A Kill For A Kill
13 O Estranho No Metrô
Estava de costas, mas era possível perceber que tremia, por mais que houvesse pelo menos três casacos ao redor do seu corpo e um gorro de lã escuro na cabeça. Marshal observou bem o homem e só então percebeu que de fato a temperatura não estava das melhores, e que só não tinha percebido isso antes porque tinha coisas mais importantes em mente. Mila estremeceu ao seu lado, o que só confirmou que a atmosfera estava mesmo mais fria. É por causa da chuva, Marshal pensou e olhou ao redor.
Como nem ele nem Mila disseram nada em resposta ao homem, ele prosseguiu:
- O que querem por aqui?
- Vamos utilizar o metrô – Marshal respondeu prontamente.
O homem pigarreou e os dois jovens que o observavam pensaram que ele fosse finalmente se virar e revelar quem era. Isso não aconteceu.
- Por que querem utilizar o metrô? – perguntou, por fim.
- Precisamos chegar ao hospital.
Somente nesse instante foi que o homem girou nos calcanhares e revelou quem de fato era. Nem Marshal nem Mila o reconheceram. Para eles, era apenas um homem comum, ninguém muito importante.
- Mais uma pergunta: o que pretendem fazer no hospital?
- Isso tem alguma importância pra você? – foi Mila quem tomou a frente da conversa.
- É claro que tem, senão como poderei ajudá-los?
- Não precisamos da sua ajuda.
- Ah, vão precisar, sim.
- O que você é, algum tipo de recepcionista dessa estação de metrô? – Marshal quis saber.
- Eu pareço um, mesmo sem o uniforme necessário? É claro que não. Sou um homem comum assim como você um dia vai ser. O único problema é que, há muitos anos, eu me tornei um andarilho.
- Um andarilho? Como um cigano?
- Não, como um mendigo.
Marshal não retrucou. Não sabia o que dizer. O homem à sua frente deu de ombros, gesto que, mesmo na escuridão e em meio a toda aquela neblina, ainda pôde ser visto.
- Ciganos não veriam nada de interessante por aqui, porque não há quem entreter em Silent Hill. Veja só, estou sem conversar com ninguém há mais ou menos quatro meses! Ainda me lembro de quando vi minha única companheira de conversa e de sexo morrer para as mãos daquele... Daquela coisa que eu costumo chamar de Cabeça de Pirâmide. Desde então, por mais positivo que eu tenha sido, ninguém mais apareceu. Mesmo sozinho, sei que há pessoas lá fora, vivendo – ou apenas sobrevivendo -, mas estão muito bem escondidas, com medo de... – O homem fez uma pausa e riu, como se achasse irônico o que estava prestes a dizer. – Como se tivessem medo de morrer.
- Você riu. Não tem medo de morrer? – Mila perguntou, sombria.
- Não mais. Não tenho objetivos na vida, portanto, sou um pedaço de carne pensante que vaga por essas ruas vazias porque não tem nada melhor para fazer. Sei que jamais teria influência no mundo, porque nem muito conhecimento de vida eu possuo. Sou tão descartável quanto à lata de um refrigerante depois de consumido, então, se morresse, que diferença faria?
- Você perdeu o gosto pela vida.
- Nunca tive, eu acho. Nunca fiz o que realmente gostava, então nunca fui feliz realmente.
Houve uma pausa significativa, um momento de silêncio que, a todos, foi bastante pertinente para aquela que estava sendo uma conversa um tanto pesada demais.
- Vocês precisam de ajuda, não precisam? – o homem disse, quebrando o silêncio.
- Ajuda? Para o quê? – Marshal perguntou.
- Ora, para seguir pelo metrô!
- Não precisamos de ajuda, pois já sabemos que caminho seguir. Além do mais, temos também um map... – Marshal já enfiava a mão no bolso traseiro de sua calça, em busca do mapa, mas não o encontrou. – Mila...?
- Sim?
- Você está com o mapa?
Mila balançou a cabeça em negativa.
- Vocês planejavam seguir pelo metrô com um mapa? – o homem disse em tom de deboche. – Mas vejam só! São uns tolos mesmo!
- Tínhamos um mapa, sim! Eu mesmo o li assim que deixamos a igreja, lembro ainda de todas as explicações que recebi, mas parece que ele sumiu! Mas...
Eu não me surpreenderia se ele tivesse sumido durante a escapada do Cabeça de Pirâmide, Marshal pensou e até considerou a ideia de comentar tal pensamento em voz alta, mas reprimiu-a.
- Não há mapa nesse mundo que seja capaz de guiá-los por esses caminhos que estão prestes a enfrentar. É claro que nenhum de vocês entrou num metrô de Silent Hill, senão saberiam disso.
- Somos proibidos de entrar – Mila comentou. – Dizem que é perigoso.
- É muito perigoso, mas acreditem em mim quando digo que é mais seguro do que seguir pelas ruas ali em cima. Quer dizer, por mais que não haja ninguém fazendo os caminhos que vocês farão, ainda é possível se deparar com seus maiores medos ao dobrar um corredor. Acontece que ficamos insanos quando a escuridão é maior do que nosso cérebro é capaz de processar, e a loucura é o maior inimigo que alguém pode enfrentar em vida.
- Saberemos superar isso – Marshal assegurou.
- Ótimo. Já estamos a meio caminho andado. Mas agora que vocês não têm mapa, como farão para chegar ao hospital?
Mila e Marshal se entreolharam, esperando que o outro soubesse a resposta para aquele dilema. Ninguém disse qualquer coisa.
- Eu sei como chegar lá, e é por isso que posso ajudá-los.
- Você me parece louco.
- Terá que acreditar em mim. Do contrário, não vejo muitas outras opções a seu dispor.
Marshal engoliu em seco e respirou fundo. Mila apertou sua mão, insegura. Ele tem razão, ele pensou. Se não aproveitar a ajuda dele, por mais que possa ser um blefe, acabaremos chegando a lugar nenhum, e eu preciso de tratamento com urgência...
- Tudo bem, aceitamos sua ajuda.
- O quê?! – Mila exclamou, incrédula.
- Não temos escolha, precisamos dessa ajuda!
- Sempre há escolha!
- De fato há, mocinha, e ela se encontra lá fora, longe dos túneis do metrô. Como você não concorda com o seu namorado, vai sempre ter a opção de abandoná-lo e deixá-lo seguir viagem sozinho. Eu disse alguma coisa errada?
Mila nem mesmo se moveu em reação à afronta que acabara de ouvir.
- O que temos que fazer? – Marshal perguntou, o cenho franzido, um pouco revoltado.
- Não, não, não! Alto lá! – o homem disse e sacudiu as mãos no ar. – Precisamos fazer uma troca!
- Uma troca? Como assim?
- A minha informação por algo que você possa me oferecer! Em tempos em que não se usa mais dinheiro, podemos fazer a troca com qualquer coisa, desde que tenham o mesmo valor...
- Não temos muita coisa a oferecer.
- Vocês têm exatamente o que preciso.
Marshal olhou ao redor do próprio corpo e não viu nada além das roupas que usava e de Mila ao seu lado. Depois de um tempo, concedeu um olhar melhor a ela e então compreendeu o que o estranho queria.
- Você só pode estar brinc... – Marshal começou a dizer, pronto para acertar um punho fechado no rosto do homem se fosse necessário.
- Vocês têm comida? – ele perguntou, interrompendo o garoto.
- Comida? – Marshal repetiu, incrédulo.
- Sim. Pão, bolacha, queijo? Alguma coisa que sirva para comer?
- É isso o que você quer em troca da informação?
- Não acha que é justo?
- É mais do que justo! – Mila replicou e, antes que Marshal pudesse perceber, lançou um pacote de bolachas na direção do homem, que o apanhou ainda no ar. – Satisfeito?
- Muito mais do que satisfeito. – Os olhos do estranho brilhavam, voltados para o pacote que tinha em mãos.
- Agora diga o que devemos fazer – Marshal lembrou.
- O caminho não é difícil, mas será se assim você preferirem. Há um labirinto de combinações infinitas à espera de vocês assim que passarem por aquela porta. – Ao dizer isso, o homem apontou um dedo sujo e de unhas podres na direção de uma porta comum, de ferro, que ficava no fim do espaço guardado por grades. – Tudo o que vocês precisam fazer é entrar por ela e ter em mente o lugar para onde querem ir. Os caminhos se formarão à frente se vocês fizerem tudo corretamente.
- É só isso?
- Não... Haverá um obstáculo no final de tudo, e então vocês saberão que chegaram. Acabe com esse obstáculo e chegarão ao hospital.
- Há algum outro conselho que devemos seguir? – Mila perguntou, cautelosa.
- Há. Não tenham medo. Façam o que quiserem, mas nunca tenham medo! Além disso, levem isso – o estranho disse e jogou uma lanterna que retirara de algum lugar do seu casaco para Mila. – Pode ser que fique escuro em alguns momentos. A luz é a única que pode salvá-los, mas, se vocês não tomarem cuidado, também será ela a responsável pelos seus fins.
Mila e Marshal assentiram, estupefatos.
- Agora, vão! Não há tempo a perder!
Sem hesitar e ainda de mãos dadas, Marshal e Mila passaram pelo primeiro de muitos portões de ferro que encontrariam no meio do caminho.
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