A Lenda De Um Imprinting.
19 Capitulo 19 - Visões.
Notas iniciais
O medo se alojou de meus olhos quando as palavras dos anciões esmurraram-me a face. E então eu compreendi, junto ao meu medo que todas as histórias que quando menino ouvia meu pai contar, haviam algo oculto. Algo que estava além do compreendimento de meu povo e que por algum motivo cabia somente ao alpha compreender. E os guardiões, os guerreiros que eu tanto venerava escondiam algo a mais do que uma magia passada por sangue cedida dos deuses. E era como se tudo que conheciam, de alguma forma estivesse sendo passada para mim. Como se a dor que eles carregaram para o tumulo fosse grande demais para levar após a vida. Eles queriam me mostrar o que antes parecia desconhecido e cabia a mim descobrir os verdadeiros segredos que eles carregaram para o túmulo.
Meus lobos ainda estavam sentados sobre a areia, distantes demais para conseguirem ver o medo sombrio que assombrava meu rosto. Excluídos, de histórias que naquele momento pareciam tenebrosas. O desconhecido vinha até a mim, e eu não sabia se queria o enxergar com meus próprios olhos. Mas cabia somente a mim desvendar e aquela era a missão que eu esperei por tantos anos.
"Abra o seu coração se quiser enxergar"
"Um guerreiro de verdade não sente medo, ele detêm o medo".
Aquelas vozes que agora pareciam mais familiarizadas do que o normal vieram ao meu ouvido junto com um vento frio que fez minha pele arrepiar. Mas as palavras que realmente me colocaram medo, não vieram junto com o vento que por um momento me arrepiou. Essas palavras, as que tinham um ponto de obscuridade vieram dos lábios do Velho Ateara, e essas sim fizeram com que toda a minha estrutura vibrasse enquanto eram soadas.
– Você foi o escolhido, Jacob Black, alpha dos quileutes. – Sr. Quil Ateara pronunciou as palavras. Seus olhos estampavam escuridão. – Então quebre a maldição que foi rogada em seu povo. Nos liberte, para que possa se libertar também. – Ele se levantou do tronco de madeira apodrecido pelo tempo e sem cerimonias, guiou suas pernas e partiu.
– Eu velarei com os guardiões por você. – Sue tocou minha mão e pude sentir a frieza das suas. As rugas estampando sua idade e também seus medos. – Você não tem muito tempo. – E ela também partiu, seguindo os passos do Velho Ateara.
Eu fiquei hipnotizado por alguns segundos pelas palavras que me foram pronunciadas. Fiquei ali parado ao tempo quando na verdade não tinha tempo para poder me dar ao luxo de ficar ali parado. Foi o que Sue falou. Que eu não tinha muito tempo e naquele momento eu fiquei parado porque não sabia o que fazer. Eu deveria, mas minha mente tentava a todo custo absorver aquela conversa.
– Jacob? Você está bem? – Leah estava a minha frente, junto aos outros.
– O que o Velho Ateara queria com você? E por que não nos chamou? – Sam perguntou curioso, sentindo-se deslocado.
– Vocês não podiam ouvir. – Falei sentindo dor por eles. – Estão acontecendo coisas que eu não posso explicar, mas que nós, juntos teremos que solucionar.
– É sobre os Cullens? – Paul perguntou.
– Eu não sei, mas creio que eles também estejam envolvidos.
– Vai ter briga? – Jared perguntou um tanto animado.
– Acho que a batalha que nós tanto esperávamos acabou de começar. – O respondi.
– E quem enfrentaremos? – Quil perguntou.
– O desconhecido. – Falei olhando-os com receio.
– Como assim o desconhecido? – Leah se exaltou, sua sobrancelha enrugada pela dúvida.
– Eu terei que partir em breve e não sei por quanto tempo irei ficar fora. Eu não queria ir, mas só cabe a mim encontrar aqueles que estarão dispostos a nos ajudar.
– Irá partir para onde? – Embry me olhou sem entender.
– Irei para o Oeste do Canadá. Irei tentar encontrar os irmãos que por alguma razão foram arrancados de nossas terras. Eu irei em busca dos Filhos da Lua e não sei até onde o destino irá me levar.
– Filhos da Lua? – Seth perguntou olhando para a areia que se untava em seus pés.
– Irei fazer uma reunião ao cair da noite. Contarei para vocês tudo o que até agora me foi passado, contarei tudo o que, por anos, eu escondi de vocês. E sim, falarei sobre os filhos da Lua. – Respirei fundo sentindo o cansaço me abater. – Preciso que descansem agora. Nos encontraremos mais tarde. – Levantei, despedindo-me deles e sentindo-me sufocado, peguei o caminho para casa.
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O crepúsculo manchava o céu em tons de laranja quando eu abri meus olhos. Deitado sobre a cama eu pensei em como contaria para meus lobos sobre tudo que estava acontecendo de oculto em torno de nós. Argumentei fatos e falas em minha cabeça, mas sabia que, para contar-lhes tudo que até para mim era novidade eu não precisava ensaiar, pois as palavras não sairiam como eu planejava e nem tão pouco amenizariam a tensão que todos sentiam. Ainda deitado, eu pensei na viagem que teria que fazer. Pensei em como eu, com toda essa tensão sobre o desconhecido iria deixar meu povo só. Quando parti pela primeira vez rumo a algum lugar que me transpassasse paz, eu não tinha vínculos. Não havia nada que me prendesse a La Push a não ser um povo que eu deveria defender; o meu povo. Mas agora haviam pessoas que eu não poderia deixar para trás. Havia muito mais do que um povo para defender. Havia minha matilha, minha família e Renesmee.
Meu peito ardeu ao pensar em sua face iluminada pela lua. Queimou e doeu só em pensar em deixa-la para trás. E percebi que morreria se o fizesse. Morreria de amor, isto que destrói os homens, ao abandoná-la. Quis vê-la mais uma vez, quis tocá-la e beijar os lábios que por décadas eu esperei, porém não poderia naquele momento. Pois já havia um encontro com a minha família.
Levantei-me sentindo o peso agonizante de não poder vê-la naquele instante. Me senti sufocado e em meus pulmões já não havia mais ar. E aquela sensação dolorosa de sufocamento fez-me perceber que nunca poderia partir, mesmo que devesse. Mesmo que partir naquele momento fosse minha obrigação. Eu não poderia fazê-la pois os laços invisíveis, os cabos de aços que me ligavam a Renesmee, nos juntava, nos unia, nos unificava a cada dia mais.
Peguei minha moto e sai em direção a praia sentindo a brisa fresca da noite bater ao encontro do meu rosto. Quando cheguei novamente a praia, minha matilha já se encontrava lá. Vendo-os ainda distantes poderia dizer que eles haviam permanecido na praia desde cedo e que ao menos haviam ido para as suas casas. Paul e Sam andavam de um lado para o outro deixando um buraco no chão de areia, enquanto Leah olhava-os com tanta impaciência que se eu demorasse mais alguns segundos seu lobo iria eclodir sobre a terra. Embry olhava para o mar como se estivesse se desligando do mundo e de todo o alvoroço. Quil, com um pequeno graveto nas mãos rabiscava desenhos abstratos sobre a areia. Jared e Seth, estavam sentados nos troncos apodrecidos que mais cedo eu junto com o Sr. Ateara e Sue estávamos sentados. A tensão estava clara sobre os ombros de cada um, pesada e dolorosa como o aperto que comprimia o meu coração. Eles temiam, assim como eu, e eu não consegui deixar de ver isso nos rostos de cada um.
Aproximei-me, deixando a moto na beira da estrada e guiando os meus pés que se afundavam na areia fofa. A cada nova investida que meus pés davam, almejando os meus lobos, eu sentia meu corpo se fragmentando. E era se eu já tivesse os deixando. Como se aquela aproximação fosse um adeus. Minha cabeça doeu. Meu corpo reagiu. Não saberia por quanto tempo eu teria que me manter afastado, não sabia por quanto tempo eu ficaria ausente e os deixaria sozinhos. Eu só sabia que, desta vez, uma parte de mim ficaria para trás.
– Até que enfim você chegou. – Paul falou com impaciência.
– Desculpem a demora. – Eu pedi.
– Jacob, todos nós já não aguentamos mais. Conte para nós tudo o que está acontecendo. Queremos saber a verdade. Já não aguentamos esperar mais.– Sam falou, sua irá manchando seus olhos de escuridão.
– Eu contarei. – Falei olhando para as minhas mãos.
Senti-me pressionado naquele momento. Minha garganta secou e eu tive que engolir o nó amargo, descendo-o pela garganta. Meu estomago queimou e eu senti a queimação me invadir de dentro para fora. Achei por um momento, enquanto ainda olhava para as minhas mãos que meu lobo se explodiria e que eu não precisaria pronunciar nenhuma palavra, pois todos leriam os pensamentos que por muito custo eu tentei esconder. Mas, ao visualizar minhas mãos, a voz familiar e envelhecida dos guardiões veio em minha mente como um pensamento.
...
“As respostas vem com o tempo grande guerreiro, não fique parado questionando-se, pois assim, elas nunca chegarão.”
“Você não tem só mãos, lembre-se disso.”
“As respostas que procura irão aparecer quando você aceitar o que eres."
– Eu sou o lobo. – Pronunciei para eu mesmo, sentindo o entorpecer. – Eu sou o alpha. O guerreiro, Jacob Black.
Pronunciei aquelas palavras com intonação. Esquecendo-me de toda a minha matilha que olhava-me sem compreender. E um clarão tomou meus pensamentos e meus olhos. Eu vi a neve. Pude sentir minhas patas tocarem o gelo e meus pelos se ouriçarem pelo frio. Pude ver casas de madeiras construídas a mão, muito parecidas com as casas de madeira de La Push e compreendi que somente um quileute poderia a construir de tal jeito. Vi a fumaça cinzenta da fogueira recém apagada. Vi pessoas. Mulheres, homens e crianças. Eu vi meu povo que o passado afastou, vi meus irmãos e a noite luminosa de lua cheia que os fazia se transformar em monstros. Eu tive a visão. Meus guardiões me mostraram o caminho. E eu agora, sabia para onde deveria ir.
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