Notas iniciais
Olá! Que bom que chegou até aqui. No meio do luto, escrever a história de Aurum tem sido revigorante. Com o plus de que passei um fim de semana delicioso regado a comida mexicana caseiro com meu amor, escrevi esse capítulo com carinho.

Durante o jantar, evito anunciar que já tenho aliados previamente escolhidos na frente de todos. Erin parece seguir a mesma linha que eu, e se concentra em devorar uma pratada de assado de coelho com gengibre, nossos mentores dividem uma garrafa de champanhe com Sabina e discorrem sobre as colheitas assistidas por eles enquanto estávamos no treinamento, e Garret evita olhar para mim enquanto come rosbife com batatas.


— Como sempre, o distrito 1 e o 2 foram voluntários. — Laurel bebe o conteúdo da taça, degustando a bebida. — Alaric do 1 é sobrinho de um vitorioso e Sirena do 2 foi ovacionada pelos cidadãos da cidade.


— Eu tomaria cuidado com Velvet, do 1. Ela é pequena mas tem mais músculos que muito tributo parrudo. — Diz Jomilee, servindo-se de mais champanhe.


Sabina faz anotações em um bloco de notas enquanto bebe um líquido vermelho que assumo que seja vinho.


— Alguns distritos são mais perigosos que outros, os tributos do 7, Rupi e Sett, já tem idade para trabalhar nas madeireiras. Devem ter habilidades com machados. — Complementa Laurel. — E vocês, com quem interagiram hoje?


— Aquela maldita garota do 10, acho que se chama Briar, tentou me morder de novo. — Erin fala de boca cheia, sem se importar com o rosto horrorizado de Sabina. — Treinei espadas na mesma sessão que os garotos do 12, o menino foi terrível mas a garota parece levar jeito.


— E você, Aurum? — Laurel volta a atenção para mim enquanto repõe o líquido da taça.


Interrompo o sanduíche de pastrami que estou comendo e analiso cuidadosamente o que vou compartilhar.


— Liss e Volter do 5 estavam comigo na estação de armadilhas, são quietões e evitam interação. O rapaz do 11 e a garota do 7 aprenderam sobre unguento na sessão de primeiros socorros.


— O garoto se chama Aspen, ele pode dar trabalho para vocês, o 11 também sabe manusear foices. — Diz Jomilee.


— Vi ele conversando com os carreiristas. — Erin revela após finalizar seu prato. — Eles descartaram os tributos do 4 oficialmente.


Perfeito, então meus aliados realmente são párias para os carreiristas, o que significa que serão caçados na arena, assim como eu.


No fim o jantar, somos orientados a dormir cedo para recarregar as energias, Garret está com um colchão de ar instalado no canto da sala principal e sua mala se encontra aos pés de sua cama improvisada. Quando estou prestes a entrar no quarto, ele me intercepta.


— Posso me trocar no seu banheiro?


Dou de ombros, abrindo espaço para que ele entre primeiro e espero sentado na cama enquanto ele se troca. Existe uma tensão no ar que se intensificou desde nossa conversa no terraço noite passada, mas tento fingir normalidade quando ele sai do banheiro vestindo camisa e bermuda de cetim como pijama.


— Obrigado, Aurum.


— De nada, Garret. Boa noite.


Antes que ele saia do quarto, levanto da cama e caminho até ele, que me observa imóvel. Envolvo meus braços em seu corpo num abraço e sinto o característico cheiro de ervas, e ele me abraça de volta. Ficamos quase um minuto abraçados, e quando nos separamos, decido contar a ele sobre meus novos aliados.


Quando percebo, estamos sentados na cama discutindo as melhores estratégias para o segundo dia de treinamento. Ele acredita que é melhor evitar mostrar aos outros tributos que já tenho aliados, e me indica treinar armas que eu não tenha conhecimento, e me passa anotações que ele fez sobre as colheitas que assistiu com sua mãe.


— Sirena do 2 não foi só ovacionada, os carreiristas em treinamento repetiam um grito de guerra e até o tributo masculino pareceu intimidado. E Cassie foi sorteada na colheita, o irmão dela derrubou o garoto que ia se voluntariar e se ofereceu primeiro, tome cuidado com eles, família sempre vai vir em primeiro lugar. — Ele se certifica de que anotei tudo mentalmente e me faz mais algumas perguntas para ver se entendi tudo.


— E em uma análise preliminar, você acha que eu tenho chances? — Pergunto a ele quando Sabina bate na porta mandando dormirmos.


Ele para um segundo, reflete sobre o questionamento e me olha diretamente nos olhos.


— Você pode não ser um carreirista, mas dá de perceber que você tem lábia. Use isso ao seu favor, minha mãe tirou nove na avaliação individual só puxando o saco da Capital, na entrevista ela dançou com Ceasar e os patrocinadores compraram sua personalidade. As vezes, ser cara de pau vale ouro.


Sorrio com o trocadilho dele, e quando nos despedimos, vou beijar seu rosto e ele tem a mesma ideia, o que ocasiona em darmos um rápido selinho. Fico vermelho instantaneamente, enquanto ele está mais para um roxo de tão nervoso e sai do quarto tão rápido quanto entrou. Quando me deito para dormir, não consigo deixar de pensar na maciez dos seus lábios.


Na manhã seguinte, novamente as batidas de Sabina me deixam saber que eu já deveria estar pronto. Visto a muda de roupas que foi separada em meu guarda roupa e me dirijo para a sala de estar, onde Laurel já está me esperando.


— Bom dia Aurum. Erin já desceu para o treinamento, então caso queria compartilhar alguma coisa comigo, aproveite que estamos sozinhos. Café?


Ela me serve uma xícara do líquido preto e um dos funcionários silenciosos me entrega um prato com alguns bolinhos recheados com queijo.


— Os tributos do 4 vieram treinar comigo ontem. Eles já tinham me procurado no dia do desfile para elogiar meu traje.


Laurel abre um sorriso de canto.


— Cassie e Carter, os azarões. O que achou da interação com eles? — Ela pergunta enquanto devoro os bolinhos, que estão deliciosos.


— Inicialmente, uma tortura. Ela é animada demais e ele quieto demais. — Ela confirma com a cabeça enquanto falo. — Mas ontem na simulação de terreno, o último teste foi uma arena glacial. Eu travei durante a inundação e eles me salvaram, então meio que somos aliados agora.


O sorriso dela desaparece. Estou preparado para ouvir um sermão sobre como se aliar a eles é uma péssima ideia, mas esse discurso não vem.


— Eles podem ser pequenos, mas ainda são carreiristas. E se eles querem você, é porque enxergam potencial. — Ela coloca a mão sobre meus ombros delicadamente. — Em relação a arena glacial, isso te lembrou a Gemma, não é?


Engulo seco e desvio o olhar, uma nuvem negra imaginária pairando sobre minha cabeça.


— Todas as imagens daquela edição vieram na minha cabeça. Se ela mesmo não conseguiu, como eu conseguiria?


— Não fui mentora naquele ano, mas sei que Kasha tentou de tudo. Ela ficou arrasada durante meses, foi definhando aos poucos.


Kasha Shepherd foi a segunda vitoriosa do distrito 9, sua vitória aconteceu a mais de trinta anos. Ela serviu como mentora de Gemma e acabou falecendo meses depois daquela edição. Hoje temos apenas Laurel e Jomilee como vitoriosos vivos.


— Obrigado pelo consolo. Vou apostar que, diferente de Kasha, você vai conseguir me deixar vivo até o final.


Deixo a mesa irritado com a situação, quando entro no elevador, consigo ver a expressão que pena de espalhar pelo rosto de Laurel, e segundos depois o elevador está descendo para o centro de treinamento.


Hoje decidi que não quero passar o dia aprendendo unguentos ou armadilhas, preciso aprender pelo menos o básico das armas disponíveis nas estações. Quando chego no andar, todos os tributos já estão dispersos entre as estações, e noto que alguns deles me olham de canto enquanto caminho pelo espaço.


Quando Cassie me vê, ela acena para mim e vem ao meu encontro. Localizo Carter na estação de armadilhas e percebo que é a primeira vez que eles estão separados.


— Oi, Aurum. Vai treinar o que hoje?


— Alguma estação de armas. Cassie, nossa aliança está de pé, mas precisamos nos dispersar para que não fique evidente que estamos aliados. Isso vai atrair a atenção dos carreiristas. — Explico rapidamente para ela em tom de sussurro, seus olhos grandes me observando.


— Entendi. Vou avisar ao Carter, estamos pensando se chamamos mais alguém para o time.


— Amanhã, após o jantar e a divulgação das notas, me encontrem no terraço do prédio. Discutimos sobre isso lá! — Me despeço dela com um aceno de cabeça e saio tentando não chamar muita atenção.


A estação de lanças está vazia com exceção de Rupi, então decido aprender um pouco mais sobre esta arma. Particularmente, prefiro trabalhar com armas de médio e longo alcance, minha altura não me permite entrar em combate corpo-a-corpo de forma segura.


Reconheço a mulher que toma conta da estação como sendo uma vitoriosa do Distrito 2, mas ela é velha demais para que eu saiba seu nome ou qual edição ela venceu. Ela me olha de cima a baixo, indica onde estão as lanças e explica brevemente sobre.


— Lanças exigem postura. Você mantém os pés afastados na altura dos ombros e ergue a lança com uma das mãos na altura da orelha, não segure com as duas mãos.


Os bonecos de teste estão dispostos entre o espaço, escolho uma lança não tão pesada e me posiciono a uma distância de mais ou menos dez metros, sigo as instruções da mulher e atiro em direção ao alvo, mirando no meio do peito. A lança assovia rapidamente e se aloja na perna esquerda do boneco, o que faz a mulher soltar uma risada.


— Parabéns, 9. Se o adversário estivesse com um arco e flecha, você já estaria morto. — Ela desdenha, voltando sua atenção para Rupi.


Ela tem mais habilidade que eu, e seu lançamento se aloja na barriga do boneco. Escolho uma lança mais leve e me posiciono novamente, o alvo escolhido está um pouco mais longe, e repito o movimento aplicando um pouco mais de força no lançamento, desta vez obtenho mais sucesso e a lança se acerta o ponto onde estaria a clavícula do alvo.


— Belo lançamento, Aurum. — Rupi sorri para mim, enquanto alcança outra lança.


— Obrigado, Rupi. Você leva mais jeito que eu!


— O segredo é flexionar os joelhos — Ela faz o movimento para que eu veja, e quando replico, consigo atingir o estômago do boneco. — Viu só? Isso é consciência corporal.


Treinamos mais um pouco juntos e me despeço dela para explorar uma nova estação, analisando seu comportamento comigo. Ela não tem obrigação de ser simpática, então por quê me ensinou a usar a arma?


Me movimento até a sessão de zarabatanas, um instrumento de madeira que utiliza dardos como arma através do sopro. Esse tipo de arma não é tão comum na cornucópia, mas quando aparece sempre rende algumas mortes. Estou sozinho nessa sessão, e observo que o treino de espadas e machados tem feito mais sucesso entre meus colegas.


Quem cuida dessa sessão é um homem de pele escura e cabeça raspada, que fica surpreso quando me vê chegar.


— Olá, 9. Veio aprender uma arte milenar? — Ele me cumprimenta, apresentando os diferentes tipos de tubos disponíveis.


— Todo conhecimento é válido, não acha? — Respondo. Ele sorri para mim, toma uma das zarabatanas em mãos e apanha alguns dardos. Ele me mostra como inserir o dardo corretamente no instrumento e qual força aplicar ao sopro.


— O dardo por si só já causa dano, mas se você tiver veneno á sua disposição, vai aumentar o grau de letalidade.


Fico facilmente entretido nessa estação, e quando dou por mim, já estou mais de uma hora soprando dardos em bonecos a uma distância considerável. De repente, percebo uma figura baixinha ao meu lado iniciando o treino. É Briar, a garota do distrito 10 que mordeu Erin no desfile.


Ela acerta os dardos com certa facilidade nos alvos, não é perfeito mas causaria um problema para quem fosse atingido. Ela fica em silêncio durante grande parte do treino, e decido tentar ser cordial igual Rupi foi comigo.


— Belo lançamento, Briar. Você é boa nisso. — Sorrio para ela após seu dardo acertar o ombro de um dos bonecos.


Ela vira para mim e me encara fixamente com os olhos amendoados, ela abre um enorme sorriso e se aproxima de mim.


— Gostei de você. Vou comer seus olhos quando te matar. — Ela sussurra de uma forma assustadora para uma criança de treze anos, uma loucura viril contida naqueles olhos que não desviam o olhar dos meus.


Sorrio novamente para ela e dou como encerrado meu treino de dardos. No almoço, sento junto aos tributos do sete para conversar amenidades, como quem está apenas de passagem em uma viagem de férias. Rupi é simpática e seu companheiro de distrito, Sett, tem um comportamento paranoico e pode jurar que a arena será um deserto para impedir que o distrito sete tenha chances de ganhar.


Na parte da tarde, volto a treinar lanças e zarabatanas para reforçar meus aprendizados. Não tenho grandes evoluções com a lança, mas estou ficando bom com a zarabatana. Percebo que preciso aprimorar meu conhecimento sobre venenos, e quando me dirijo para a estação, encontro apenas a garota do doze obcecada por besouros luminescentes.


— São besouros-de-caixão, uma mutação criada pela Capital nos dias escuros. — Ela me explica sem tirar os olhos dos insetos. — As patas grudam na pele e injetam o veneno que ele carrega no abdômen. Precisa cortar a cabeça antes de pegar.


Ela corta a cabeça do besouro com uma faca e a luz que ele emite no abdômen de apaga. Ela abre o inseto com a faca e coleta o veneno avermelhado com a ponta do instrumento.


— Fascinante. Tem muitos destes no 12? — Pergunto a ela, o cheiro do veneno de besouro é adocicado.


— Não muitos. Temos muitos tordos, mas eles não são venenosos.


— E como você conhece tanto sobre besouro-de-caixão?


Ela sorri para mim, seus olhos anuviados mostra que ela viajou de volta para casa por um instante.


— Meu pai é boticário. Sabe tudo de venenos e antídotos.


Estendo a mão para ela quando ela repousa a faca sobre um papel.


— Sou Aurum, do distrito 9.


— Eu sou Elara. É um prazer. — Ela aperta minha mão, e percebo que o papel onde ela repousou a faca solta uma pequena fumaça onde o veneno encosta.