A Kill For A Kill
19 Estacas
Marshal, primeiro, ficou quieto. Contemplava a escuridão ao redor do corpo morto de Sullivan, velho, já em estado de decomposição, pendurado à sua frente – e sem olhá-lo, porque a imagem fora suficientemente repugnante para que ele não quisesse voltar a vê-la – e pensava. Não tinha uma linha de raciocínio determinada. Pensava sobre um amontoado de coisas ao mesmo tempo, então não saberia sequer dizer sobre o que pensava naquele instante. Foi só depois de alguns minutos, tantos que ele não sabia dizer quantos, que percebeu que estava apavorado e histérico. Seus olhos, em ambiente tão escuro, estavam arregalados, como se para apurar a visão, mas não só por causa disso; de fato, ele sentia mais medo do que já sentira em toda a sua vida. Mais medo até do que sentira desde que chegara a Silent Hill.
Se tivesse que morrer naquele quarto, sentia que não se importaria, porque qualquer coisa era melhor do que ficar preso naquela sala, com um defunto crucificado à sua frente, sentindo seu cheiro pútrido tomar suas narinas o tempo inteiro. Marshal escorreu toda a parede na qual estava encostado e sentou-se no chão, sentindo-o frio. Estremeceu. Levou uma mão à boca e começou a roer as unhas, inconsciente do que fazia. Contemplava o chão sem nenhum interesse, apenas porque não queria voltar a ver Sullivan daquele jeito.
Ele me trancou aqui para morrer, pensou e estremeceu mais uma vez. E levou a Mila. Ele vai matá-la novamente, ele vai refazer o seu ritual sujo, ele vai...
Não se sabe por que, mas de repente Marshal percebeu que a abertura às suas costas, a que Sullivan fizera questão de tapar antes de fugir como um covarde, não era a única saída daquele lugar. Havia mais uma, mas... Seria uma loucura passar por ali, o garoto pensou enquanto fitava o buraco grande o suficiente para caber três pessoas passando de uma vez no chão logo abaixo dos pés do corpo do homem morto naquela sala. Um líquido viscoso e brilhante escorria por entre os dedos pálidos daquele pé e caíam exatamente no centro do buraco. Marshal sentiu repulsa ao pensar na possibilidade de se esgueirar por aquela passagem, mas também não tinha outra escolha. De onde estava, tudo o que via no buraco era uma imensidão de escuridão que, aparentemente, dava em lugar nenhum.
- Já estou morto mesmo – ele sussurrou para si e, com certa dificuldade, conseguiu se levantar. Agarrava-se à parede como se fosse ela quem lhe dava a segurança necessária para não enlouquecer naquele lugar. – O que quer que haja lá embaixo não deve ser pior do que já tenho aqui...
O primeiro passo em direção ao corpo de Sullivan foi o mais difícil de ser dado. Era como se aquela presença o repelisse. Marshal obrigou-se a dar o segundo passo e franziu o cenho, enojado. Sentia que estava prestes a vomitar. Girou a cabeça para trás e vomitou, tão fraco que estava. Recobrou a concentração e tornou a seguir em frente. Não estava muito distante do buraco, então só precisou de mais três passos para chegar até ele. Procurou ignorar o olhar morto do homem, que tinha sua cabeça virada na sua direção. Gemeu como uma criança que sofrera um corte muito profundo quando o cheiro pútrido se tornou pior. Arranjou forças para seguir em frente com o plano e se sentou na beira do buraco, ainda gemendo, ainda suspirando, como se chorasse. Na verdade, tremia de pavor.
Uma gota daquele líquido negro e pegajoso que escorria de Sullivan tocou a sua calça e deixou sua mancha. Marshal fechou os olhos com força, imaginando o pior acontecendo. Nada de mais aconteceu. Quando tornou a abrir os olhos, estava decidido de que não podia mais atrasar o momento que ele tanto estava querendo evitar.
Jogou-se no buraco e, por uma fração de segundo, viu-se gritando, certo de que a altura da qual acabava de se jogar era grande demais para ser suportada por um corpo comum. Enganou-se assim que tocou o chão. Caiu de bruços, de um jeito que fez suas juntas doerem, mas perceber que estava seguro fez com que ignorasse isso. Tornou a abrir os olhos, que haviam se fechado com a queda, e tentou observar o cenário no qual se encontrava.
Marshal não fazia ideia do que veria assim que pulasse no buraco, mas o que viu foi surpreendente. Quer dizer, não havia nada de mais ao redor, mas aquele era um cenário que ele jamais imaginaria.
Era um amplo salão redondo, não muito grande, com paredes estranhamente iluminadas por uma claridade vermelha. Pulsavam como se houvesse sangue por baixo. O chão era branco, de mármore. Parece o saguão de entrada do Inferno, Marshal pensou enquanto limpava a sujeira do corpo. No centro, outro buraco, esse mais regular, como se tivesse sido construído de propósito. Dessa vez, o garoto não hesitou em se jogar por ele. Em pé, saltou e deparou-se caindo, gritando apenas quando percebeu que não havia mais chão. Pousou um segundo depois, batendo as mesmas juntas no novo chão em que se encontrava.
Ali embaixo, o cenário era ainda pior.
Levou um tempo para Marshal processar as imagens que via e compreender qual era a finalidade de tudo aquilo. Mais uma vez, era um amplo salão redondo, mas aquele era maior e tinha um aspecto ainda mais bizarro. Não se via muito das paredes, porque havia coisas que as cobriam. No centro do salão, havia uma enorme cavidade onde engrenagens de ferro enferrujadas giravam sem nenhum motivo aparente, indo acima, abaixo, para os lados, mas sem jamais tocar algo que não pertencesse ao seu perímetro. Ao redor disso, cobrindo metade da parede que formava o círculo, havia cerca de doze painéis brancos, com algum relevo, como se fossem telas já emolduradas que esperavam apenas algum tipo de pintura. Elas pareciam pulsar, como se tivessem vida. Marshal não se sentia pronto para descobrir o que aquilo podia ser.
Nada mais era digno de atenção. Fora isso, o chão e as poucas paredes descobertas eram de concreto cinza, envelhecido. Marshal estava observando a tudo quando, assustado, percebeu que Mila estava a um canto, sobre uma plataforma, andando vagarosamente, de olhos fechados, indo em direção àquele monte de engrenagens, como se planejasse...
Mas...?
- Mila, não! – Marshal gritou e correu em torno das engrenagens, esperando que conseguisse impedi-la de se jogar naquilo. A morte seria certa, disso não havia dúvidas.
- NÃO! – disse uma voz grave às costas do garoto e, num súbito, Marshal deparou-se sofrendo a dor de uma pancada bem acertada nas costas.
Foi ao chão e por pouco não bateu a cabeça. Virou a tempo de perceber que Sullivan – Não pode ser Sullivan, está diferente! – tentava cravar uma estaca no seu corpo. Girou para o lado e evitou o ataque. A estaca, que era de ferro, soltou faíscas ao encontrar o chão com tanta força. Marshal se levantou e correu para o outro lado do salão. Lançou um olhar rápido em direção a Mila antes de se voltar para Sullivan, que agora estava longe.
- Mas o que merda significa tudo isso, Sullivan?! – gritou para o homem, indignado. Sullivan, de cabeça baixa, o rosto coberto pelos cabelos louros caídos à frente, não respondeu. – Você já fez o que queria! Nos assassinou para esse maldito ritual no qual você acredita, agora por que quer nos fazer sofrer ainda mais?!
Olhou de relance para Mila. Ela continuava a avançar, em transe, em direção às engrenagens.
Quando voltou a olhar para Sullivan, não conseguiu acreditar no que viu. Num instante, ele estava do outro lado da sala; no outro, e isso depois de sumir e aparecer em três cantos diferentes em frações pequeníssimas de segundo, ele surgiu diante do rosto de Marshal, tão próximo que seu cheiro logo encheu o nariz do garoto, causando-lhe nova repulsa. Marshal sentiu as pernas bambearem e por pouco não caiu. Sabia que isso não ajudaria em nada por ora, então arranjou força e se esquivou quando Sullivan descreveu um arco no ar com sua estaca, pronto para acertá-lo.
Agarrou-a antes que ela pudesse tocá-lo e aplicou contra força. Sullivan usava uma mão no ataque e Marshal teve que usar as duas para evitar ser perfurado. O homem que desferia o ataque dobrou o pescoço para o lado, como se estranhasse aquele tipo de resistência. No rosto, nenhuma expressão – aliás, não havia qualquer brilho naqueles olhos. Marshal sentiu-se apavorado, mas não deixou que aquilo o abalasse. Usou a força que Sullivan aplicava e puxou a estaca para si. Sullivan, para a surpresa do garoto, largou a arma e ainda cambaleou alguns centímetros à frente. Desarmado, ele parecia inofensivo.
Mas Marshal pretendia ser bastante ofensivo.
Ele correu alguns metros, afastando-se do inimigo, mas Sullivan diminuiu a distância entre os dois daquele jeito estranho que o fazia sumir de um lugar e aparecer no outro, sem que ele sequer se movesse para isso. Marshal não hesitou em acertar a estaca em Sullivan. Desferiu-lhe um, dois, três golpes, sem perfurá-lo, apenas acertando a barra na sua cabeça, no tronco, no braço. Os ataques foram todos acertados, mas Sullivan não deu nenhum grito de dor. Talvez Marshal não estivesse sendo agressivo o bastante.
Num piscar de olhos, o garoto levou a estaca na direção da barriga de Sullivan e o atravessou com aquilo. Ela chegou a despontar alguns centímetros nas suas costas, gotejando um sangue com cor negra demais. Sullivan dobrou-se para frente e cuspiu daquele mesmo sangue no chão, mas nem por isso pareceu mais fraco. Agarrou a estaca com ambas as mãos e estava pronto para retirá-la de sua barriga.
Mas Marshal puxou-a antes que Sullivan pudesse usá-la como arma novamente.
Avançou alguns passos para trás, contemplando o corpo perfurado do oponente se movimentar como se o ferimento na barriga não significasse nada e se sentiu horrorizado. Nada vai matar esse homem, ele pensou e levou uma mão à boca.
Sentiu a alma deixar o corpo quando um grito agudo, estridente e sofrível se fez ouvir às suas costas. Ajoelhou-se, finalmente abalado, certo de que aquele grito não pertencia a uma pessoa comum. Pertence a um demônio, pensou e tentou se levantar, cambaleando com dificuldade alguns passos para frente.
Curioso como era, virou-se para verificar o que podia ter gritado. Não se surpreendeu quando percebeu que, naquilo que ele achava que fossem molduras com telas em branco, corpos se mexiam, como se estivessem dentro daquelas telas e simplesmente não vissem a hora de romper por ela, para se tornarem livres. De fato, são demônios, tornou a pensar e sentiu desgosto.
Sullivan tornou a avançar na sua direção. Marshal correu no sentido oposto, não antes de verificar, novamente, se Mila ainda caminhava em direção às engrenagens. Ela caminhava, e estava mais próxima do que nunca.
“Você vai ver que Sullivan só consegue se manter vivo em Silent Hill porque há quem forneça a alma e a vitalidade necessária para que isso seja possível. Ele guarda o que chama de ‘relíquias’ no andar mais baixo da sua casa, porque acha que é um lugar onde ninguém jamais vai ser capaz de chegar. Se conseguir chegar lá, destrua cada uma dessas relíquias, e não hesite, por mais que elas tentem fazer com que você mude de ideia. E seja forte. Sullivan não vai facilitar o seu trabalho, então você terá que fazê-lo sozinho.”
Foi isso o que o Lucas disse no Hospital, Marshal se lembrou e quase sorriu. Como podia ter se esquecido de tão grande conselho?
Sullivan pensou que Marshal, ao se levantar, fosse tentar acertá-lo com a estaca. Estava enganado, o plano do garoto agora era outro. Correndo em direção à primeira tela que se movimentava, Marshal mirou a estaca, e isso fez com que Sullivan acordasse para a realidade presente. Mas nenhuma de suas habilidades especiais seria rápida o bastante para impedir que Marshal concluísse sua vontade.
O garoto acertou a estaca no peito da criatura que se movimentava na tela e urrou no mesmo instante em que a criatura berrou com aquela voz que era de arrepiar a espinha de qualquer um. Líquido negro e viscoso brotou do buraco feito pela estaca, sujando a tela e o chão à sua frente. Marshal retirou a estaca e virou-se na direção de Sullivan. Mal conseguiu conter-se de felicidade quando viu o homem deitado no chão, sofrendo, gritando, pedindo clemência. Marshal não tinha intenção de concedê-la.
Uma a uma, o garoto foi estacando as criaturas nas telas. Sullivan urrava de uma maneira tão sofrível que fazia Marshal sentir nojo de continuar com aquilo. O oponente segurava o peito com tanta força que era como se uma criatura o carcomesse por dentro, levando-o à morte. Quando Marshal estacou a antepenúltima moldura, Sullivan já não conseguia mais gritar. Quando estacou a penúltima, Sullivan não conseguia mais se mexer.
Quando Marshal estacou a última, Sullivan não mais vivia.
A última moldura berrou com uma intensidade absurda, até que seu grito sumiu nos limites dos sons. Marshal, quando se deu por si, estava deitado no chão, segurando os ouvidos como se para impedir que aquele som esmagasse seu cérebro. Assim que ele se foi, conseguiu abrir os olhos e olhar em volta. Tudo continuava como antes, exceto pelas manchas de tinta negra no chão.
E Sullivan jazia morto a apenas alguns metros.
Marshal se levantou e até pensou em verificar a situação de Sullivan, mas então se lembrou de Mila. Suspirou horrorizado quando percebeu que ela estava mais próxima de se jogar nas engrenagens do que ele achou que fosse possível.
- MILA!
Correu até a garota em poucos segundos e viu-a cair. Desesperado, jogou-se na beira da plataforma em que antes ela e estava e a mão que estendeu foi suficiente para segurá-la, antes que caísse nas engrenagens. Só nesse instante Mila pareceu acordar do transe. Com um olhar assustado e choroso na direção de Marshal, seus lábios ensaiaram as palavras “Me ajude...”. Motivado por isso, o garoto conseguiu a força necessária para puxá-la e trazê-la com segurança para a plataforma.
As engrenagens, instantaneamente, começaram a se mover com mais força, como se irritadas com o que acabara de ser feito.
- Marshal – Mila disse, mas sua voz quase não conseguia se sobrepor ao barulho do ferro se movimentando. – Eu estou... viva?
- Não! – ele respondeu, gritando. Percebeu que Mila chorava enquanto o ambiente começava a iluminar-se de maneira estranha. – Ainda não! – corrigiu e procurou sorrir.
Mila precipitou-se para frente e puxou Marshal para si. No instante em que aproximou o seu rosto ao do garoto, os lábios prontos para beijá-lo, a claridade foi tão absurda e o som dos ferros se quebrando se aumentou em tal nível que nunca em sua vida Marshal conseguiu dizer se havia conseguido beijar Mila naquele instante.
Foi então que tudo sumiu.
Notas finais
Próximo capítulo, o final o/
Fale com o autor