Notas iniciais
Olá! Eu juro que estamos quase na arena. Se você leu até aqui, pode esperar as entrevistas e o banquete que rolam no próximo capítulo. Divirta-se!

Meu sono é atormentado por besouros-de-caixão gigantes, que me perseguem em uma arena escura com suas patas enormes e sulfurosas. Quando um deles me alcança, sua enorme mandíbula arranca minha cabeça e acordo com a cama encharcada de suor, o relógio digital marcando cinco e cinquenta da manhã.


Hoje é dia das apresentações individuais, onde cada tributo tem cinco minutos para colocar em prática suas habilidades em frente aos patrocinadores. Em decorrência do banquete inédito de celebração aos jogos, este ano teremos as apresentações e a divulgação das notas no dia de hoje, as entrevistas amanhã no horário de almoço e durante a noite, banquete que sucede o banho de sangue. Como tenho minha agenda cheia nos próximos dias, decido que já é hora de me levantar para um novo dia.


— Acordou cedo hoje. — Laurel já está na poltrona que se tornou quase sua propriedade, com a mesma xícara de café em mãos.


— Não é todo dia que atiro facas para um bando de ricaços e sou avaliado por isso. — Me sento no sofá adjacente, onde tenho a visão de Garret encolhido entre as cobertas em um sono profundo no colchão inflável.


— Algo me diz que você vai se sair bem. Na minha apresentação, tentei atirar com um arco-e-flecha e não acertei nenhum alvo. — Ela conta enquanto adiciona cubos de açúcar em seu café.


— Laurel, você pode me contar como foram seus jogos? — Tomo cuidado ao escolher as palavras para não ser invasivo demais.


Ela olha através da janela calmamente, bebe seu café sem pressa e começa a falar ainda sem olhar pra mim.


— Eu recém tinha feito dezoito anos em março, achei que depois da colheita iria beber uma cerveja de milho para comemorar o fim dos jogos pra mim. Eu cresci colhendo trigo com meus irmãos, quando dei por mim estava na Capital. Kasha me orientou a usar a comunicação com os patrocinadores, e precisei dar em cima de homens e mulheres durante todo o tempo anterior à arena. — Ela para, respira fundo e continua. — Naquele ano a arena foi uma cidade em ruínas, só conseguíamos comida e água potável na Cornucópia. Fiquei escondida a maior parte do tempo, conversando com as câmeras e recebendo dádivas. Os carreiristas morreram depois que o aliado deles do distrito 3 envenenou a comida com pó de amianto, e no final de quase dez dias restaram apenas eu, a garota do 5 e a garota do 8. Fomos atacadas por lobos bestastes que empurraram a gente para o confronto, elas tentaram lutar com os lobos e foram destroçadas. Eu precisei usar uma foice para ceifar a vida delas enquanto elas gritavam de dor. E quando cheguei na Capital, tinha outros lobos me esperando.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Eu conhecia a história de Jomilee porque ele traiu todos os aliados e cortou suas gargantas enquanto dormiam, mas Laurel só tinha uma personalidade marcante para se apoiar. E vencer talvez tenha sido um erro, pois eu consigo entender rapidamente o que ela quer dizer com retribuir os favores.


— Eu sinto muito. — É tudo que consigo dizer.


— Não sinta. Eu conheci o amor aqui na Capital, e depois veio Garret. É possível encontrar felicidade depois dos jogos, você vai ver.


A forma que ela fala carrega a convicção de que voltarei vivo para casa, e decido usar isso como uma motivação para continuar acreditando. Quando o relógio bate oito horas, troco de roupa e desço até o centro de treinamento junto a Erin, para dar início as apresentações individuais.


Cada tributo tem cinco minutos para realizar uma apresentação de competências para os patrocinadores, sem critério básico do que será apresentado. Entre as apresentações, existe um intervalo também de cinco minutos para os funcionários limparem a sala para que os tributos não sabiam o que seu concorrente fez. Como somos em vinte e quatro, o tempo total das apresentações é de quatro horas, de modo que o doze seja o último a se apresentar.


No andar, é a primeira vez que vejo os carreiristas de perto, já que nos primeiros dias escolhi manter uma distância segura para não ser notado. O distrito um é intimidador por si só, estão bem alimentados e não parecem atormentados por pesadelos, mas quem se destaca é Sirena, ela é um pouco mais alta que eu e seus braços são bem definidos, seu rosto de fuinha revela uma feição de nojo e sua postura imprime superioridade. O garoto do dois é muito alto, mas fica nítido que ele é desengonçado por isso.


Meus aliados do quatro estão reunidos no banco designado a eles, trocamos olhares rápidos e levantadas de sobrancelha para indicar que nos vimos e temos um compromisso marcado durante a noite, e Briar do dez está ocupada infernizando o garoto do seu distrito que parece genuinamente com medo. Um a um, os tributos começam a ser chamados para suas apresentações.


Aos poucos, a sala barulhenta vai ficando silenciosa, os tributos são dispensados e saem por outra porta quando terminam suas apresentações. Durante a apresentação do garoto do oito, aproveito para puxar assunto com Erin.


— Boa sorte na apresentação. Está nervosa?


— Cuida da sua vida, Aurum. Não preciso da sua sorte. — Ela retruca, cuspindo as palavras.


— Só estou dizendo que prefiro que você vá bem, como não podem ter dois vencedores, se eu não vencer, prefiro que seja você.


Ela me encara por um minuto antes de voltar a falar.


— Eu não quero me aliar com você. Mas me comprometo a não te matar na arena, e você não me mata. Que o melhor vença. Fechado?


Estendo a mão para ela para selarmos nosso pacto.


— Fechado!


Erin entra para sua apresentação e fico sozinho com o restante dos tributos. Elara acena para mim e retribuo seu aceno, e Briar olha para mim apenas para fazer um gesto com os dedos passando ao redor do pescoço, com significado claro de vou te matar, e gargalha descontroladamente. Após alguns minutos, meu nome soa nos autofalantes e caminho em direção a porta recém aberta do salão de apresentações.


Os patrocinadores em sua maioria são esquisitões endinheirados, com suas roupas chamativas e chapéus engraçados. Eles degustam uma mesa entupida de comida e bebem descontroladamente, alguns estão claramente bêbados, outros prestam atenção em cada movimento feito por quem está aqui embaixo. Percebo que não calculei bem o que faria, então decido atirar facas e soprar alguns dardos, mas não sem antes chamar a atenção deles.


— Senhoras e senhores, muito bom dia! Eu me chamo Aurum Monier, represento o distrito 9 como tributo masculino e hoje estou aqui para demonstrar minhas habilidades. — Sorrio teatralmente para eles, e percebo que grande parte dos patrocinadores voltam sua atenção pra mim.


— Bom dia, Aurum. Fique a vontade. — Faustina sorri para mim e indica a estação de armas, onde pego primeiro a zarabatana e alguns dardos.


— Esta arma milenar aqui eu me dediquei quase um dia inteiro a aprender a usar, ela não é tão comum nos jogos mas sempre rende boas mortes. Observem!


Sopro a zarabatana em um dos bonecos e o dardo se aloja entre o ombro e o pescoço. Alguns riem incrédulos, e preciso recuperar sua atenção.


— Notem que eu não disse que era bom. — Eles riem ainda mais. — Mas esse dardo causaria um desconforto danado no tributo, e se estivesse com um veneno de besouro-de-caixão, em poucos minutos ele estaria morto.


Sopro novamente a zarabatana e desta vez acerto o tórax do boneco, e percebo que os patricinadores se empertigam nas cadeiras para observar. Vou até a estação de armas e pego algumas facas de arremesso.


— E agora, demonstro a vocês minhas habilidades com as facas de arremesso. Essas belezuras são letais nas mãos dos carreiristas, e também são nas mãos do papai aqui.


Ouço um dos patrocinadores assoviar e atiro no primeiro boneco. A faca se aloja em seu estômago, no segundo boneco a faca crava em seu peito e no terceiro boneco, na cabeça. Como eu disse, conheço um pouco de arremesso de facas e alvos imóveis são fáceis de acertar, mas admito que foi a sorte que me fez acertar os golpes. Respiro aliviado quando ouço alguns aplausos vindos lá de cima.


— Obrigado pela sua apresentação, Aurum. — Agradece Faustina, erguendo a taça de champanhe para mim em saudação.


— Eu que agradeço a atenção de todos. Além de ser um promissor tributo, também canto e sei dar cambalhotas. Mais que um vitorioso, sou um ferrenho entusiasta da Capital, e quem sabe um dia não estarei sentado com vocês aí em cima? — Pisco para eles e dou as costas, orgulhoso de mim mesmo pela bajulação barata que claramente deu certo.


Durante a tarde, aproveito para treinar com Laurel perguntas mais comuns feitas por Ceasar Flickerman durante as entrevistas. Minha mentora, que se mostrou tão serena desde a colheita, se transforma em uma persona extremamente carismática quando começamos a simular algumas perguntas onde eu sou o apresentador e ela o tributo entrevistado.


— Então, senhorita Flamsteed. — Emposto a voz e faço minha melhor imitação de Ceasar. — Qual sua estratégia nos jogos?


— Ah, Ceasar, se eu te contasse precisaria te matar também! Imagina, eu toda lambuzada de sangue nesse vestido lindo? — Ela passa a mão pelos cabelos e pelo vestido imaginário. — Não seria um bom show?


— Eu acho que precisam mandar esse vestido junto com você para a arena. — Solto a gargalhada característica do apresentador que faz Laurel sair do personagem por alguns instantes, rindo da minha performance.


— Aurum, você é impagável. A Capital adora tributos com personalidade, aproveite esse senso de humor para brincar com Ceasar. Ele não entende ironia e sarcasmo, o que faz com que ele seja conquistado muito facilmente por tributos afiados que nem você. — Ela me serve uma xícara de chá. — Me conta como foi sua apresentação individual, soube que Erin usou duas foices na apresentação dela.


— Dei uma de Ceasar. Falei coisas como “senhoras e senhores, vejam eu atirar esta faca no peito de um tributo falso” e eles ficaram prestando atenção. — Bebo o chá quando Laurel dá uma gargalhada. — Usei a zarabatana e acertei no pescoço de um boneco, e as facas acertei na cabeça, peito e barriga.


Ela bate palminhas animada.


— Eu esperaria pelo menos um seis, só pela sua ousadia. Vamos descobrir ao anoitecer!


— E o Garret? — Me dou conta que não o vi hoje após o treinamento.


— O presidente Snow orientou que todos os convidados fossem levados ao shopping para escolher seus trajes da entrevista e do banquete. Esse ano vai ter um verdadeiro show.



Faltam apenas alguns minutos para o anúncio das notas quando Garret retorna para o centro de treinamento. Ele carrega quatro sacolas grandes que mal cabem nos seus braços e respira ofegante devido ao peso das roupas.


— Dia cheio? — Sorrio enquanto ele solta as sacolas sobre o sofá, sentando-se em seguida.


— Você não faz ideia. Nefertiti fez eu provar pelo menos quinze combinações de roupas diferentes, e ainda comprou um perfume que vai ficar na minha pele por semanas! — Ele desabafa, afundando no sofá.


— Não é todo dia que o distrito 9 tem chance de cheirar como um morador da Capital, não é? — Sirvo um copo de água ionizada para ele, imaginando qual a diferença desta água para qualquer outra e por quê os moradores da Capital se orgulham tanto dela.


— Prefiro minha essência de menta com capim limão, obrigado.


Menta e capim limão. Fico feliz ao descobrir o cheiro de Garret, e tomo como nota mental que se voltar vivo para o nove, quero comprar um frasco para perfumar minhas roupas.


— Venham todos! A divulgação das notas já vai começar! — Sabina atravessa o elevador gritando a plenos pulmões, sintonizando na emissora oficial da Capital.


Todos saem de seus quartos eufóricos, se empilhando no sofá com os olhos bem abertos. Ceasar Flickerman aparece na tela com o cabelo alaranjado é um terno da mesma cor, com a vinheta dos jogos piscando freneticamente.


— Cidadãos de Panem, neste dia os tributos da 63º Edição foram agraciados com a chance de mostrar seu talento para os idealizadores e patrocinadores dos jogos. — Sua voz tipicamente animada ressonando pelos microfones. — E seu talento falou por eles! Acompanhem agora a divulgação das notas individuais.


Uma gravação com o rosto de cada tributo aparece na tela, com a nota piscando abaixo dele quando Ceasar anuncia seu nome e a nota atribuída. O distrito um e dois começam com notas entre 8 e 10, o que não é realmente surpreendente. Sirena se destaca como a única carreirista a atingir nota 10.


Fico surpreso quando as notas de Cassie e Carter piscam na tela, e consigo entender o que Laurel quis dizer que mesmo sendo pequenos eles ainda são carreiristas. Cassie tira uma nota 9, e Carter tira nota 8. O restante dos tributos atingem notas que variam de 2 a 9, sendo os tributos do distrito três e seis com as menores notas.


Quando anunciam o nome de Erin, uma nota 9 em dourado pisca abaixo de seu nome, e todos no andar aplaudem.


— Essa é a minha garota! Uma concorrente à altura dos carreiristas! — Grita Jomilee, dando um soquinho no braço de Erin. Ela abre um enorme sorriso e estufa o peito, um ar de confiança tomando seu semblante.


— Do distrito 9, Aurum Monier. — Anuncia Ceasar Flickerman.


Prendo a respiração por alguns segundos enquanto espero a nota piscar na tela, pensando comigo se minha performance foi suficiente para me garantir um 6. A cor dourada brilha abaixo do meu rosto estampando uma bela nota 8.


— Isso! — Garret grita em êxtase, envolvendo os braços no meu pescoço com muita força. — Oito! Você tirou oito!


— Eu sabia que eles iam gostar de você, Aurum. — Laurel me abraça junto a Garret, e me vejo preso em um sanduíche de afeto sem saber muito bem como reagir. Oito, por atirar facas medianamente e fazer uma apresentação teatral para os idealizadores. Sinto uma euforia crescer no meu peito e pela primeira vez, começo a acreditar que tenho chances de sobreviver aos jogos.


— Olha só, não é só o distrito 9 que surpreendeu esse ano. — Jomilee aponta para a tela quando aparece a imagem de Briar do distrito dez. O tributo feminino mais jovem da edição consegue uma valorosa nota 8.


— O que será que ela fez? — Acabo perguntando em voz alta.


— Mastigou as bolas de algum idealizador, pode apostar. — Responde Erin, quase que automaticamente.


Meus olhos cruzam com os dela assim que as palavras saem de sua boca, e começamos a rir desesperadamente da constatação. Todos os presentes nos olham confusos, mas a piada interna entre eu e minha colega tributo é o primeiro ponto de conexão genuína que temos, e não conseguimos parar de rir por um bom tempo.


Depois do jantar, me esgueiro para fora da mesa e comunico Garret sobre a reunião secreta que terei com meus aliados.


— Ei, Gary. Estou indo no terraço, vou firmar aliança com Cassie e Carter e discutir como foram os treinamentos. Pode me dar cobertura.


— Deixa comigo, vai lá. Aurum? — Estou de saída quando ele me chama, a sobrancelha levantada em curiosidade. — Gary? Sério?


Sorrio de canto e mando um beijo para ele, embarcando no elevador enquanto o restante da minha equipe está distraída com o melhor ano que o distrito 9 tem nos jogos em muito tempo.


Quando chego no décimo quarto andar, Cassie e Carter me aguardam na mesma mesa em que me sentei dias atrás com Garret. Eles conversam distraídos entre si, e é a primeira vez que vejo Carter sorrir em todo esse tempo. Quando me veem, ela acena para mim e me convida a se juntar a eles.


— Oi, Aurum. Se divertiu muito longe da gente? — Pergunta ela com um sorriso travesso.


— Tirando a ameaça de morte que recebi da garota do 10, foi pura diversão.


— Você também foi ameaçado? Ela disse que vai decepar meus pés que nem um coelho. — Revela Carter enquanto analisa o mesmo visco que pende ao lado da cadeira.


— Pelo menos vocês foram ameaçados pela doidinha do 10, Sirena veio me dizer que estamos na mira dos carreiristas. — Conta Cassie, desanimada. — E acabei esbarrando com Velvet do 1, ela me olhou com puro ódio.


— Socializei com Rupi e Elara. Elas são legais. — Conto a eles.


— Senna do 8 deu em cima de mim, foi bizarro. — É a vez de Carter falar sobre suas interações.


— O garoto do três me mostrou o dedo do meio e peidou do meu lado. — Finaliza Cassie, o resto incrédulo ao se lembrar da cena.


Nos entreolharmos e começamos a rir até a barriga doer com a situação degradante que nos encontramos.


— O mais engraçado é que vocês são carreiristas. — Rio ainda mais com a constatação.


— E nos aliamos com um pirralho do 9. — Carter ri tão alto que meus ouvidos doem.


— E os dois tributos do 9 são aliados de carreiristas! — Cassie ri junto, mas eu e Carter paramos imediatamente.


Olho fixamente para Cassie e ela para de rir também. Seus olhos denunciando uma informação que nem eu e aparentemente nem Carter estávamos cientes.


— Erin pediu para se aliar com vocês? — Ergo a sobrancelha em total descrença.


— Não. Eu vi ela conversando com Sirena. Ouvi quando ela convidou Erin para o bando de carreiristas.


Notas finais
E.. Fim do capítulo de hoje! Quem gostou bate palma, quem não gostou paciência! Meio xero.