Notas iniciais
Olá! Além de O Mundo, teremos ainda o epílogo de A Jornada do Louco. É lá que me despeço por ora. Aproveitem o capítulo de hoje!

O som da taça estilhaçando no chão demora a atingir meus ouvidos, e cada movimento ao meu redor parece acontecer em câmera lenta. O par de olhos verdes cruzam com os meus e o rosto magro comprime os lábios de imediato, meu irmão alcança uma vassoura encostada no fundo do compartimento e começa a varrer os cacos de vidro aos meus pés, ignorando minha expressão de horror.


Eu sabia que em algum momento acabaria cruzando com Argie, especialmente porquê fui eu que o condenei à punição de servir a Capital, mas o estado em que ele se encontra é diferente de todos os outros avoxes que já vi: Ele está ainda mais magro do que já era, o rosto quase cadavérico saltando seus olhos e seus cabelos antes rebeldes foram raspados quase que totalmente. A cicatriz esbranquiçada que atravessa seu rosto deforma a sobrancelha direita e sua pele tem uma tonalidade amarelada.


Argentum mais parece um cadáver do que uma pessoa.


— Argie.. — Começo a falar, mas ele se afasta com os cacos de vidro recolhidos em uma pá. Laurel coloca as mãos em meu ombro, quase me arrancando da mesa.


— Vamos, Aurum. Vou pedir que seu jantar seja levado em seu quarto. — Ela começa a me conduzir, mas me solto de suas mãos com um empurrão.


— Argie, o que eles estão fazendo com você? — Corro em direção ao compartimento em que meu irmão entrou, ele ignora meus chamados enquanto descarta os cacos de vidro.


— Você vai prejudicar ele. — Laurel volta a me puxar com impaciência, suas mãos trêmulas seguram meu braço com firmeza. — Anda logo!


— Eu sinto muito, Argie! — Grito desesperado, as lágrimas escorrendo em meu rosto. — Eu não sabia que você estava sendo tratado assim!


Argentum sai do compartimento em disparada, sua boca se mexe sem emitir palavras e todo o som que sai são guinchos animalescos. Um outro avox sai do mesmo compartimento com um cassetete e acerta meu irmão nas costas, e ele cai de joelhos.


— Não bate nele, a culpa é minha! Eu falei com ele! — Estou prestes a chegar em meu irmão quando uma jovem com roupas idênticas a ele sai em disparada da cozinha. Ela ergue uma frigideira e tenho poucos segundos para processar tudo antes de ficar tudo escuro.


Quando desperto, estou deitado em um divã com duas figuras em cima de mim. Sinto a maciez do pincel de maquiagem afofar meu rosto e as mãos habilidosas de Atticus desembaraçando meu cabelo. Minha equipe de preparação está me produzindo para a penúltima parada da turnê da vitória: O jantar da Capital.


— Ainda bem que você acordou, podia jurar que a garota te matou! — Grita Venus com sua voz estridente.


— Você é tão burra! — Atticus dá um tapa no ombro de Venus, que lança um olhar ofendido. — Ela é raquítica demais para matar ele. Só deixou um galo grande, e deve ter queimado uns neurônios.


Tento me levantar do divã mas percebo que estou amarrado pelo peito. Olho meus preparadores com todo o ódio contido em minhas pupilas e eles entendem o recado, se afastando ligeiramente de mim.


— Não vamos te soltar, ordens diretas. — Diz Atticus.


— Como não? Ordens de quem?


— Da assassina do seu distrito. Ela disse que tem uma foice na bolsa. — Guincha Venus, se aproximando apenas para dar um último toque com o pincel na minha bochecha.


— Chamem logo a Laurel, se eu me soltar daqui vai ser pior pra vocês.


Eles saem apressados da sala enquanto tento me soltar das amarras, Laurel aparece um tempo depois no batente da porta, com sua habitual xícara de café.


— Me amarrar? Sério?


— Você infringiu as regras duas vezes. Você não fala com os avox, qual parte disso você não entendeu? — Ela bufa irritada. Seus dedos percorrem a alça da xícara sem que ela tome nenhum gole. — Eu sinto muito pela situação com seu irmão, todos nós sentimos. Mas você vai respirar fundo, colocar o terno que Nefertiti enviou e vai para a comemoração no palácio presidencial garantir que o Presidente Snow está feliz, entendeu?


— Eu quero que o presidente Snow se foda.


Ela se aproxima de mim rapidamente, sua mão segurando meu queixo com força.


— Escuta aqui, todo mundo tem relevado seu mau humor, sua bebedeira descontrolada e o vício por cigarro que fingimos não notar. Tem meses que você fica nessa autopiedade. — Arregalo meus olhos para ela, sentindo seus dedos me pressionando. — Saiba que você continua na mira do Presidente. E se você sair da linha, ele vai mirar na sua família, e consequentemente mirar no meu filho. E se acontecer alguma coisa com Garret porque você não controla essa sua língua, eu vou acabar com você. Estamos entendidos?


Faço que sim com a cabeça. Ela sorri para mim e solta o fecho de trás do divã que me prende a cadeira.


— Ótimo, querido. Agora vá colocar seu terno, chegaremos em vinte minutos.


Os portões do Palácio Presidencial são tão longos que não consigo determinar onde começa e onde termina o quintal da construção. O palácio é construído todo em mármore carrara, com adornos dourados e abóbadas de telhas barrocas, é facilmente a construção mais exuberante e mais cara que já vi na vida. O grandioso jardim conta com árvores frutíferas com folhagens marrons, típicas do outono, e alguns arbustos da estação estão carregados de pequenas frutinhas arredondadas, e rosas artificiais decoram toda a extensão até a porta de entrada do prédio. Quando desço do carro, sou recebido por uma multidão de cidadãos da Capital eufóricos com minha presença, é necessário uma comitiva de pacificadores para me escoltar até a grande porta de madeira onde Faustina me espera.


— Bom te ver, Aurum. Como tem passado?


— Já estive melhor. Mas não tão bonito quanto hoje, não é? — Sorrio para ela e ela confirma com a cabeça. Sabina vem logo atrás de mim, acenando para a multidão e mandando beijos.


— Já sabe o que fazer, lindinho. Peito estufado, cabeça erguida, acenos gloriosos. — Ela eleva meu queixo com a ponta do dedo e depois sinaliza com a mão para que eu ande. — Desfile pela glória, todos estão te esperando.


E estão mesmo. Uma multidão de ricaços espalhafatosos formam duas filas nas extremidades do tapete vermelho e acenam para mim, eufóricos. Mulheres com perucas enormes e homens com modificações corporais bizarras atiram flores coloridas enquanto eu passo, e quando chego á porta que concede acesso ao jardim interno, fogos de artifício disparam pelo céu.


— Senhoras e senhores, aí vem ele. Com vocês, Aurum Monier! — Ouço a voz de Ceasar através dos alto-falantes escondidos pela construção, e na parte interna do jardim é possível observar as diversas mesas douradas espalhadas pela grama.


Em um púlpito suspenso, o Presidente Snow saúda minha chegada com uma taça de vinho. Diferente das outras ocasiões, hoje seu terno brilha em dourado, com uma grande rosa amarela em sua lapela.


— Boa noite, Panem! É uma honra receber o vitorioso da 63º Edição dos Jogos Vorazes. — A multidão aplaude, e sou convidado a caminhar até a ponta do palco, onde um trono dourado me aguarda. — Sente-se, Aurum Monier. Desfrute da generosidade da Capital e sinta-se em casa. A partir de hoje, você é como um de nós.


Como se fosse da família, ironizo mentalmente. Passo as próximas duas horas posando para fotos com meus fãs, se assim posso chamá-los, e conversando amenidades com pessoas que nunca vi na vida, mas forçam uma intimidade que lhes falta. Um homem calvo com bigodes pontudos e dourados me conta da filha pequena que tem um pôster meu na parede, uma mulher de pele violeta com seios avantajados me convida para conhecer sua casa, duas irmãs gêmeas gravam vídeos me dando chocolates na boca e um jovem garoto é incentivado pelos pais a me chamar para um encontro. Nada disso me impacta até a chegada de uma senhora de idade avançada, suas roupas são simples e o vestido de veludo verde-musgo destoa dos excêntricos convidados, eu diria que ela é até normal para os padrões da Capital.


— Boa noite, linda senhora. — Cumprimento a mulher com um beijo em sua mão, e ela me dá um sorriso banguela.


— Oi, Aurum. É um prazer conhecê-lo, peço desculpas pela algazarra que os cidadãos daqui tem feito desde que você chegou.


Ela parece estar sendo sincera, um avox corre para trazer uma cadeira adornada para que ela se sente, e ela o agradece com um aceno.


— É uma honra, acho que nunca tive tanta atenção na vida. — Ela ri do meu comentário, e se ajeita corcunda na cadeira.


— Sei que no fundo, você deve ter uma imagem distorcida da Capital, e eu não culparia você por isso, jovem. — Ela levanta a mão enrugada e o mesmo avox se apressa em trazer-lhe uma taça com vinho. — Mas gostaria que soubesse que nem todos aqui aprovam os métodos.


Ergo a sobrancelha para ela e vejo um sorriso de canto em seus lábios finos.


— É um alívio ouvir isto, madame.


— Não podemos verbalizar isso, claro. Mas um pássaro com as asas cortadas ainda pode cantar, não é? — Ela pisca para mim, e um homem loiro caminha em nossa direção segurando um objeto retangular coberto por um pano verde-musgo.


— Aqui, mamãe. — Ele entrega o objeto coberto para a mulher e sorri para mim. — Boa noite, senhor Monier.


— Boa noite. — Devolvo o cumprimento enquanto ele se afasta de nós.


— Fiz algo para você, Aurum. Um lembrete de que até mesmo no escuro, a esperança pode brotar como flores em um jardim.


Ela me entrega o embrulho e retira o pano que oculta o objeto: Um quadro médio, com uma pintura á óleo retratando um salão com poltronas vermelhas e mesas com frutas, e estou sentado na poltrona central com um enorme sorriso no rosto. Ao meu lado, a figura de Carter sorri segurando um enorme bolo de aniversário, e sentadas no chão identifico Cassie com um ganso de penugem branca e Rupi segurando uma taça de vinho, ambas sorridentes. Parecemos apenas bons amigos desfrutando de uma tarde agradável, longe dos horrores da arena e do luto causado pelos jogos.


— É lindo. Obrigado. — Sinto as lágrimas acumulando no canto dos olhos e a mão enrugada da mulher segura meu braço com delicadeza.


— Espero que viva uma vida feliz, jovem. Existe beleza para além dos jogos.


Ela levanta com dificuldade, estala um beijo em meu rosto e caminha vagarosa ao encontro de seu filho. Observo a pintura por algum tempo, absorvendo cada detalhe das pinceladas delicadas, e agradeço silenciosamente á senhorinha que assina o quadro: Marise Heavensbee.


O banquete se inicia pontualmente às dez da noite, e pela primeira vez em dias vejo uma imensidão de pratos diferentes, de caldos coloridos á proteínas decoradas com ouro. Alguns vencedores notáveis estão espalhados entre os convidados e conversam animadamente: Vejo Enobaria sendo cortejada por dois homens excêntricos com ternos luminosos, Porter do 5 conversando com alguns patrocinadores sobre o período de recuperação de sua coluna na época de seus jogos, Chaff do 11 e Haymitch do 12 entornando garrafas de whisky em uma competição de goles e Cecelia exibindo sua barriga para alguns moradores anunciando sua gravidez.


— Está se divertindo, senhor Monier? — O Presidente Snow se materializa ao meu lado enquanto me sirvo com uma variedade de queijos na estação de frios.


— A Capital tem o melhor entretenimento de Panem, senhor presidente.


— De fato. Você foi bastante requisitado pelos moradores da Capital, precisamos aproveitar sua visibilidade ao máximo, não concorda? — Ele espeta um pedaço de queijo com um palito e leva aos lábios carnudos.


— Não poderia concordar mais.


— Então esteja ciente que aguardamos você no próximo ano. E no seguinte também. — Volto minha atenção ao homem, que me encara enquanto leva outro pedaço de queijo á boca. — Receio que Jomilee precise de férias. Sua imagem não é mais atrativa, agora que temos um novo favorito no distrito 9.


— Será uma honra, senhor.


— Transmita meus cumprimentos ao seu distrito, Aurum Monier. Nos veremos em breve para a 64º Edição.


Ao fim da noite, rodeado de figuras embriagadas e funcionários exaustos, decido que preciso respirar um pouco de ar puro e cambaleio entre a multidão até uma sacada no andar superior. De olhos fechados e respirando o ar frio da noite; não ouço a figura se aproximar atrás de mim.


— Péssimo lugar para se esconder. — Ceasar Flickerman debruça-se sobre o batente da varanda, apoiando sua taça alguns centímetros de distância.


— Precisava tomar um ar.


— Se afastar da multidão, você quis dizer.


— É, acho que sim. Não sou muito bom em fingir costume.


— Aí é que você se engana. Vocês do 9 tomam tanto sol na cabeça que vem com o cérebro iluminado para dizer exatamente o que o povo quer ouvir.


Ele retira uma carteira de cigarro do paletó, levando um aos lábios desprovidos de batom colorido.


— Quer um? — Ele oferece a carteira para mim, e tomo um dos cilindros entre os dedos, acendendo na chama do isqueiro espalhafatoso que ele carrega.


— Jamais imaginei que você usasse peruca. — Comento em voz alta, e ele solta uma risada.


— Sabe o estrago que é descolorir o cabelo para pintar? — Ele bafora a fumaça para cima, ainda rindo. — Claro que não sabe, você era pobre até uns dias atrás.


— Achei você mais simpático no palco.


— Posso lidar com isso.


— E vou ter que voltar aqui ano que vem. E no outro ano, e depois do outro. Você não se incomoda de entrevistar vinte e três jovens todos os anos pela última vez?


— Todo tributo que morre leva um pouco da Capital consigo. Nos apegamos a estes adolescentes, sofremos suas perdas, mas quando um tributo é consagrado campeão, mesmo que não fosse aquele por quem torcemos, somos preenchidos com a glória e ficamos felizes pela vida longa e próspera que ele terá.


— As vezes tenho vontade de levar essa multidão inteira para os distritos. Para verem o que eu vejo. Não há glória quando muitos morrem de fome.


— É ai que você se engana, Aurum. Não existe sociedade perfeita, alguns precisam chorar para que outros possam rir. Mas quando um de vocês, chorões, conquista a coroa de louros, outros como você se inspiram a mudar seus destinos. Quem você seria se continuasse anônimo? — Ceasar me pergunta, a brasa do cigarro ficando mais forte quando ele traga.


Jogo a xepa do cigarro para fora da varanda, e ele me oferece mais um. Acendo o cilindro e observo as árvores se estenderem pela escuridão da madrugada antes de responder.


— Iria aprender o ofício da família. Vender móveis de madeira, tomar cafés da manhã nas manhãs da colheita. Quem sabe conhecer o Garret no boticário ou na padaria do distrito. Eu não seria um assassino.


— E o distrito 9 não teria destaque neste ano. O distrito 1 teria vencido de novo e seu povo não teria o reforço alimentar que a vitória proporciona. Seria egoísmo da sua parte pensar assim, não é?


Encaro o apresentador dos jogos em silêncio por algum tempo. Me irrita profundamente o fato de que ele está sendo sincero, um tipo de honestidade torta que apenas uma pessoa coberta por privilégios desde a infância é capaz de manifestar.


— Você é um bom rapaz, Aurum. E só os dignos, os mais fortes, vencem os jogos. Não é sua culpa se os próximos tributos fracassarem, nem todos vão brilhar como você. — Ele dá um tapinha em meu ombro, e repousa a carteira de cigarro na mureta. — Pode ficar. Volte pro seu distrito, comemore com seu namorado e com seus pais. Você merece.


Quando ele vai embora, meu cérebro demora a processar os fatos ocorridos na última noite de comemorações, e odeio perceber que nem todas essas pessoas são más. Algumas são só estúpidas e superficiais, alienadas por um sistema que determina que os distritos são inferiores. Mas agora, eu fugi da tangente, sou oficialmente um vitorioso, estou mais próximo deles do que estou do meu distrito.


A volta para casa tem um sabor amargo que associo ao fato de ter fumado metade da carteira escondido no banheiro do vagão. No 9, haverá um banquete de comemoração e os primeiros reforços alimentícios serão distribuídos as famílias, bem como açúcar e doces festivos para as crianças. Por um momento, as famílias esquecerão o horror dos jogos para aproveitar o mínimo de dignidade proporcionada pelo assassinato de outras crianças, e precisarei acompanhar dois jovens todos os anos para televisionar suas mortes. Amanhã, voltarei para casa como um herói, e nos próximos anos, voltarei como um coveiro, arrastando caixões de crianças que não consegui salvar.


Na estação de trem, a figura de Garret me aguarda com um dois frascos de cristal, um com um líquido esverdeado e outro com um líquido azulado. Beijo seus lábios delicadamente e ele coloca os frascos na palma da minha mão, acariciando meu pulso com seus polegares.


— É um frasco de colônia de menta. Pra você lembrar de mim aqui, no trem ou na Capital. — Ele explica sobre o líquido esverdeado, enquanto caminhamos em direção a saída da estação. — Este outro é alecrim e cedro. Pra você ter seu próprio cheiro. Assim, eu vou ter seu cheiro comigo também.


Sorrio ao lembrar dos frascos de perfumes caros que recebi como presente após sair da arena. Todos os aromas acetinados, amadeirados e florais são ofuscados pela perfumaria artesanal do distrito 9. Estes dois perfumes que Garret me deu ocuparão lugar de destaque em minha estante.


— O que vamos fazer agora? — Pergunto á ele, observando o trem partir.


— Vamos tomar aquele café que combinamos. Conheço um cara que conhece um cara que tem café contrabandeado da Capital.


— Essa é sua ideia de um primeiro encontro?


— Só até a torre de cartas cair.


Sorrio para ele. Um dia a torre de cartas vai desabar, o rei de copas rodopiará em direção ao chão e os valetes estarão livres para ir embora. Os televisores vão exibir a derrocada, as execuções e o dia vai brilhar num céu azul lindo, áureo e sem fim. Sei que um dia, a tirania da Capital será extirpada pelas mãos dos distritos, quando perdermos o medo da aniquilação sofrida pelo 13 e decidirmos pegar em armas para lutar pela liberdade. Neste dia, enforcaremos Snow em praça pública e penduraremos a cabeça dos idealizadores em estacas em toda a extensão do palácio presidencial como forma de aviso. Mas este dia não vai ser hoje.


Hoje, vamos apenas tomar café.


Notas finais
Obrigado por ler até aqui. Um xero!