o fogo lamber suas tetas! – Gritou o desdentado, e ela ouve.
Mãos poderosas erguem-na pelos braços e alguém agarra seus pés. Eles a arremessam no ar. Por um instante ela planou, até bater em alguma coisa. Era algo tão duro que ela perdeu o fôlego. Ouviu um cavalo bufar e o mundo balançar, pala lá e para cá. Ela concluiu que estava deitada em uma carroça.
— Tem alguém ai? – Sussurrou ela.
Ninguém respondeu.
Tudo bem, pensou ela. Na morte, somos todos sozinhos.
Skye acordou tremendo. Estava congelando, como se tivesse dormido a noite inteira com a janela aberta. Ela tinha dificuldade ao respirar, parecia que havia algo grande e pesado sobre seu peito.
Ela puxou as cobertas até o queixo e se encolhe até virar uma bola. Já teve muitos pesadelos, mas nunca havia sodomizado tanto. Também nunca havia tido tanto alivio em rever o familiar papel de parede de seu quarto, de listras amarelas e brancas.
Passam-se alguns minutos; ela começava a respirar com maior tranquilidade e aos poucos voltava a se aquecer.
Olhou o celular. Quase sete horas. Hora de se levantar.
Ela desceu da cama e abriu o guarda-roupa. Queria ter mais variedade de roupas, não só a mesma combinação sem graça de calça jeans, blusa e casaco de todo dia. Tirou do cabide uma blusa de manga comprida azul-marinho e sentiu nojo de si mesma. Era tão... Inofensiva. Sequer mudava o cabelo. Nunca. O que será que as pessoas diriam se ela chegasse no colégio vestindo algo diferente? O pessoal alternativo, aqueles que têm o estilo que ela admira de longe, a julgaria uma farsa.
Além do mais, ela odiava comprar roupas. Se sentia uma analfabeta na livraria. Nos outros, as roupas parecem feias ou encantadoras; ela via quando uma roupa cai bem ou não na pessoa. Mas, quando folheava catálogos ou quando ia a uma loja, só fazia as escolhas de sempre. Preto. Azul-escuro. Casacos compridos. Jeans não muito apertado. Cintura não muito baixa. Nada de estampa. Ela entendia o idioma das roupas, mas não sabia falar.
Saiu ao corredor levando consigo as roupas que escolheu. A porta do quarto dos pais estava fechada. No banheiro, a lâmina de barbear do pai estava caída em uma poça d’água ao lado da pia. Skye supõe que ele já esteja no trabalho. A toalha da mãe estava úmida, ou seja, ela também deve estar acordada, mesmo hoje sendo o seu dia de folga.
Skye largou as roupas em uma banqueta, entrou na banheira e fechou as cortinas. De repente sentiu uma lufada de fumaça. Pegou um tufo dos longos cabelos malmente encaracolados, levou ao nariz e cheirou.
Ela precisou passar shampoo duas vezes para aquele cheiro inexplicável sair. Depois enrolou a toalha nos cabelos como um turbante e escovou os dentes. Seus olhos encontram o mapa emoldurado de Forgotten Place pendurado atrás da porta. No ano passado ela chegou a cogitar que seus pais a deixariam ficar com sua tia em Nova York e se matricular no colégio de lá. Detestava ver aquele mapa toda manhã e lembrar que ainda está presa ali. Em Forgotten. Nome bonito, cidade de merda. No meio do nada, cercada de florestas de pinheiros onde as pessoas costumam se perder e sumir. Treze mil habitantes e alta taxa de desemprego. A siderúrgica fechou faz vinte e cinco anos. As lojas do centro vivem vazias. Só as pizzarias sobrevivem.
A rodovia federal e a estrada de ferro criam uma linha divisória na cidade. A leste ficavam o Lago Danson, postos de gasolina, oficinas, a fábrica fechada e conjuntos habitacionais deprimentes. A oeste ficava o centro da cidade: a igreja e a residência do pastor, as ruas de casas geminadas, depois a mansão abandonada e as casas extravagantes e afastadas, próximas do canal. E para piorar tudo, a cidade ficava no estado do Maine, um dos estados mais chuvosos, frios e nublados do país.
A casa de Skye Madsen ficava na parte extravagante perto do canal; ela era pintada de cinza-claro e possuía uma arquitetura funcionalista de dois andares. As paredes eram cobertas com papel de parede chique e a maioria dos móveis viera de lojas de design de Nova York.
Skye desceu as escadas e encontrou a mãe sentada à mesa da cozinha. Os jornais nos quais o pai passava os olhos pela manhã estavam em uma pilha retinha na mesa. A mãe estava absorvida em uma revista de medicina, acompanhada do café da manhã habitual: uma xícara de café preto.
Skye serviu-se uma tigela de iogurte de morango e se sentou-se à mesa, de frente para a mãe.
— Você vai comer isso?
— Olha só quem fala – Retrucou Skye, com um sorriso.
— Iogurte, mingau e sanduiche. Iogurte, mingau e sanduiche. Depois de um tempo você vai se encher disso.
— E café não?
— Um dia você vai entender – A mãe de Skye sorriu. E de repente está com aquele olhar, aquele que a incomodava profundamente – Dormiu mal?
— Tive um pesadelo.
Ela contou o sonho e como se sentiu ao acordar. A mãe tocou em sua testa e Skye se afastou.
— Eu não estou doente. Não foi esse tipo de calafrio.
Skye percebeu que a mãe entrara em “modo médica”. A voz ficou mais séria, profissional, os gestos ficaram mais formais. Era bem aparente até quando Skye era pequena. O pai a mimava quando ela estava doente, sempre cheio de doces, mas a mãe parecia um médico em uma consulta.
Aquilo costumava deixa-la triste. Hoje em dia ela suspeitava que fosse um mecanismo de defesa. Talvez sem isso fosse impossível suportar suas preocupações de mãe combinadas ao entendimento profissional dos mal-estares da humanidade.
— Seu pulso acelerou?
— Sim... Mas depois diminuiu.
— Teve dificuldade para respirar?
Skye fez que sim com a cabeça.
— Pode ter sido ataque de pânico.
— Eu não tenho ataque de pânico.
— Não é algo tão inesperado, Skye. Você acabou de entrar no primeiro ano. É um período pesado de adaptação.
— Não foi ataque de pânico, mãe. Teve a ver com o meu sonho.
Soou estranho, mas era exatamente o que sentia.
— Não faz bem ficar segurando o que você sente – Disse a mãe – Uma hora esses sentimentos vão extravasar, de algum jeito. Quando mais se tenta controlar, mais descontrolada é a saída.
— Agora a cirurgiã virou psicóloga? – Brincou Skye.
— Eu já pensei em ser psiquiatra – Respondeu a mãe, levemente mordaz. Então algo mudou em seu olhar – Sei que eu não tenho sido uma boa referência.
— Pare com isso, mãe.
— Não. Eu sou daquelas pessoas que sempre faz mais que o esperado. Não quero passar isso para você.
— Não passou – Murmurou Skye.
— Me conte se acontecer de novo. Promete?
Skye fez que sim. Mesmo que às vezes a mãe fosse meio exagerada, era bom saber que ela se importava. E ela quase sempre entendia Skye.
Meu Deus, que coisa triste, pensou ela enquanto engolia a última colher de iogurte. Minha melhor amiga é minha mãe.
¤¤¤
Vanessa acordou com cheiro de fumaça.
Jogou o edredom no chão e correu até a porta e a abriu.
Mas a sala de estar estava tranquila e silenciosa. Nada acontecia. Não havia chamas consumindo as cortinas. Não havia nuvens negras cobrindo a cozinha. A mesa ainda estava uma bagunça: caixas de pizzas e latas de refrigerante de ontem. O pastor alemão deles, Apolo, está dormindo no assoalho, aquecendo-se em um feixe de luz do sol. Sua mãe, o padrasto Nick, e o irmãozinho, Melvin, já estavam na cozinha tomando café da manhã. Manhã absolutamente comum.
Vanessa balançou a cabeça e então percebeu que o cheiro vinha de si mesma. O cabelo fedia igual à vez em que ela era pequena e ficou assistindo àquela fogueira imbecil no Quatro de Julho no Morro Olson.
Ela atravessou a sala e foi até a cozinha, onde Melvin estava tocando bateria com duas colheres na mesa. Tinha vezes que ele era muito fofo. Era incrível que metade de seus genes vinham de Nick.
Ela jogou o top no chão do banheiro e abriu o chuveiro. O encanamento tossiu e espirrou um jato de água gélida. O chuveiro tinha ficado uma porcaria desde que Nick insistiu que ele mesmo ia trocar o encanamento e instalar uma torneira nova. A mãe não havia concordado, mas no final das contas sempre acabava cedendo às vontades dele.
Vanessa entrou no boxe e quase foi escaldada até conseguir ajustar a temperatura. Lavou o cabelo com shampoo de coco da mãe. O misterioso cheiro de fumaça não saiu. Ela pegou mais shampoo e passou no cabelo pela segunda vez.
Voltou para o quarto enrolada numa toalha que deixava suas lindas pernas bronzeadas a mostra e ligou o rádio. Os comerciais faziam tudo soar um pouco mais normal. Ela abriu um pouco as persianas e seu humor melhorou. Ia dar para sair com uma camiseta que mostrasse os seus braços e que fosse bem decotada. Finalmente aquele tempo nublado de merda havia sumido, e o sol mostrado as caras.
— Abaixe isso! – Disse Nick da cozinha, fazendo sua voz de policial.
Vanessa ignorou. A raiva dele não é problema meu, pensou ela enquanto passava desodorante.
Já vestida, ela pegou a bolsa de maquiagem e foi até o espelho de corpo inteiro encostado na parede.
Ela não estava aparecendo.
Vanessa ficou olhando para o espelho vazio. Ergue a mão à sua frente. Lá estava, clara como o dia. Olhou de novo para o espelho. Nada.
Ela levou um tempo para se dar conta que ainda estava dormindo. Sorriu. Mas se ela tinha consciência de que era um sonho, deveria estar no controle.
Soltou a bolsa de maquiagem e foi para cozinha.
— Oi – Disse ela.
Ninguém reagiu. Ela estava mesmo invisível. Nick estava lá, sentado, sonolento, a cabeça apoiada nas mãos. Ele cheirava a perfume de madeira. Sua mãe, distraia-se mastigando um sanduiche de presunto enquanto folheava o catálogo de uma loja chamada Caverna de Cristal. Apenas Melvin virou a cabeça como se tivesse ouvido algo, mas ficou óbvio que ele não enxergava.
Vanessa se colocou ao lado de Nick.
— Você é um babaca – Sussurrou ela no ouvido dele.
Nenhuma reação. Vanessa deu uma risadinha. Sentiu-se estranhamente animada.
— Sabe o quanto eu te odeio? – Perguntou ela a Nick – Cara, você é tão medíocre que nem sabe o quanto é medíocre. Isto é o que você tem de pior: você acha que é perfeito!
De repente ela sentiu algo molhado e áspero na mão. Olhou para baixo. Apolo estava ali, lambendo-a.
— O que é que o Apolo está fazendo – Perguntou Melvin com sua vozinha.
A mãe olhou pro cachorro, que do ponto de vista dela lambia o ar.
— A gente nunca sabe o que Apolo está fazendo. Deve estar caçando mosca.
— Não me faça ir até ai e desligar esse rádio eu mesmo! – Gritou Nick na direção do quarto de Vanessa.
Vanessa deu risadinhas, e seus olhos vagaram pela cozinha. A xícara predileta de Nick estava no balcão, aquela azul estampada com o lema da polícia em branco. Ele devia achar que ser policial em Forgoten era a mesma coisa que patrulhar as ruas de Nova York.
Vanessa passou o braço no balcão e derrubou a xícara, que se quebrou em duas com um barulho gratificante. Melvin deu um pulo e começou a chorar. Ela se sentiu culpada na mesma hora.
— O que foi isso? – Gritou Nick.
Ele se levantou tão rápido que sua cadeira caiu no chão.
— Que pena que você não pode me culpar – Disse Vanessa, triunfante.
Nick olhou bem na cara dela. Os olhares se cruzaram. O choque fez a eletricidade percorrer a espinha dela. Ele a enxergava.
— E quem mais que eu devo culpar? – Rosnou ele.
Melvin começou a chorar de soluçar; Nick o levantou, fazendo carinho no cabelo cor de chocolate do menino.
— Pronto, amigão, está tudo bem – Falou ele, tentando confortá-lo, ainda com os olhos em Vanessa.
— Vanessa, o que você está fazendo? – Perguntou a mãe, com uma voz exaurida.
Vanessa não conseguia responder. Seria ainda um sonho? Se não, o que é?
— Vocês estavam me vendo esse tempo todo? – Perguntou ela.
De repente a mãe pareceu bem cansada.
—Vanessa, você andou tomando alguma coisa?
— Vocês... Vocês são uns babacas! – Gritou Vanessa, e foi para o quarto.
Agora ela estava com medo, morrendo de medo, mas não queria demonstrar. Ela calçou os tênis e pegou sua bolsa.
— Você não vai a lugar algum! – Disse a mãe furiosa parada no batente da porta.
— Então eu devo matar aula? – Falou Vanessa furiosa, dando uma última olhada no espelho que até poucos minutos não se via.
Ela saiu do quarto e bateu a porta da frente com um estrondo que ecoou por toda a escada. Desceu a escada como um raio, passou pelo portão do prédio e atravessou a rua até a parada de ônibus, bem na hora em que ele chegou.
Graças a Deus ela não conhecia ninguém dentro da condução. Ela se sentou lá no fundo.
Só havia duas explicações possíveis para aquela manhã maluca. Uma é que ela pirou. A outra é que voltou a ser sonâmbula. Acontecia muito quando era menor. A mãe adorava envergonhar Vanessa contando para os outros que uma vez ela se agachou no corredor e fez xixi no carpete. Vanessa ainda lembra como era estar naquele estado entre o sono e a vigília. Mas lá no fundo ela sabia que desta vez foi completamente diferente.
Acho que eu estava sonâmbula, concluiu ela. A outra explicação dá muito medo.
Vanessa olhou pela janela e, quando o ônibus entrou no túnel, ela viu seu reflexo no vidro. Dois olhos sem maquiagem lhe devolveram o olhar.
— Ai, droga.
Ela remexeu na bolsa. Só encontrou um gloss velho. A bolsa de maquiagem ficara em casa, caída no chão. Vanessa não aparece na escola sem maquiagem desde os dez anos e não tem intenção alguma de começar hoje. Para está manhã, um trauma já bastava.
O ônibus seguiu por zonas industriais desertas. A mãe às vezes contava que a velha siderúrgica era o orgulho da cidade quando ela era criança, que as pessoas tinham orgulho de viver em Forgoten Place. Vanessa não entendia do que se teria tanto orgulho. A cidade devia ser tão feia e chata quanto é agora.
O veículo atravessou a ferrovia e entrou na zona oeste. Pela janela, Vanessa viu casas imensas e de cores vivas com belos jardins. Era como se o sol brilhasse um pouco mais forte naquele lado da cidade. Era ali que moravam quem tinha dinheiro: médicos, os poucos donos de lojas bem-sucedidas, os herdeiros do moinho.
Ainda faltava muito até o colégio, que por algum motivo estranho ficava longe do centro.
Isolado da civilização, pensou Vanessa. Como uma prisão.
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