A Lenda da Raposa de Higanbana
51 50: Aquilo que mais importa.
Notas iniciais
Yukari ainda tinha guardado no quarto alguns dos materiais de primeiro socorros da última vez em que precisou cuidar de Gintsune, mas ainda precisava de água e toalhas limpas para limpá-lo.
Mas mesmo que ela pudesse fazer algo pelo ferimento, e quanto ao envenenamento?
A internet recomendava induzir o vômito e dar tabletes de carvão aditivado para animais envenenados, mas onde ela arranjaria aquilo àquela hora da noite em Higanbana?!
Além do mais ele já havia vomitado, talvez já tivesse expurgado o veneno também, pensou tentando ser otimista enquanto descia as escadas correndo, até que paralisou no último degrau ao ouvir as vozes de seus pais na cozinha.
Olhou para as próprias mãos, elas estavam sujas de sangue, assim como a saia de seu vestido, precisava de água quente, mas como explicaria isso a eles?!
Engolindo em seco deu meia volta e voltou a subir correndo as escadas, precisava pensar rápido e, se não podia ir à cozinha, o banheiro foi sua próxima escolha, então pegou a pequena bacia que usavam para se jogar água e encheu-a com a água mais quente da torneira enquanto pegava toalhas limpas no armário… e se tivesse que costurá-lo também?
Não havia visto o corte, mas pela quantidade de sangue devia ser profundo.
Só de pensar nisso já se sentia mareada.
—Gintsune… — chamou entrando cuidadosamente no quarto.
Mas ele não respondeu.
Ainda estava deitado na cama dela com os olhos fechados e mortalmente quieto, o cardigã dela ensopado de sangue abandonado ao seu lado e manchando as cobertas logo abaixo, já havia tanto sangue assim antes? Ele ao menos estava respirando ainda?
E Yukari sentiu seu rosto passar de branco para verde, quando se ajoelhou ao lado da cama deixando a bacia no chão e encostou dois dedos na jugular dele, tentando sentir sua pulsação, não tinha a menor idéia do que estava fazendo, mas ele parecia ainda mais quente do que antes, e se por um lado isso era péssimo, por outro ao menos significava que continuava vivo.
—Talvez eu realmente devesse arrumar uma forma de avisar à irmã dele, tenho certeza que ela saberia o que fazer.
Refletiu enquanto tentava puxar-lhe a camisa, mas precisando lhe desafivelar o cinto para conseguir soltá-la, e o fato de ele estar inconsciente só dificultou ainda mais a tarefa, era como se Gintsune pesasse uma tonelada, por isso não lhe restou escolha a na ser recorrer a uma tesoura para livrar-se da camisa de uma vez.
O ferimento estava na lateral direita da barriga dele, na altura da cintura, e parecia ainda pior do que Yukari esperava, embora o sangramento aparentasse ter parado agora, mas o corte ainda era profundo o bastante para com certeza precisar suturar, só que sem ter o material e nem ideia de como fazer isso, Yukari precisou se restringir a fazer o melhor que podia com o que tinha a mão.
E durante todo o tempo em que ela trabalhava Gintsune não esboçou qualquer reação.
—Gintsune, por favor, abra os olhos… diga-me o que fazer. — suplicou segurando a mão dele entre as suas e apoiando a testa contra a mão dele — Ou, ao menos, me diga se há um antídoto.
Obviamente ele não respondeu, e quando Yukari buscou um termômetro no banheiro, descobriu que sua temperatura já estava ultrapassando os 42°C, e Isso era alto demais até mesmo para ele, se ele fosse humano, com certeza já estaria tendo convulsões!
Talvez Yukari realmente devesse procurar alguma maneira de tentar encontrar Momiji e avisá-la sobre aquilo — pensou enquanto ia desesperadamente até a cozinha em busca de bolsas de gelo, pois não achava que uma simples fita adesiva térmica bastaria e felizmente seus pais já haviam se recolhido a essa altura — ela com certeza saberia o que fazer, e também não era provável que matasse Yukari enquanto estivesse ocupada cuidando do irmão mais novo… mas onde a encontraria? Gintsune dissera algo sobre os irmãos estarem ficando em um cemitério…
Os olhos de Gintsune pestanejaram e abriram-se quando sua pele entrou em contato com a superfície gelada da bolsa de gelo.
—Yukari… — ele a chamou.
—Ah, ainda bem, você ainda está vivo! — suspirando levando as mãos ao peito. — Gintsune, você precisa dizer onde eu posso encontrar sua irmã para ela…!
—Não. — ele gemeu virando o rosto de lado e deixando cair à bolsa de gelo. — Não chame… minha linda irmã… não… vou esfolar…
O rosto dele estava muito vermelho também, Yukari inclinou-se para pegar a bolsa de gelo e forçá-lo a virar a cabeça de novo para equilibrar a bolsa sobre sua testa.
—Por que está sendo tão teimoso? — reclamou com a voz embargada — Você precisa de um antídoto antes que…!
Ela não conseguiu terminar a frase.
—Morangos… — ele balbuciou com as faces coradas e o olhar desfocado. — Posso… prová-los…?
—O que? — Yukari inclinou-se para mais perto, achando ter ouvido errado.
Gintsune ofegou baixando a mão que Yukari nem havia percebido que ele começara a erguer e pousou-a sobre a barriga cerrando-a em punho, gemendo com uma expressão dolorosa e erguendo os olhos de volta para o rosto dela.
—Não preciso… não era… — os olhos dele começaram a se fechar novamente.
Arregalando os olhos, Yukari o agarrou pelos ombros.
—Espere, por favor, fale-me do antídoto! — suplicou.
Gintsune voltou a pestanejar
—Nada de antídoto… não é letal. — ele umedeceu os lábios — Só preciso descansar e depois… quero morangos… não… vou dar uma surra… naquele f…
Ele caiu inconsciente novamente, e dessa vez não voltou a despertar independente de quantas vezes Yukari o tenha chamado.
Mas, ainda que a temperatura dele não estivesse baixando e ele não tenha voltado a reagir por várias horas depois disso, Yukari tentou manter-se calma confiando no que Gintsune disse e, após cobri-lo com o edredom, saiu para se trocar e buscar um balde e um esfregão para limpar o vômito do chão.
Já estava quase terminando de secar tudo quando Gintsune voltou a dar sinal de vida:
—Frio… — ele reclamou baixinho virando-se e encolhendo-se na cama, deixando a bolsa de gelo cair no chão — T-tão frio… Yukari… e-eu sinto m-muito frio…
Repetia com os dentes batendo.
É claro que ele ainda estava fervendo. Yukari constatou quando tocou sua testa.
—Eu vou pegar mais uma coberta! — avisou-o.
Mas antes que pudesse se afastar ele a agarrou rapidamente pelo pulso e sua força devia estar começando a retornar, porque dessa vez ela não conseguiu se libertar dele.
—N-não. — gaguejou mal conseguindo falar por entre os dentes trêmulos — D-d-durma comigo-o, p-p-p-por favor…
Yukari franziu o cenho.
—Como é que é?
—E-era assim que m-minha mãe se aquecia… — ele esforçou-se para contar — Ela sempre usava a m-mim e ao v-v-velho para aquece-la-a…
Ela hesitou por um momento antes de começar a erguer a coberta.
— Se você vomitar em mim ou isso for um truque eu…
Antes que pudesse terminar de falar, Gintsune a puxou bruscamente para a cama, passando um braço e uma perna sobre ela e escondendo o rosto na curva de seu pescoço, como um naufrago agarrando-se a um pedaço de madeira à deriva.
—Muito o-obrigado… — murmurou relaxando.
E segundos depois ele já parecia ter caído em sono profundo novamente.
Mas Yukari, por outro lado, estava rígida e como se de fato fosse aquele pedaço de madeira a deriva, ouvindo o coração latejar nos ouvidos com a mesma força das ondas em um mar furioso e seu estado apenas piorou quando, momento depois se lembrou que, além de tudo, Gintsune estava seminu.
Agora ela é quem se sentia com febre!
Não tinha certeza se de alguma forma havia conseguido pegar no sono, mas de repente espantou-se sentindo os lábios de Gintsune beijando seu pescoço.
—Gintsune…? — ela tentou esquivar-se, mas percebeu-se ainda presa com Gintsune ainda fortemente agarrado a si e uma das mãos dele sobre seu seio esquerdo…! Ela engasgou-se. — Gintsune…!
Ele estava movendo-se para apoiar-se sobre um cotovelo enquanto a outra mão subia tentando abrir a camisa do samue, afastando as bordas do tecido.
Yukari arregalou os olhos levando uma mão até o ombro dele para tentar afastá-lo.
—Esper…!
Mas com o olhar desfocado por entre os olhos entreabertos e a expressão completamente impassível na face corada, Gintsune não parecia completamente consciente quando se inclinou para beijar o ponto de encontro entre as clavículas dela.
Com a única perna livre se debatendo, um gritinho escapou de sua garganta e ela agarrou-o pelos cabelos e tentou inutilmente puxá-lo de cima de si.
—Devagar! — protestou — Pare com isso!
Gintsune paralisou instantaneamente.
E então, um momento depois, ele relaxou novamente escondendo o rosto na curva do pescoço de Yukari.
—Devagar, devagar, devagar… — balbuciou — Há tantas… tantas coisinhas que eu queria fazer… essa mulher de gelo me incendeia… mas tenho que ir devagar… devagar, devagar… ou ela me odiará, porque ela tem neve no nome e gelo no coração… Yukari… dê-me seu coração para que eu o devore e o torne meu por inteiro… mas tenho que ir devagar para não ser odiado… devagar, devagar… e quando ela perceber… nunca mais poderá escapar de mim…
Ele estava delirando pela febre e o veneno de novo!
Caindo de lado, Gintsune encolheu-se dobrando as pernas em direção ao peito, ainda com uma das mãos descansando na cintura dela e o rosto escondido na curva de seu pescoço.
Yukari pensou em aproveitar aquela chance para se levantar e fugir, mas temeu que isso o despertasse e recomeçasse tudo, então permaneceu ali imóvel, felizmente Gintsune não voltou a se mexer ou falar pelo resto da noite, e disso Yukari tinha certeza, pois certamente não conseguiu mais pregar os olhos!
Assim, perto do horário de seu despertador tocar, ela esgueirou-se cuidadosamente para fora da cama e desligou o aparelho, Gintsune por sua vez felizmente não se mexeu na cama, Yukari colocou a mão em sua testa, mas não soube dizer se ele havia retornado à sua temperatura naturalmente alta, ou se seguia com febre, mas ainda assim cuidadosamente baixou as cobertas dele e tirou o curativo para avaliar o ferimento, ainda estava feio, mas parecia que não precisaria de pontos afinal.
Silenciosamente agradeceu á regeneração acelerada e inumana daquele cretino — embora ela parecesse bem mais lenta dessa vez — enquanto voltava a limpar a região com gaze e soro fisiológico e fazer um novo curativo, tentando não se preocupar com a falta de reação de Gintsune a qualquer uma de suas ações, antes de deixar-lhe um bilhete avisando que havia ido para a escola e sair trancando a porta do quarto, rezando para que, durante sua ausência, ele não tivesse nenhum surto que o fizesse cair da cama, começar a gritar… ou francamente fazer qualquer barulho que pudesse alertar seus familiares da presença dele ali.
Mas embora tenha comparecido, a verdade é que, depois da noite conturbada que teve, Yukari estava exausta demais para assistir qualquer aula e, pela primeira vez em sua vida, passou todo o período escolar dormindo na enfermaria alegando enxaqueca.
*.*.*.*
Era apenas irônico que em um mundo de criaturas monstruosas com vidas tão extensas e cujos sentimentos podiam se prolongar por séculos a fio suas construções e povoados poderiam ser tão efêmeros… ao contrário do mundo humano, onde seus habitantes tinham vidas curtas e corações volúveis, mas suas construções e cidades podiam perdurar por vários séculos.
Naquele momento da aurora o sol despontava em um céu vermelho carmesim que parecia refletir como um espelho o campo vermelho brilhante pelo sangue derramado das centenas de corpos espalhados sob a colina onde a grande raposa prateada se deitava lambendo seus ferimentos.
A quarta pérola havia apenas começado a escurecer, mas desde o seu despertar Tamaki nunca antes havia passado tanto tempo só, é claro que às vezes ele demorava até uma quinzena em suas caçadas, mas mesmo então sempre tinha a máscara de Furin consigo que a mantinha junto dele ainda que estivessem separados e agora… agora ele não a tinha consigo e cada vez mais tudo o que queria era dilacerar, matar e devorar, estava se tornando louco sem poder vê-la ou senti-la e queria destruir todos que não fossem ela.
Mas ainda faltava um ingrediente para que ele pudesse ter Furin em seus braços, sem que ela lutasse para liberta-se dele, pois sua amada esposa tinha razão: ainda que ele pudesse aceitar tanto seu amor quanto seu ódio, se pudesse escolher, escolheria o amor.
E, para isso, Tamaki entregar-lhe-ia tudo o que ela desejasse, fossem madeixas forjadas como lâminas, dor cristalizada ou… o assoalho da ponte divina.
Há muito tempo, um casal divino havia se apaixonado, e se amavam tão intensamente que passaram a ignorar todo o resto, inclusive suas próprias obrigações, o que irritou outro deus e este, por sua vez, os separou colocando-os em pontos opostos da Via Láctea, permitindo que se encontrassem apenas uma vez ao ano, quando mil pássaros formavam uma ponte com suas asas para que os amantes atravessassem o rio.
Uma incrível estupidez, se alguém tentasse separá-lo de Furin e estabelecer que só pudesse se reencontrar uma vez ao ano, Tamaki primeiro arrancaria a língua e depois exporia as vísceras do culpado, e então ele secaria o rio que os separava e mergulharia em chamas qualquer um que se interpusesse em seu caminho — nem mesmo os deuses poderiam fazê-lo recuar de abrir seu caminho em sangue e dor até Furin —, e se uma ponte de pássaros era o que precisava para alcançá-la, então ele não se dobraria à mera vontade deles: ao invés disso mataria cada ave no mundo e as empalharia como um monumento ao seu amor.
O primeiro pássaro não demorou a chegar e, em poucas horas, já havia centenas deles, logo seriam milhares, assim como youkais carniceiros ou simplesmente querendo pilhar o que pudessem dos corpos, todos atraídos pelo massacre enquanto a grande raposa prateada deitada no alto da colina observava com olhos entreabertos esperando a oportunidade…
—O que acha que aconteceu aqui? — Tamaki ouviu passos se aproximando.
—Algum tipo de coisa muito feia. — uma segunda voz respondeu — O bastante para matar uma coisa dessas, olhe quantas caudas tem! São sete ou oito?
—Oi… espere um pouco… esse aí está realmente morto também…?
—Claro que está! Veja todo esse sangue, mesmo uma criatura dessas não poderia…
De repente virando-se Tamaki atacou-os, fechando suas mandíbulas em torno dos miseráveis antes mesmo que pudesse identificar que tipo de criaturas eles eram.
Estava coberto de sangue sim, mas a maior parte não era sua.
Na planície abaixo vários pássaros ergueram voo, grasnando assustados com a movimentação repentina e Tamaki pôde ver feixes de plumas azuis entre as asas negras e, retornando à forma humana, ele voltou-se com as garras em riste e saltou novamente sobre o campo carmesim, pronto para uma nova caçada.
…
Ryosuke não sabia dizer de onde estavam surgindo tantas raposas tubo, ele simplesmente não sabia se elas estavam se multiplicando ou saindo de seus inúmeros esconderijos conforme o tempo passava, o que ele sabia era que com certeza não havia nenhuma delas com a raposa feiticeira quando ela colapsou — fosse porque haviam sido exterminadas pelos raios ou porque fugiram pela própria segurança —, mas assim que foi instalada em um dos quartos do castelo para se recuperar, duas kudagitsunes já estavam apostas para cuidar da mestra… um número que vinha crescendo exponencialmente desde então e que agora parecia um enxame completo na casa das centenas.
Cada uma delas se certificando diariamente de manter o corpo de sua mestra limpo e os cabelos escovados, inclusive cuidando de trocar suas roupas e fazer suas unhas e maquiagem diariamente.
—É como se mesmo dormindo ela quisesse estar bonita para quando o marido voltar. — Mayu comentou pegando Akio nos braços quando retornou do treino de armas.
Tennyo Hikari estremeceu.
—Eu não preciso espiar o futuro para saber que se aquela raposa monstruosa voltar e encontrar a esposa nocauteada haverá sangue e morte.
—Mas foi pelo bem dela! — Mayu exclamou chocada.
Hikari começou a roer a unha do polegar.
—Algo me diz que ele é do tipo que dilacera primeiro e pergunta depois.
Mayu balançou o filho no colo ansiosamente,
—Há quanto tempo ela já está dormindo?
Mesmo que visitassem Furin-sama diariamente, nenhuma das duas havia notado quaisquer sinais de ela estar recuperando a consciência.
—Tempo demais. — Hikari olhou para o céu coberto por nuvens de miasmas que, com o avermelhado do entardecer, começavam a assumir o tom de um feio hematoma.
—Quando acha que ele vai retornar?
—Espero que não antes que ela acorde. — respondeu vagamente — Eu não gosto da cor desse céu.
Mayu suspirou, é claro que sem uma prenda adequada para pagar por suas previsões, Hikari não podia responder adequadamente nenhuma de suas perguntas, mas ainda assim a preocupava o estado aparentemente ansioso da deusa oni geralmente tão despreocupada.
Geralmente Hikari era capaz de predizer o futuro com bastante precisão especialmente quando envolvia a ela mesma, ela já vira inúmeras vezes em suas visões seu povo sendo massacrado e seu próprio coração arrancado e devorado ainda quente e pulsante diante de seus olhos agonizantes por uma miríade infindável de bestas e conseguira contornar todas, é claro, mas essa era a primeira vez que tinha medo do que poderia ver e não queria olhar o que havia a aguardando… meses atrás ela vira uma fera prateada de muitas caudas que atacara sua vila com uma fúria bestial e, embora os onis tenham conseguido lhe infligir graves ferimentos, muitos morreram e, no fim, nenhum deles conseguiu impedi-lo de alcançar Hikari.
“Minha senhora a quer e ela a terá” — dizia a besta banhada no sangue dos onis e segurando a cabeça do pai de Hikari em uma das mãos — “Deve ser levada viva… mas não disse nada sobre estar intacta, então resista ou fuja e te quebrarei os braços e pernas e arrancarei suas asas garotinha”
Ele mesmo mal parecia capaz de manter-se de pé, mas ainda se mostrava lúcido e hostil o bastante para cumprir com suas palavras.
E o mais perturbador de tudo: não importava quantas variáveis a deusa oni tentasse visualizar, ao final a besta de prata sempre matava seu pai a alcançava e levava “para sua senhora”.
Isso deixou Tennyou Hikari, secretamente, apavorada.
No entanto… ele sempre dizia que a queria viva para sua senhora e, a menos que ela resistisse, não parecia que ter qualquer intenção de feri-la, então, pensou, se ela voluntariamente procurasse pela besta e a senhora dele, não precisaria haver mortes, e essa se tornou a melhor das opções, pois tudo o que Furin queria dela era uma peça tecida por suas próprias mãos… mas, ainda que ela achasse que isso havia resolvido tudo, Hikari continuava sonhando repetidamente com a besta a caçando ou arrancando suas asas, mas tinha medo de espiar o futuro para saber se ou os sonhos eram apenas fruto do temor que ela não ousava admitir em voz alta, ou era o futuro que ela se recusava a olhar, gritando para chamar-lhe a atenção antes que fosse tarde demais.
—Noite passada eu sonhei com um céu vermelho sangue exatamente como esse. — contou.
—Eu avisei ao pai que devíamos tê-la deixado onde a encontramos. — Akira reclamou aproximando-se enquanto esfregava a testa vermelha.
—É óbvio que eu não podia deixá-la desacordada no meio do nada! — Satoshi acertou um cascudo na cabeça do filho mais velho — Só porque vivemos em um mundo monstruoso, não significa que todos nós temos que ser monstros!
—Sei, mas nem uma boa ação fica sem consequência. — o garoto respondeu mal humorado.
—O que aconteceu? — Mayu quis saber aproximando-se e afastando a mão do filho para dar uma boa olhada em sua testa.
—Ele caiu. — Satoshi pigarreou.
—Os criados de Furin-sama amarraram as sandálias dele quando não estava olhando e o derrubaram no chão. — Akihiko corrigiu pousando atrás da mãe — Depois arrancaram um chumaço de penas das asas e fugiram rindo.
Diferente do habitual rabo de cavalo, hoje ele mantinha os cabelos presos em um coque apertado ocultos sob um tecido de seda.
—Eu também ouvi dizer que o pobre Kanji-sama está quase todo depenado. — Hikari deu uma risadinha — Quem sabe estão planejando fazer uma sopa para sua mestra ou rechear um travesseiro com plumas? Realmente não parece uma boa época para se ter as asas expostas.
—Nem todos nós podemos ocultar nossas asas. — Akira retrucou olhando do pai para a deusa oni, com suas costas lisas e a salva de pragas. — Eu devia caçá-los e fazer alguns cachecóis, luvas e botas com a pele.
—Seria um trabalho em vão, o inverno está quase no fim. — a jovem deusa oni o provocou.
—Também não é uma boa época para ter cabelo comprido, elas têm voado por aí os cortando sem distinção — Akihiko tocou o tecido que encobria seu coque — Você deveria ter cuidado também mamãe.
—Desde quando as raposas são tão enervantes?! — Akira reclamou.
—Desde que o mundo é mundo. — Satoshi respondeu cansado.
—Nenhum deles me incomodou. — Mayu respondeu pensativa.
Nem mesmo quando ela e Hikari iam aos aposentos de Furin-sama.
—Isso porque elas não são tão estúpidas quando fingem ser. — Satoshi esfregou a parte de trás do pescoço e deixou-se cair sentado ao lado da esposa — Elas também causaram vários focos de incêndio em cantos aleatórios do palácio e da cidade e andam se reunindo em exames para roubar pequenos animais… simplesmente não param nunca.
Até se pareciam um pouco com Gintsune: quanto mais ocioso ele ficava, mais problemas ele causava.
—E por que você está se preocupando tanto com essas criaturinhas? — a deusa oni apoiou as mãos no chão e inclinou-se para trás, observando o céu — Você é um convidado aqui, assim como eu, apenas deixe que Ryosuke-sama cuide de tudo
Afirmou despreocupadamente balançando os pés.
—Na verdade eu agradeço toda a ajuda possível. — Ryosuke comentou atravessando o pátio de treino — Eu acabei de encontrar Botan quando ela estava indo guardar a naginata de Omayu-san e ela me disse que vocês estariam aqui, essas kudagitsunes estão roubando animais para sacrificá-los e sangrar na árvore, parece que mesmo que a barreira tenha se ido com os mestres, os criados ainda cuidam de manter o contrato de pé… infelizmente em suas travessuras algumas delas mexeram com a vila dos pequeninos e pereceram diante da ira de Yuri-chan por isso, e uma meia dúzia foi transformada em cinzel quando tentaram cortar os cabelos Ofuyu… espero que Okuro-yoko-sama não se incomode com isso.
—Por falar nisso, meu pai e os outros onis comeram algumas também. — Tennyo Hikari confessou dando uma piscadela.
—Ela provavelmente nem vai notar. — Akira coçou a cabeça — Quantas são afinal? Não acabam nunca!
—Eu também gostaria de saber, já selei quase uma centena e meia em um baú, mas elas não param de aparecer, parece que nem estão diminuindo de número. — Ryosuke confessou. — Inclusive essa é a razão para eu vir buscá-los: Ohika-chan, você consideraria uma escama de dragão um pagamento digno por suas predileções? Só preciso saber como resolver a questão das raposas e quando Tamaki-sama retornará…
—Ah Ryosuke-sama, está mesmo assim tão curioso nos assuntos das raposas? — Tennyo Hikari inclinou-se para frente apoiando os cotovelos nos joelhos e o rosto entre as mãos, com um sorriso alegre — Elas só estão se distraindo um pouco enquanto a mestra descansa, não precisamos criar caso… e por que anteceder a volta da besta, quando ele estiver voltando… saberemos a milhas de distância, a energia violenta que ele carrega em si…
O sorriso da jovem deusa vacilou e, de repente, seu corpo convulsionou e as costas arquearam-se com a cabeça sendo jogada para trás e os olhos iluminando-se com luz.
—Hikari-chan! Está tudo bem com você?! — Mayu sacudiu-lhe o ombro.
A boca da deusazinha abriu-se em um circulo e ela emitiu um som estrangulado antes que começasse a dizer:
—Oh jovem menina oni com sangue divino nas veias, não pode obscurecer ao futuro que se ilumina diante de seus olhos, ainda que sorria e se recuse a olhá-lo, eu vejo, o céu será sangue, e cinzas cairão quando pelas ordens da feiticeira a besta prateada virá para provar seu amor tomando este tesouro divino que o forte protetor por tanto tempo valorizou… Dor, sangue, gritos e morte aguardam a quem quer que tente detê-lo. — A luz em seus olhos apagou-se e Hikari levou as mãos ao peito sem fôlego. — Essa visão não foi convidada, que grosseria!
—Isso é o que te incomoda?! — Akihiko perguntou assustado — E toda a história de sangue, gritos e morte que disse no fim?!
—Abuh! — Akio balbuciou jogando os braços para o alto, como se aquelas palavras o animassem.
Akira lançou um olhar estranho ao irmão caçula e arqueou uma sobrancelha.
—Essa reação aí deveria nos preocupar?
Ryosuke pigarreou.
—Então sobre a escama que lhe prometi…
—Não é necessária. — Tennyo Hikari o interrompeu roendo a unha do polegar — Essa visão não foi para você.
—O que é isso? — Satoshi estranhou estendendo a mão para aparar os flocos que espiralavam em queda pelo ar — Neve?
—Não. — constatou Mayu erguendo o olhar para o céu vermelho sangue do entardecer — Cinzas.
Das nuvens de miasma uma imensa cabeça em chamas emergiu gritando enquanto caía em espiral e se desfazia espalhando cinzas sobre a cidade e o castelo abaixo, acima dele uma imensa raposa prateada com sangue e fogo escapando por entre as mandíbulas rasgou os céus ao seu encalço e, com uma última abocanhada, finalizou a criatura espalhando mais cinzas no ar.
Nas ruas abaixo criaturas apavoradas de todos os tamanhos correram para se abrigar quando perceberam que a imensa raposa agora ia em direção à cidade, pousando na via principal a criatura assumiu uma forma humana feminina com uma trouxa amarrada em torno dos quadris e roupas em farrapos cobertas de sangue e fuligem e olhou de um lado para o outro sem ver uma alma viva sequer.
Onde estava Furin? Ela certamente o havia visto chegar, então por que não viera ao seu encontro?
Tamaki rosnou, ele trouxera tudo o que ela lhe pedira, mas ela ainda estava muito magoada com ele para vir ao seu encontro e eles sequer tinham as máscaras para se conectarem… mas não tinha importância, senti-a tão perto agora, que podia quase tocá-la.
E Furin jamais seria capaz de fugir ou se esconder dele.
Tamaki virou-se em direção ao castelo, limpando o sangue do rosto com as costas da mão.
O lorde dragão o esperava diante do portão principal.
—Tamaki-Sama nós o aguardávamos. — saudou-o.
Tamaki não tinha tempo a perder.
—Onde está minha esposa? — quis saber.
O dragão pigarreou.
—Sim, claro, Okuro-yoko-sama é minha hóspede, mas ela…
Parte do quimono de Tamaki escorregou por seu ombro e, estressado, ele puxou a manga arrancando-a com a metade da parte superior da roupa sem se importar em desnudar o torso feminino.
—Onde? — rosnou impaciente.
—O mestre está de volta!
Uma dezena de pequenas Kudakitsunes com vozes agudas comemorou de repente irrompendo por detrás do dragão, porém eram espertas demais para saber que não deveriam se aproximar de Tamaki quando ele estava a tanto tempo longe de Furin e, ao invés disso, permaneceram voando em torno do dragão, cochichando umas com as outras:
—Ele trouxe o que precisa?
—Voltou cedo demais…
—Quantas pérolas já escureceram?
—Se não conseguiu a mestra ficará chateada…
—Muito chateada…
—Mas o mestre nunca desapontaria a mestra…
Aqueles criados sempre falaram demais, Tamaki já estava considerando seriamente queimar tudo em seu caminho até encontrar Furin, mas ao menos se eles estavam ali, então ele estava certo e sua Furin também não estava longe.
Chamas arroxeadas irromperam brevemente aos seus pés e pelos cantos de sua boca.
—Guiem-me. — ordenou.
Arregalando os olhos, os criados imediatamente dispararam de volta para o interior do castelo.
—Tamaki-Sama, antes de ir à busca de sua esposa talvez seja melhor saber que eu precisei…
Tamaki não tinha tempo para escutá-lo, curvando-se ele assumiu sua esguia forma animal e passou correndo pelo dragão ao encalço dos criados que gritaram aterrorizados e aumentaram a velocidade, tentando não serem mordidas e devoradas pelo mestre que praticamente as caçava enquanto viravam um corredor após o outro.
Assim como os habitantes da cidade, os do castelo também pareciam espertos o bastante para se manterem fora de seu caminho — e talvez tenha escutado aqui e ali avisos de “fujam, ele está atrás da feiticeira!” — o que era melhor, pois naquele momento ele teria dilacerado e atropelado qualquer um que aparecesse… todas aquelas portas e corredores não terminavam nunca? Que labirinto mais longo e desnecessário, Tamaki voltou a rosnar e abriu a boca quase devorando um dos criados que guinchou encolhendo-se para longe de seu alcance, ele deveria apenas criar seu próprio caminho até Furin, seguindo reto e queimando tudo…!
Finalmente os criados se acumularam em frente a um par de portas duplas e puxaram-nas para Tamaki.
Ali dentro uma Furin sentada sobre os calcanhares o aguardava sorrindo docemente com os braços abertos para recebê-lo.
—Tamaki, venha aqui. — chamou-o.
Tamaki deteve-se por um instante, ainda no batente, colocando-se de pé sobre as patas traseiras e reassumindo sua forma humana, dessa vez masculina.
—Furin. — chamou roucamente estendendo um punho à frente e abrindo-o, deixando as sete pérolas caírem.
Três delas ainda eram brancas.
Ele deu um passo adiante, entrando no quarto de forma quase cautelosa, como se achasse que ela tentaria fugir, e seguiu aproximando-se até que cair de joelhos diante da esposa e curvar-se para aconchegar a cabeça em seu colo, passando os braços firmemente em torno da cintura dela, finalmente a tinha!
—Eu sabia que você voltaria depressa. — Furin sorriu calmamente acariciando lhe os cabelos, sem se importar em sujar-se de sangue. — E trouxe tudo o que pedi.
Afirmou com a certeza de que seu amado Tamaki jamais a decepcionaria duas vezes seguidas.
Tamaki a apertou ainda mais, aspirando o perfume de sua senhora.
—E você conseguiu esclarecer o último agouro?
Furin olhou para uma das pérolas brancas que havia rolado até o seu lado e pegou-a entre o polegar e o indicador.
—Uma imaculada prova de amor divino. — repetiu consigo mesma, erguendo a pérola acima da cabeça. — Por mais que investigasse e lesse os agouros uma e outra vez, a informação continuava a ser tão turva… cheguei a pensa que a imaculada prova de amor fosse que meu querido Tamaki pudesse retornar com uma de minhas pérolas ainda incorrupta, mas isso não faria sentido, pois embora seja uma prova de amor incontestável, não há nada de divino em minhas criações. — ela pressionou a pérola entre os dedos até que a pequena esfera se estilhaçasse — No entanto os agouros continuavam apontando-me que tínhamos o último ingrediente em nossas mãos e pensei… de onde provém todo o amor? O que Tamaki sempre me oferece como materialização de seu amor?
Tamaki ergueu a cabeça, levando uma mão ao rosto de Furin e aproximando-se para beijá-la.
—Meu coração. — respondeu brevemente.
—Isso mesmo. — Furin sorriu — Mas onde poderíamos encontrar um coração divino, não é mesmo?
Tamaki sorriu de forma bestial, é claro que eles sabiam onde, e se era isso o que sua senhora exigia dele agora, então era isso o que ele lhe daria.
*.*.*.*
Yukari encarou o teto de maneira atordoada e, antes que pudesse se lembrar completamente de onde ela estava, as cortinas em volta da cama foram afastadas.
—Ah, que bom, você já está acordada. — a representante constatou dando uma olhada nela. — As reuniões de clube foram canceladas por hoje, mas eu não podia ir para casa sabendo que você ainda estava dormindo aqui.
Yukari se sentou levando a mão ao rosto e ainda se sentindo meio zonza.
—Ir para casa…? As aulas foram canceladas?
—As reuniões dos clubes foram canceladas. — representante a corrigiu — As aulas já acabaram.
—O que? Acabaram?! — sobressaltada ela rapidamente olhou à hora em seu relógio de pulso.
Não podia ser tão tarde assim! Ela havia planejado descansar só durante a primeira e talvez a segunda aula, mas voltaria para a sala antes do horário de almoço, como havia passado o dia inteiro dormindo?!
Instintivamente sua mão tateou por baixo das cobertas o bolso da saia, apenas para comprovar que o amuleto de raposa ainda estava ali e que não havia rolado para fora enquanto ela dormia.
—Você e a Nishiwake pegaram a mesma coisa por acaso? — representante perguntou de repente, jogando os cabelos por cima do ombro.
Yukari franziu o cenho.
—Como assim?
—Ela também começou dessa forma: vinha à escola, mas não aparecia nas aulas, passava o dia na enfermaria, acho que ela disse algo sobre não estar dormindo à noite também, e depois ficou um tempo sem aparecer e quando voltou disse que estava bem, mas parecia tão estranha… e agora já são dois dias que ela não vem à escola. Desde o dia dos namorados.
—Eu estou bem. — garantiu.
—Claro isso é o que Nishiwake também costuma dizer. — a representante retrucou — Não que isso sirva para me deixar menos preocupada.
Yukari e Aoi certamente não tinham a mesma coisa, embora a representante não estivesse tão errada em desconfiar disso, já que o estado de animo das duas certamente tinham a mesma origem.
—Eu só passei uma noite mal dormida e estava com dor de cabeça. — garantiu.
Afinal Gintsune era sua dor de cabeça encarnada, e agora havia basicamente três deles, Yukari só esperava não ter um aneurisma!
—Sei. — a representante respondeu não parecendo muito convencida, e estendeu a mão para Yukari — Então vamos? Estão nos esperando e você sabe como escurece mais rápido no inverno.
—Eu tenho certeza que ficarei bem, representante, não preciso que me acompanhe… — alegou levantando-se.
—Uma ova que não! — a representante retrucou — Só hoje, enquanto você dormia, o corpo de bombeiros pegou fogo.
—O que?! — Yukari engasgou-se.
—Não foi um grande incêndio, eu acho. — a representante deu de ombros — Eu apenas ouvi de alguém cuja irmã parece que namora o vizinho do pai de um bombeiro, ou algo assim, parece que alguns colchões começaram a pegar fogo no depósito… não se espalhou muito, mas foi bem trabalhoso.
Desde causar acidentes de trânsito, a fazer pessoas irem presas e agora até esfaquear e envenenar o próprio irmão e causar um incêndio no corpo de bombeiros, até aonde aquela criança podia ir?!
Será que havia uma forma de pará-lo antes que monges de Kyoto fossem convocados à cidade novamente?
Gintsune disse que, por enquanto, eles estavam presos em Higanbana…
—Não adianta ficar aí franzindo o cenho até acabar com uma monocelha, nós vamos juntas. — a representante deu um peteleco na testa de Yukari a surpreendendo, pois ela já tinha até se esquecido da presença da amiga ali. — E se está tão preocupada assim em causar incomodo, então se apresse, porque estão apenas nos esperando.
Apressou-a pegando as coisas de Yukari, pegando-a pela mão e levando-a para fora da enfermaria se despedindo apenas brevemente da enfermeira.
—Eu realmente vou ficar bem sozinha. — Yukari insistiu — Vocês não deveriam sair de seu caminho assim só para me acompanhar, eu moro na direção oposta a todos!
—Estamos indo naquela direção hoje. — a representante a interrompeu. — Vamos ver a Nishiwake também.
—Ela piorou? — soltou sem pensar.
Gintsune disse que Aoi-chan logo ficariam bem se apenas deixassem o assunto para lá…
—Eu te disse que ela não vem à escola faz dois dias. — a representante respondeu — A professora responsável pela turma dela pediu para a sua representante de classe levar a lição na casa dela, mas ela estava com medo de perambular pela cidade e queria ir direto para casa, não que eu a culpe, então Ichinose se prontificou a levar, mas é óbvio que eu não posso deixá-la andando sozinha por aí então, como pode ver, todos nós estamos indo naquela direção e te acompanhar não vai ficar na contra mão.
Concluiu quando chegaram à entrada principal da escola.
—Yuki, que bom que está aqui! — Kaoru veio logo recebê-la, pegando-lhe as mãos entre as suas — Eu fui te ver na hora do almoço, mas você nem se mexeu, quase pensei que a enfermeira havia te dado algum calmante!
—Não foi para tanto, eu só tive uma noite mal dormida… — Yukari suspirou soltando-se para vestir o casaco e o cachecol que a representante lhe entregava.
—Espero que isso não se torne um hábito. — a representante comentou — Ichinose e eu ainda precisamos pegar nossas bicicletas, então vamos?
E Yukari tinha alguma escolha? Ela suspirou.
Mas apesar dos temores, a cidade parecia tão quieta e pacifica como sempre conforme os grupos — eles afinal não eram os únicos a sair em dupla ou grupo da escola — faziam seu caminho, sem colunas de fumaça se erguendo no horizonte, ou sirenes soando a distancia, nem qualquer indicação de um acidente de trânsito, pervertido ou “ataque terrorista”, Yukari também não viu sinais de qualquer um daqueles estranhos e suspeitos bonequinhos de neve, ela só não sabia se devia se sentir aliviada… ou preocupada pensando na possibilidade que se tudo estava tão quieto assim, então era porque o irmãozinho de Gintsune bem podia estar se ocupando de planejar algo realmente grande dessa vez.
E se agora ele saísse esfaqueando com lâminas envenenadas aos humanos inocentes também?! O pensamento a fez estremecer.
Sentindo necessidade de se desculpar por qualquer infortúnio futuro, Yukari virou-se para a pessoa mais próxima a si naquele momento:
—Sinto muito pelo incômodo, você deve estar ocupado com os exames finais se aproximando, senpai.
—Não é sua culpa, Aiha sabe ser bastante persuasiva. — Tanaka-senpai respondeu — E na verdade também me preocupa que ela ou qualquer amiga dela possam estar andando sozinhas na rua… e não acho que aquela espada de bambu será de grande ajuda também. — ele lançou um olhar para a representante andando mais à frente com a bicicleta ao lado e a espada de bambu nas costas — Na verdade, se tivesse que chutar eu diria que aquilo tem mais chance de causar problemas, do que evitá-los.
Yukari assentiu concordando.
—O clube de investigação paranormal está achando que os desastres recentes significam que a raposa não foi realmente exorcizada e está de volta à cidade ainda mais irritada. — Yonekura-kun comentou olhando-os por cima do ombro, e então se virando para Sakura-chan á sua direita perguntou: — Sakura-chan, seu tio por acaso não vende amuletos no atacado?
—O clube paranormal acha que um escorregão que você levar na rua por causa de um pouco de gelo é culpa de uma raposa. — a representante respondeu com descaso, embora Yukari achasse que, na verdade, talvez eles não estivessem de todo errado… — E esse clube ainda existe afinal? Achei que tinha sido extinto e a sala transformada em depósito com os membros prestes a se formar.
—Ainda resta um deles. — Kaoru respondeu — Embora os membros mais velhos continuem frequentando mesmo depois de já terem dado baixa do clube, acho que ele terá que dá duro para recrutar membros novos na primavera se quiser manter o clube aberto.
—Esse clube é uma grande perda de tempo. — a representante bufou — Hiroshin, você foi muito condescendente como presidente: deveria tê-lo encerrado de uma vez e redirecionado os fundos para o clube de literatura! A rua da Nishiwake é na próxima esquina. Além do mais, todos sabem que essas histórias de fantasmas e raposas são apenas superstições que a cidade usa para lucrar atraindo turistas trouxas, nada disso existe de verdade.
Mas, pouco antes de virarem a esquina, a aparente tranquilidade foi logo quebrada pelo som alto de uma batida de metal.
—Sua geringonça estúpida! — uma criança reclamava dando vários chutes em uma máquina de venda na calçada a poucos metros dali — Por que não me dá logo o que eu quero?! Tá querendo brigar seu otário?!
Yukari empalideceu, claro que sim, toda essa história de raposas era só uma superstição para atrair turistas…
Atrás da criança estava um monge com uma grande caixa de madeira pendurada às costas que pegou a criança por debaixo dos braços e a ergueu do chão.
—Me solta estúpido ou eu juro que te transformo em lenha para…! — começou a reclamar chutando o ar inutilmente.
—Aquela criança ali está descontrolada. — Sakura-chan comentou — Será que o monge é pai dele? Se bem que eu nunca falaria assim com meu pai…
—Deve ser excesso de açúcar. — Yukari pigarreou — Hã… não devíamos ir? Está ficando mais esc…!
—Ei! Você aí mulher! — Yukari enrijeceu com o chamado.
—Isso foi para alguma de nós? — Kaoru perguntou confusa.
—Acho que n… — tentou dizer.
—É! Estou falando com você: a mulher tediosa de tranças! — o garotinho insistiu, ele havia parado de se debater e, ainda sendo carregado pelo monge, olhava e apontava-a petulantemente — Não finja que não me escutou e venha aqui agora mesmo!
—Mas que garotinho mais atrevido! — Tanaka-senpai exclamou surpreso.
—Shibuya, acho que ele está falando com você. — a representante comentou ironicamente virando-se com uma sobrancelha arqueada.
—Ah… ah sim, acho que sim. — foi forçada a admitir — Talvez tenha me reconhecido da pousada, ele pode ser um dos clientes…
—Ah! — Sakura-chan estalou os dedos — Já sei: ele e a criança que estava comendo açúcar o bastante para colocar alguém em coma diabético no raposa encantada, lembram? O monge também estava lá!
—Mas então isso significa que ele é irmão…! — Kaoru começou a dizer com espanto.
—Muito obrigada por me acompanharem até aqui, mas acho que posso ir o resto do caminho sozinha agora!
Yukari apressou-se a interrompê-la, curvando-se em gratidão e atravessando a rua correndo — sem o menos olhar para os dois lados antes, talvez pela primeira vez na vida — antes que qualquer um deles pudesse impedi-la, tão nervosa que, por um momento, se esqueceu do temor e desconforto que aquele “monge” lhe causava, até que já estivesse bem diante dele.
—Por que você demorou tanto? — Anko exigiu saber cruzando os braços, bastante arrogante para alguém que estava sendo carregado feito uma bolsa de trapos debaixo do braço de outro alguém. — Está ficando surda por acaso?!
Hoje a face inexpressiva do falso monge estava ainda mais desconcertante: Yukari tinha a impressão que se continuasse encarando-o, aquele rosto poderia cair a qualquer momento e revelar apenas uma superfície lisa e sem traços faciais por trás, mas ainda assim não conseguia desviar o olhar.
—Não… eu… eu…
—O que é? Por que está falando como se não tivesse cérebro? — ele reclamou, virando a cabeça como se escutasse algo — Hã? Ah… então a culpa é sua shikigami imbecil, coloque-me no chão agora e dê dez passos para trás! — Sem dizer uma palavra, o servo o obedeceu imediatamente, e o pequeno filhote bufou puxando o capuz com orelhas de gato pra cima da cabeça antes de virar-se para Yukari novamente. — Pronto, ele já está longe o bastante para você?
De jeito nenhum.
—Sim. — Yukari engoliu em seco.
—Ótimo. — o garoto apontou a máquina de vendas com vários amassados de chutes em sua lataria — Essa geringonça aqui está cheia de comida, mas não consigo abri-la para pegar! Faça alguma coisa!
—Isso é porque é uma máquina de vendas. — explicou conseguindo desviar o olhar do sinistro criado para procurar a carteira dentro da bolsa escolar — Você precisa pagar para conseguir pegar algo.
—Pagar? — o menino a olhou como se ela fosse a mais estúpida das criaturas — Meu pai diz que se eu quero algo basta pegar, e quem quiser reclamar pode se entender com ele.
—Seu pai parece alguém… — Yukari pigarreou — muito sensato. Então o que você vai querer?
Ainda parados no mesmo lugar, o grupo do qual ela havia se separado os olhava claramente intrigados, mas como Yukari de fato parecia conhecer aquelas pessoas — ou ao menos o garoto — e as garotas estavam com pressa para ir ver Nishiwake, deixaram por isso mesmo e seguiram seu caminho… mas segunda-feira Shibuya certamente não escaparia das perguntas.
—Todos!
—Eu não tenho dinheiro para tudo isso. — respondeu pacientemente colocando uma nota na máquina e digitando o código. — Por que todos vocês comem tanto afinal?
O garoto bufou contrariado.
—Você não sabe de nada mulher? É porque somos feitos de energia espiritual, essa forma física demanda muita dela, pense na quão faminta você deve ficar se fizer exercícios por uma ou duas horas, mas a comida desse mundo, apesar de gostosa, quase não tem energia alguma! Eu poderia me sustentar melhor comendo insetos, mas eles são nojentos! — fez uma careta de nojo colocando a língua para fora — Pense que é como tentar criar um raio com a energia de uma batata! Mas a aneue diz que se eu sentir muita fome, eu posso comer um pouco da essência vital dos humanos, para algo vocês têm que servir.
—O que?! — Yukari o olhou surpresa, por ele explicar tudo aquilo tão francamente.
—Você é surda mulher?! — ele reclamou.
Ele era uma criança petulante e grosseira, mas se o que dizia era verdade, então Gintsune — que estava na forma física e debilitado do jeito que estava — devia estar faminto!
Yukari precisava alimentá-lo de alguma forma tanto para ajudá-lo a recuperar as forças quanto para evitar restaurantes sendo incendiados pela cidade novamente mais tarde!
—Eu tenho um nome, e é Yukari. — ela comentou entregando a ele três barras de chocolate e milagrosamente conseguindo manter a calma.
O menino pegou os doces e cheirou-os desconfiadamente antes de começar a rasgar com os dentes a embalagem da primeira barra.
—Você é estúpida, é isso o que você é dando seu nome assim tão descuidadamente! — a criticou mordendo o chocolate — E você pode se referir a mim como Anko-dono.
Yukari franziu o cenho, a arrogância era de família pelo visto, mas pelo menos o irmão dele tinha um pouco mais de modos… o irmão dele! Gintsune!
—Você! O que foi que deu ao seu irmão?! — perguntou de repente se agitando — Você precisa me dar o antídoto, ele está mal! Você tem o antídoto, não é?
O garoto afastou-se com um pequeno pulo para trás.
—Está tentando me queimar, idiota? — reclamou jogando a embalagem do primeiro chocolate no chão e rasgando com os dentes a embalagem do segundo — Então quer dizer que aquele otário foi procurar por você depois daquilo? Eu já devia saber, que bebê chorão! — e então enfiando quase metade da barra de chocolate na boca continuou: — Não é para tanto, ele vai ficar bem, foi só um arranhãozinho!
Mas Yukari não estava convencida.
—Talvez a dose tenha sido maior do que você acha, ele realmente…!
—Ora, cala-se! — o garoto reclamou, embora não parecesse estar falando com ela enquanto sacudiu uma mão no ar como se quisesse afastar algo — É claro que ele vai ficar bem, foi só uma dose inofensiva para aquele otário aprender a não mexer comigo! — ele engoliu o resto do chocolate de uma só vez e virou-se para Yukari novamente — Você e o restante daqueles humanos estava indo ver a mulher vazia que o baku está devorando? Deveriam tomar cuidado para não serem os próximos.
—Quem? — Yukari piscou.
Reaproximando-se ele abriu o último chocolate e apontou para trás dela.
—Todos eles entraram nessa rua, que é onde essa mulher que chamou o baku mora, e eu já te vi com ela antes também, mas deveriam tomar cuidado em chegar tão perto: porque quando o Baku a esgotar completamente ele vai procurar um novo hospedeiro. Humanos são mesmo estúpidos. — respondeu e, talvez porque o chocolate o tivesse deixado de bom humor, seguiu falando: — Eu fiquei curioso de porque aqueles dois pareciam tão interessados nessa humana e fui dar uma olhada, a aneue ainda está lá a vigiando inclusive, só que foi decepcionante, eu nunca tinha visto um desses, mas esperava mais, minha mãe já me contou sobre os bakus, disse que eles são youkais geralmente benéficos que ajudam humanos comendo pesadelos e tal, então esperava algo bem maior e mais aterrorizante…
Yukari levou a mão ao peito, sentindo o coração acelerado, Aoi-chan tinha um baku a possuindo e ele estava devorando ela?! E pior ainda, sob a constante vigilância de Momiji! Mas se Gintsune sabia disso, por que não havia mencionado nada? Mesmo assim… ele havia garantido que se deixassem o problema para lá, ele eventualmente apenas desapareceria… certo?
—Mas Aoi vai ficar bem, não é? — perguntou hesitante — Quer dizer, o baku só come pesadelos, então… ele vai embora assim que os pesadelos acabarem, certo?
O garotinho a olhou como se ela fosse estúpida.
—Você não ouviu nada do que eu disse? — ele abriu a terceira barra de chocolate — Aquela mulher já está quase completamente vazia, entendeu? Bakus geralmente são inofensivos, eles comem pesadelos e vão embora, mas também são estúpidos e às vezes, como parece ser o caso agora, os pesadelos são tão deliciosos que eles ficam por mais tempo do que deveriam e comem também os sonhos e esperanças dos humanos azarados até que os tornem em cascas vazias. Era justamente em ocasiões assim que minha mãe se encontrava com bakus, porque as pessoas percebiam o problema e contratavam o mestre dela para se livrar desses bichos… mas ou ninguém se importa com aquela mulher, ou os humanos ficaram ainda mais estúpidos com o tempo, e talvez seja isso que esteja intrigando a aneue: até onde vão os limites da estupidez humana. — deu de ombros — Francamente eu não me importo.
Yukari sentiu seu estômago afundar.
—Mas ela vai ficar bem? — insistiu sem conseguir acreditar.
Gintsune havia dito…
—Acho que essa é uma forma de se dizer. — o garotinho respondeu distraído, pois estava mais interessado em lamber a embalagem da última barra de chocolate — Quer dizer, em breve ela não sentirá mais nada, nem medo, ou raiva, ou tristeza, ou alegria, ou amor… e se você não se sente mal, acho que se pode dizer que está bem, não é?
Então jogando a última embalagem fora, ele levou uma mão ao rosto e desapareceu, e ainda parado a uma distância de dez passos o falso monge vendo aquilo inclinou a cabeça pra ela em um leve comprimento antes de lhe dar as costas e afastar-se, mas Yukari mal reparou nisso enquanto — atordoada por tudo o que ouvira — abaixava-se para recolher as embalagens de chocolate jogadas no chão.
—Yukari, você já está em casa… — sua avó parou o que estava falando e fez uma careta coçando a lateral do rosto — Que estranho…
Yukari arrumou os sapatos próximos à entrada.
—Me desculpe, eu iria direto para a pousada, mas quis passar em casa antes, porém prometo que já…
—Não é nada disso. — a avó interrompeu parando por detrás dela, ainda com a mão no rosto — É só que, minha nossa que estranho, eu acho que há uma ou duas horas eu vim até a casa e então ouvi um barulho realmente alto vindo do andar de cima que parecia vir do seu quarto, eu acho, e estava indo checar para ver se você tinha deixado a janela aberta e algum animal entrado, ou algo caído, mas então… distrai-me com algo, não sei bem o que, e esqueci-me completamente do assunto, não o lembrei até agora a pouco quando te vi. — ela afastou-se em direção à cozinha, resmungando consigo mesma: — Deve ser a idade.
Enquanto isso Yukari precisou se contiver ao máximo para não correr até seu quarto — como já havia corrido praticamente todo o caminho desde a loja de conveniência até ali —, ela precisava falar urgentemente com Gintsune sobre tudo o que o irmãozinho dele dissera.
—Gintsun…! — mas quando abriu a porta do quarto, não viu Gintsune em canto algum, ele havia partido? Não… definitivamente ele ainda estava ali em algum lugar. — Gintsune? — fechando a porta cuidadosamente atrás de si, ela deixou a bolsa escolar sobre a cama desarrumada e começou a tirar o casaco — Você ainda está aqui, não é? Mesmo se não posso vê-lo eu sei que está aqui em algum lugar…
Os lençóis da cama estavam jogados de lado e manchados de sangue, e havia mais sangue seco manchando o chão, ele havia caído da cama? O ferimento abrira novamente? O sangue no chão quase parecia formar um rastro direto para…
—Gintsune? — ela abaixou-se para olhar debaixo da cama.
A leve luminescência dos cabelos prateados de Gintsune o revelou encolhido imóvel próximo à parede com uma mão apoiada sobre a lateral do corpo, ele não pareceu se dar conta da presença dela até que ela estendeu uma mão para tocá-lo.
—Yo Yukari… já de volta tão cedo? — ele sorriu vacilante abrindo os olhos lentamente.
—O que você está fazendo aí embaixo?
—Estou cansado, mas não gosto de dormir em camas… — Os olhos de Gintsune pareciam pesar. — Para descansar um pouco tudo bem, mas para dormir… são molengas demais.
Yukari franziu o cenho e sacudiu-lhe o ombro.
—Saia daí, você vai piorar! — ordenou.
Gemendo, Gintsune começou a arrastar-se para fora, o ferimento havia aberto novamente e o curativo que Yukari fizera estava completamente empapado de sangue.
—Yukari… acho que me enganei mais cedo, esse veneno do fedelho parece mais forte do que eu imaginava. — ele grunhiu sentando-se e recostando-se à cama — Eu estive vendo minha vida passando diante de meus olhos, talvez não me reste muito tempo agora…
—Não diga besteiras! — Yukari o repreendeu ajoelhando-se ao seu lado.
—Mas veja. — ele passou a mão pela testa e mostrou a ela, mas Yukari não viu nada demais. — Eu estou me liquefazendo, vê?
Yukari franziu o cenho e esticou-se para puxar a bolsa de cima da cama.
—Você está delirando de febre, no máximo, mas não está derretendo Gintsune. — retrucou puxando um lenço da bolsa e o pressionando contra a testa dele. — Isso é apenas suor.
—Suor? — ele repetiu como se nunca houvesse ouvido aquela expressão antes — Eu nunca suei em toda a minha vida… estou mal, esse deve mesmo ser o meu fim.
Quando sangue começou a pingar-lhe do nariz e sujar seu tórax, Gintsune lambeu uma pequena parte que escorreu para seus lábios.
—Pare de falar assim, me deixa preocupada! — ela reclamou o fazendo inclinar a cabeça para frente e agora pressionando o lenço contra o nariz dele — Respire pela boca e segure o lenço um pouco.
Ao menos agora ele estava sem febre e mais falante do que antes e, fora a conversa sobre estar morrendo, parecia menos delirante também, então provavelmente estava melhorando… ela esperava.
—Obrigado.
Ele agradeceu com voz nasalada enquanto a assistia procurar por mais alguma coisa dentro da bolsa.
—Você deve estar com fome, eu comprei isso em uma loja de conveniência a caminho de casa. — avisou entregando a ele duas embalagens com sanduíches e bolinhos de arroz.
—Você é incrível Yukari, eu a beijaria agora, mas acho que minha boca ainda está cheia de sangue. — abaixando o lenço, ele estendeu a mão para pegar um sanduíche — O que, nenhum morango hoje?
Havia sanduíches de morango na loja, e Yukari estava aliviada de não ter comprado esses. Ela girou os olhos.
—Pare de dizer besteiras, porque eu estou atrasada para ir trabalhar. — ela deixou a comida em frente a ele e apoiou as mãos sobre os joelhos.
—O que, mas já? — ele reclamou manhoso inclinando-se de lado para deitar a cabeça no ombro dela — Vai me deixar aqui sozinho de novo, ferido e doente?
Uma das mãos dele foi para a cintura dela enquanto ele esfregava o nariz em seu pescoço, Yukari franziu o cenho o afastando.
—Pare com isso antes que suje meu uniforme com sangue. — o repreendeu.
—Ah… que mulher mais cruel com neve no nome e gelo no coração. — Gintsune suspirou dando mais uma mordida no sanduíche.
Ah, ele definitivamente já estava melhor, talvez melhor o bastante para que ela pudesse se irritar verdadeiramente sem sentir o peso da culpa de estar discutindo com um enfermo… ainda não podia acreditar que aquela raposa astuta havia mentido de forma tão descarada para ela! Ela era mesmo uma imbecil!
Tentando não corar lembrando-se da noite passada, Yukari pigarreou.
—Mais importante que isso, eu quero falar sobre Aoi-chan.
Limpando a boca com o mesmo lenço que usara para estancar o sangue no nariz, Gintsune a olhou.
—Sim, o que tem ela? — ele perguntou despreocupado.
Yukari cerrou os punhos.
—Tem certeza que ela vai ficar bem se apenas deixarmos a situação para lá?
Ela estava lhe dando uma última chance…
—É claro que sim. — garantiu-lhe — São apenas alguns pesadelos, apenas deixe para lá e você vai ver como logo não só os pesadelos vão desaparecer, mas também que ela até mesmo vai acreditar que essa memória na verdade foi um sonho distante.
E ele a jogara fora tão casualmente!
—Então está dizendo que ela vai ficar bem, mesmo se o baku devorar todos os sonhos e esperanças dela? — soltou.
Gintsune engasgou-se com os bolinhos de arroz, tossindo violentamente e pressionando o ferimento na lateral do corpo.
—C-como disse? — gaguejou olhando-a com os olhos arregalados.
—Afinal dizer que ela “ficará bem” não é uma mentira completa, certo? Porque se em breve ela não sentirá mais nada, nem medo, ou raiva, ou tristeza, ou alegria, ou amor… então se pode dizer que ela está bem, porque não se sente mal, não é mesmo? — Gintsune a olhou tão chocado que nem pareceu notar quando o nariz voltou a sangrar, Yukari continuou: — A menos, é claro, que sua querida e linda irmã a elimine, certo? Porque não vejo outra razão para Momiji a estar vigiando… e então o que me dirá? Que está tudo bem com Aoi porque ela está em “um lugar melhor agora”?!
Yukari tremia de raiva.
—Não, calma, devagar! Que…? — Deixando a comida de lado, Gintsune inclinou-se em sua direção tentando tocá-la, mas ela afastou sua mão com um gesto deliberado, era melhor ficar quieto ou ela tentaria estapeá-lo e acabaria machucando a mão de novo… — Minha irmã não está planejando… pelo menos eu acho que não, mas como você descobriu…? Quem te contou? Foi aquele fedelho, não foi?! Eu te disse para não se envolver com ele, aquele fedelho é…!
—Pelo visto menos traiçoeiro e perigoso do que você! — ela o acusou — Ao menos Anko-dono não esconde o quanto deprecia e pouco se importa com os humanos enquanto nos ataca com bolas de beisebol mortais e coloca fogo no quartel dos bombeiros!
Colocar fogo em um quartel de bombeiros há! Gintsune não sabia se o fedelho conhecia o suficiente desse mundo para ter feito essa ironia propositalmente, mas ainda era engraçado… o que não iria poupá-lo de uma grande coça quando Gintsune o pegasse! Espera um pouco…!
—Que história é essa de Anko-dono?! — reclamou.
—Anko-dono! Dono! Dono! Dono! — Yukari repetiu freneticamente. — Aoi ficou tão aterrorizada quando viu o monstro que me segue ao ponto de atrair sobre si mesma uma maldição que está devorando toda a essência dela, mas mesmo assim ela tentou me alertar sobre você! E eu… eu… eu ignorei os avisos, porque estava mais preocupada com você, e acreditei em você quando me disse que ficaria tudo bem com ela, tolice minha acreditar em um ser desalmado e egoísta que só se importa consigo mesmo e não dá a mínima para toda a calamidade que causa!
—É claro que sou desalmado e trago calamidade por mera diversão até, essa é minha natureza Yukari! — Gintsune impacientou-se — E sim, também é verdade que pouco me importa o que acontece com Aoi, Kaoru ou qualquer outra amiga sua ou humano desse mundo, porque sou incrivelmente egoísta, mas está muito enganada quando diz que não me importo com mais nada, porque eu me preocupo com você! Importo-me tanto que chega quase a doer! Ora, eu não tentei deter o fedelho de colocar fogo na cidade toda e fui esfaqueado com uma lâmina cheio de veneno simplesmente porque tenho alguma empatia por humanos, longe disso, mas sim porque não queria ver-te preocupada e se metendo em problemas com alguma ideia genial de tentar pará-lo por si mesma como eu sabia que faria em algum momento! E também é por isso que não te contei sobre o baku, porque sabia que você ficaria exatamente assim como está agora!
—Então é melhor apenas deixar sua irmã fulminá-la e depois tentar me convencer que foi um mero acaso da natureza?! — Yukari bateu com o punho fechado no chão.
—O que aquela mulher sabe é um risco para nós, minha irmã não vai matá-la se o baku terminar o serviço!
—E é melhor deixar Aoi se tornar um vegetal?! — Yukari gritou.
—Sim se isso te mantiver em segurança! — Gintsune gritou de volta levando as mãos à cabeça. Ele se deteve por um instante, respirando fundo na tentativa de recobrar a compostura, e então continuou. — Será que não entende que eu só quero a sua segurança?
—De que me adianta a minha segurança se isso custa à segurança dos outros?! — Yukari retrucou hostil, ah, essa problemática empatia humana! — Como vou entender algo se você se recusa a me explicar qualquer coisa e sempre se esquiva?!
—É justamente para protegê-la que não digo nada! Quanto mais você sabe, quanto mais questiona, quanto mais se torna consciente de nós, mais próxima do limiar você está, e é claro que eu não posso permitir que você o cruze e se afogue! E você também sabe disso, eu sei que em um algum grau do seu subconsciente você sabe que não deve se aproximar demais do lado de cá, é por isso que até hoje sempre tentou ignorar e não fazer perguntas demais, mesmo quando sabia que havia algo errado…!
—COMO, POR EXEMPLO, O FURACÃO QUE VOCÊ CAUSOU EM OKINAWA QUANDO ESTAVA FORA DE HIGANBANA?! — Yukari gritou de repente, o calando — Você até trouxe uma lembrancinha, não é? Eu achei o vidro com areia estelar no casaco que você deixou aqui… Gintsune, você é um desastre natural ambulante que arruína tudo por onde passa por mero prazer e então segue em frente sem se importar com mais nada, e apenas acha que se importa comigo porque, no momento, eu sou do seu interesse, mas não duvido que quando esse interesse passar, não olhará para trás antes de me deixar ser devorada por um baku ou fulminada por um dos seus irmãos também! E eu não sei porque em algum momento achei que gostava de uma criatura tão cruel quanto você, apesar do rosto bonito que tem! — e sem fazer ideia de quão profundamente aquelas palavras atingiram seu alvo ela levantou-se — Eu não vou deixar um baku devorar Aoi só porque ela teve o azar de vê-lo!
—Yuk…! — ele tentou detê-la.
—Não me toque! — Ela silvou afastando a mão e, embora não surtissem efeito algum nele, Gintsune viu chocado como as próprias chamas se manifestavam momentaneamente em torno dela para afastar a ameaça… ela… achava que ele era uma ameaça? — Você já está bem o suficiente pelo que estou vendo, então eu vou trabalhar e, quando voltar, não quero te ver aqui… nem em lugar nenhum! Apenas suma da minha vida seu desgraçado!
Finalizou saindo e batendo a porta.
Quase sem acreditar no que acontecera Gintsune pegou de volta o lenço caído no chão para tentar estancar aquele maldito sangramento nasal, Yukari estava diferente, ela não só estava mais inquiridora, como os olhos dela haviam se tornado mais sensíveis ao sobrenatural também, e isso era culpa daquele fedelho que a havia seguido e instigado — longe de Gintsune achar que ele próprio era o culpado também depois de todos aqueles meses estando tão próximo dela, especialmente nos últimos dias, afinal ele já se relacionara com muitos humanos, e nenhum dos quais ele se importava o bastante para tentar protegê-los, mas nenhum deles parecera tão perigosamente próximo do limiar… que ele se lembrasse. —, então agora Gintsune precisava descobrir como arrumar toda a bagunça… depois de fazer o fedelho engolir dois litros de alvejante por ter aquela boca grande, é claro.
*.*.*.*
Geralmente era contra os princípios de Furin separar uma família e tomar uma criança de seus pais, mas… se era para rever seus amados filhotes, ela incitaria Tamaki até mesmo contra o grande mestre dragão que não hesitou em se interpor no caminho deles.
—Mestre Tamaki, eu ofereci minha hospitalidade a você e sua família e, no entanto, é assim que irá me retribuir? E quanto ao juramento que fez pelo nome de sua esposa? Ele não vale de nada?
Tamaki rosnou com a provocação.
—Eu jurei não atacar nem devorar ninguém que morasse sob seu teto, mas isso foi antes da chegada dos onis, não foi? Portanto nenhum deles está incluído na minha promessa. — um dos cantos de sua boca se ergueu em um sorriso de escárnio — Além do mais, não me lembro de ter incluído você em meu juramento… e mesmo se tivesse, há outro juramento, muito mais antigo, que sempre virá primeiro: farei tudo por Furin. — ele rosnou estalando os dedos das mãos — Eu não tenho vontade ou prazer algum de lutar contra você, Mestre Dragão, porque isso só me atrasaria, tudo o que quero é o coração da deusa oni que se esconde atrás dessas portas, mas se insiste em ficar no meu caminho então eu te destruirei!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Entendo… então no fim é assim que vai ser. — Ryosuke suspirou esgotado — Sinto que Kanji nunca mais me deixará em paz depois…
—Se é que haverá algum “depois” para você.
Diante de seus olhos a fera prateada dividiu-se em duas e o atacou por ambos os lados, mas girando Ryosuke permitiu que sua cauda emergisse e chicoteasse uma das manifestações de Tamaki para longe, lançando-a contra a estrutura de pedra do muro, enquanto de suas mãos lançava um rajada de fogo para a manifestação à sua frente, esquivando-se por pouco das garras que lhe atacaram diretamente nos olhos e, em seguida, no pescoço.
Apenas se esquivar e defender não seriam o bastante agora, o diálogo também não era mais uma opção, as raposas haviam sido seus hóspedes, mas agora eram ameaças que precisavam ser eliminadas, erguendo o joelho, Ryosuke acertou Tamaki na altura de seu plexo solar e, quando a raposa curvou-se, acertou-o na altura da nuca com o cotovelo, mas ao invés de desabar com a força do golpe Tamaki tomou impulso e saltou sobre ele, derrubando-o de costas no chão e transmutando-se para a forma animal, atacando-o com garras e presas.
O dragão segurou a mandíbula da raposa com ambas as mãos, mantendo-a aberta e impedindo-o de mordê-lo novamente, mas quando viu a luminosidade de uma bola de fogo crescendo no fundo da garganta de Tamaki, arregalou os olhos e, enroscando a cauda a um dos tornozelos da raposa, o lançou para longe antes que pudesse dispará-la.
Os pelos dos braços de Ryosuke se eriçaram e ele girou a cabeça para a direção oposta à que lançara Tamaki um milésimo de segundo antes de uma descarga elétrica explodir sobre ele.
Uma risada tilintou no breve silêncio que se fez.
—Que cruel você é mestre dragão. — a raposa feiticeira comentou de pé a alguns metros dele com um sorriso zombeteiro. — Tudo o que queremos é recuperar nossos filhos, então por que se opõe a nós?
O dragão rosnou com fumaça escapando por entre os caninos.
Se Ryosuke não tivesse se transformado a tempo e se protegido com suas escamas, aquilo poderia ter lhe causado danos graves.
Raspando com as garras no chão de concreto o dragão avançou contra a raposa feiticeira que sorriu com sua aproximação… e de repente a segunda raposa caiu sobre ele com todo o peso e extensão de sua verdadeira forma enquanto fechava as mandíbulas em torno de seu pescoço, Ryosuke contorceu-se enroscando seu corpo ao de Tamaki como uma serpente e soprando jatos de fogo nele, mas a fera continuava cravando as garras e presas nele, rasgando suas escamas e a carne abaixo dela.
Mas a força do esmagamento começou a ser demais para a raposa e ele emitiu uma mistura de rosnado e ganido quando o aperto de suas poderosas presas no pescoço do dragão começou a fraquejar… quando ambos receberam uma nova e poderosa descarga elétrica que os lançou em direções opostas.
Ryosuke sacudiu a cabeça colocando-se de pé sentindo os músculos rígidos enquanto sangue fumegante caía de seus ferimentos, e pensou, por um instante, que estava com visão múltipla, pois onde antes havia somente uma raposa feiticeira agora estavam cinco delas, cada uma puxando algo da manga enquanto ria dele… e então Tamaki entrou em sua linha de visão novamente, mancando de uma perna, com um olho dilacerado, com sangue escorrendo de sua boca e várias partes de seu pelo queimadas e fumegando ele não parecia em melhores condições que o dragão.
Aparentemente enquanto Tamaki estava evitando usar fogo contra Ryosuke — fosse porque sabia que seria inútil contra o dragão ou porque a esposa estava perto demais para se certificar que ela não seria atingida — Furin não se importava de lançar quantas descargas elétricas fossem, independente de seu marido estar ou não na linha de frente.
Mas um fato era certo: enquanto Ryosuke se sentia perfeitamente capaz de derrotar Tamaki em uma luta um contra um, o verdadeiro problema era a traiçoeira feiticeira por detrás dele, se o dragão conseguisse alcançá-la e neutralizá-la a batalha estaria encerrada.
Quando Tamaki avançou correndo para um novo ataque, Ryosuke cuspiu-lhe uma nova onda de fogo que o cegou temporariamente e disparou para o alto disposto a fazer um ataque de cima, dali ele viu como Furin e suas cópias haviam se espalhado pelo pátio, cada uma delas carregando o que parecia ser um pincel enquanto pareciam dançar, traçando rastros de luz verde ao seu redor, ele não conseguia identificar qual era a verdadeira, mas se cuspisse fogo dali poderia queimar todas juntas… só que isso poderia fazer o castelo arder junto e ele gostaria de evitar esse cenário, pois havia muitos ali que precisava proteger.
Por isso teria que recorrer a outro método e, sem tirar os olhos das raposas ele observou a quantidade de seu sangue e escamas caídos no pátio e começou a recitar um de seus encantamentos, mas então Tamaki partiu ao seu encalço e ambos voaram entre as nuvens trocando golpes com a raposa sempre mirando sua garganta e olhos com as presas enquanto Ryosuke tentava continuar o encantamento a qualquer custo… os dois se enroscaram no ar e Ryosuke cravava as garras no peito da raposa tão fundo que quase lhe tocou o coração pulsante, se o arrancasse naquele instante…!
Um grito angustiado cortou o ar, Furin, abaixo deles havia sido engolida pelas chamas quando inesperadamente o sangue do dragão no pátio explodiu, ela girou arrancando as roupas e clamou por Tamaki e o marido ao perceber isso entrou em um estado de tamanha fúria e irracionalidade que se libertou do dragão arrancando-lhe uma das patas e escapando de volta para junto dela sem perceber que deixara seu coração pulsante nas garras restantes do dragão.
Ferido e com a visão turva, Ryosuke observou como Tamaki retornava à forma humana e abraçava-se à esposa que gritava palavras desconexas, tentando sufocar as chamas que a consumiam e, ao mesmo tempo, protegê-la das explosões à sua volta, pois cada escama deixada pelo dragão havia se tornado um explosivo, enquanto a mulher gritava em agonia, e todas as suas cópias eram destruídas… ele realmente não gostaria de fazer aquilo, no entanto… seu olhar desviou-se para o coração ainda pulsante em suas garras, tudo o que tinha que fazer era esmagá-lo.
De repente o dragão foi cegado por uma luz branca que fez seu corpo convulsionar, raios o atingiriam simultaneamente do céu e da terra e Tamaki — cujo coração ele ainda carregava — gritou em conjunto, não foi a mais forte das descargas, porém de alguma forma o dragão se viu imobilizado, oprimido e forçado a voltar à sua forma humana, os olhos giraram para dentro das órbitas e ele abriu a boca caindo de volta ao solo como um meteorito.
Não devem ter se passado mais do que dois segundos, mas quando recuperou a consciência viu-se com seus movimentos completamente restringidos no centro de uma cratera, enquanto símbolos verdes dançavam ao seu redor.
Furin apareceu de pé na borda da cratera, as roupas estavam queimadas em várias partes e um filete de sangue escorria por sua boca.
—Isso foi perigoso, eu não percebi que você tinha arrancado o coração de meu amado Tamaki. — ela reclamou abaixando-se para pegar algo: o coração. — Não sabe que só eu tenho o direito de segurá-lo e roubá-lo? Sorte a sua que eu não pude me concentrar no alvo, ou a descarga teria sido muito mais forte. — ela fez uma pausa, limpando a poeira do coração com as costas da mão e beijando-o carinhosamente antes de voltar seu olhar mortalmente sério ao dragão novamente — Se perco meu Tamaki, a morte lhe seria apenas um conforto distante depois de tudo o que eu faria a você e aos seus, mestre dragão.
Beijando novamente o coração, Furin começou a cantarolar o que parecia um cântico antigo, que fez com que os símbolos verdes em volta do dragão começassem a girar rapidamente e só então Ryosuke entendeu: mesmo enquanto queimava viva, em nenhum momento os gritos da feiticeira foram palavras desconexas, eram um antigo encantamento, ela pretendia…!
—Não! — gritou.
E a escuridão engoliu-o.
O dragão fora selado.
—Esse bastardo a machucou. — Tamaki rosnou a amparando quando Furin tossiu sangue.
—Eu estou bem. — ela garantiu sorrindo com os lábios sujos de sangue — Afinal ele era só uma distração. — o relembrou empurrando-lhe com um só golpe o coração de volta na cavidade vazia de seu peito, fazendo Tamaki grunhir — Se realmente quisermos a prova de amor divino, é melhor nos apressarmos para alcançá-la.
Concluiu o beijando.
Quando Tennyo Hikari viu os raios que derrubaram o dragão do céu, ela soube que o futuro que previra havia se concretizado e, fechando os olhos, puxou as cortinas e se recolheu de volta para o interior de sua carruagem, o tempo que Ryosuke havia conseguido para eles havia se esgotado e agora as raposas viriam atrás dela e de seu poder divino.
Sendo sacudida e jogada de um lado para o outro na carruagem ela conseguia ouvir os gritos do pai do lado de fora para que abrissem caminho, assim como a marcha dos onis e as árvores que eram derrubadas em sua fuga, pois Hikari fora bem clara a respeito da visão que a atingira no momento em que a raposa negra despertou: as raposas viriam atrás dela e não havia quaisquer chances de vitórias para eles… não era da natureza dos onis fugirem daquela forma, mesmo em uma batalha cuja chance de vitória era nula um oni ainda ficaria e lutaria até a morte… pois eles abririam mão da própria vida pela batalha de bom grado, mas não da vida de sua deusa.
Eles apenas não conseguiam aceitar que fugir também era inútil, pois em nenhum momento Hikari conseguiu enxergar um futuro onde não eram emboscados pelas raposas.
É claro que ela seria mais veloz se simplesmente saísse voando, mas o pai não permitiria, pois sozinha ela era um alvo fácil, ele alegava, mas enquanto eles estivessem ao lado dela, todos seriam alvos…!
—Mãe, dê-me forças. — rezou baixinho com os olhos fechados.
Estática e o cheio de ozônio encheram o ar, a jovem deusa oni abriu a boca alarmada…!
A grande explosão quase a cegou, embora a luz nunca antes houvesse sido capaz de incomodar Hikari, afinal ela era a luz, e por vários segundos não conseguiu ouvir nada à sua volta exceto aquele zumbido ensurdecedor em seus ouvidos.
Estava jogada de bruços na neve com pedaços de sua carruagem viva espalhados aqui e ali, tentou erguer a cabeça, mas tudo girava… e a poucos metros dela uma figura escura se aproximava, ela estava falando algo, mas Hikari não conseguia entendê-la…
—… pobrezinha… serei rápida… meus filhotes…
De repente o chão se sacudiu quando o pai de Hikari se colocou entre elas.
—Para trás! — urrou.
Inclinando a cabeça vulpina de lado Furin piscou e sentou-se na neve.
—Teremos que passar por isso de novo então? — sorriu quase amigavelmente — Que seja então!
Declarou sem sequer parecer se dar conta de que por trás dela um segundo oni abria os poderosos braços pronto para capturá-la e esmagá-la em um abraço mortal, mas mais rápido do que os olhos podiam ver, de repente o oni estava sem braços, fazendo com que o sangue jorrasse de ambos os lados de seu tórax e a criatura gritasse girando e caindo na neve quando sua perna também desapareceu.
À esquerda deles Tamaki estava de pé agora em sua forma humana, segurando os membros decepados do oni enquanto devorava vorazmente um dos braços que arrancara.
—Antes nós só queríamos o coração da deusazinha, mas certamente vocês vão me perdoar por isso. — Furin disse com uma risadinha — Mas meu querido Tamaki passou por uma batalha muito dura agora a pouco, então se vocês realmente pretendem lutar ele precisa se alimentar também, claro que tudo isso poderia ser evitado se simplesmente nos entregassem…
Os onis não a deixaram terminar, urrando eles ergueram os punhos e arrancaram árvores e pedregulhos próximos para usar contra as raposas e, diante dos olhos horrorizados de Hikari, o massacre se iniciou.
Segurando os chifres de um oni com ambas as mãos, Tamaki deu um sorriso ensandecido quando chutou a criatura no peito e arrancou-lhe a cabeça antes de jogá-la para longe e atravessar um punho flamejante no estômago do oni mais próximo e chutar para longe o pai de Hikari que tentou atacá-lo por trás.
—Parem…! — Hikari tentou dizer-lhes, mas em meio à carnificina ninguém poderia ouvi-la.
Muitos onis já haviam morrido para protegê-la e ela nunca se importara com isso antes, era uma escolha deles afinal, mas jamais havia visto um futuro em que alguma criatura de fato mataria seu pai e alcançaria…!
Rindo Furin agarrou os cabelos de Ryota e cravou um punhal em seu ombro direito antes de se afastar voando enquanto o oni grunhia irritado arrancando a arma de sua carne para arremessá-la contra a feiticeira, era um ferimento tão insignificante que não devia sequer ter-lhe feito cócegas, mas de alguma forma a dor de ter a lâmina arrancada colocou a o poderoso oni vermelho de joelhos na neve.
—Que diabos…! — grunhiu sem conseguir se levantar, por mais esforço que fizesse.
No ombro onde o punhal se fincara um selo brilhava com luz verde.
Chutando-o por trás, Furin o derrubou de cara na neve e montou em suas costas, puxando-lhe a cabeça pelos cabelos e forçando-o a expor o pescoço enquanto aproximava o mesmo punhal de antes de sua jugular.
—Não! — Hikari gritou.
Por vários segundos a luz cegou a todos.
O vento frio ardeu em seus olhos quando Hikari ganhou os céus, mais rápido! Mais rápido! Ela precisava fugir para o mais longe possível, se conseguisse fazer com que eles o perseguissem para longe o bastante, talvez seu pai pudesse sobreviver…!
—Não tão rápido! — uma voz animalesca rosnou assustadoramente perto dela.
Suas asas foram agarradas em pleno ar e um pé empurrou contra suas omoplatas, a dor lacerante rasgou suas costas antes que Hikari pudesse gritar, e então ele a soltou para cair de volta a terra em um turbilhão de negro e carmesim.
A neve á sua volta agora era carmesim, com as penas cinzentas de suas asas espalhadas à sua volta, Hikari teve um de seus braços agarrados e foi puxada bruscamente para cima, ficando cara a cara com os cruéis olhos cinzentos da raposa.
—Será rápido. — prometeu com as garras em riste apontadas para o coração dela.
Mas então a voz suave de Furin inesperadamente o deteve:
—Tamaki, espere.
Furin agachou-se ao lado do agonizante Ryota que, cuspindo sangue e tremendo, ainda tentava com todas as forças se reerguer.
—Eu não… não vou permitir que você…! Minha filha…! Gah!
Grunhiu tossindo mais um jorro de sangue quando a feiticeira pressionou a marca do selo em seu ombro, afundando a garra em sua carne rígida e enviando correntes elétricas por todo seu corpo, o derrubando de volta no chão.
—O que é isso em volta do seu pescoço? — ela perguntou em um tom calmo e, quando Ryota não a respondeu de imediato, cravou mais duas garras ali e as torceu, aumentando a intensidade da corrente elétrica e o fazendo gritar — Eu estou um pouco curiosa.
—Essas são… as penas da asa da mãe de Hikari. — Ryota grunhiu por entre os dentes.
—A mãe da deusa oni — o olhar da feiticeira raposa vagou lentamente até a meio tennyo — Então você quer dizer que são as penas de uma tennyo, um ser divino?
—É, isso… o que estou dizendo…
Ryota tentou estender um braço em direção à besta que ainda detinha a vida de sua única filha nas garras, mas urrou quando uma nova corrente de eletricidade o atravessou novamente.
—Você deveria tomar cuidado, só porque resisti a alguns raios meus com algumas poucas cicatrizes, não quer dizer que eu não possa te explodir em mil pedacinhos com uma descarga um pouquinho mais forte… afinal o que você faria se eu cravasse minhas unhas diretamente em seu cérebro ou coração e o eletrificasse? — ela falou com um tom que parecia genuinamente preocupado, usando a mão livre para cobrir os lábios. — Mas voltando ao que importa como foi que conseguiu essas penas divinas caro Ryota? Estou realmente curiosa sobre esse assunto.
Aquelas malditas raposas!
—Eu amei a mãe de Hikari e ela a mim… — começou a falar com dificuldade por todo ódio e dor que sentia — Mas quando os céus a chamaram de volta, não houve nada que pudéssemos fazer a respeito, e eu entreguei-lhe uma das minhas presas para que nunca se esquecesse…
—E que tal se rebelarem contra os deuses? — Tamaki o interrompeu — Ainda que fossem mortos e destruídos no processo, ainda seria melhor do que uma existência condenados a nunca mais se reencontrarem.
Mas Furin voltou a acalmá-lo, fazendo um gesto com o indicador sobre os lábios sinalizando para que ele ficasse em silêncio.
—Quieto agora Tamaki. — pediu suavemente — Eu ainda tenho muita curiosidade sobre o restante da história afinal… e então Ryota, o que aconteceu depois?
—Hikari chegou até mim alguns meses depois, em um cesto de vime trazendo consigo as penas da mãe dela. Eu a encontrei no mesmo lago onde nos conhecemos.
—Oh, isso é tão lindo e triste! Então, em outras palavras, essas lindas e alvas penas penduradas em seu pescoço são uma prova de amor que um ser divino lhe regalou, certo? — ela lançou um sorriso brilhante ao marido enquanto arrancava as garras que estavam fincadas na carne do oni, o fazendo grunhir novamente — Você entende não é querido? Uma prova de amor divino! — Tamaki arqueou as sobrancelhas lançando um olhar ao oni moribundo e então apoiando os cotovelos sobre os joelhos e o rosto entre as mãos, Furin voltou a usar um tom dócil para se dirigir a Ryota: — Tenho certeza que isso é um tesouro muito valioso seu afinal é a única lembrança de sua amada, não é? E seria muito doloroso desfazer-se delas para sempre… — piscou cheia de inocência e piedade — mas provavelmente seria muito mais doloroso que nós tivéssemos que matar sua filha bem diante de seus olhos, não é?
—Peguem… — Ryota respondeu quase sem forças — Apenas deixem… deixem minha filha em paz seus malditos…
—Oh, que sábia escolha! — Furin bateu palmas, rindo alegremente — Não que você tivesse alguma, é claro!
Assentindo Tamaki deixou a jovem deusa oni para trás e aproximou-se estendendo a mão para arrebentar e arrancar o colar de Ryota com um puxão.
—Uma imaculada prova de amor divino! — exclamou exultante erguendo as plumas brancas à altura dos olhos, embora elas pudessem estar um pouco manchadas com o sangue do oni agora.
Emocionada, Furin levou ambas as mãos ao peito, finalmente ela tinha tudo e em breve poderia rever seus amados filhotes!
E então… Tamaki os faria sentir a verdadeira dor por terem dilacerado o coração de sua linda mãe.
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