A Kill For A Kill
20 O Mal Estava Enganado
Marshal ainda conseguia se lembrar de como tudo terminou, embora não o fizesse com muita frequência. Não era uma lembrança que apreciava de ter, mas às vezes era impossível esquecê-la. Era ainda mais inesquecível nos primeiros dias depois do ocorrido.
Depois da claridade, que, para ele, durou um tempo indeterminado, ele percebeu-se de olhos tão arregalados que pareciam pedintes. Também já não enxergava mais apenas aquela claridade, ou sequer o cenário no qual estivera minutos atrás. Estava num lugar completamente diferente, tanto que se assustou ao percebê-lo. Não devia estar ali, porque não era ali que estava. Aliás, nos últimos dias, ele estivera bem longe dali realmente. Aquilo não fazia sentido.
Ele estava de volta ao banheiro do aeroporto, apoiado na pia, contemplando-se no espelho. Lembrava-se do dia em que fizera aquilo, mas havia muito tempo desde aquele acontecido. Não era possível que estivesse mesmo revivendo aquele momento... Ou era? Não conseguiu evitar a sensação de déjà vu, porque a memória era muito recente. Percebeu que estava perto de ficar louco, pois podia ter certeza de que estava em outro lugar, que não naquele banheiro. Ele estava...
Onde é que eu estava...?
Arregalou os olhos mais uma vez, novamente surpreso. Não conseguia se lembrar de onde estivera, mas sabia que não era naquele banheiro. Estou ficando maluco, tornou a pensar e engoliu em seco.
Foi só nesse instante, quando sentiu uma dor, que percebeu o disparo no peito.
Fez uma careta de desgosto ao fitar o filete de sangue que escorria do furo na sua blusa. Engoliu sem seco novamente, mas dessa vez a saliva estava amarga, como se ele tivesse tomado algum remédio muito ruim ou algo assim. Soluçou uma única vez, percebendo que estava prestes a chorar. Será que o que Stephen King dizia sobre o inferno, que ele nada mais era do que uma repetição infinita do momento da sua morte, era mesmo verdade? Se fosse, Marshal sentia que não estava pronto para sofrer daquela maneira. Achava que não merecia isso.
Olhou para sua esquerda sem saber realmente por que. Na verdade, procurava inconscientemente o buraco que o levara a Silent Hill, mas ele não estava lá. A parede estava intocada, como sempre esteve, com todos os azulejos em seus devidos lugares. Mesmo assim, não se deu por satisfeito.
Levou um dedo ao ferimento no peito e contemplou, no espelho, o exato instante em que seu rosto se contorceu numa expressão de dor. Puta merda, isso dói demais! Sentiu gosto de sangue na boca, mas isso era psicológico. Precisava deixar aquele banheiro e pedir ajuda logo. Assim que teve esse pensamento, já rompia pela porta do banheiro, indo na direção onde se lembrava de que estavam os seus pais.
Teria suspirado de alívio assim que percebeu que todo mundo que antes estava no aeroporto ainda estava lá. Por algum motivo, considerava a ideia de eles não estarem ali, de todos o terem abandonado. Mas isso não tinha acontecido – não daquela vez. Não havia mais atiradores ao redor, mas ainda assim as pessoas corriam em pavorosa, gritando, clamando por ajuda. Marshal correu com certa dificuldade em direção aos bancos nos quais os pais estavam sentados e abraçados, consolando um ao outro. Eles o perceberam de longe e se desprenderam, observando o filho se aproximar e já cientes de que ele não estava bem.
Marshal caminhou alguns passos trôpegos na direção deles e procurou sorrir. Tudo o que conseguiu foi um sorriso torto, feio. Segundos depois, desabou no chão, já sem força para conseguir se manter em pé.
Não sentiu a dor da queda. Lembrava-se vagamente de ter ouvido alguém gritar para que chamassem a ambulância, pensando que fosse sua mãe. Sua última memória daquele instante foi uma profusão de pés passando diante dos seus olhos, e então desfaleceu. Depois disso, voltou a acordar diante de uma luz – no hospital – e só teve tempo de constatar isso antes de desfalecer novamente.
Acordou dias depois na cama de um hospital, enfaixado em torno do peito, contemplando uma cortina que balançava com a brisa de uma manhã. Achava que estava sozinho, mas sua mãe jamais o deixou ficar sozinho, então estava ali também.
– Filho? – ela chamou. Marshal ouviu, mas a voz parecia longe. Como não esboçou nenhuma reação, a mãe voltou a chamar. – Marshal?
Só então ele desviou a atenção da cortina para a mãe. O rosto dela estava com uma expressão triste – chorosa–, com as sobrancelhas vergadas para cima. Segurava um amontoado de papeis na mão, que ela devia estar usando para limpar os olhos e o nariz enquanto chorava. Sorriu com uma felicidade verdadeira quando percebeu que o filho estava acordado. Ameaçou levantar-se para puxá-lo para um abraço, mas Marshal estremeceu no lugar, ainda receoso que tocassem seu peito, e foi isso que fez com que ela tornasse a se afastar. Mesmo sem poder tocar o filho, a mãe de Marshal estava mais feliz do que jamais estivera.
Fez um sinal para que ele aguardasse um instante e disse alguma coisa que ele não prestou muita atenção. Deixou a sala com passos rápidos e só voltou com o pai, que parecia mais animado do que nunca. Com a família unida, eles papearam como jamais fizeram enquanto Marshal esteve em vida. Aliás, o garoto apreciou a conversa, algo que nunca pensou que fosse ser possível, não com os pais.
Eu estou vivo, ele pensou em algum momento enquanto via os lábios do pai se moverem para formar as palavras. E nunca estive tão vivo.
~//~
Não se lembrava da experiência que tivera em Silent Hill, mas o pensamento de que algo precisava ser feito a respeito de Lucas ainda estava forte em sua mente. Já tinha terminado as aulas, mas, na primeira oportunidade, voltou a procurar o garoto. Sabia onde ele morava, pois não ficava muito longe da escola. Tocou a campainha e foi atendido pela mãe do jovem, que, sorridente, deixou que ele entrasse, imaginando que aquele fosse um amigo do filho.
Marshal se dirigiu até o quarto do jovem que, por algum motivo, achava que era uma excelente ideia se retrair dentro daquelas paredes e bateu duas vezes. Lucas correu para abrir a porta e, quando o fez, tropeçou nos próprios pés quando se deparou com Marshal.
– Você devia estar morto – disse e havia uma expressão insana no seu olhar. Levantou aquele corpo enorme do chão e se dirigiu vagarosamente até uma gaveta em sua cômoda de roupas.
Marshal sabia que ele estava prestes a pegar uma arma.
– Eu vim pedir perdão – disse antes que o garoto pudesse sequer abrir a gaveta.
– Por que pra mim? E por que agora?
– Eu sei o que você fez, Lucas. – Marshal engoliu em seco antes de prosseguir. – E sei que eu próprio teria feito o mesmo, ou até pior, se eu estivesse no seu lugar. Não vou julgá-lo por isso. Você fez o que achava certo. Precisava se defender.
– Você era a única merda que estragava essa minha vida que já não é grande coisa.
– Me perdoa – Marshal insistiu.
Lucas refletiu um pouco. Por um momento, pareceu compreensivo, mas o que disse foi:
– Nunca!
Marshal assentiu.
– Tudo bem. É a sua escolha. – Tentou sorrir antes de dizer. – Espero que pelo menos a gente esteja resolvido.
Ergueu uma mão para um aperto na direção de Lucas, mas o garoto o ignorou completamente. Deixou a casa naquele instante, já indo em direção à sua.
Lucas não mais seria um problema, de qualquer forma. Não depois de ver Marshal ressurgir dos mortos.
~//~
Marshal se lembrou de todas essas coisas muitos anos depois, enquanto tomava um copo de leite com café e chocolate, um cappuccino diferenciado, num café que ele passou a frequentar no decorrer dos anos. Tornou-se jornalista, então, quando precisava de algum lugar para arranjar alguma inspiração, ele ia até lá com seu notebook e escrevia sobre o que tinha que escrever na companhia do seu copo de leite com café e chocolate.
Entretanto, naquele dia, ele não estava no café para escrever, e sim para passar um tempo. Era fim de semana, o dia estava bonito, ensolarado apesar de frio, ótimo para uma atividade ao ar livre. Por isso, Marshal levantou cedo e como seu filho, que agora tinha cinco anos, não costumava dormir muito, principalmente nos fins de semana, decidiu levá-lo para comer alguma coisa e brincar em frente ao café, que tinha uma ampla calçada. Tim até beliscou um cheesecake, mas o que ele queria mesmo era brincar. Comonão tinha problemas de criatividade, qualquer lugar era uma grande aventura. Marshal o observava circular de um lado para o outro com um balão azul na mão, fazendo pessoas sorrirem ao redor, enquanto bebericava vez e outra em seu copo. Estava bem. Aquela, sim, era uma excelente maneira de descansar a mente do tão fatigante trabalho da semana.
Marshal estava com a mente longe quando observou uma mulher de cabelos louros e ondulados, vestida com roupas de inverno, se agachar perto de Tim, em meio à multidão, e conversar com ele. Tim pareceu bem interessado no que ela dizia, porque até deixou o balão voar pelo ar, tão absorto que ficou. Marshal não achava que a mulher fosse ser uma ameaça, mas mesmo assim precisava saber o que estava acontecendo. Foi com muito pesar que se absteve do lugar que conseguira a muito custo no café e se dirigiu, por entre as pessoas, até onde seu filho estava.
– Fazendo amizade, filho? – Marshal disse em tom jovial.
Tim respondeu com um sorriso envergonhado.
– Ele é seu filho, então? – disse a mulher ao se levantar, mesmo sem tirar os olhos do garoto. – É um menino muito bonito e simpático. Como se chama?
– Tim. Parece legal, mas, na verdade, é um garoto terrível – Marshal brincou e fez com que a mulher risse.
– Não é nada. Me parece um garoto muito bom...
E só então a mulher olhou para Marshal.
Marshal quase não conseguiu conter todas as emoções que o preencheram com um turbilhão ao perceber que aquela estranha era, na verdade, Mila.
Mila, ao reconhecê-lo, o encarou com a mesma expressão espantada, mas havia um brilho a mais em seu olhar. Não demorou muito e Marshal pôde perceber que ela estava prestes a chorar.
– M-Marshal...?
Marshal não pediu permissão quando a puxou para um abraço que foi mais forte do que ele imaginava que seria – não só da sua parte, é claro, porque Mila parecia tão sedenta daquele toque quanto ele próprio estava. Permaneceram enlaçados por muito tempo, e Marshal sentia que não conseguiria jamais ter que se livrar daquilo.
Sentia os soluços de Mila em seu próprio peito e foi principalmente por causa disso que ele próprio começou a chorar, embora tentasse fazer isso da maneira mais discreta possível. Mila o apertou com mais força. Era uma mulher que não conseguia conter de jeito nenhum as emoções que sentia, então estava verdadeiramente aos prantos. Marshal procurou abraçá-la com ainda mais força e foi então que perdeu as estribeiras, apertando bem os olhos para evitar que tantas lágrimas corressem por suas faces. Tim observava aquilo sem entender.
– Você está viva – Marshal sussurrou ao pé do ouvido de Mila. – Isso é um milagre!
– V-Você foi forte naquele dia, Marshal, é por isso que estamos aqui! E-Eu devo minha vida a você...
– Eu não teria feito nada disso se você não tivesse sido tão importante pra mim...
Se desprenderam do abraço e fitaram um ao outro com aquelas expressão tão chorosas, mas ao mesmo tempo tão contentes.
– Onde esteve todo esse tempo? – Marshal perguntou, ainda com as mãos nos ombros de Mila.
– Por aí. Eu nunca deixei a minha casa, no final das contas...
Marshal sorriu e foi contagiada por ele que Mila sorriu também.
– Está indo a algum lugar? Algum compromisso? – ele perguntou.
– Que compromisso teria alguma importância depois disso aqui?
Marshal observou-a por mais algum tempo enquanto ela tentava limpar as lágrimas dos próprios olhos. Então, abraçou-a com um braço e guiou-a para a mesa do café que, por um milagre, ainda não tinha sido ocupada. Sentaram-se e cada um pediu sua bebida.
Tim continuou a brincar na calçada, sem entender muito bem o que acabava de acontecer.
Mila e Marshal conversaram por horas a fio, contaram novidades, narraram os momentos que se sucederam à volta de Silent Hill, atentando principalmente aos detalhes bons. Quando o sol do meio dia deixou aquele dia quente demais, eles perceberam que teriam que ir embora, e foi então que se levantaram para partir.
Mas sentiam que poderiam estender aquele momento por muito mais tempo.
E estenderam.
Por tanto tempo que se podia inclusive afirmar que viveram felizes para sempre.
Notas finais
~Como já é costume~, vou reservar esse espaço para falar um pouco sobre a história e agradecer um pessoal aí... rs
A Kill For A Kill nasceu quando comprei Silent Hill Downpour, que é um jogo que estou gostando muito. Mas esse não foi bem o meu primeiro contato com Silent Hill... Antes disso, eu já tinha terminado o Silent Hill 4 - The Room e, meus amigos!, ali está um jogo que eu senti medo rs Acho o filme que foi lançado muito legal também [se ainda não assistiu, assista!]. E foi baseada nessas três histórias que A Kill For A Kill nasceu.
E por que "Uma Morte Para Uma Morte" como título? Imagino que vocês devam saber por quê... O final da história estava planejado desde o comecinho, então já no título eu dei uma dica de quais seriam os "objetivos" da história rs.
Espero que vocês tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever, porque tá aí uma fic que me divertiu, viu? Era legal esperar e finalmente chegar o dia de escrevê-la! Creio que ela ficou boa, embora não perfeita, mas até aí a opinião da qualidade da história tem que partir de vocês, né...
Agora vamos aos...
~AGRADECIMENTOS~
Antes de QUALQUER COISA, um agradecimento pra lá de especial para a Duplicata Petrova que, com seus comentários, me motivou a seguir em frente com a história, sempre procurando capítulos melhores. Você foi importante, mocinha! o/ Um obrigado também ao Paulinho, que escreveu uma excelente fic de Silent Hill, que eu li, e que leu alguns capítulos da minha, também me dando umas dicas nos reviews pra que eu ficasse esperto no fandom rs
Obrigado também à Mina do Harry que, apesar de não ter comentado mais, foi aquela que me deu o gatilho necessário pra acreditar que escrever essa história seria legal e que geraria comentários. Foi um comentário simples, mas que, pra mim, foi importante.
E obrigado a Laraaqua0 que, apesar de não ter comentado a história, a favoritou, então imagino que vá ler em algum momento - isso se já não estiver lendo rs :]
E é isso aí, galera. Pode ser que eu não poste mais fics por algum tempinho por aqui, mas jamais deixarei de escrever novas histórias! Até mais e obrigado por tudo o/
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