A Lenda das Bruxas Vol I - O Início da Lenda
4 Capitulo 3
Notas iniciais

Cordelia sentia falta do outono.
Ela estava em frente aos portões observando o pátio onde perambulavam estudantes em roupas de verão. Braços, pernas, decotes bronzeados por todos os lados. Ela só queria se esconder dentro do casaco de feltro de lã e maltrapilho, puxar a touca de lã para baixo e vestir as meias tricotadas do avô.
Ela vestia uma jaqueta esportiva folgada, camiseta extragrande e calça jeans. Já passava dos vinte graus, mas ela preferia sentir calor a expor a pele. Mas também não queria sentir muito calor. Abriu os braços um pouquinho, para não ficar com mancha de suor nas axilas. No sétimo ano, ela foi empurrada e derrubou água na própria camiseta. Erik Land, de pé ao lado dela, na hora gritou que ela estava suando nos peitos. O apelido Tetalhau ficou tão famoso que durou até o fim do oitavo ano. Ela não queria dar a ninguém a oportunidade de voltar a usá-lo.
O pátio estava ficando vazio. Cordelia se juntou ao fluxo, a cabeça baixada, os braços cruzados na frente dos seios de forma protetora. Ela começou a usar um sutiã que supostamente os deixava menores, mas no espelho não dava para ver a diferença.
Ao entrar no prédio ela deu de cara com Aisha Hobbs, que era da sua turma, e com o namorado de Aisha, Sam Alexander. Eles estavam ao lado da escada, um nos braços do outro. Cordelia olhou para o outro lado, em um surto de autopiedade. Nunca um garoto ia olhar para ela do mesmo jeito que Sam olhava para Aisha.
— Oi – Disse Aisha quando ela passou.
— Oi – Repeteiu Sam.
Cordelia não respondeu.
E só quando chegou à sala de aula, sua mesa na primeira fileira, a mais colada na parede, é que ela conseguiu relaxar um pouco. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e sentiu o corpinho quente e as garrinhas afiadas de Kiko. Seu pelo era macio e sedoso. Quando ela fez carinho na sua cabecinha, ele chiou tanto que o bolso começou a vibrar. A autopiedade dissolveu-se e deu lugar ao amor.
Cordelia sabia que não devia levar um furão para o colégio, mas não se sentia forte o bastante para ir sozinha. Ainda não. Quem sabe na semana que vem.
Até agora as coisas andavam bem. Ela já aguentara duas semanas, e a terceira acabou de começar. Ninguém riu dela. Ninguém jogou sua mochila pela janela. Ninguém tentou empurrá-la na escada. Ninguém beliscou seus seios até ela chorar de dor. Erik Land e Beverly Helstrom já passaram várias vezes por ela no corredor sem lhe dirigir o olhar.
Fazia oito anos que ela sonhava com este momento, e ele finalmente chegou.
Ela finalmente era invisível.
¤¤¤
Skye odiava ser adolescente. Principalmente por ter que fazer parte do mesmo rebanho que outros adolescentes. Ir para o colégio era como ser deportada para outro planeta, todos os dias. Ela não tinha nada a dizer aos habitantes. Não podia sequer fingir que era um deles, porque não sabia como fazer isso.
Era para tudo ser diferente no ensino médio. Esse foi seu consolo durante todo o ensino fundamental. Era para os outros terem se aproximado dela.
Agora, no inicio da terceira semana do período letivo, ela começou a achar que era só um sonho.
Até o prédio lhe lembrava os últimos anos: um edifício de tijolos vermelhos, com quatro andares e telhado plano. Uma dupla solitária de traves sem rede é o único entretenimento no pátio de asfalto. Em certo momento houve tentativas de enfeitar a superfície sem vida com árvores. A maioria morreu. Os galhos e ramos ficaram cinzentos, como se o solo dali fosse podre ou amaldiçoado.
As portas estavam abertas para renovar o ar, mas quando ela entrou o cheiro era o de sempre: pó e linóleo velho. Cheiro de colégio. A primeira pessoa que Skye viu ao passar pelas portas foi Vanessa Lopez. Ela parecia um pouco incomodada.
Vanessa era o oposto de Skye: linda, atraente, cabelos castanhos encaracolados, escolhida a garota mais sexy do colégio no oitavo ano. Ela estava de calça justa branca e tênis combinando. A renda do sutiã aparecendo sob o decote da regata.
Ivy, uma das amigas de Vanessa, veio correndo e pulou nas costas dela, jogando os braços em volta de seu pescoço. Ela esticou um celular e tirou uma foto das duas. Quando Vanessa tentou se livrar de Ivy, ela se agarrou com mais força a Vanessa, os seios das duas garotas espremidos. Elas guincharam de tanto rir, e todo mundo no corredor se virou para ver.
Oito anos se exibindo ainda não foi tempo suficiente? Skye passou com pressa.
¤¤¤
A primeira aula era de Matemática. Vanessa entrou na sala com Ivy. Michelle se apossou das cadeiras do fundo e ficou retocando o nariz.
— Cara, eu estou, tipo, exausta – Disse Ivy, e afunda na cadeira ao lado de Michelle.
— Eu também – Michelle bocejou e se olhou no espelho do reluzente estojo de maquiagem – Porra, hoje estou com cara de quem tem trinta anos.
Vanessa suspirou. Michelle estava com a mesma cara de sempre. Só queria ouvir que era linda, um zilhão de vezes por dia. Agora ela estava ajeitando os cabelos negros e brilhosos e fazendo beicinho para o reflexo no espelho.
— Você já tem, hm, uns cinco centímetros de pó no rosto. Acho que deu – Disse Vanessa, mordaz.
Michelle desceu seu estojo devagar e só então olhou para ela.
— Qual é o seu problema? – Perguntou Michelle.
— Eu só estava brincando.
— Não pareceu – Disse Ivy, sem olhar.
— TPM, é? – Perguntou Michelle – Ficou de bate-boca com Will?
— É – Respondeu Vanessa – Foi.
Assim era mais fácil. Como ela ia explicar o que aconteceu mais cedo? “Eu fiquei um tempo invisível hoje de manhã”. Problemas com meninos, por outro lado, era o idioma que Michelle e Ivy entendiam. Elas pareciam aliviadas. Tudo voltou ao normal.
— Ah, querida.
Ivy lhe deu um abraço. Michelle fez que sim, por compaixão. Vanessa sorriu, grata, e perguntou se podia pegar a maquiagem emprestada.
¤¤¤
Havia um grupo de meninos sentados bem no fundo da sala, ouvindo hip-hop no celular. Kevin Mason cantando junto, sempre errando a letra. Skye sorriu por dentro com puro desprezo.
Ela acenou com a cabeça para Cordelia Fox, na fileira da frente, mas não recebeu resposta. Como sempre, Cordelia estava debruçada sobre a mesa com os cabelos loiros emaranhados formando uma espécie de véu sobre o rosto.
Havia certa desesperança, algo de partir o coração, em Cordelia. Skye tentou conversar com ela algumas vezes no oitavo ano, mas Cordelia só se espremia na parede, muda, como se quisesse que a parede a engolisse. Tanta passividade parecia pedir provocação. Skye tinha alivio quase vergonhoso por pelo menos não estar tão baixo na hierarquia social.
Skye pegou o livro de Literatura na mochila. Até então ela entendeu tudo o que já foi dado em aula, mas continua nervosa. Sempre foi a melhor da turma sem fazer esforço, mas apesar disso, seu maior medo era de que um dia vissem que ela era uma fraude.
O sinal do inicio da aula soou e ela ergueu o olhar.
Mikael estava na porta com um copo de café. Ele tinha vinte e cinco anos e se mudou para Forgotten Place no inicio das férias. Ela não entendia por que alguém iria para lá voluntariamente.
Mikael fechou a porta. Segundos depois, alguém veio bater.
— Quando você se atrasa, se atrasa mesmo, hein – Disse Mikael, e pousou seu copo na mesa.
— Ah, fala sério! E se for por um bom motivo? – Gritou Kevin do fundo da sala, com sua voz que engrossou durante o verão.
Skye não acreditou que ia ter que aguentar Kevin por mais três anos. No ano passado ele perguntou se zebra era cruza de cavalo com tigre.
Mikael olhou de relance para Skye ao abrir a porta. A expressão dizia exatamente o que ele pensava sobre Kevin. Era como se ele soubesse que ela era a única que conseguia interpretar sua expressão. Ela foi obrigada a baixar o olhar.
As pessoas costumavam dizer que ficavam ansiosas quando estavam apaixonadas. Para ela não era assim. Primeiro seus pulsos formigavam. Então seus braços ficavam moles e ela virava uma boneca de pano.
Na primeira vez que viu Mikael, um choque elétrico percorreu suas mãos. Que patético ficar caidinha pelo professor. Ainda mais um professor que nem Mikael: bonito no estilo que sem duvida meninas que nem Vanessa Lopez achavam atraente, olhos castanho-esverdeados, cabelo escuro cacheado e braços musculosos.
Hoje teriam dois tempos seguidos de Literatura, e Skye se concentraria no trabalho à sua frente. Ela adorava Literatura. Os livros eram claros. Os poemas eram cristalinos. Claros e cristalinos, sem tons escuros.
De vez em quando ela erguia o olhar para espiar Mikael.
Ela lembrou o que a mãe disse, que não era bom ficar guardando os sentimentos. Mas nunca que ela contaria a alguém o que sentia por Mikael. Muito menos a ele.
Quando a primeira aula estava para terminar, Mikael esvaziou o copo de café, fechou sua maleta e saiu da sala.
Haveria um intervalo de dez minutos até a próxima aula. Dez minutos sem ter o que fazer, fora ficar sozinha e patética para todo mundo ver.
Eles estavam no terceiro andar. Havia um corredor que levava ao sótão. Não tinha saída, e Skye percebeu que ninguém usava os banheiros lá de cima. Era o lugar perfeito para ficar em paz. Ela subiu as escadas correndo e fez a curva.
Quando abriu a porta que dava para os banheiros, o cheiro de fumaça de cigarro a atingiu. Havia um espelho estilhaçado. Cacos de vidro estavam espalhados por uma das pias. A janela estava escancarada e tinha uma menina encostada no batente, fumando.
Ela vestia regata preta, saia evasê na altura dos joelhos com caveiras sobre o fundo preto e meias brancas longas. Tinha um caderno apoiado nos joelhos, no qual escrevia concentrada com uma canetinha.
Foi só quando a porta bateu, depois de Skye passar, que ela ergueu o olhar. Sua franja quase cobrindo os olhos, contornados com uma linha grossa de delineador. O resto do cabelo estava preso em um rabo de cavalo.
Effy Wall.
Elas eram da mesma turma no sétimo ano. Todo mundo sabia que o pai de Effy era alcoólatra e que a mãe havia morrido. Effy sempre matava aula até que um dia, no inicio do oitavo ano, a professora avisou que ela não ia mais voltar. Circularam boatos de que ela havia ido morar com parentes distantes e até que havia morrido. Depois que soube que ela apenas tinha ficado em casa. Só gerou mais boatos: tentativa de suicídio, o pai era pedófilo, ela vendia drogas, era prostituta virtual, era lésbica. Desde então, Skye só a via andando com o grupo alternativo.
E agora ela fitava Skye com olhos de decepção.
— Oi – Disse Skye.
— Achei que fosse outra pessoa – Falou Effy.
Skye olhou para o espelho estilhaçado.
— Não fui eu – Disse Effy.
— Não pensei isso – Mentiu Skye.
Suas orelhas se enrubesceram, como sempre acontecia quando se sentia envergonhada. Ela tentou a maçaneta de uma das cabines tentando parecer indiferente. Estava trancada.
— Acho que não está abrindo – Disse Effy.
Skye não respondeu e abriu a outra cabine.
Ela trancou a porta e descansou a testa apoiada na parede. Ouviu Effy acender outro cigarro. Skye esperou passar o devido tempo antes de dar descarga na privada que não usou e então sair. Olhou-se no espelho e lavou as mãos. Deu uma espiada em Effy e sentiu uma pontada de inveja. Ela era bonita, magra e, pior, tinha uma pele maravilhosa. Skye sofria usando óculos desde os dez anos. No oitavo ano, Erik Land perguntou se ela enxergava dois dele com aqueles óculos. O seu oftalmologista disse que ela poderia usar lentes se quisesse. Ela sabia, mas as lentes a incomodavam e ela preferia o velho e antiquado óculos.
Effy interrompeu os pensamentos dela:
— Você não precisa fingir.
As orelhas de Skye voltaram a ficar em tom vermelho-vivo.
— Como é?
Effy deixou o seu caderno de lado.
— Você só vem aqui para se esconder, não é?
— Eu gosto de ficar na minha – Balbuciou Skye.
Effy abriu um sorriso inescrutável. Elas passaram um instante se observando.
— Você não vai contar para ninguém, vai? – Perguntou ela, mexendo o cigarro.
— O que você faz da sua vida não é da minha conta.
— Exatamente.
Effy jogou o cigarro na pia. A ponta acesa chiou e se apagou na superfície molhada. A garota se levantou de um salto de perto da janela. A caneta caiu do caderno e saiu rolando pelo chão, passou por Skye e foi parar sob a porta da cabine trancada.
Skye se abaixou para procurar a caneta, que estava em uma coisa negra e pegajosa. Ela viu uma bolsa preta e um par de botas negras lá dentro. Tinha alguém sentado na privada.
Skye levantou-se tão rápida que sentiu tontura.
— Que foi? – Perguntou Effy.
— Acho que tem alguém ali... – Ela começava a achar que era uma pegadinha. Talvez tudo aquilo estivesse sendo filmado e a reação ridícula dela ia cair na internet – Mas eu não sei...
Effy foi até a outra cabine e subiu na privada. Espiou por cima da divisória. Skye aguardou uma reação que nunca chegou. Os segundos passaram, um da cada vez.
— O que é?
Effy desceu da privada e sumiu de vista.
— O que você viu?
Nenhuma resposta. A janela aberta deixou passar uma rajada de vento. Skye foi até Effy. Ela estava recostada na parede, olhando para o nada.
— É a Amy – Disse ela, enfim.
Amy Lang? Skye já a vira com Effy na cidade várias vezes. Ela devia estar falando dela.
— O que aconteceu? Ela está bem ou não? – Perguntou Skye, embora já sabia a resposta.
Effy caiu de joelhos e vomitou na privada. Continuou forçando o vômito até só restar saliva grossa. Skye permaneceu parada, estarrecida, até Effy se virar. O delineador começara a escorrer. Os olhos delas se encontraram e Skye percebeu que Effy estava desmoronando.
— Venha cá – Disse ela, e segurou sua mão.
Effy segurou-se nela e colocou-se de pé com dificuldade. Olhava em volta com uma expressão desvairada.
— A gente tem que chamar alguém – Disse Skye.
Effy a encarou. Fez que não com a cabeça.
— A gente não pode deixá-la aqui.
— Eu fico – Disse Skye, arrependendo-se de imediato.
— A gente tem que tirá-la daqui.
— E vamos – Falou Skye, perguntando-se como conseguia manter a calma.
Effy saiu correndo pela porta e a janela se fechou com a corrente de ar. Por um instante Skye sentiu o cheiro, até que a janela voltou a se abrir. Era um cheiro que ela nunca havia sentido, mas que logo entendeu. Era o cheiro da morte. Só que ela não podia ficar pensando nisso. Não agora.
Ela olhou na direção da cabine. Era muito sangue.
O pânico cresceu dentro de si quando ela viu os cacos afiados da pia.
Skye deu um salto quando a porta do banheiro se abriu. O zelador do colégio entrou carregando uma caixa de ferramentas. Ele tinha uns quarenta anos e cabelo curto com alguns fios grisalhos. Seus olhos azul-gelo estavam arregalados e voltados para ela. Ele resmungou algo que Skye não compreendeu, arriou a caixa de ferramentas e começou a remexer lá dentro.
Effy retornou e foi até Skye para segurar sua mão, apertando-a convulsivamente. Um instante depois chegou a diretora.
Skye só viu Regina Rivers uma outra vez, no primeiro dia de aula, quando os alunos novos foram recebidos no colégio. Ela parecia ter entre trinta e quarenta anos, com cabelo curto e franja. Usava saia preta até os joelhos e blusa branca com todos os botões fechados. Atraente, mas sisuda. Não era uma diretora com quem se quer discutir problemas, sentiu Skye.
— Meninas, vocês não podem ficar aqui – Disse ela.
— Eu vou ficar – Afirmou Effy.
A diretora a encarou.
— Saiam, agora – Ordenou ela.
— Nós vamos ficar – Disse Skye.
O zelador puxou uma chave de fenda. Era fácil abrir essas portas pelo lado de fora. Provavelmente foram feitas pensando-se nisso. Effy se aproximou de Skye e apertou a mão dela com ainda mais força.
— Não olhe – Sussurrou ela.
E Skye queria fechar os olhos. Queria ir embora. Mas ficou ali, os olhos arregalados, enquanto a porta se abria.
O zelador virou-se e a diretora soltou um suspiro. Skye não conseguia se mexer. O choque era como gelo atravessando seu corpo. A cabeça de Amy estava caída para trás e os olhos, abertos, mirando o teto. Os braços, moles. Sua mão direita ainda segurava um grande caco de espelho estilhaçado. Havia um talho gigantesco no braço esquerdo.
Skye e Effy se abraçaram. Simplesmente aconteceu. Skye não era de abraçar e sentiu que Effy também não. Mas, nesse momento, elas só precisavam ficar próximas a outra pessoa, a alguém vivo.
Lá ao longe, no mundo real, ela ouviu sirenes se aproximando.
Fale com o autor