Notas iniciais
Digam se vale a pena continuar escrevendo, suas palavras valem muito...

Ela estava aguardando uma resposta, mas Amy não sabia o que dizer. Nenhuma resposta ia agradá-la. Amy fica olhando para as próprias mãos. À luz inclemente das lâmpadas fluorescentes, elas ficavam tão pálidas que ela enxergava cada veia.

— Amy?

Como ela aguenta trabalhar nessa salinha patética, só com pastas, planilhas e esta vista para o estacionamento do colégio? Como ela se aguenta?, pensou.

— Poderia me explicar o que se passa na sua cabeça? – Repetiu ela.

Amy ergueu a cabeça e olhou para a diretora. É claro que ela se aguentava. Pessoas como ela não tinham dificuldade para se encaixar no mundo. Sempre se comportavam normal e previsivelmente. Acima de tudo, estavam convencidas de que tinham a solução para qualquer problema. Solução número um: adequar-se e seguir as regras. No cargo de diretora, Regina Rivers era a rainha de um mundo que seguia essa filosofia.

— Estou bastante preocupada com sua situação – Disse ela. Mas Amy percebeu que, na verdade, ela estava irritada. Afinal, o caso dela nunca se resolvia – Mal se passaram três semanas e você já perdeu metade das aulas. Estou tocando nesse assunto agora porque não gostaria de vê-la perder o semestre inteiro.

Amy pensou em Effy. Isso geralmente ajudava, mas no momento ela só conseguia lembrar que elas passaram a noite anterior gritando uma com a outra. Pensar nas lágrimas dela era doloroso. Amy não conseguia fazê-la parar de chorar, e ela era a causa. É provável que esteja com ódio dela agora.

É Effy quem a mantém afastada das sombras. É ela quem a impede de usar outras rotas de fuga, aquela lâmina que a ajuda a controlar a angústia por um breve instante, o baseado que a faz esquecer. Mas ontem ela não conseguiu se controlar, e é obvio que Effy percebeu. É provável que ela estivesse com ódio de Amy agora.

— O primeiro ano é diferente – Prosseguiu a rainha – Você ganha mais liberdade, mas isso trás responsabilidades. Ninguém vai leva-la pela mão. O que você vai fazer pelo resto da vida depende de si mesma. É agora que tudo se decide. Todo o seu futuro. Quer mesmo jogar seu futuro fora?

Amy quase morreu de rir. Ela acreditava mesmo nessa ladainha? Para a diretora, ela não era uma pessoa, era só mais uma aluna que “perdeu o rumo”. Era impossível ela ter problemas que não desse para justificar só com “puberdade” e “hormônios” nem para resolver com “regras firmes” e “limites bem definidos”.

— Tem o Exame de Admissão Universitária, não tem? – Deixou escapulir Amy.

A boca da diretora virou uma linha.

— Até o Exame de Admissão Universitária requer bons hábitos de estudo.

Amy soltou um suspiro. A conversa estava demorando mais do que deveria.

— Eu sei – Disse ela, desviando o olhar – Eu não quero estragar tudo, de verdade. Queria que este ano fosse um novo começo para mim, só que está mais difícil do que eu pensava... Eu já estou bem atrasada em relação a todo mundo. Mas vou resolver isso.

A diretora pareceu surpresa. Um sorriso abriu-se em seu rosto, o primeiro sorriso natural de toda a conversa. Amy disse exatamente o que ela queria ouvir.

— Que bom. Você vai ver que as coisas vão andar melhor assim que começar a se dedicar.

Ela se inclinou para frente e puxou da camiseta preta de Amy um fio de cabelo, com que seus dedos ficaram brincando. O fio, reluzindo ao sol que atravessava as janelas, era tão negro quanto azeviche, tudo graças à descendência oriental de Amy. Regina Rivers observava, fascinada, e Amy teve a louca sensação de que ela ia enfiar o cabelo na boca e o comer.

Ela percebeu que Amy não tirava os olhos dela, e largou o cabelo na lixeira.

— Desculpe, sou um pouco detalhista.

Amy sorriu sem dizer nada. Não sabia ao certo como reagir.

— Bem, acho que por hoje é só – Disse a diretora.

Amy levantou-se e se dirigiu a porta. A porta não se fecha por completo quando ela passa. Ela se vira para fechá-la direito e vê a diretora dentro da sala.

Ela estava curvada sobre a lixeira, pescando alguma coisa com os dedos longos e finos. Depois colocou a coisa em um envelope e o fechou.

Amy continuou ali parada, sem entender o que acabou de testemunhar. Depois dos últimos dias, não confiava mais nos próprios sentidos. Não fosse uma ideia pirada, diria que ela guardou no envelope justamente o fio de cabelo que tinha tirado da camiseta dela.

A diretora ergueu o olhar. Seu semblante ficou duro. Mas ela então abriu um sorriso artificial.

— Algo mais – Perguntou ela.

— Não – Sussurrou Amy, e bateu a porta.

Quando ouviu o barulho da porta batendo atrás de si, ela sentiu um alivio fora do comum, como se tivesse sorte de ter escapado com vida.

¤¤¤

O colégio estava deserto. Meia hora atrás, quando ela estava na sala da diretora, havia alunos por todo o lado. Esse vazio parecia anormal.

Amy ligou para Effy enquanto suas botas desciam pesadamente a escada em espiral. Ela atendeu assim que Amy chegou ao pé da escada e abriu a porta para o corredor térreo.

— Alô.

— Sou eu – Disse Amy.

O nervosismo chegou a doer.

— Eu sei – Respondeu ela, como sempre.

Amy relaxou um pouquinho.

— Estou me sentindo mal pra cacete por ontem – Disse Amy depressa – Desculpe.

Ela queria ter dito isso de manhã, assim que a viu, mas não teve oportunidade. Effy passou o dia distante. E sumiu antes da última aula.

— Sei – É só o que Effy respondeu.

A voz dela soava tão irritada. Nem mesmo triste. Estava vazia, conformada, como se ela houvesse desistido. E isso deixava Amy mais assustada do que qualquer outra coisa.

— Não, é que... Eu juro que não recaí. Não vou fazer de novo. Foi só um baseado.

— Você disse isso ontem.

— Acho que você não acreditou.

Amy seguiu a fileira de armários, passou por um grupo de bancos de madeira aparafusados ao chão, vazios, passou pelo quadro de avisos, e Effy ainda não responderá. De repente Amy nota outro som. Passos que não são seus.

Ela se vira. Não há ninguém.

— Você prometeu que ia parar – Disse a voz de Effy.

— Eu sei. Desculpe. Eu decepcionei você...

— Não – Interrompeu-a Effy – É você que se decepciona! Você não tem que fazer isso por mim. Aí você nunca...

— Eu sei, eu sei. Eu sei disso tudo.

Amy chegou ao seu armário, abri-o, enfiou alguns livros na mochila preta e bateu a porta fina de metal. Ouviu os passos de novo, e depois silêncio. Olhou pra trás. Não havia nada. Absolutamente ninguém. Mas ela sentiu que estava sendo observada.

— Por que você fez aquilo?

Effy repetiu a mesma pergunta ontem, varias vezes. Mas Amy não disse a verdade. A verdade dava medo. Era muita maluquice. Até para uma maluca como ela.

— Já falei. Eu estava pirando – Disse ela, tentando não soar irritada, para não estragar tudo de novo.

— Eu sei que tem outra coisa.

Amy hesitou e falou baixinho:

— Tudo bem. Eu conto. A gente pode se ver de noite?

— Pode ser.

— Eu saio assim que meus pais forem dormir. Effy...

— Fale.

— Você me odeia?

— Odeio quando você faz perguntas imbecis que nem essa.

Amy bufou. Finalmente. Essa era a Effy que ela conhece. Amy desligou. Sorriu no corredor. Existia esperança. Desde que ela não odeie Amy, existia esperança. Amy precisava contar para Effy. As duas eram como irmãs. Ela não ia ter que passar por tudo sozinha, pois Effy estaria ao seu lado.

E neste instante, as luzes se apagaram. Amy ficou paralisada. Uma sombra passou pela janela de uma das portas do corredor. Uma porta bateu ali perto. Então o silêncio voltou a reinar. Amy tentava se convencer de que não havia o que temer. Ela começou a caminhar rumo à saída. Se obrigou a manter o ritmo calmo e constante. Não queria demonstrar o pânico crescente, então contornou a fileira de armários no corredor.

Tinha alguém ali.

O zelador. Amy só o viu algumas vezes, mas era impossível o esquecer. Os olhos gigantes, azul-gelo. Olhos que fitavam Amy como se soubessem todos os seus segredos. Amy olhou para o chão ao passar por ele. E ainda sentia os olhos penetrando sua nuca. Aumentou o passo, a náusea subindo até a garganta. É como se o coração estivesse batendo tão forte que ela fosse vomitar.

As coisas tinham melhorado nos últimos seis dias. Ela sentiu que tinha algo acontecendo por dentro, que estava mudando. A nova psicóloga do Centro de Reabilitação não era imbecil que nem a outra, e parecia entendê-la de verdade. Acima de tudo, ela tinha Effy. Ela a fazia se sentir viva, a fazia querer deixar de lado as habituais trevas que a sufocavam.

Por isso que era tão difícil entender por que isso agora. Agora que ela conseguia dormir à noite, agora que conseguia até mesmo se sentir feliz.

Há três dias, o espelho mostrou seu rosto se transformando. O rosto se esticou, se contorceu até ficar irreconhecível. Foi quando Amy percebeu que estava perdendo a sanidade. Ouvia vozes, tinha alucinações, podia sentir a presença das pessoas.

Passou dias segurando-se para não usar as lâminas nem o bagulho do Java. Evitava até se olhar nos espelhos. Mas ontem ela se vira em uma vitrine, o rosto tremendo se transformando como se fosse água.

Foi ai que ela ligou para Java.

— Você vai pirar – Ele disse.

Um zumbido estranho entrou em sua cabeça. Amy olhou ao redor e notou que voltou a subir a escada em espiral, voltou ao corredor que levava à sala da diretoria. Não sabia por quê. As luzes piscaram e se apagaram. A porta para a escadaria trancou-se lentamente depois que ela passou. Logo antes de ela se fechar, Amy ouviu. Era o som de passos leves nas escadas.

Esconda-se, foi o primeiro pensamento dela.

Amy passou correndo pelo corredor escuro. Depois de cada fileira de armários ela esperou que alguém ou alguma coisa aparecesse do nada. Assim que fez uma curva, ouviu a porta da escadaria abrir-se ao longe. Os passos estavam cada vez mais próximos, lentos, mas decididos.

Amy chegou aos degraus de pedra que constituíam a espinha dorsal do colégio.

Suba as escadas, rápido.

As pernas de Amy obedeceram, dois degraus por vez. Ao chegar no último andar, ela continuou correndo rumo ao pequeno corredor onde ficava aquela porta trancada que levava ao sótão. Não havia saída, era um dos lugares esquecidos do colégio. Só tinha banheiros que ninguém usava. Amy e Effy costumavam se encontrar ali.

Os passos ficaram mais próximos.

Esconda-se.

Amy abriu a porta do banheiro e entrou. Fechou a porta com cuidado e respirou tentando fazer menos barulho possível. O único som que ouvia era de uma moto acelerando longe dali. Amy encostou o ouvido na porta.

Não conseguiu ouvir nada, mas sabia que tinha alguém ali, do outro lado.

Amy.

O sussurro agora estava mais alto, mas ela tinha certeza de que era só em sua cabeça.

Finalmente aconteceu: perdi o controle, pensou, e imediatamente a voz respondeu: Sim. Perdeu.

Ela olhou pela janela e enxergou o céu azul-claro. Os azulejos brancos brilhavam. Estava muito frio. Ela foi tomada por uma solidão imensa.

Vire-se.

Amy não queria, mas se virou mesmo assim. Era como se não tivesse mais controle sobre o seu próprio corpo. A voz a controlava, como se ela fosse uma marionete de carne e osso. Ela estava distante da fileira de três pias e espelhos. Quando vislumbrou o rosto branco, tentou fechar os olhos, mas não conseguiu.

Quebre o espelho.

O corpo de Amy obedeceu. Ela segurou bem as alças da mochila e a girou no ar.

O barulho do espelho se estilhaçando ecoou pelas paredes de azulejo. Cacos grandes soltaram-se e quebraram na pia, onde viraram pedaços ainda menores com um tilintar.

Alguém deve ter ouvido, pensou Amy. Tomara que tenham ouvido.

Mas ninguém veio. Ela estava sozinha com a voz.

O corpo de Amy foi até a pia e pegou o caco maior. Ela já sabia o que ia acontecer. Estava tonta de tanto medo.

Você está arruinada. Não tem mais jeito.

Ela camina lentamente até as cabines abertas.

Vai acabar. Ai você nunca mais vai precisar ter medo.

A voz agora parece quase reconfortante.

Amy tranca a porta e afunda-se no assento da privada. Faz força para abrir a boca, para gritar desesperadamente. Apertava a mão em torno do caco, e as bordas cortaram sua pele.

Nenhuma dor.

E ela não sentiu dor. Viu o sangue escorrer da mão e pingar no piso cinza, mas não sentiu nada. Seu corpo estava dormente. Restavam apenas seus pensamentos. E a voz.

A vida não vai melhorar. É melhor dar fim nela agora. Poupar-se da dor. Poupar-se das traições. Nunca fica melhor, Amy. A vida é só um esforço degradante. Os mortos é que têm sorte.

Amy não tentou resistir quando o caco de vidro rasgou a manga comprida de sua camiseta, expondo as cicatrizes na pele.

Mãe, pai, pensou ela. Eles vão superar. Eles têm fé. Eles creem que vamos nos reencontrar no paraíso. Amo vocês, pensou ela enquanto o caco afiado começava a rasgar a pele.

Ela esperava que Effy entendesse que não foi escolha dela. Todos os outros vão achar que ela se suicidou, mas não tem problema. Desde que Effy não pensasse assim.

Ela rasgou a pele de um jeito diferente das outras vezes. Cortou fundo, com determinação.

Já vai terminar, Amy. Só mais um pouco. Ai acaba. Vai ser melhor assim. Você já sofreu demais.

O sangue jorrou do braço. Amy viu acontecer, mas não sentiu nada. Manchas negras dançaram à sua frente. Dançaram e cresceram até o mundo inteiro virar breu. O último som que ela ouve é dos passos no corredor. Quem quer que esteja lá não se dá o trabalho de continuar sendo silencioso. Não há mais motivos pra isso.

Você fracassou na vida.

Amy tentou continuar pensando em Effy. Como quando era pequena e achava que poderia fugir de seus pesadelos se conseguisse se agarrar a um pensamento lúcido até cair no sono.

Me perdoe.

Não soube se essas palavras vieram dela ou da voz.

É então que a dor começa.

Notas finais
Adeus Amy