A Kill For A Kill

14 Entre O Que Parecem Ser Trevas


De fato, havia mais portões. Depois de passarem pelo primeiro, Marshal e Mila encontraram muitos outros, mas antes tiveram que descer uma grande leva de escadas, que os levava para a escuridão, e dobraram um corredor, já bastante longe de qualquer influência da superfície. As dependências daquele metrô não eram das melhores. Paredes que antes eram cobertas por azulejos, que outrora deviam ter sido belos, agora estavam envelhecidas, abandonadas, e havia mais azulejo no chão do que nas paredes em si. Havia sujeira, também, e rastros de mofo em todos os cantos. Mila explicou o porquê disso dizendo que em Silent Hill chovia com frequência, embora de forma imprevisível, e, pelo que parecia, os encanamentos nos tetos, enferrujados e rachados, já não conseguiam mais dar conta de tanta água depois de tanto tempo de uso.

Havia iluminação lá embaixo e ela vinha das lâmpadas fluorescentes que ainda funcionavam. Algumas falhavam, dando a ilusão de que parte do corredor sumia e aparecia, fazendo com que Marshal, que já não gostava muito daquele ambiente, sentisse ainda mais medo por estar fazendo parte daquela viagem. É algo que preciso fazer, era o que se dizia a cada passo que dava. Se isso não lhe fosse suficientemente motivador, ele tentava observar Mila, que, apesar de apavorada, parecia tranquila com o que fazia.

Passaram por uma porta simples e adentraram outro corredor, esse ainda mais sombrio e escuro, mais envelhecido, mais sofrido com a ação do tempo e da água. Havia goteiras no teto, que fazia barulhos aqui e ali em poças no chão. Ali, havia mais canos do que eles já tinham visto nos demais lugares, e reparar isso fez com que Marshal se perguntasse sobre o porquê de tantos encanamentos, sendo que Silent Hill não parecia tão habitada, o que provavelmente não exigia muita água.

Então, eles caminharam com ainda mais cautela. Não conseguiam enxergar o fim do corredor, que ficava alguns metros à frente, e imaginavam que isso acontecesse porque, para lá, estava mais escuro. De fato, não havia tantas lâmpadas ali, mas ainda assim era possível duvidar da procedência daquelas trevas. Marshal e Mila tiveram que caminhar por um bom tempo, a passos curtos, para perceber que tinha mesmo algo que não era apenas ausência de luz no fim do túnel, e sim algo palpável, visível. Algo como uma neblina negra que não permitia que nada fosse enxergado do outro lado, como uma barreira.

Foi Mila a primeira a vacilar diante de tal imagem.

- Acha que não devemos seguir em frente? – Marshal perguntou.

- Não sei – ela respondeu, dando de ombros.

Marshal respirou fundo antes de dizer:

- Você ouviu o que o homem disse. Não podemos vacilar ou sequer sentir medo, senão vamos nos confundir por esses caminhos. Temos que ter certeza de para onde estamos indo, senão iremos para outros lugares e encontraremos aquilo que não queremos encontrar.

- Não é tão fácil quanto parece ignorar um medo.

Marshal contemplou a garota por mais um instante. O olhar dela era triste, e ele sabia que não conseguiria seguir caminho se ela continuasse assim. Precisava dar algum motivo de segurança para que Mila perdesse o medo. Do contrário, temia se lançar num labirinto de onde jamais sairia.

- Segurar minha mão faz com que você fique mais tranquila? – ele perguntou e ofereceu a mão na direção de Mila.

A garota não hesitou em agarrá-la, contudo, ainda parecia amedrontada.

- Do que você tem medo, Mila?

- Dos perigos que pode haver do outro lado dessa escuridão.

Marshal assentiu. Esse era um medo do qual ele não podia privá-la, pois até ele próprio sabia que perigos como esses poderiam existir. Mas foi olhando em volta que ele encontrou a solução de que precisava para esse dilema.

Por haver muitos canos ao redor, alguns já haviam se desprendido de suas estruturas originais e também permaneciam soltos a esmo pelo chão. Apesar de velhos, pareciam fortes e bem mortais, principalmente os mais finos e fáceis de carregar. Marshal soltou a mão de Mila e se dirigiu a um deles, apanhando-o e experimentando em uma e outra mão. Não estava acostumado a lutar, muito menos com armas como aquelas, mas sentiu que saberia se defender caso fosse necessário. E foi essa segurança que Mila viu em seu olhar ao ouvi-lo dizer:

- Eu te defendo. Não há o que temer agora.

Os dois se deram as mãos mais uma vez e passaram pela fumaça negra.

Não se lembravam do que sentiram ao passar por ela, porque não sentiram nada. Num momento, estavam mergulhando em trevas, já no outro, estavam em outro corredor, muito parecido com o anterior, mas com uma bifurcação, ambos os caminhos terminando em nuvens de fumaça negra também. Marshal engoliu em seco, pela primeira vez vacilante.

- Há dois caminhos – Mila comentou. – Como vamos saber qual é o certo?

Marshal sacou a lanterna que carregava no bolso traseiro da calça e a acendeu. O feixe de luz correu todo o espaço até tocar nas nuvens negras do caminho à esquerda, mas sumiram por ali. Então ele passou a lanterna dessa para a outra abertura, onde um círculo branco pôde ser visto, como se ali a fumaça fosse ainda mais densa.

- Vamos pela esquerda – falou e puxou Mila consigo.

Caminharam assim por muito tempo. Não foi difícil perceber que os caminhos corretos eram aqueles onde a luz não podia ser vista, porque muito provavelmente aqueles tinham algum fim. Por mais que essa fosse uma observação duvidosa, algo dentro de Marshal dizia que ele estava certo e que podia continuar assim, que não ia ter problema nenhum. Lembrou-se do conselho do homem, que disse que, se eles fizessem a coisa certa, o caminho se formaria por si só, levando-os para o lugar correto. Se essa informação fosse mesmo verdadeira, eles estavam bem próximos de chegar ao hospital, e Marshal mal conseguia esperar por esse momento.

Já estavam caminhando por muitos minutos quando Mila decidiu reclamar, dizendo que talvez eles estivessem fazendo a coisa errada e que, por isso, estavam perdidos. Por um momento, Marshal estremeceu com a ideia de ficar preso ali para sempre, mas então sentiu confiança de que nada estava errado. Ele sabia o que estava fazendo, por mais que Mila parecesse insegura. Ele só esperava que esse sentimento na garota não acabasse acarretando um problema para a jornada.

Quando passaram pela última porta de neblina, depararam-se com um corredor de lajotas e azulejos brancos que terminava em uma porta dupla, onde se lia a palavra “HOSPITAL” escrita em vermelho-sangue. Marshal só percebeu nesse instante que Mila, por mais que o tivesse ajudado a chegar até ali, também o havia atrapalhado grandemente ao sentir medo.

Porque então ele viu dois cachorros monstruosos à sua frente, de cor esverdeada, como carne morta. Eles tinham bocas com dentes à mostra, numa careta, mas então suas cabeças se partiram ao meio, formando grandes lábios que começavam em seus pescoços, revelando outra boca, essa demoníaca, com muitos mais dentes e línguas, por onde um grasnido sofrível rompia.

Os cachorros eram suficientemente assustadores, mas o problema era que Marshal, desde muito tempo, sofria com o trauma de nunca poder lidar com esses animais, e isso por causa de uma memória da qual ele não conseguia se lembrar. Foi então que ele percebeu que, por Mila se sentir insegura, seu maior medo acabara se materializando à sua frente. E ali havia algo contra o qual ele jamais conseguiria lutar.

Marshal tentou fugir por onde entrara, os olhos arregalados de espanto, mas deparou-se com uma parede concreta que antes não estava ali. Constatou: ele e Mila estavam presos. Desesperado, começou a gritar a plenos pulmões por ajuda, esmurrando as paredes, certo de que morreria caso tivesse que ficar ali por mais tempo.

A essa altura, o cano que andara segurando já estava no chão, e foi só por isso que Mila conseguiu apanhá-lo. Sem que ele visse, ela correu até os monstros, que latiam alto, como cachorros comuns, e acertou-lhes golpes certeiros e destemidos, abatendo-os. Os dois cachorros deram um último grasnido agudo e se jogaram no chão, mortos.

- Vamos, Marshal! – ela chamou, puxando-o pelo ombro. – Não há nada aqui – ela assegurou, jogando o cano no chão.

- M-Mas... – Marshal olhou ao redor, para ter certeza de que não havia mais qualquer cachorro. Demorou um pouco nisso, pois não queria se enganar. Minutos depois, desprendeu-se da parede e deu alguns passos à frente. Estava pronto para entrar no hospital.

- Esse era o seu maior medo? – Mila perguntou, os olhos apertados. – Por que cachorros?

- E-Eu não sei – o garoto gaguejou. – Mas a gente conversa sobre isso outra hora. Chegamos ao hospital. Vamos entrar?

- Vamos.

- Juntos? – Marshal disse, erguendo uma mão no ar.

- Juntos – ela confirmou, agarrando essa mão.

Caminharam lentamente pelo pequeno corredor que havia até as portas, cheios de expectativa, e passaram por elas. A quem visse, pareceria que eles entraram ao mesmo tempo, tão sincronizados que estavam. Mas essa não era a realidade.

Caso fosse, Marshal não teria conseguido ouvir quando Mila, ao colocar um pé do outro lado da porta, gritou como se tivesse sido atingida pela maior dor que um ser humano pudesse sentir.

Notas finais
Desculpem-me o atraso de um dia com a postagem! Tive um bloqueio mental na semana passada e não estava conseguindo escrever nada de muito bom, o que atrasou minhas histórias, e eu não queria escrever nada que não fosse bom. Espero que esse capítulo tenha ficado legal :)