A Lenda De Um Imprinting.
20 Capitulo 20 - Filhos da Lua - parte I
Notas iniciais
Olhei para os sete pares de olhos negros que estavam a minha frente. Levando minha visão para cima e para baixo conforme as dimensões de seus tamanhos. Olhei bem fundo, como se tentasse olhar através de cada um e para que cada um conseguisse enxergar o meu interior.
Pisava na areia com firmeza buscando as palavras que me guiariam na longa explicação que teria que vos dar. Respirei fundo sentido um leve temor no coração. Eu teria que partir, eu os deixaria sem ao menos saber qual tipo de perigo eles correriam e esse tipo de pensamento arrancava-me qualquer outro pensamento pressuposto que eu poderia ter. O céu escurecia sobre minhas costas elevado ao infinito. Eu ouvia, mas do que minhas próprias palavras silenciosas as ondas se quebrando sobre a areia e pude vê-la, mesmo sem olhá-la diretamente se transformar-se em espuma a cada nova entrega a areia. E imaginei que aquilo éramos nós, uma transformação. Que meus lobos e eu, assim como o mar se transformava em espuma a cada entrega. Fazíamos parte da mesma natureza. O mar entregava-se as areias de La Push enquanto eu me entregava junto aos meus lobos ao meu povo. Aquela era a entrega. E mesmo que indiretamente o mar, a areia e nós, os transformos estávamos interligados, sempre nos entregando. A única diferença era que o mar já sabia o caminho que deveria trilhar até as areias de La Push enquanto eu e meus lobos, ainda buscávamos a nossa trilha, a nossa entrega para se transformar.
– Hoje eu irei contar a vocês partes de uma história que eu tentei esquecer por muitos anos. Partes de mim que eu queria que estivessem mortas, coisas que eu não deixo meus pensamentos revelarem e que eu proíbo minhas palavras a virarem vozes.
Eu falava com dor já conseguindo visualizar as cenas de anos tomarem vidas novamente. Meus pensamentos eram manchados com a cor do sofrimento e aquilo doía tanto e tão profundamente que então percebi o porque de tê-los escondidos por tanto tempo até mesmo de mim. Não eram cenas que eu gostava de recordar. Não havia orgulho em meu semblante ao vê-las passando por minha cabeça, não havia nada de bom naquela época para ser recordado. Nada que um bom cheiro da manhã transforme em nostalgia.
– No final da década 20 e no começo da década 30 todo o país enfrentava não só a sua crise como também a sua guerra. Foram anos manchados de sombras que também afetaram nosso povo. Enquanto todo um país estava vivenciando a sua Depressão economica, nós quileutes enfrentávamos e vivenciávamos os nossos piores tempos enfrentando os nossos inimigos. – Pausei por um momento, puxando ar em meus pulmões e continuei. – A quantidade de vampiros aumentou neste período de forma alarmante. Minha antiga matilha e eu tentávamos a todo o custo manter a quantidade de vampiros baixa, mas ao invés dos números de sanguessugas diminuir, ele apenas aumentava. Quileutes jovens se transformavam sem ao menos ter estrutura suficiente para aguentar a fera que existia dentro de si mesmo. E em poucos meses eu vi uma pequena matilha de 6 se triplicar. Eu não tinha tempo para lutar e ensinar-lhes tudo o que deveriam saber e sinto por não ter me esforçado mais. – Meus olhos cintilavam. – No começo apenas exterminávamos os vampiros que ousassem a entrar em nosso solo, depois com a quantidade aumentando, tivemos que também vigiar as ruas de Forks e partes de Seattle e Port Angeles. Uma área grande demais. – Analisei. – Ficávamos todos 24 horas por dia na ronda e tínhamos pausas intercaladas apenas para nossas necessidades.
– Meu deus! – Jared exclamou espantado.
– O cheiro horripilante dos sanguessugas não saia de nossos pelos e tínhamos que conviver com o cheiro, mas isso foi o de menos, pois o pior veio depois. – As chamas da fogueira feita com troncos de madeiras incandenciavam os meus olhos. – Com as mortes, chamamos a atenção de mais vampiros revoltados e quase nos deixamos ser descobertos pelos humanos.
– Os humanos quase nos descobriram? – Leah enfatizou com medo.
– Sim Leah, mas não chamamos a atenção deles suficiente porque todos estavam se preocupando mais com seus bolsos do que com as coisas sobrenaturais que aconteciam na cidade. – Relatei. – Nós revoltamos os nossos inimigos e os mesmos nos atingiram com um exército de Recém-Criados. Vampiros criados para nos destruir.
– Você sabe quem comandava o exercito? – Sam perguntou.
– Não, nunca soube o nome do vampiro que destruiu toda a nossa tribo. Por um tempo eu pensei nos Volturi, pois já tinha conhecimento sobre eles naquela época, mas nunca consegui desvendar nada. Foram dias intermináveis de escuridão onde, ao longe, eu conseguia ouvir os gritos de horror de nosso povo. Se uma palavra descrevesse nosso povo naquela época era Sangue. – Uma lágrima rolou de meus olhos. – Havia sangue por todos os lados e mesmo que minha matilha e eu tentássemos salvar a maioria eles atacavam os mais fracos antes mesmo de conseguirmos nos aproximar. Homens, mulheres e crianças foram mortos bem sobre os meus olhos e eu nada conseguia fazer. O sangue inocente de cada um deles escorria sobre minhas patas enquanto eu atacava os inimigos, levando-os para a morte que eu queria ter. Eu fracassei com todos. Primeiro com meu povo e depois com Bill Cody. – Respirei fundo após pronunciar o seu nome e enxuguei as lágrimas descontroladas de meu rosto enquanto tentava normalizar minha respiração. Meus lobos estavam quietos. Sofrendo junto a mim com a história que para eles eram lendas que foram passadas de geração a geração, sendo modificada ao longo dos anos.
– Jacob. – Leah me chamou. – Por que você se culpa tanto pela morte de Bill Cody? – Ela perguntou. – Eu escutava seus pensamentos vagarosamente e mesmo que você tentasse não pensar a imagem de Bill Cody estava sempre em seus pensamentos como se o assombrasse. – Ela concluiu.
– Porque a nossa maldição o levou para a morte antes que eu pudesse o salvar. Ele era apenas um menino como Seth e morreu por amor. Naquela idade ele deveria estar descobrindo o amor, mas ao invés disso, ele já estava morrendo, beijando a morte. – Falei sem olhá-los.
Meus olhos estavam direcionados ao fogo que lambia a lenha e naquele instante eu sentia-me envolvido pelo fogo como a lenha da fogueira, em chamas.
– Eu havia dito a ele que protegeria Savana, seu imprinting, mas precisei me afastar dela para salvar uma mãe com seu bebê e os sanguessugas a avistaram. Eu a deixei quando deveria tê-la protegido e não o ajudei quando ele também precisou de socorro.
– E é por isso que se sente culpado? Porque a deixou para salvar outras vidas? – Quil perguntou. – Você não deveria se culpar Jake, você não poderia salvar a todos.
– Ele era um irmão para mim antes de ser um irmão lobo. Eu havia prometido a ele que a protegeria, mas não cumpri e eu me culpo por não ter conseguido salvá-lo. Me culpo porque ele é um exemplo de como o imprinting é forte o suficiente para levá-lo a morte.
– Você faria o mesmo por Renesmee. – Jared falou. – Assim como eu faria o mesmo por kim.
– Todos nós nos sacrificaríamos se fosse preciso, Jacob. – Paul falou cabisbaixo. – Não teria mais motivos para viver sem a escolhida.
Assenti as palavras de meus lobos e compreendi que eles diziam a verdade. Eu morreria por Renesmee. Entregaria minha vida para a morte para vê-la a salvo. E era verdade. Todo o imprinting requeria sacrifícios e Cody havia se sacrificado por Savana. Mas a culpa ainda estava em minhas costas, em minhas lembranças e arrancar aquilo de mim era o mais difícil.
– Jacob, me desculpe, mas... Onde os Filhos da Lua ficam nesta história? – Sam perguntou.
– Eu não me sentiria completo se não contasse a história desde o começo para vocês. – Eu falei. – Quando a nossa guerra acabou tudo havia sido destruído. Nossas casas, nossa tribo, nossas famílias e nós mesmos. Não sabíamos por onde começar, não tínhamos forças para nos reerguer. Então por dias nosso povo chorou. Clamou aos guardiões ajuda e força. Nossas plantações foram destruídas e passamos fome. O pouco que tinha nos sobrado era repartido para todos. Clamamos por chuva para que o sangue de todos os mortos fosse lavado do chão. Toda a La Push virou um caos. Eu via meu povo chorando. Crianças enterrando seus pais e vise e versa. Não sabia o que fazer, não sabia como ajudá-los porque eu mesmo precisava de ajuda. Aquela década ficou cravada em meu peito por muito tempo, até eu parar de me transformar. Não querendo mais ser um guerreiro, eu quis morrer. Quis envelhecer e morrer como todos. Eu quis morrer com meu povo somente para não ver a tristeza e o sofrimento daqueles que haviam sobrevivido, mas eu vi. Eu vi La Push ficar cinza e fria. Eu vivenciei a solidão da pós guerra. – Respirei fundo vendo o brilho cintilante nos olhos de cada um. – Com o tempo nosso povo se reergueu. Começamos a reconstruir a cidade, a semear nossa plantação e conforme La Push ia tomando forma novamente e a cada casa de madeira que construíamos, a cada casa ganha, eu perdia um membro de minha matilha. Com o tempo um a um, após ser pego pela magia do imprinting, ia parando de se transformar e começando a envelhecer. Eu por um tempo também parei, mas não envelhecia como os demais. Para dizer a verdade eu não mudava conforme os anos iam passando e eu via em mim o mesmo guerreiro que havia perdido a batalha para os inimigos, o mesmo Jacob Black. E era como se eu estivesse tentando inutilmente fugir da guerra, mas ela nunca quisesse sair de mim. Quando sobrou apenas eu e mais ninguém se transformou, eu fiquei sozinho. Já não sabia se tinha um povo para defender. Não conseguia entender o porque de não envelhecer e quase enlouqueci. Sozinho, parecia que eu não fazia mais parte deste lugar. Não havia um lugar para onde olhasse que eu não conseguia ver e ouvir meu povo gritando e morrendo. Eu vivenciava a guerra todos os dias até que meu interior se solidificou. Eu precisava fugir. Precisa partir em busca de paz e foi quando eu voltei a me transformar.
– Você ficou por quanto tempo somente em sua forma humana? – Seth perguntou.
– Não sei ao certo, mas creio eu que mais ou menos uns 10 anos. – Falei.
– E não envelheceu nada? – Embry perguntou espantado.
– Como podem ver... Eu continuo o mesmo. – Abri um sorriso triste e forçado.
– E foi quando você fugiu e encontrou os Filhos da Lua? – Paul perguntou.
– Sim, quer dizer, quase. – Falei meio receoso. – Quando eu voltei a me transformar senti um alívio. Era estranho, mas eu me sentia mais a vontade como um animal do que como um humano. Deixei que meu nome fosse esquecido pela tribo, o que nunca aconteceu, e parti sem destino. Corri durante dias sem parar, sem direção. A unica coisa que eu queria era um lugar frio. Um lugar que parecesse mais com o meu interior do que La Push e foi quando eles me encontraram.
Fale com o autor