A Lenda da Raposa de Higanbana

50 49: A natureza das raposas.


Notas iniciais
E estamos de volta, demorei um pouquinho? Hum... talvez, mas nada fora do esperado. Hoje estarei fazendo uma nova prova de concurso, me desejem sorte! XD Glossário: Ane-san: uma forma formal de chamar a uma irmã mais velha. Samue: Conjunto tradicional de calça e camisa de mangas longas comumente usada por monges e monjas que nos tempos modernos se tornaram populares como roupas casuais ou de trabalho.

Há várias gerações, as raposas tubo haviam formado um contrato com Furin, de servir a ela e seus descendentes, portanto, na falta de sua mestra elas prontamente obedeceriam cada uma das ordens de seus filhotes… sempre e quando obedecê-las não fosse um risco maior às suas vidas do que não obedecê-las.

Felizmente as ordens da jovem dama e dos jovens mestres tendiam a ser coisas simples e seguras — exceto quando envolviam aquela mulher de olhos astutos, pois aí os interesses dos jovens mestres entravam em conflito e se tornavam uma guerra de vontades que os prendia bem no meio do fogo cruzado — e os pequenos criados já estavam naquele mundo há um tempo considerável o suficiente para entender como as coisas funcionavam por ali: aquele era um mundo abandonado por youkais já há muitos séculos, e as únicas exceções eram aqueles que somente nasciam e se alimentavam a partir de emoções humanos, como os insetos, e aqueles que dependia da crença humana para sua própria existência, como os pequenos deuses, e mesmo esses estavam se tornando cada vez mais raros.

No principio, a casa da humana que a jovem dama os ordenara a seguir não parecia nada diferente do normal, não era completamente livre de insetos, porém não tinha também nenhuma concentração alarmante, e isso era um bom sinal.

Embora fossem asquerosos e irritantes, aqueles insetos até tinham sua utilidade: em geral uma habitação humana completamente esterilizada deles significava um humano capaz exterminá-los ou, no mínimo, protegido por algo que o fazia, e ambientes excessivamente contaminados que não fossem ocupados por uma quantidade massiva de humanos, indicava — pelo menos — um humano em grave tormento. E considerando que a sua jovem dama os havia enviado com o propósito de averiguar o quanto aquela mulher sabia e que perigo ela poderia oferecer, não encontrar nenhuma situação extrema de insetos em sua casa era, no mínimo, um pouco mais tranquilizador… até que entraram no dormitório e encontraram a criatura ali.

Aparentemente havia ainda outro tipo de criatura que permanecia resiliente naquele mundo, um tipo que não só a existência dependia da crença humana, como também nascia e se alimentava das emoções deles.

Inicialmente os criados se assustaram achando que a criatura de longos cabelos prateados sentada e encurvada nas sombras junto à cabeceira da cama, onde uma mulher dormia a sono profundo, era o primeiro jovem mestre, mas aquela criatura tinha os cabelos mais opacos, embaraçados e compridos que os do jovem mestre, caindo sobre os ombros e o rosto da criatura, um rosto mais bestial do que humano, com um longo focinho branco, olhos brilhantes e presas compridas e pontiagudas que se projetavam para fora da boca que brilhava com filetes de saliva, quando a criatura ergueu a mão, os criados a viram suja e nodosa, com veias saltadas e garras imensas que pairaram a centímetros do rosto da mulher adormecida.

—Você me viu… — sussurrou com uma voz arrastada que parecia arranhar a garganta, mas ainda assim, perigosamente próxima ao familiar tom de voz do jovem mestre, aquela criatura por acaso… estava emulando-o?! Os criados se afastaram, recuando para um canto afastado, sibilando — garota tola… você me viu… eu vou pegá-la… vou dilacerá-la… Higanbana irá queimar… eu jurei… jurei que todos pagariam pelo que me fizeram… — a criatura estremeceu, seu rosto retrocedeu, tornando-se plano e arredondado, e quando voltou a falar, sua voz soou trêmula e feminina, a beira do choro: — Não… por favor… por favor… poupe-me… por favor…!

A criatura curvou-se ainda mais para frente, com os ombros trêmulos enquanto suplicava… antes de desaparecer.

Em nenhum momento a mulher adormecida se moveu, nem a criatura deu atenção ou pareceu se der conta ou se importar com a presença dos três kudagitsunes no canto mais afastado do quarto, e por que o faria? Elas não eram suas presas ali.

Cochichando entre si, os pequenos criados saíram voando pela janela, pois agora eles tinham toda a informação que a jovem dama necessitava, e então ela poderia decidir o que fazer.

Isso era muito sério, quando humanos descobriam sobre as identidades dos youkais quase nunca acabava bem, eles eram imprevisíveis e podiam ter reações adversas que podiam variar desde a absoluta incredulidade e descrença do antinatural que muitas vezes os levavam à loucura — o que não era tão ruim, pois dificilmente se dava ouvidos a um louco —, porém a situação se tornava mais complicada quando ao invés de enlouquecerem esses humanos aterrorizados saiam correndo gritando “Raposas! Monstros!” por todo vilarejo e alertavam aos exterminadores… ou então se tornavam eles próprios em exterminadores ou até um estado de completa negação, onde se convenciam de que tinham imaginado ou buscavam respostas mais lógicas que se encaixasse às suas mentalidades limitadas. E poucos eram aqueles que conseguiam aceitar e conviver com esse mundo, especialmente entre os quais só o descobriram tardiamente… isso já era verdade no mundo antigo, e havia se tornado quase absoluta no mundo atual.

Inclusive aqueles que perseguiam pistas do sobrenatural, nem sempre o aceitavam tão bem quando o encontravam, Gintsune já havia se arriscado demais se expondo a Yukari, e ela era um desses tipos raros que — após um breve e escandaloso momento completo de pânico — havia aceitado e se acostumado ao sobrenatural, até demais, considerando o risco no qual a exposição a colocava, e também a Haruna, mas ele o estava mantendo sob controle pela técnica do constante alerta e medo… se o professor enlouquecesse no processo… bem, Yukari não podia culpá-lo. Ao menos seu segredo estaria seguro.

Mas agora também havia aquela garota… e isso era péssimo, seu segredo estava se espalhando demais, e isso era arriscado não só para ele, como também para sua linda irmã e até para aquele fedelho mal educado, e Gintsune não sabia o que fazer para contê-lo, ele sabia exatamente o que seus pais fariam, mas havia prometido a Yukari que não machucaria a amiga dela e ela provavelmente consideraria transformar sua querida amiga em cinzas como uma quebra de promessa da parte dele e ele também não se considerava apto a mexer com a mente da garota e modificar suas memórias, como faria sua mãe, sem o risco de transformar o cérebro dela em mingau de arroz… e não podia perguntar à sua linda irmã se ela conseguia mexer com mentes humanas daquela forma, porque sabia que ela era muito mais adepta aos métodos do velho do que da mãe.

Ele precisava se concentrar e pensar sobre o que fazer… mas seria impossível com Yukari o distraindo daquela forma!

—Poderíamos sair um pouco. — ele sugeriu.

—Sair? — Yukari levantou a cabeça, olhando-o desconfiada.

Gintsune deu de ombros.

—Não se preocupe, há essa hora não há ninguém na rua para nos ver, se é isso que a assusta, essa é uma das vantagens de se morar no interior… ou, se preferir, nós podemos ficar aqui. — concordou passando o braço por detrás dela e puxando-a para si, esfregando o nariz na curva de seu pescoço — É só que… se continuarmos aqui dentro sozinhos eu vou continuar ficando cada vez mais animado e tomando certas liberdades… e tenho certeza que em algum momento, quando você conseguir recuperar o juízo, vai ficar muito brava comigo e, provavelmente, me banir daqui por um tempo… — e, enquanto falava, ele deliberadamente espalhava beijos por sua orelha e linha da mandíbula — Mas é claro que se você quiser ficar aqui, eu não vou me opor…

E foi justamente nesse momento em que ele já tentava deitá-la de volta na cama, que Yukari ergueu uma mão e o afastou.

—Então vamos sair! — ofegou corada, pulando para longe da cama — Eu vou pegar meu casaco!

Tudo bem, afinal fora ele mesmo quem sugerira sair e caminhar um pouco, Gintsune suspirou amaldiçoando a si mesmo e seus raros momentos de bom senso.

—Poderíamos voar um pouco, se você quisesse. — sugeriu algum tempo mais tarde, quando já estavam caminhando pela rua.

—Não obrigada, já está frio o bastante aqui embaixo, não quero nem imaginar lá em cima. — Yukari retrucou com uma das mãos enfiadas no bolso e a outra levantando um pouco mais o cachecol — Além disso, o objetivo não era não sermos vistos?

—Não seremos vistos se eu não quiser… sabia que alguns youkais podem até simular uma segunda lua no céu, quando voam? — ele abriu o zíper do casaco e o tirou, colocando-o sobre os ombros dela.

—Isso seria ainda mais suspeito! — ela o retalhou, fazendo menção de recusar o casaco — E não preciso disso, nem estou com tanto frio assim, e você…!

—Não sinto frio da mesma forma que você, esqueceu? — Gintsune a interrompeu adiantando-se e dando um nós com as mangas do casaco em torno do pescoço dela, o transformando em uma espécie de capa e rindo da cara (o pouco que se podia ver) ultrajada de Yukari, ele quase baixou o cachecol dela e a beijou ali mesmo. — Mas você não devia ficar desperdiçando suas chamas assim, ou seu plano é continuar as extinguindo desnecessariamente só para poder me ver?

—Claro que não.

Respondeu tão sinceramente que Gintsune levou uma mão ao peito.

—Às vezes você podia mentir um pouquinho, mesmo se fosse apenas para não machucar meu frágil ego.

—Também não tem nada de frágil no seu ego.

Yukari o contradisse, novamente, fazendo Gintsune rir e pegar sua mão antes de seguir andando.

—Mas você devia comprar um casaco novo, esse aí fez parte do seu enxoval de bebê por acaso?

—Não seja idiota. — Yukari resmungou, mas não lutou mais contra o casaco extra — E eu tenho um casaco novo, mas seu irmão costurou as mangas dele uma na outra e ainda não tive tempo de concertar.

As sobrancelhas de Gintsune se arquearam e agarrou a mão dela.

—O fedelho fez o que?

—Ele é só uma criança, não é nada demais, e eu ainda tenho outro casaco. — Yukari desconsiderou dando de ombros.

—Mas uns bons cascudos não fariam mal, antes que a coisa fique mais grave. — ele retrucou entrelaçando seus dedos aos dela e a levando consigo quando recomeçaram a caminhar, ainda resmungando: — A ideia pode ter partido do fedelho, mas sinto cheiro daqueles criados estúpidos nisso.

—Criados? — Yukari franziu o cenho.

Gintsune pigarreou.

—Espero que aquele arruaceiro não tenha feito isso com você vestindo a peça. — quando ela balançou a cabeça ele assentiu — Claro que não, você o teria sentido a meio metro de distância.

—Ou dois.

—Espere um pouco! — Gintsune deteve-se, piscando. — O quanto exatamente aquele fedelho te perseguiu enquanto eu estava fora?!

—E que importância isso tem? — ela esquivou-se retornando a caminhar e fazendo-o acompanhá-la.

Independente do quanto Gintsune a alertasse que o fedelho era uma praga, ela ainda era muito mole com crianças e ficava o defendendo.

—Eu sou muito mais adorável, então por que é mais branda com ele e não comigo? — reclamou.

—Está com ciúmes de uma criança? — Yukari franziu o cenho.

—Óbvio que estou. — ele confirmou sem preâmbulos, surpreendendo-a — Mas mais importante: seus olhos estavam muito mais aguçados quando eu retornei, e obviamente isso é culpa do fedelho que ficou atormentando-a e perseguindo-a, colocando-a em alerta máximo e apurando seus sentidos! Assim que minha linda irmã se distrair eu esgano aquele moleque!

—Não seja tão infantil. — ela o censurou.

Gintsune deteve-se mais uma vez, parando diante dela e entrelaçando as mãos na altura do fim de sua coluna e a abraçando enquanto apoiava a cabeça em seu ombro.

—Então me console. — balbuciou.

—Você é muito bobo mesmo. — ela resmungou.

Mas ainda assim acariciou lhe a lateral do rosto com as costas de uma mão enluvada, antes de beijá-lo.

Porém, se Gintsune havia pedido que saíssem para que ele não se “animasse demais” estando a sós, que diferença fazia estarem na rua se continuavam a sós? E o que é que ela estava fazendo o incentivando?!

Yukari afastou-o.

—Então… hum… — pigarreou — Você só queria falar sobre o seu irmãozinho?

—Não, o fedelho é problemático, mas eu ainda acho que posso resolver isso com uns bons cascudos. — ele admitiu levando uma mão à parte de trás do pescoço enquanto com a outra pegava a dela e retornava a caminhar: — O que realmente me preocupa é a sua amiga Aoi, pelo que você me disse ela já sabe há bastante tempo, mas como você descobriu? Ela te contou ou você percebeu sozinha?

—Aoi já tem agido estranhamente há algum tempo, mas ela me contou sim.

Gintsune precisou de muito autocontrole para que a cauda não escapasse e as orelhas não saltassem por debaixo da touca.

Que astuta tinha sido Yukari o fazendo prometer que não faria nada àquela garota antes de contar a gravidade da situação, alguém que simplesmente demonstrava um comportamento anormal e agitado não era tão ruim quanto alguém que saía falando abertamente sobre raposas, e alguém que contava sobre raposas enquanto se mostrava completamente transtornava podia ser pior ainda… a menos que a tomassem por louca.

Isso seria muito conveniente.

—O quão estranhamente ela tem agido? — perguntou hesitante — E… você sabe para quem mais ela contou?

—Acho que apenas para mim, ela estava preocupada comigo e quis me alertar.

—Alertá-la? — arqueou uma sobrancelha.

Yukari o olhou de lado com os olhos semicerrados.

—Porque ela acha que você é a raposa de Higanbana, o monstro que sequestra e devora garotas, e percebeu que você estava fixado em mim, então achou que eu fosse seu alvo e quis alertar-me.

—E eu que sempre me achei tão discreto!

Gintsune riu sem humor.

E pensar que quando ele era apenas uma raposa juvenil, havia seduzido um trio de homens camponeses e mais um par de nobres e os fazia saírem todas as noites e confundia suas mentes com seus jogos e artimanhas e, quando começaram a desconfiar de uma raposa pelas proximidades, ele conseguiu com sucesso desviar as atenções para uma garota do povo que foi perseguida até os limites da cidade, embora ele não tivesse ideia do destino final dela ou se importasse com isso… e agora sequer se dera conta de que fora flagrado por uma garotinha covarde e, pior ainda, ela percebera a realidade que ele próprio demorara a se dar conta ou aceitar: sua fixação por Yukari.

—No começo ela ficou muito doente e faltou à escola por mais de uma semana. — Yukari continuou — Então fomos visitá-la, e ela estava agitada, nos disse que tinha insônia e, quando conseguia dormir, dizia ter horríveis pesadelos.

—No plural? — Gintsune enrijeceu — Quem mais estava lá? Para quem ela contou esses sonhos?!

—As meninas e eu, mas ela só contou o sonho a mim…

—Menos mal… — suspirou aliviado — Oi, espere aí, eu me lembro dessa visita, ela já faz meses! — ele parou se colocando diante dela e a segurando pelos ombros — Quer dizer que já sabe há tanto tempo assim que ela sabe sobre nós e não me disse nada?!

Yukari encarou os próprios pés, franzindo o cenho e usou a mão livre para tirar um pouco de cabelo do rosto e empurrá-lo para trás da orelha, embora as pontas estivessem presas por debaixo do cachecol, ela certamente não devia estar acostumada a tê-los soltos.

—Eu não sabia o que fazer. — admitiu.

—Claro, porque você é do tipo que fica em negação até não poder mais, é o seu mecanismo de defesa. — Gintsune suspirou. — A garota continua tendo os pesadelos?

Yukari olhou a volta, eles estavam passando por um parquinho agora.

—Eu… não sei dizer. — ela confessou soltando a mão dele e indo sentar-se em um balanço próximo, a bunda dela ia congelar daquele jeito, mas ela parecia determinada a desperdiçar todas as suas chamas — A verdade é que não perguntei e… tenho evitado todo esse tempo tocar no assunto com ela, não sou uma amiga muito boa.

Gintsune sentou-se na terra congelada diante dela e cruzou os braços sobre as pernas dela.

—Não diga isso, a sua maneira você só quis protegê-la… quanto mais os humanos sabem sobre nós, maior é a chance de se afogarem, mas alguns de vocês têm um instinto natural para se manter afastados, e seus olhos são especialmente bons para alertá-la sobre o que ficar longe.

—Afogar? — ela repetiu franzindo o cenho.

Ele quis morder a língua, aquele assunto o estava deixando nervoso e descuidado, e ele estava falando mais do que deveria para a segurança dela.

Gintsune deitou a cabeça sobre os braços cruzados.

—E depois houve alguma mudança no comportamento dela nos últimos tempos?

—Aoi não parece mais tão nervosa quanto antes e voltou às aulas normalmente, mas… — ela levou a mão à cabeça dele e Gintsune fechou os olhos, suspirando com o carinho — Parece letárgica, distante, quase não reage a nada, exceto quando você é mencionado, e acho até que está perdendo peso, eu realmente achei que se deixasse o assunto para lá, ela poderia se acalmar e esquecer, mas embora pareça mais calma… eu não acho que esteja melhor.

De repente Gintsune ergueu a cabeça.

—Ela estava muito agitada e tendo pesadelos frequentes, mas agora se tornou apática?

—Sim…

Suspirando, Gintsune levantou-se e sentou-se no balanço ao lado dela, então nem tudo era tão mal afinal, e ao que parecia o problema já estava se resolvendo por si mesmo.

—Então só precisamos esperar e vai ficar tudo bem. — afirmou dando impulso para se balançar.

Yukari o olhou hesitante.

—Você tem certeza disso?

Ele assentiu, indo para frente para trás no brinquedo, agora muito mais relaxado.

—Por hora continue evitando tocar no assunto, como tem feito até agora, para não alimentar mais os pesadelos dela. — assim a criatura será obrigada a consumir todo o resto. — E logo você verá que raposas — e absolutamente mais nada — não serão mais capazes de perturbá-la. — ou causar qualquer emoção a ela — Acho que o maior problema agora é que Higanbana é pequena demais e estamos presos aqui, então será um pouco complicado fazer com que ela não cruze nosso caminho até que o processo se finalize.

Especialmente porque se sua linda irmã soubesse, ela finalizaria aquilo a seu próprio modo.

—Como assim estão presos? — Yukari franziu o cenho — Você está tentando dar uma volta completa?

—O fedelho se acha tão esperto que acabou caindo na armadilha que ele próprio armou, como um verdadeiro amador. — Gintsune contou indo cada vez mais forte para frente e para trás — Ele usou você como isca, esperando que a atormentando você acabasse por me chamar e eu chamasse a minha linda irmã, se achando o grande gênio por enganar os irmãos mais velhos assim, mas então aquele shikigami desgraçado aproveitou-se disso para montar uma arapuca e prender nós três aqui, que grande imbecil.

—Mas eu não chamei você… Gintsune você vai acabar quebrando o brinquedo! — reclamou assustando-se quando ele finalmente deu uma volta completa com o balanço — Afinal você é mesmo um adulto?!

—HÁ! Eu consegui! — Gintsune comemorou em uma forma infantil que Yukari nem sabia quando ele havia assumido e demonstrando um sorriso vitorioso enquanto parava o balanço com os pés se enterrando na lama congelada, antes de olhá-la seriamente e voltar à sua forma adulta — Independente de você me chamar ou não, é por sua causa que sempre retorno aqui, e retornaria ainda que soubesse que se tratava de uma armadilha.

Yukari corou desviando o olhar.

—Não diga bobagens. — murmurou.

—Mas estou falando sério. — ele se impulsionou levemente para trás, olhando para o céu noturno — Eu só me arrependo de ter trazido a minha linda irmã aqui, ela diz que está tudo bem, mas eu não gosto que ela fique presa assim depois de tudo o que passou.

Yukari pigarreou.

—Mas então… está realmente tudo bem apenas deixar do jeito que está? — quis saber — Tem certeza que Aoi ficará bem desse jeito? Não há mais nada que você possa fazer para ajudá-la?

Gintsune deteve o balanço abruptamente, enterrando os calcanhares na lama congelada.

—É com ela que você está preocupada, e ainda por cima quer que eu a ajude?! — perguntou incrédulo — Yukari, você tem noção de que sou eu e meus irmãos quem fica em risco aqui se a minha identidade é exposta, não é?!

—Mas você e sua irmã sabem se cuidar, que mal Aoi poderia lhes causar? — Yukari franziu o cenho — É claro que é com ela que estou preocupada!

—Argh! — Gintsune gemeu levando uma mão ao peito e curvando-se como se estivesse com dor — Mulher cruel, sua insensibilidade vai acabar dilacerando meu coração, sabia?

—Gintsune! — Yukari esticou a mão para dar-lhe uma tapa no ombro — Eu estou falando sério aqui, Aoi vai realmente ficar bem? Porque ela definitivamente não me parece bem!

Suspirando e jogando a cabeça para trás Gintsune levantou-se.

— Ela vai ficar bem. — garantiu. Ao menos fisicamente.

—Tem certeza? — insistiu.

—Sim. — ele moveu-se para contorná-la e, parando às suas costas, começou a mexer-lhe nos cabelos, os penteando com os dedos. Desde que minha linda irmã não a encontre antes. — Eu já vi isso acontecer uma ou duas dúzias de vezes antes, claro que nunca por eu ter sido exposto, mas acho que dá no mesmo, você vai ver, apenas dê mais algum tempo à garota, não é como se ela fosse se esquecer do que viu, mas com o tempo isso vai deixar de afetá-la, e ela não reagirá mais de forma alguma, mesmo se me ver bem a sua frente, não sentirá mais medo, nem terá pesadelos e sua vida vai voltar a transcorrer normalmente, ela ficará… — completamente vazia — em paz.

—Tem certeza?

—Geralmente é assim que ocorre nesses casos. — ele confirmou, puxando e ajeitando os cabelos dela para o alto — Ah, mas mesmo que isso não tenha nada haver com a sua amiga, lembre-se de que também é importante que você se mantenha longe do campo de visão da minha linda irmã, então tente não se aproximar de cemitérios em hipótese alguma, o fedelho gosta deles e ela está realizando todas as vontades daquele mimado mal educado.

Yukari assentiu.

—Eu não costumo frequentar cemitérios, de qualquer forma.

—Então continue assim, e já que aquele fedelho me fez o favor de apurar os seus sentidos, então os use para sempre manter 10 km de distância entre você e minha linda irmã, eu tenho a impressão de que ela gosta cada vez menos de você… — Gintsune afastou-se batendo as mãos uma na outra — Está pronto!

—O que está…? — erguendo a mão ela sentiu com a ponta dos dedos um longo grampo de cabelo e um pente mantendo seus cabelos presos em um coque — Essas são aquelas mesmas prendas daquele festival escolar?

—São. — ele confirmou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar — Você só os usou uma vez, antes de me devolvê-los no Natal, lembra?

Yukari aceitou sua mão.

—Sim…

—Eu os guardei por todo esse tempo, mas eles são seus, então deveria usá-los. — colocando a mão sobre o rosto dela, Gintsune inclinou-se para beijá-la, afastando-se apenas o bastante para ainda ter sua testa apoiada contra a dela e que suas respirações se misturassem quando completou: — Você fica bonita.

Os olhos de Yukari se arregalaram aquele narcisista realmente havia elogiado a aparência de alguém além de si mesmo e da irmã…?!

—Bonit…!

Endireitando-se, Gintsune passou o braço em torno do ombro dela e olhou para o céu sem parecer sequer se dar conta do efeito que suas palavras causaram.

—É melhor voltarmos agora, já está ficando tarde e você tem aula pela manhã, ah, e por falar nisso, vai nevar bastante, deve ser a última nevasca do inverno, então se agasalhe bem e use botas, não abuse dessas chamas só porque não pode ficar longe de mim.

—Como é que tanto egocentrismo cabe em um único ser? — Yukari girou os olhos com uma expressão mal humorada…

…Antes de discretamente o abraçar pela cintura enquanto caminhavam e, com a outra mão, tocar novamente os adereços em seu cabelo, dando um sorrisinho tímido — que Gintsune não deixou escapar.

Bonita. Ele a havia chamado de bonita.

Mas isso obviamente não dava a ele permissão para dormir em sua cama naquela noite, por mais que ele prometesse que seria completamente inofensivo.

—É só que vai fazer tanto frio… e dois corpos se aquecem mais do que um, sabia? — ele sugeriu com ares de inocência — Minha mãe sempre se agarrava ao velho e a mim para se aquecer.

—Não se preocupe. — Yukari respondeu entediada, sentando-se na cama já vestida com o samue para dormir e os cabelos novamente trançados em suas duas típicas trancinhas — Eu tenho uma manta bem grossa.

—Ah, que mulher tão insensível. — ele lamentou suspirando dramaticamente e levando uma mão ao peito — Mas tudo bem, se é assim que você prefere.

Finalizou sentando-se no chão ao lado da cama com as pernas cruzadas.

Yukari franziu o cenho.

—Você ainda vai ficar?

—Eu vou me comportar e ficar quietinho. — prometeu apoiando-se na cama com um dos braços e mostrando um sorrisinho de lado.

—E vai ficar fazendo o que? — Yukari arqueou as sobrancelhas — Me dar um beijo de boa noite e cantar uma canção de ninar?

—Se você quiser, é claro. — ele assentiu esticando a mão para brincar com a ponta de uma das tranças dela e confessar: — Mas eu também ficaria feliz apenas vendo-a dormir a noite toda.

Yukari afastou-se do toque dele, recolhendo-se ainda mais para o interior da cama.

—É estranho ficar observando as pessoas dormirem. — declarou abraçando as próprias pernas — E eu não acho que vou conseguir dormir com você me olhando.

Ela era tão linda que Gintsune queria pular nela, mas precisava se conter para não ser expulso.

Ele cerrou os punhos e sorriu.

—E por que não? Eu já te vi dormindo antes, caso não lembre, eu morei no seu quarto durante meses.

—Você invadiu o meu quarto e se instalou como um parasita. — Yukari o acusou, ajeitando-se na cama.

Gintsune girou o corpo e deitou a cabeça sobre os braços dobrados sobre a cama.

—E se eu cantar uma musiquinha de ninar será que você ficaria mais confortável? — sorriu zombeteiramente.

—Eu preferiria um beijo de boa noite. — Yukari resmungou se deitando e cobrindo-se.

Ambos paralisaram quando se deram conta do que ela havia dito.

Gintsune piscou.

—O-o que você disse?

Yukari encolheu-se sob a coberta, como se quisesse sumir.

—Eu gosto quando você me beija. — resmungou com a voz abafada, por estar com a cara meio afundada no travesseiro.

Ah, a sinceridade dessa mulher era algo que ele realmente amava, mas às vezes Yukari era sincera demais para o bem da própria segurança ou do autocontrole dele.

Mas tudo bem, porque mesmo que Yukari não se desse conta do risco de pedir por um beijo na cama, Gintsune ainda era uma raposa madura que sabia muito bem como conter seus impulsos, e ele certamente explicaria a ela os riscos de provocá-lo daquela maneira e não se deixaria levar…

—Então não seria nada gentil da minha parte deixá-la na vontade. — sorriu sentando-se ao lado dela na cama.

Quem ele queria enganar? Era um cretino da pior espécie afinal.

Apoiando uma mão de cada lado dela, Gintsune inclinou-se para frente e Yukari fechou os olhos, o aceitando facilmente mesmo quando lentamente começou a aprofundar o beijo.

Quando um dos braços dela escapou das cobertas para abraçá-lo e o trazer mais para perto, Gintsune sentiu-se ainda mais livre para descobri-la ainda mais, baixando suas cobertas até que sua mão encontrasse um pedaço de pele nua na região da barriga, graças à blusa que havia subido um pouco e Yukari estremeceu e ofegou com o toque.

Gintsune afastou a boca da dela, beijando-lhe os cantos da boca e então descendo uma trilha de beijos pela linha da mandíbula e pescoço, agora sem a gola alta era bem melhor, Yukari ofegou o abraçando, a mão de Gintsune subiu mais alguns centímetros, as pontas dos dedos começando a adentrar o território proibido sob a blusa.

De repente Yukari virou o rosto e mordiscou o lóbulo da orelha de Gintsune.

Foi como se uma corrente elétrica lhe atravessasse todo o corpo, a cauda escapou-lhe num piscar de olhos e Gintsune ergueu-se afastando as mãos dela.

—É melhor… — ele sorriu e tirou a touca, tentando se recompuser — Você dormir agora, certo? Boa noite.

Só por se conter daquela maneira ele quase sentia que havia alcançado algum estado de iluminação, mas internamente ainda torcia para que ela o puxasse de volta e pedisse para continuarem.

Sob si o rosto de Yukari ficou vermelho intenso e brilhante.

—E-eu…! — e de repente ela virou-se na cama, dando as costas a ele e puxando as cobertas por sobre a cabeça e encolhendo-se feito uma bola, resmungando constrangida — E como você acha que eu vou dormir agora, seu imbecil?!

O coração dela bombeava tão alto que Gintsune tinha a impressão de que mesmo sem sua audição apurada ele ainda seria capaz de ouvi-lo.

Tão adorável.

—Boa noite Yukari. — ele riu abaixando-se para beijar rapidamente o que ele acreditava ser o topo da cabeça dela por sobre o cobertor. — Vou deixá-la em paz agora.

Prometeu endireitando-se e sentando-se com as pernas cruzadas, enquanto uma mão permanecia gentilmente sobre ela, lhe dando tapinhas carinhosas.

Mesmo tendo dito que não conseguiria dormir, em poucos minutos a respiração de Yukari havia se tranquilizado e seus batimentos se tornado rítmicos.

Ainda fazendo carinho nela, Gintsune estendeu lentamente a outra mão quando avistou, por acaso, o celular dela entre o travesseiro e a parede, arqueando uma sobrancelha quando a tela se acendeu e ele não viu nada além de um plano de fundo vazio e impessoal, onde estava a foto que ele tão atenciosamente havia deixado como lembrança?

E ela não apenas havia tirado do papel de parede, como vasculhando o celular Gintsune descobriu que Yukari a havia deletado de vez, nem sequer na lixeira estava.

—Que mulher tão cruel. — suspirou.

E vasculhando então o seu último refúgio ele sorriu, ah sim, ela podia ser uma mulher cruel e insensível, mas ele era mais astuto…

—… kari…? Yukari? — As orelhas de Gintsune se moveram no topo de sua cabeça quando ele ouviu a voz distante e, de alguma forma familiar, mas quem estava chamando…? — Yukari, você ainda está dormindo?

Ele não sabia em que momento havia adormecido, mas seus olhos estavam pesados, e ele os abriu lentamente com algum esforço, sentia-se confortável e aquecido, apesar de não estar em uma posição muito cômoda: deitado na beira da cama de Yukari, a um centímetro de rolar para fora, com as pernas pendendo da borda e ainda com o celular dela próximo ao rosto.

Mais do que isso: Gintsune podia sentir a respiração cálida de Yukari em sua nuca e a maciez dos seios dela pressionados contra suas costas e, além disso, havia um dos braços dela sobre ele, o contornando.

Acomodando-se um pouco mais junto a ela, Gintsune sorriu relaxando e sentindo que poderia ficar ali e dormir pelo resto do dia…

—Você vai se atrasar para a escola, Yukari.

A porta do quarto começou a se abrir e de repente muito desperto, Gintsune arregalou os olhos percebendo a gravidade da situação, era a mãe de Yukari batendo a porta e quase entrando e flagrando-o ali!

Contendo um palavrão ele de repente rolou para fora da cama, quase arrastando Yukari consigo — que acabou por acordar com o movimento brusco — e dali rolando para esconder-se debaixo da cama.

—Yukari, você caiu…?! — ele ouviu Chiharu entrar no quarto e viu os pés dela se aproximando — Eu pensei ter ouvido… porque ainda está deitada?!

—Mãe…? — a voz sonolenta de Yukari bocejou — Bom dia, que horas…? M-mãe!

De repente ela também parecia ter se dado conta do que estivera a ponto de acontecer.

—Você vai se atrasar para a escola. — Chiharu a apressou — Levante e se vista. Você estava demorando tanto para descer que eu já até preparei seu obento para você!

—Sim…! — Yukari soava completamente desconcertada — Obrigada, eu vou me trocar agora mesmo!

Assim que Chiharu saiu, Gintsune escondeu o rosto entre os braços e riu, que absurdo!

Ele já havido pego na cama por vários maridos, esposas e pais enfurecidos, e até mesmo pulado algumas janelas em suas fugas antes de desaparecer em pleno ar, mas nunca, — nunca mesmo! — havia entrado em pânico ao ponto de simplesmente se esquecer de que poderia se desmaterializar e tido que se esconder em baixo de uma cama.

Aquela mulher realmente era incrível, só ela para deixá-lo desnorteado daquela forma!

E continuou rindo ali debaixo até uma Yukari muito irritada reclamar que “se ele já havia acabado de se divertir arrumando problemas para ela, era melhor desaparecer de uma vez!”, e se ela já estava irritada agora, Gintsune mal podia esperar para ver a reação dela quando pegasse o celular e desse uma olhada na decoração nova!

Mas afinal o que ele podia fazer? Ele não podia se contiver, raposas eram criaturas travessas por natureza, essa era praticamente a razão da existência delas… além disso, eram apenas algumas brincadeiras inofensivas, e quem poderia ser assim tão cruel para privar uma raposa de sua diversão?

Momiji certamente o era.

Anko lançou um olhar carrancudo por cima do ombro à irmã mais velha.

Era impossível lidar com essa mulher!

—Olhe para frente bebê, ou sua trança ficará torta. — ela o advertiu gentilmente, antes de girar a cabeça dele para frente novamente sem nenhuma delicadeza.

Aquela mulher simplesmente reunia em si o que havia de pior nos pais deles!

Primeiro ela era tão grudenta e super protetora quando a mãe, sempre o agarrando, limpando, alimentando e sufocando, só faltava tentar enfiá-lo dentro das roupas para mantê-lo junto ao coração, mas não tinha nenhum traço de sua personalidade relapsa, ao invés disso, ela era implacável e obstinada como o pai, o que reduzia a um total de zero as chances de Anko conseguir escapar sem que ela se desse conta.

Sempre que ela piscava e Anko corria, acreditando que era sua chance…! E lá estava ela, se interpondo em seu caminho com aquele sorriso enervante.

—Onde você está indo Zu-chan? — perguntava o erguendo do chão, e se ele tentasse se debater era eletrocutado ou apertado até ficar zonzo.

Mas de alguma maneira ainda conseguia ser mais sinistra do que eles dois juntos.

Não que Anko tivesse medo daquela mulher!

E enquanto isso aqueles três criados imbecis ficavam para lá e para cá sussurrando nos ouvidos dela sabe-se lá o que e cumprindo cada um de seus caprichos.

—Por que essa cara amarrada Zu-chan?

Ela perguntou em um tom dócil que não enganava ninguém amarrando a ponta da trança dele, enquanto um dos criados apresentava-lhe alegremente uma caixa de cosméticos e outro lhe arrumava os cabelos com alguns grampos — e parecia até que estava sussurrando alguma coisa em seus ouvidos.

—Por que não posso sair para me divertir com a cara daqueles otários lá for?! — reclamou.

Sua irmã arqueou uma sobrancelha.

—Mas você pode. — afirmou impassível.

Mesmo na forma humana Anko virou-se e encurvou as costas, como um gato que eriça os pelos, afundando as garras das mãos na neve.

—Então por que continua me impedindo? — o garoto afastou os lábios em um rosnado hostil — Eu não sou um bebezinho que precisa de babá!

Ah… ele era quase tão adorável quanto To-chan nessa idade.

—Um bebê é justamente o que você é, Zu-chan, e sendo meu adorável irmãozinho também está sob minha responsabilidade. — ela encarou-o tão implacável quanto o pai — Por isso não me agrada que tente sair sem me pedir permissão e informar aonde vai.

Anko tinha algumas palavras bem espinhosas e insolentes na ponta da língua para dizer, mas alguma coisa o fez se conter momentaneamente e sentar-se cerrando os olhos.

—Então, hum… ane-san. — pigarreou.

A irmã encarou as próprias garras.

—Sim, Zu-chan? — respondeu docilmente.

Ele apertou os lábios, aquela mulher estava debochando dele?! Mas ainda assim forçou as palavras a saírem, tentando não rosnar:

—Eu posso sair para brincar? — ela o encarou com uma sobrancelha arqueada e Anko cerrou os punhos resmungando — Por favor?

Endireitando-se, Momiji pousou as mãos sobre o colo e sorriu placidamente.

—É claro que sim bebê, você só precisava pedir.

Anko colocou-se de pé com um salto entusiasmado.

—Então…!

—Mas antes eu tenho algumas condições. — ela o interrompeu. É claro, já estava demorando, Anko sentou-se novamente com a expressão fechada — Primeiro: você deve retornar antes que a lua atinja o seu ápice, você despertou ontem de manhã depois de um longo período acordado, e não quero que passe mais de 36 horas acordado, e se não voltar para dormir eu vou enviar To-chan para caçá-lo e colocá-lo para dormir. Entendeu bebê?

E aí estava: aquele tom falsamente tranqüilo e gentil que fazia com que cada palavra proferida por aquela mulher soasse incrivelmente horripilante.

Mas Anko não estava arrepiado! De jeito nenhum!

—E o que mais? — porque com certeza ainda tinha mais.

A irmã colocou a mão dentro de uma das mangas e puxou de lá um leque de madeira clara com folhas de bordo vermelhas e laranjas entalhadas e uma fita prateada cintilante presa ao cabo, mas com apenas um giro em seus dedos o transformou em uma faca curta com cabo de madeira.

—Você vai levar consigo essa parte de mim. — afirmou levando uma mão aos cabelos e, desfazendo o penteado que os criados já tinha quase finalizado, soltando um grampo dali e puxando uma mexa para cortá-la — E se alguma coisa acontecer irá me chamar imediatamente.

Finalizou estendendo a mecha diante dos olhos de Anko e a enrolando até que ela se tornasse uma única corda, antes de prendê-la em torno do pescoço do filhote, de alguma forma fundindo uma ponta a outra.

Uma coleira!

—Eu não vou precisar de nada! Que coisa mulher!

Reclamou puxando aquela coisa com ambas as mãos, mas o troço se recusava a arrebentar…!

Mas um único olhar incisivo de Momiji o fez baixar as mãos rapidamente, Momiji sorriu e continuou:

—Eu tenho certeza de que o pai já o ensinou sobre se encarregar das consequências de seus próprios atos, mas você ainda é muito jovem, e os humanos frágeis, então se precisar se livrar de algum corpo basta me chamar.

E então mostrou a ele uma comprida mecha negra cortada dos próprios cabelos de Anko.

Mas quando foi que ela…?!

Que seja! Isso não tinha importância, o filhote levantou-se.

—E agora eu já posso ir? — reclamou.

—Mas leve um dos criados com você. — Momiji acrescentou o liberando com um movimento de mão. — E se agasalhe bem, você é um filhote de fogo, apesar das suas chamas não terem despertado, portanto é mais sensível ao frio e especialmente na forma humana, quando fica sem os seus pelos, tende a ficar mais vulnerável.

Finalmente livre!

Anko saiu correndo antes que a irmã mudasse de ideia — embora ela não fosse instável como a mãe, nunca se sabe —, mas se deteve alguns metros depois ao avistar Mokujin parado sob uma árvore velha e desfolhada, com um montículo de neve já se acumulando sobre o chapéu largo.

—Ei otário! — chamou atirando uma pedra no shikigami que nem sequer reagiu.

Que tedioso!

Ele era uma criatura leal, mas muito simplório, por isso era bastante simples lidar com ele: sua mestra havia o criado para um único propósito, e desde que nada o desviasse desse propósito ele tendia a obedecer quaisquer ordens simples do trio de filhotes indisciplinados.

A jovem dama havia lhe exigido a máscara humana para dar ao filhote negro e, em troca, lhe oferecera uma folha de momiji encantada.

—Se tudo o que precisa é uma face humana para poder circular, então até uma folha lhe serve, ela perde a serventia depois de algumas horas, mas eu posso continuar substituindo-as. — Ela dissera — Mas o bebê precisa de algo que não só o auxilia a manter a forma, mas também a atravessar entre os planos e, seja como for, se eu não cumprir com minha palavra tenho certeza que você terá seus meios para recuperar a máscara.

O que ela dizia era verdade e, dentre os três, a jovem dama parecia a menos inclinada a tentar atrapalhar sua missão, de forma que Mokujin não fez objeções à troca.

—Abra esse baú, seu otário! — o filhote negro ordenou.

Mas com as ordens dos jovens mestres, no entanto, era preciso ter um pouco mais de cautela.

Ao longe a jovem dama estava tranquilamente deixando que os criados terminassem sua maquiagem e não parecia inclinada a capturar o filhote negro dessa vez.

—Vamos logo, eu não tenho o dia todo! — o filhote negro o apressou, um dos criados zumbia em círculos em torno de sua cabeça quando ele levantou o capuz com orelhas de gato e estalou a língua — Quer saber? Eu estou de bom humor hoje, então vou deixar que me siga.

O mais provável é que ele não queria arcar com o peso por si mesmo.

Momiji esperou ainda alguns minutos após ter certeza que Zu-chan havia deixado o território do cemitério — era impossível saber se Mokujin estava ou não no território, assim como tentar prendê-lo dentro de uma barreira, porque ele não possuía energia alguma — antes de se levantar.

—Criados. — chamou ás duas raposas tubo restantes — Me levem até a casa daquela mulher problemática agora.

Como irmã mais velha, era seu dever proteger aos mais novos.

Os criados a guiaram até uma pequena e simples casa humana, longe de templos e não aparentava abrigar nenhum espírito de boa sorte — como a casa daquela mulher odiosa — isso era bom, um lugar mais imponente, protegido ou chamativo seria problemático, e ali provavelmente ninguém daria muita atenção se alguém morria ou desaparecia… mas também era enervante, pois fora uma humana de tão baixa categoria que ousara olhar para a forma original de seu auspicioso príncipe.

—Por que a Aoi pode ficar dormindo em casa e eu tenho que ir para a escola?! — um garoto roliço usando várias camadas de roupa reclamou saindo de casa com uma mochila nas costas, ao lado de uma mulher de meia idade — Está muito frio aqui fora.

—Sua irmã não está se sentindo bem, Shiro, ela passou a maior parte da noite acordada e está cansada… — a mulher de meia idade, que parecia exausta, respondeu.

—Ela me deixou acordado pela maior parte da noite! — o garotinho reclamou enquanto passavam por Momiji, sem enxergá-la.

—Shiro, por favor, mamãe está muito preocupada com sua irmã, mas não posso falta ao trabalho de novo… eles não souberam tratá-la no hospital também, talvez eu tenha que levá-la à cidade vizinha…

A casa estava muito silenciosa do lado de dentro e os poucos insetos que pairavam por lá guincharam e se esconderam em cantos escuros quando Momiji entrou, era uma sala pequena, com um corredor ao fundo com três portas — duas à esquerda e uma a direita — e ela seguiu os criados até a segunda porta à esquerda.

A princípio o quarto parecia vazio e escuro e Momiji sequer percebeu a presença de seu alvo ali, mas antes que pudesse repreender seus criados pelo engano, eles indicaram a cama onde um pequeno monte de cobertas subia e descia ritmicamente.

—Ela não tem energia própria? — questionou aproximando-se.

—O Baku já levou tudo. — os criados deram uma risadinha. — Olhe de perto jovem dama… há mais dele do que dela agora.

Momijiu estendeu a mão e, mesmo a partir do plano astral, puxou as cobertas para baixo, da forma como estava, a garota poderia facilmente ser confundida com um dos shikigamis da mãe: apenas um recipiente vazio.

Os criados tinham razão, a humana não só estava possuída por um baku, como ele também já a devorara praticamente por inteiro. Aquilo era um caso extraordinário. Os bakus em geral devoravam um ou dois pesadelos e então partia para o próximo hospedeiro, sem causar nenhum mal, mas havia alguns raros casos em que os pesadelos de seus hospedeiros se tornavam tão deliciosos… que era impossível para o baku abandoná-lo, e então devoravam mais e mais, até que inclusive os sonhos fossem devorados e nada mais restasse.

No entanto, devido á reação daquela garota no dia anterior, Momiji sabia que ela ainda tinha muitos pesadelos, e se ainda havia pesadelos a serem devorados, como o baku poderia então já tê-la deixado oca daquela maneira… ah.

—Ela ficou aterrorizada ao ponto que todos os sonhos se tornaram pesadelos. — concluiu — Não via mais futuro algum para si, apenas a certeza de que o que a aguardava era seu maior terror.

—Ela viu o jovem mestre. — um dos criados sussurrou-lhe ao ouvido.

—Ela acha que o jovem mestre virá matá-la!

Estar assim tão aterrorizada por uma criatura tão bela e adorável quanto seu auspicioso príncipe, e ainda mais após vê-lo sem permissão, deveria ter-se considerado abençoada mesmo se ele viesse devorá-la!

—Que mulher mais tola.

Momiji estendeu uma mão, com as centelhas faiscando na ponta dos dedos, bastava um toque em seu peito e o coração pararia, e ninguém nunca poderia dizer que não foi uma morte natural, às vezes os corações humanos simplesmente paravam.

—Irmã! — Gintsune ofegou agarrando o pulso de Momiji e o puxando para cima — O que você ia fazer?!

Aquilo foi por muito pouco!

Gintsune havia ido dormir em uma lavanderia próxima quando, de repente, teve um péssimo pressentimento, porque se sua linda e cautelosa irmã, ao contrário dele que levava tudo de maneira leviana, houvesse ficado desconfiada com o que vira e então investigado mais a fundo, é claro que ela tentaria dar fim ao que quer que considerasse uma ameaça… e correu até ali, e foi bem a tempo, porque se ele tivesse chegado um segundo mais tarde…!

—Eu iria matá-la. — Momiji confirmou os piores temores de Gintsune impassivelmente.

—Mas… mas não pode fazer isso! — Gintsune se interpôs diante da irmã e desesperadamente procurou algo para dizer: — Quer dizer… ela é uma artista! Lembra? Ela faz joias de resina… você ama aos artistas, irmã!

Ele não se importava com a humana, longe disso, se fosse apenas por ele tanto fazia se ela vivia ou morria, mas se aquela garota morresse, mesmo que ele não tivesse envolvimento algum, ainda havia uma grande chance de Yukari o acusar e, se isso acontecesse, ela nunca o perdoaria!

—Eu amo aos artistas. — Momiji concordou levando carinhosamente a mão ao rosto do irmão — Mas mesmo se ela fosse a maior poetisa do século, não poderia deixá-la viver.

—Por quê?! — Gintsune arregalou os olhos.

Mas ele sabia muito bem o porquê.

E sua linda irmã apenas confirmou os seus temores:

—Porque essa reles humana descobriu sobre a identidade de meu precioso príncipe. — ela contou-lhe docilmente, empurrando-lhe uma mecha de cabelo para trás da orelha — E como irmã mais velha é o meu dever protegê-lo. — seu tom tornou-se sombrio — Eu vou eliminá-la.

Gintsune arregalou os olhos.

—Não, irmã! — ele a segurou pela mão — Espere um pouco, por favor…! Essa garota não é risco algum…!

—Ela sabe sobre você. — Momiji salientou.

—Eu sei, mas…!

—E também não será difícil estabelecer a ligação entre você o bebê e eu.

—O Baku já está quase terminando de devorá-la, logo não vai restar nada além de uma casca de carne que não poderá causar problema algum.

—Então você já sabia? — Momiji arqueou uma sobrancelha.

Gintsune quase entrou em pânico.

Se sua irmã descobrisse que ele estava pondo em risco a identidade deles, apenas pelo que Yukari pensaria dele, então Yukari também estaria em sérios problemas!

—Eu só descobri recentemente, vim para confirmar!

Ele não estava mentindo para sua linda irmã, ele realmente só havia descoberto recentemente, e estava se acomodando em uma lavanderia para dormir quando se lembrou do escândalo daquela mulher no dia anterior bem diante de sua irmã e teve um péssimo pressentimento.

Convencida, Momiji levou uma mão ao queixo.

—Sim, eu também, também pudera depois de todo aquele escândalo que ela causou… por sorte o bebê não pareceu ter entendido a gravidade da situação, isso poderia tê-lo assustado. — ou mais provavelmente aquele fedelho encontraria em Aoi um ótimo alvo para testar a sanidade, por experiência própria Gintsune sabia o quão divertido era enlouquecer humanos de terror… — Mas se levamos tanto tempo para perceber, ao menos significa que ela tem estado quieta até agora.

Exceto pelo que disse á Yukari.

—Então irmã, deixe-a para o Baku. — ele tentou novamente.

—Ainda assim não posso arriscar a segurança de meus queridos irmãozinhos… — Momiji insistiu — Não se preocupe To-chan, irei eletrizar seu coração e parecerá uma morte natural, não chamará a atenção de nenhum…

—Espere um pouco irmã! — de repente alarmado Gintsune olhou de um lado para o outro só então se dando pela falta de algo, antes de voltar-se para ela novamente com os olhos arregalados — Cadê o fedelho?!

Anko estava fazendo bonecos de neve.

Ele não havia contado quantos fizera, mas chutava que era algo em torno de duas dúzias, talvez, todos com menos de 30 cm de altura e espalhados em tantos cantos inusitados quanto ele conseguiu achar.

—Aqui tem outra, jovem mestre! — o criado anunciou voltando com mais uma pedra.

—Você é lento demais!

Anko reclamou a pegando e pintando com o polegar sujo com a tinta que pegara no baú o símbolo do qual precisava, a tinta secava rápido, congelando naquele clima frio, e Anko rapidamente envolveu a pedra em uma pequena e malformada bola de neve, antes de juntar uma bola menor ao topo e decorá-lo com gravetos e pedrinhas.

Estava pronto mais um boneco.

Riu divertido deixando a nova criação sobre a caixa de correio em frente a um lugar que cheirava àquela bebida amarga, antes de afastar-se correndo, e ainda estava dobrando a esquina quando ouviu o sino da portinha da loja tocando.

Um turista distraído saiu da cafeteria, ele trazia um copo quente de americano em uma mão e um itinerário na outra, que grande imbecil tinha sido deixando que seus amigos o convencessem a fazer aquela viagem, uma cidade assombrada, eles disseram, até parece, até agora tudo o que ele tinha encontrado era montes de caipiras que tagarelavam qualquer coisa duvidosa para vender suvenires baratos e um café muito ruim… ele se deteve.

Diante de si, sobre uma caixa de correio vermelha, estava um estranho boneco de neve.

—O que é isso agora? — resmungou enfiando o itinerário no bolso da jaqueta — Até as crianças daqui fazem umas coisas muito idiotas.

Ainda assim ele não pôde conter sua curiosidade quando estendeu a mão e apanhou o pequeno boneco… suas pernas travaram no lugar.

O que era isso? Câimbras? De repente ele simplesmente não conseguia movê-las…!

Ele puxou uma e outra vez, mas as pernas não estavam simplesmente dormentes, elas havia paralisado de vez! Exclamando irritado quando um pouco de seu café derramou-se tentou soltar aquele boneco ridículo e reavivar as pernas com alguns socos, mas percebeu que não conseguia mover aquele braço também, tampouco abrir a mão!

—Que droga é essa?! — reclamou em voz alta.

—Você está com problemas aí? — alguém disse ao seu lado de repente, sobressaltando-o.

Um garoto de olhos dourados e vestido como um gato preto de repente havia aparecido de lugar nenhum.

—Ei garoto, eu acho que as minhas pernas adormeceram! — contou-lhe — Chame ajuda, não consigo me mover! Não consigo nem largar essa porcaria de boneco!

O garoto sorriu.

—Eu sei, você está preso otário.

Que pivete atrevido!

—Como é que é seu…?!

De repente agarrando-lhe as calças, o moleque as puxou com tanta força para baixo que o zíper arrebentou e o botão saiu voando, baixando-as até os calcanhares e expondo ao vento gélido suas canelas finas e cueca box do Bob Esponja.

—Há! Mas que otário! — o moleque riu roubando seu café antes de sair correndo.

—E-espera garoto! — Ele tentou ir atrás do pirralho, ou mesmo abaixar-se para levantar as calças, mas tudo se provou inútil, estava completamente paralisado ali. — Eu disse para voltar aqui seu…!

Naquele momento um monge passou ao seu lado, o cumprimentando com um aceno do grande chapéu de palha antes de seguir pela mesma direção que o garotinho havia ido, sem parar ou dizer uma palavra sequer.

Mas que raio de cidade era essa?!

Atrás dele a campainha da porta da cafeteria soou novamente e alguém arquejou derrubando o café no chão.

—Oi! Você aí, o que pensa que está fazendo?! — gritou o policial irado que saía da cafeteria naquele instante.

Porque é claro que não bastava ele ter acabado naquela situação ridícula e inexplicável, isso também tinha que acontecer diante de uma cafeteria frequentada quase exclusivamente por policias porque ficava em frente à única delegacia da cidade!

—E então eles o acorrentaram pelos pulsos e o arrastaram para o prédio do outro lado da rua ainda com as calças emboladas nos calcanhares!

A pequena raposa tubo contou rindo animada e dando piruetas no ar enquanto Anko girava na mão três bolas verdes escuras de aparências gelatinosas, enquanto tomava o cuidado de com a outra mão manter o cachecol bem pressionado contra o nariz e boca.

—Não acredito que você só tenha essas três. — reclamou com o Shikigami, mas o estúpido boneco permaneceu parado ao seu lado com o olhar fixo à frente, parecendo uma estátua inanimada — Tá, que seja. — estalou a língua empurrando duas bolinhas contra o shikigami para que ele segurasse enquanto preparava a terceira em uma funda — Eu dou meu jeito só com essas aqui.

Afirmou convencido, erguendo o braço e girando a funda no ar a espera de um alvo perfeito, que não demorou a aparecer: um carro cinza vinha descendo a rua.

Anko mirou nos vidros escuros e disparou, gargalhando e pressionando o cachecol contra o nariz quando a janela do veículo foi estraçalhada e ele derrapou pela rua atingindo um poste de luz na calçada enquanto uma espessa nuvem de fumaça verde e mal cheirosa saía pela janela quebrada.

—Na mosca! — gargalhou estendendo a mão para que Mokujin lhe entregasse a próxima bola mal cheirosa.

Aquele gás era capaz de derrubar até grande youkais, podendo até os cegar temporariamente, e irritando suas bocas e narinas os asfixiado, até mesmo Anko estando a uma distância segura e com a boca e nariz bem cobertos já sentia a garganta coçar, e estava ansioso para ver que efeitos causariam em todos aqueles joguetes!

O próximo alvo foi a vidraça de uma loja ali perto, e quase rolou de rir quando as pessoas lá dentro — as que já não haviam saído para ver o acidente — saíram correndo em desespero, tropeçando e caindo umas sobre as outras, escorregando na calçada lisa de gelo e atravessando a rua sem enxergar nada, se passassem mais carros ali teria sido uma cena e tanto!

Agora só restava uma bombinha, então Anko tinha que usá-la bem, ele olhou a volta animado, e logo o alvo perfeito se apresentou: um carro chamativo desceu a rua em alta velocidade com luzes vermelhas e uma sirene alta que irritou os ouvidos dele.

Dois humanos desceram da traseira do carro e correram para ajudar o humano que se arrastara para fora do primeiro carro, eles o colocaram em uma maca e assim que os três subiram de volta no carro chamativo, Anko disparou a última bomba mal cheirosa, antes que pudessem fechar as portas.

Que estúpidos! Aquilo tudo era hilário! Era fantástico estar livre de novo!

—Minha nossa, mas que barulho todo é esse lá fora?! — alguém exclamou assim que Yukari entrou na sala. — Não consigo ver nada!

—Acho que foi um acidente, eu vi uma ambulância!

—Não, era um caminhão dos bombeiros!

—É um incêndio? Há fumaça ali!

—Onde? Onde?

—É claro que não vamos ver nada, foi muito longe daqui!

—Impossível, o som pareceu muito perto!

—Dá para ouvir as sirenes!

Yukari parou junto á sua mesa assistindo como todos estavam se atropelando junto às janelas, tentando ver o que quer que fosse que estivesse acontecendo lá fora, isso era mal, ela franziu o cenho, de alguma forma ela tinha um péssimo pressentimento.

Higanbana era uma pequena cidade isolada no interior que sobrevivia com base em suas lendas onde nada nunca acontecia… por isso quando algo acontecia, é lógico que logo todos sabiam, de forma que antes da hora do almoço a escola já estava em polvorosa.

—Parece que não foi um acidente qualquer, o motorista estava transportando um tipo de gás nocivo e perdeu o controle do veículo quando uma das cápsulas estourou. — Yukari podia ouvir os sussurros durante a aula.

—Ai minha nossa! — alguém disse horrorizado — Então era algum tipo de criminoso biológico?! O que ele estava pretendendo?

—E isso não é tudo… ouvi dizer que prenderam um pervertido que estava se exibindo hoje…!

—Ai que medo! Se ele já fez isso à luz do dia, não será perigoso termos que voltar para casa quando já estiver escurecendo?!

—Mas o que é que está atraindo esses malucos para nossa cidade…?!

Gintsune era um sem vergonha exibicionista, mas Yukari sabia que ele não faria nada daquele tipo… mas por que não conseguia tirar da cabeça que todo aquele caos tinha alguma coisa haver com raposas à solta? Ela suspirou escondendo o rosto entre as mãos.

Aquela altura a sala já estava uma desordem tão grande que nenhum dos professores conseguiu ministrar aula.

—Será que esses criminosos também tiveram alguma coisa haver com o vandalismo na casa de banhos da rua comercial? — a representante se questionou enquanto almoçavam.

—Que vandalismo? — Yukari perguntou com ar cansado, já sentindo uma dor de cabeça vindo.

—Hiroshin me disse que no começo da semana a casa de banhos perto da casa dele foi vandalizada, ninguém viu nem ouviu nada, não parecem ter roubado nada, mas um dos banhos estava completamente destruído, com marcas de incêndio e torneiras arrancadas…

—Eu ouvi falar disso. — Kaoru concordou afinal ela também morava no centro comercial — Mas pensei que achavam que tivesse sido algum animal selvagem… não havia vários azulejos da parede que foram arrancados e quebrados e marcas de garras no chão?

A representante girou os olhos.

—Isso é bobagem. — descartou — Que tipo de animal tenta atear fogo aos lugares e deixa para trás máscaras de tratamento faciais?

Yukari sabia muito bem que tipo de animal problemático e sem vergonha fazia isso. Ela suspirou massageando as têmporas. Mas supunha que lavar aquele garotinho imundo e selvagem que ele chamava de irmão realmente não houvesse sido uma tarefa fácil.

—Só espero que a Aoi-chan esteja bem com toda essa situação lá fora, ela nem sequer veio à escola hoje e você me disse que ela já estava bem nervosa ontem… — Kaoru comentou olhando para o lado de fora, como se esperasse ver um batalhão de caminhões de bombeiro passando.

Aquilo não estava certo, Yukari franziu o cenho e a comida pareceu formar uma bola que grudou em sua garganta, Gintsune havia dito que com o tempo Aoi não ficaria mais nervosa e a temática de raposas deixaria de afetá-la completamente… mas se alguma coisa a havia deixado agitada…

—O que… — ela parou engolindo com muita dificuldade — O que aconteceu com Aoi-chan ontem?

Para a surpresa de Yukari a representante lançou um olhar fulminante e chutou Kaoru de forma nada sutil por sob a mesa, fazendo-a sacudir brevemente e Kaoru dar um pulo de susto, antes de pigarrear e voltar-se para Yukari.

—Não sabemos ao certo, parecia que estava tudo bem, mas de repente ela ficou muito nervosa… parecia uma crise de pânico, eu acho, nunca vi nada igual… por sorte a mãe dela já trabalhou por um tempo no Raposa Encantada, então o gerente tinha o contato dela e pôde ligar para que ela viesse buscá-la, mas nos custou muito acalmá-la, foi muito preocupante, eu estava pensando em ir visitá-la depois da aula, mas…

Ela voltou o olhar para fora, como se também estivesse esperando que a qualquer momento tudo explodisse e sirenes começassem a soar na rua.

—Ela parecia estar muito bem até nós vermos o seu ex e de repente ficou nervosa daquele jeito! — Sakura-chan contou aparecendo de repente e sentando-se junto com elas, trazendo o próprio almoço.

—O ex da Aoi-chan? — Yukari.

—Não, o seu… — Sakura-chan gemeu quando também levou um chute da representante — Ai! Digo… desculpe Yukari, ele não é seu ex, afinal vocês nunca... quero dizer... Por que eu só não calo a boca de uma vez?

Terminou murmurando constrangida e abrindo o obento que trouxera.

—Sim, essa é realmente uma boa ideia. — Aiha concordou com os olhos semicerrados, antes de suspirar longamente — Eu não pretendia te contar, mas acho que é melhor que saiba… de qualquer forma a cidade é muito pequena e se você acabasse trombando com ele completamente desavisada seria muito ruim: Gin está de volta à cidade.

Então Gintsune havia encontrado as amigas dela, mas não mencionara aquilo quando foi vê-la à noite, nem mesmo quando Yukari mencionou o estado de Aoi-chan e ele comentou que o melhor seria que a garota não o visse por um tempo… bem, ele sempre foi desatento e despreocupado, talvez nem sequer as tenha notado.

Yukari as olhou inexpressivamente.

—Ah.

Aiha arqueou as sobrancelhas.

—Você já sabia disso?

Sim.

—Isso… era apenas previsível, eu acho. — desconversou baixando o olhar e remexendo no obento com os hashis tentando não corar — Desde que chegou aqui pela primeira vez, ele sempre acaba voltando…

Ela se sentia desconfortável por isso, pois certa vez havia prometido que se houvesse algo entre ela e Gintsune ela contaria às amigas, mas agora não parecia o momento certo para isso, mesmo porque ela sequer sabia ao certo o que havia entre eles.

—Então… — pigarreou — ele estava sozinho?

Seria péssimo para os nervos de Aoi-chan se ela se desse conta de que não havia apenas uma raposa sobrenatural monstruosa na cidade, mas Aiha que não sabia nada desse contexto obviamente entendeu errado a situação: ora, é claro que se o homem que ela gostava era visto em uma cafeteria popular para casais no dia dos namorados logo depois de humilhá-la no Natal — simplesmente a segunda noite mais romântica do ano — ela iria querer saber se ele estava sozinho!

Sakura encolheu-se ao receber mais um dos olhares fulminantes da representante.

—Ele estava apenas com a irmã, eu tenho certeza que era a irmã dele e, além disso, os dois estavam com uma criança! — Aiha garantiu.

Mas por alguma razão isso só parece deixar Shibuya ainda pior e ela afundou o rosto entre as mãos suspirando profundamente.

—E quanto a Aoi-chan? — ela resmungou.

—O que?

—Aoi-chan sabia que ele estava com a irmã?

Mas que importância tinha isso? Aiha a olhou confusa, mas antes que pudesse perguntar algo, as caixas de som tocaram a melodia que antecipava um anuncio:

—Boa tarde, aqui é seu presidente estudantil, Kaño Tomoya, e tenho um anúncio importante a fazer: creio que muitos de vocês já souberam sobre os tumultos que estão ocorrendo durante a manhã toda na cidade e devido a isso muitos pais preocupados têm ligado para a escola, por isso as aulas do resto do dia estão canceladas, por favor, não fiquem matando tempo na rua e se dirijam diretamente para casa, atenção às garotas especialmente, tentem não ficarem desacompanhadas na rua. Isso é tudo, obrigado.

A transmissão se encerrou.

—O Tomoya parece uma pessoa totalmente diferente quando ele é o Dr Jekyll no controle. — Sakura-chan comentou despreocupadamente fechando seu obento — Então o que acham de terminamos esse almoço no karaokê? Aposto que deve estar vazio há essa hora.

—N-não de jeito nenhum! — Kaoru balançou a cabeça agitada — Você não ouviu que tem um pervertido exibicionista lá fora?

—Ouvi que ele foi preso. — Sakura-chan deu de ombros — Karaokê?

—Nós vamos para casa. — a representante sentenciou.

Kaoru arregalou os olhos.

—Mas o pervertido…!

—Hongo, você mora logo aqui ao lado, no distrito comercial, eu tenho certeza que vai ficar bem e, além disso, o Hiroshin mora da mesma direção, ele pode te acompanhar.

—Não, não, eu não quero incomodá-lo, Tanaka-senpai deve estar muito ocupado…!

Mas a representante já estava se levantando com o celular na mão.

—Ele não vai prestar vestibular e já deixou o conselho estudantil, aquele idiota não tem nada para fazer além de ir para casa regar flores e brincar com a cachorrinha, então eu vou ao clube pegar minha espada de bambu e… Ichinose, você mora perto da ótica dos Hamada, certo?

—Mais ou menos naquela direção.

—Ótimo, a minha casa fica no caminho para lá, eu vou arrastar Yonekura até aqui e ele pode nos servir de escolta, só preciso alcançá-lo antes de ele estar enrolado com um bando de…

—Mas e quanto a Yuki?! — Kaoru a interrompeu — Ela mora em uma direção completamente oposta a todas nós! Se ao menos Aoi-chan estivesse aqui…

—Tenho certeza que vou ficar bem. — Yukari garantiu calmamente terminando seu almoço.

—De jeito nenhum, têm pervertidos e terroristas a solta lá fora! — a representante respondeu exaltada como se elas estivessem no meio de uma zona de guerra.

Yukari não pôde retrucar, com certeza tinha muita coisa à solta lá fora.

Ainda assim ela achava completamente desnecessário que todos a acompanhassem até em casa antes de irem para suas próprias casas.

—Isso seria contramão para vocês, e eu sequer moro longe. — tentou argumentar.

—Nada é longe em Higanbana, Shibuya. — a representante retrucou apoiando a espada de bambu no ombro.

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—Além do mais eu nunca poderia ficar tranquilo ou me perdoaria sabendo que deixei uma das preciosas e delicadas amigas de Aiha ir sozinha para casa em um dia tão conturbado…

Afirmou Yonekura Eisuke pegando a mão de Yukari e inclinando-se como se fizesse questão de beijar-lhe imitando um gesto cavalheiresco enquanto ela franzia o cenho…

—Yonekura, eu quero você para nos ajudar a lidar com pervertidos, não para se tornar um exemplo prático de como lidar com eles!

A representante o impediu enfiando a ponta da espada de bambu debaixo de seu queixo, o fazendo rir nervosamente, abaixando a espada dela com a ponta dos dedos.

—Calma Aiha-chan, eu só estava sendo atencioso…

—Pois quero essa sua atenção e suas mãos onde eu possa ver.

Yukari encarou a própria mão, franzindo o cenho, ela nunca tinha pensado nisso antes, mas qual seria o alcance ou eficiência daquelas chamas invisíveis? Não era como se elas pudessem machucar pessoas que se aproximassem dela, certo?

—Mas eu também não poderia me sentir tranquilo se você fosse sozinha, Shibuya-san. — Tanaka-senpai acrescentou.

—Está vendo Shibuya? — a representante apoiou as mãos nos quadris, jogando os cabelos para trás — Você nos causa muito mais contratempo e transtorno recusando nossa gentileza do que a aceitando de uma vez!

—Por favor, Yuki! — dessa vez foi Kaoru a segurar as mãos de Yukari — Ao menos vá comigo para casa, e de lá poderemos ligar para que alguém da pousada possa ir buscá-la…!

—Olá! — o professor Haruna cumprimentou se aproximando, quando os encontrou próximos aos armários de sapatos na saída — O que todos vocês ainda fazem aqui? As aulas foram canceladas há quase uma hora.

Todos os olhares se voltaram para Yukari, e ela suspirou longamente.

—Professor, eu nunca vi o senhor fazer esse caminho para casa, exceto quando vai à pousada para tomar banho. — Yukari comentou enquanto Haruna a acompanhava.

—Essa estrada vai dar na parte de trás da rua onde moro, mas geralmente eu vou pelo outro lado do campo de higanbanas e dobro na esquina do campinho onde as crianças brincam, aquele perto do posto de gasolina, para poder atravessar a floresta do deus das flores. — O professor explicou apontando as direções com uma mão, enquanto com a outra empurrava a bicicleta, claro que sim, aquilo era a cara dele, Yukari balançou a cabeça. — Além do mais, esse lado à margem do rio é bem deserto, não acha? Claro que talvez hoje o outro lado esteja um pouco movimentado demais… — pigarreou — Você não sabe de nada, ou sabe Shibuya-chan?

Yukari tossiu puxando o cachecol sobre a boca e desviou o olhar para o rio semi congelado que corria ao lado deles, para falar a verdade ela tinha uma hipótese…

—Já que é assim, está tudo bem se o senhor me acompanhar só até a ponte e seguir seu caminho prof…

—O que é aquilo? — Haruna a interrompeu.

Há meio metro deles, sobre a ponta do guarda-corpo da ponte, um estranho e pequeno boneco de neve se equilibrava tortamente, sorrindo um sorriso de cascalho e usando um triangulo vermelho em volta do pescoço.

Yukari semicerrou os olhos.

—Eu não sabia que as crianças ainda brincavam com esse tipo de coisa. — o professor riu esticando a mão em direção ao boneco de neve — Mas esse é um lugar muito curioso para deixar um…

De repente arregalando os olhos Yukari arregalou correu à frente dele, girando o braço com toda sua força e acertando aquele pequeno boneco de neve com a bolsa escolar, o arremessando direto para o rio.

—Mas o que foi isso? — O professor a olhou surpreso. — Shibuya-chan, o que você sabe? São… são raposas, não é?

Ela não sabia de nada realmente. Mas aquele boneco era definitivamente suspeito… embora não tivesse como explicar o porquê achava isso. Ainda assim se forçou a começar uma mentira:

—Com certeza não tem nada haver com r…

—SEU MOLEQUE IMPRESTÁVEL EU MANDEI VOCÊ FICAR LONGE DESSA MARGEM DO RIO!

Alguém gritou do outro lado do rio, os espantando.

—Acontece que você não manda em mim, seu otário!

Uma criança, toda encapuzada como um gato preto gritou em resposta saltando sobre o corrimão da ponte e a atravessando correndo em uma velocidade e equilíbrio impressionante.

—Como ousa?! — a pessoa que o perseguia também saltou sobre o corrimão da ponte — Eu sou seu irmão mais velho, fedelho, e quanto te pegar vou encher seus bolsos de pedras e te jogar no fundo do rio!

—Vai ter que me pegar primeiro, otário!

A criança zombou saltando para a margem de onde Haruna e Yukari observavam toda a cena, antes de disparar estrada acima e fazer uma curva brusca para corta caminho pelo campo de higanbanas, sempre com o irmão mais velho furioso ao seu encalço.

Yukari podia ouvir a respiração acelerada do professor ao seu lado.

—Aquele era… era realmente… — ele levou a mão ao peito — Gin-san?! E ele chamou aquela criança de irmão também? — perguntou apavorado — O que está acontecendo?

Momentos mais tarde, uma pessoa trajada como um monge e usando um grande chapéu de palha atravessou a ponte lenta e silenciosamente, aparentemente ao encalço das duas raposas, ele parou por um instante ao avistar Haruna e Yukari — havia uma grande tatuagem que talvez fosse uma serpente branca, mas era difícil dizer com certeza, subindo por seu pescoço e rosto e que deu arrepios a Yukari — e os cumprimentou com um breve aceno de seu chapéu, antes de seguir pelo mesmo caminho que os irmãos haviam tomado.

Yukari cobriu o rosto com ambas as mãos e simplesmente não teve coragem de voltar a encarar o professor.

Ao fim parecia muito mais que era o professor Haruna quem precisava de companhia para ir para casa e Yukari precisou oferecer a ele um banho e um chá quente pela conta da casa para acalmá-lo — e felizmente havia um vizinho dele naquele mesmo momento na pousada, que lhe ofereceu uma carona para casa.

—Ah, finalmente ela está aqui, graças aos deuses, eu estava muito preocupada! — sua mãe a abraçou assim que Yukari chegou a casa — Mamãe me contou coisas horríveis da cidade hoje e seu pai ligou para a escola, mas eles disseram que já haviam liberado todos os alunos há mais de quarenta minutos! Onde você estava Yuki?

Falava enquanto virava seu rosto de um lado para o outro e erguia seus braços, avaliando-a por inteira, fazendo o coração de Yukari acelerar muito enquanto rezava para o pequeno amuleto de raposa não cair do seu bolso.

—Não está tão ruim assim lá fora…

—Está muito pior! — a avó intromete-se entrando na sala — Houve um ataque terrorista sabia? Um maníaco entrou com um carro bomba dentro de uma lavanderia! E tem um maníaco pervertido também, ele estava correndo nu pela rua se exibindo para mulheres e crianças, tirando todas as roupas com três viaturas da polícia atrás dele, quando o pegaram estava tentando se esfregar em uma caixa de correio, só de meias!

Yukari franziu o cenho.

—Vovó, a senhora tem certeza que foram exatamente assim que as coisas aconteceram?

—E eu já ouvi sobre, pelo menos, quatro pessoas que foram parar na emergência por ficar tempo demais expostos ao frio…

—Mas nem sequer estamos no meio de uma nevasca…

—E agora ficaremos também em déficit de funcionários: Naoko-chan ligou dizendo que não poderá vir trabalhar, porque o pai sofreu um acidente e foi hospitalizado.

—Minha nossa! O que aconteceu? — a mãe espantou-se servindo chá para todas.

—Segundo a versão dele, ele estava parado no sinal quando “de repente a moto ganhou vida própria e começou a girar e empinar como um cavalo selvagem até derrubá-lo, e então o perseguiu pelo meio fio como se estivesse possuída até atropelar a perna dele e ir parar dentro da fonte na Praça da Raposa”, pois sim! — Vovó Tsubaki bufou, tomando um gole de seu chá — Ele com certeza apenas não quis admitir que a sogra estava certo e aquela coisa monstruosa era muito perigosa para pilotar!

—Mas que caótico! — sua mãe exclamou — E Daisuke insistindo que é apenas histeria desnecessária!

—Ah, ele e Daisuke estudavam juntos, sabiam? Aquele garoto sempre foi problema, acreditam que uma vez…

—Desculpe avó. — Yukari levantou-se inclinando a cabeça — Mas preciso subir e mandar uma mensagem para avisar minhas amigas que já cheguei a casa, elas também estavam preocupadas.

—Não é para menos! — Tsubaki a liberou com um aceno impaciente de mão.

Enquanto subia as escadas ainda podia ouvir a mãe e a avó conversando que era como se o Binbougami tivesse decidido tirar férias em Higanbana, mas ela tinha a impressão que até o deus da miséria e da calamidade olharia para aquela bagunça toda e diria “nossa, que catástrofe!”.

Suspirando entrou no quarto e procurou pelo celular na escrivaninha… ah estava ali na cama, mas quando o pegou e a tela se ascendeu diante dos seus olhos o queixo de Yukari quase caiu.

Como aquele cretino havia conseguido recolocar como tela de bloqueio exatamente a mesma foto dele deitado com ela adormecida na cama que ela definitivamente havia deletado do celular?! E não só isso, mas quando Yukari desbloqueou o celular, deparou-se com um novo papel de parede no plano de fundo — que antes costuma ser a imagem vinda de fábrica —: uma nova self, dessa vez com aquela raposa sentada na cama dela enquanto Yukari jazia adormecida às costas dele, com certeza tirada na noite anterior, etoda enfeitada com efeitos de corações!

Por acaso o passatempo desse canalha era colocá-la em problemas?!

E é claro que Yukari apagaria aquelas fotos também, mas… Gintsune parecia tão feliz ali — com certeza porque ele era um cretino e nada o deixava mais feliz do que irritá-la e colocá-la em problemas — que de certa forma ela até gostaria de olhá-las por mais um tempo… bem, pigarreou enquanto enviava as mensagens para as amigas, garantindo que nenhum raio caíra sobre sua cabeça e nem uma bomba em uma caixa de correio explodira em seu caminho para casa, imaginava que não tinha problema deixá-las só um pouco mais ali… só até a hora em que ela precisasse começar seu turno na pousada e depois as deletaria.

E também não era como se ela fosse passar o tempo todo admirando aquelas fotos — ela estava irritada com ele, não podia se esquecer disso! — só porque ele tinha um rosto bonito e parecia feliz como um garotinho nelas, corou, ela também deveria usar seu tempo livre de alguma forma útil como, por exemplo, adiantando a lição de casa, as provas finais estavam logo aí!

E também precisava conversar com ele a noite a respeito de quão longe já estavam indo as brincadeiras do irmãozinho e sobre Aoi, passou o resto da tarde e quase todo o seu turno na pousada pensando sobre isso, Gintsune disse que seria melhor para Aoi se ele não se envolvesse, e Yukari sabia que ele não gostava de se intrometer nas vidas dos humanos — exceto para causar-lhes desgraça e infortúnio por puro divertimento —, mas Yukari ainda não conseguia se tranquilizar… e já era quase 23h quando voltou para o quarto e ouviu algo vindo da janela de seu quarto.

Algo como um ligeiro arranhar.

—Yu… kari… — uma voz a chamou fracamente. — Abra…

Piscando, Yukari foi até a janela, desde quando aquele folgado do Gintsune pedia permissão para entrar em seu quarto?

Mas tão logo abriu a janela, Gintsune caiu inerte para dentro do quarto encolhido em sua menor forma, fazendo-a pular para trás exclamando surpreendida.

—O que houve?

Arregalou os olhos, se ajoelhando para pegá-lo, mas paralisando ao perceber a grande mancha de sangue que se formava no chão abaixo dele.

—Eu vou… eu vou matar aquele fedelho… — Contraindo-se, Gintsune voltou lentamente à sua forma humana, pressionando a lateral da barriga com uma das mãos.

—Seu… seu irmão fez isso?!

—Ve… — Gintsune tossiu — Veneno… aquela víbora…

Apoiando-se sobre um cotovelo ele tentou levantar-se, mas acabou se desequilibrado e caindo de volta no chão, gemendo e virando-se de costas no chão ainda pressionando o ferimento.

—Fique parado!

Yukari ofegou inclinando-se sobre ele para pressionar o ferimento e olhando a volta exasperadamente a procura de algo que pudesse estancá-lo, Gintsune estava queimando, sua temperatura corporal já naturalmente elevada estava tão alta que Yukari sentiu como se pudesse conseguir queimaduras de terceiro grau apenas tocando-o.

—Ajude-me…

Gemeu quando ela endireitou-se para puxar por cima da cabeça o cardigã arco íris que usava, ficando apenas com um vestido marrom, e pressionar a peça contra o sangramento.

—S-segure firme! Primeiro nós temos que parar a hemor… pare de tentar se levantar!

—Desculpe, mas eu acho que vou… — Contraindo-se ele virou-se de costas para ela e começou a vomitar. —Ah… sujei seu chão, desculpe.

Balbuciou tentando se levantar novamente.

—Esqueça o chão!

Yukari o abraçou, fazendo força para ajudá-lo a se colocar de pé, trôpego, Gintsune deixou-se ser arrastado até a cama dela e por muito pouco Yukari não pisou na cauda dele ou desabou com o peso dele… mas talvez não o tenha jogado na cama de forma muito gentil.

—Não… eu não gosto de deitar em camas… — ele reclamou com voz embolada, gemendo ao fazer menção de girar, para fora da cama.

Mas Yukari o segurou firmemente pelos ombros, o mantendo no lugar.

—Fique parado! — suplicou sentindo os olhos pinicarem e já ficando com a visão embaçada — Me diga o que fazer!

Gintsune riu fracamente e ergueu uma mão para acaricia-lhe o rosto com a dobra dos dedos.

—Eu gosto de mulheres com iniciativa… mas quando pensava em você sobre mim tirando a blusa e me jogando na cama, não era bem assim…

O pior é que Yukari não sabia se ele estava ou não delirando!

E a temperatura dele só parecia continuar subindo cada vez mais, mas… não era possível que ele entrasse em combustão espontânea, era?

—O que seu irmão te deu? — arriscou — Há um antídoto?

Gintsune segurou-lhe uma das mãos.

—Shhhh não conte nada para a minha linda irmã, por favor. — suplicou — Ela é muito delicada e atenciosa, ficaria muito preocupada… eu não… não quero preocupá-la… por isso vim até você… — gemeu pressionando o ferimento — linda garota com neve no nome e gelo no coração.

Se ele realmente achava que havia alguma chance de ela e a irmã dele terem qualquer tipo de diálogo, ele definitivamente estava delirando!

Yukari arfou endireitando-se.

—Eu preciso…!

Mas quando tentou afastar-se, percebeu que Gintsune ainda segurava sua mão.

—Não, não me deixe… — ele suplicou fracamente, a cabeça caindo de lado para fora do travesseiro — Tudo está girando… sempre achei seu nome lindo… Yukari… Yukari… Yukari…

Pelos deuses, ele estava piorando!

—Eu preciso buscar o kit de primeiros socorros ao menos! — argumentou puxando a mão.

E foi preocupantemente fácil de conseguir se soltar, ele está muito fraco… mas então Gintsune segurou a saia de seu vestido.

—Sim, socorro… — concordou — eu vou esfolar aquele fedelho… e traga um balde, acho que vou vomitar de novo… e sakê… quero sakê… sirva-me com um beijo bela Yukari… Yukari, Yukari… neve no nome e gelo no coração…

Ele voltou a rir uma última vez, antes que seus olhos se revirassem nas órbitas e sua mão pendesse flácida.

Notas finais
Eu acho que esse capítulo foi bem tranquilo no geral... talvez nem tanto pelo final kkkk Tadinho do To-chan ^_^