Notas iniciais
Olá! Só mais esse capítulo e chegamos na arena, prometo. Esse capítulo é um divisor de águas, existe um Aurum antes e um depois do Capítulo 10. Aproveitem.

Minha mãe diz que nenhuma experiência é individual. Mas estar desde ás seis da manhã em pé em um pedestal sem poder me mexer, com uma estilista dos Jogos Vorazes costurando um terno sobre meu corpo, a equipe de preparação designada a mim enfeitando meu cabelo com pedrarias douradas e o filho da minha mentora — que também é meu paquera — lendo em voz alta uma matéria publicada em um jornal da Capital sobre “Os dez bestantes mais comuns na arena” me soa perfeitamente uma experiência individual.


Em pouco mais de duas horas, os tributos serão chamados em um grande palco, com equipamentos tecnológicos de ponta e poltronas que mais parecem tronos para uma entrevista rápida com o apresentador oficial dos jogos. É o momento de se vender como a melhor aposta para vencer os jogos, é isso envolve se destacar com um figurino especial.


— Em sexto lugar: A mantícore, um cão geneticamente modificado com cauda de escorpião. — Garret está concentrado em sua leitura. — Sua mordida é capaz de partir ao meio e o ferrão mata sua presa em segundos.


— Eu adoro esse bastante! — Guincha Vênus, aplicando as pedras sobre meus cachos. — Tinha um desses na arena de Woof!


— O meu favorito é o polvo com dentes, que apareceu na edição que Mags venceu! — Decreta Atticus, seus dedos ágeis começam a encrustar brilhantes sobre minha pele.


— Você não era nem nascido, garoto! — Rebate minha estilista.


— Minha alma é vintage, eu adoro assistir as edições antigas!


A informação de que a Capital pode assistir edições anteriores me embrulha o estômago, não satisfeitos em assassinar crianças ao vivo, essas pessoas ainda assistem gravações antigas como forma de entretenimento. Eles continuam discutindo sobre bestantes e edições memoráveis, enquanto escolho me perder em pensamentos para ignorar as informações compartilhadas. Penso em meus pais, hoje poderei vê-los no banquete comemorativo, poderei perguntar a eles se estão sendo bem tratados, se ficaram felizes com minha nota, o que acharam do desfile, se acreditam que vou voltar para casa. Argie estará lá também, espero que não mais se remoendo em culpa, e vou dizer a ele que eu o perdoo. Não posso correr o risco de morrer sem dizer a ele que o amo.


— Estamos prontos! Vamos para o estúdio. Temos uma entrevista para dominar. — Anuncia Nefertiti, arrastando todos nós para o enorme elevador que nos levará até o décimo terceiro andar.



O palco das entrevistas é o mesmo de sempre, com um chão de madeira lustrada e enormes telões no lado direito e esquerdo. Á direita, o telão transmite o rosto de Ceasar Flickerman, e á esquerda o rosto do tributo entrevistado. Existem duas grandes poltronas em formado de trono, com o estofado em vermelho vivo, é uma mesa que contém copos e jarras de água.


As entrevistas acontecem em ordem crescente, e cada tributo se promove da forma que ensaiou com seus mentores. As entrevistas do distrito um rendem aplausos demorados da plateia, Velvet conta uma história de superação sobre como seus pais saíram da pobreza e se tornaram uma das famílias mais ricas do distrito, e Alaric menciona como ser sobrinho de um vitorioso lhe garante vantagem sobre os outros tributos. Quando Sirena chega no palco, um coro de assovios ecoa pela plateia cheia e ela agradece com uma reverência.


— Sirena Fergustone, você foi a única nota 10 entre todos os tributos. Como você se sente? — Pergunta Ceasar.


— Adorável. E convenhamos, Ceasar, com esses fracotes que vieram pra cá comigo, essa vitória já é minha. — Ela estufa o peito enquanto a multidão urra seu nome.


Os tributos do três parecem estar perdidos e o garoto saí correndo para vomitar no meio da entrevista. A entrevista de Cassie é entusiástica, com o apresentador rasgando elogios pelo vestido trançado que ela veste.


— Todos ficamos comovidos com seu irmão ter se oferecido para a colheita. Diga para mim, Cassie, como você se sente sabendo que apenas um pode voltar para casa?


— Meu coração está apertado, Ceasar. Mas no 4 temos um ditado que diz que camarão que dorme, a onda leva. — Ela sorri para o apresentador. — A nossa sorte é que somos tubarões.


Carter demonstra um carisma contido, com declarações enigmáticas que fazem os cidadãos da Capital suspirarem. Ceasar parece interessado em investigar sua vida amorosa, e não poupa questionamentos.


— Carter Seashell, existem muitas meninas interessadas em você no seu distrito?


Ele sorri para Ceasar e direciona seu olhar para a plateia.


— Devem ter algumas. Mas sinceramente, Ceasar, estou mais interessado nos meninos.


Ele olha para o lado e nosso olhar se cruza por um instante, e fico chocado com a revelação feita em frente às câmeras.


— Ouviram isso, família Seashell? Temos um conquistador de rapazes entre nós! — Grita Ceasar, apontando para a plateia onde os pais dos irmãos estão sentados. Eles sorriem para as câmeras e mandam beijos para o filho.


As entrevistas seguem revelando mais informações sobre cada tributo: A garota do cinco tem dezoito anos e já tem uma filha de um ano, Rupi conta que vencerá os jogos para pagar o tratamento de sua mãe, o garoto do oito costurou um terno para o Presidente Snow em uma das suas viagens pelo distrito dele.


Quando chega a vez de Erin, ela sobe ao palco com um vestido roxo repleto de bordados, a maquiagem em tons claros deixa seu rosto quase angelical, e ela tenta parecer simpática, sem muito sucesso. Minutos depois, sou chamado a subir no palco pelo apresentador.


— Aurum Monier, não sei se me agrada mais sua presença ou sua roupa. — Ceasar força uma gargalhada para a plateia, seu cabelo tingido de laranja com um terno da mesma cor. Até seus lábios brilham em um tom de laranja vivo.


— Consegue me imaginar com esse terno na arena, todo sujo de sangue? — Ouço a plateia assoviar e emitir sons. — Você acha que seria aterrorizante ou sexy?


Ele arregala os olhos e solta uma exclamação de surpresa.


— Eu não posso emitir opiniões pessoais, Aurum. Mas eu tenho certeza que isso iria gerar muitos comentários entre os nossos cidadãos. Estou certo ou não estou? — Ele grita com a plateia, que responde seu comando aos berros. — Mas me conte, Aurum. Você é filho de comerciantes, certo?


— Sou sim, minha mãe é professora e meu pai é dono de uma loja de móveis. Por isso sou tão inteligente e tão cara de pau. — A plateia volta a fazer barulho, ouço gargalhadas e assovios e faço questão de sorrir para todos.


— Fascinante! Seus pais estão aqui, não estão?


Aponto para as cadeiras onde minha família está enfileirada: Minha mãe, meu pai e meu irmão vestem roupas da mesma cor: Um amarelo-areia tradicionalmente relacionado ao distrito 9.


— Estão ali! Minha mãe, Amber, meu pai, Rogbell e meu irmão, Argie. Quer ouvir uma curiosidade sobre minha família, Ceasar? — Pergunto enquanto vejo meus pais acenando e Argie gesticulando para mim.


— Revelações familiares! Sou todo ouvidos, Aurum. — Ceasar se inclina sobre a cadeira como se eu fosse contar um segredo.


— Nossos nomes são metais nobres escritos em latim. Meu irmão se chama Argentum, que significa prata. Mas como eu sou mais legal e mais bonito, eu fiquei com Aurum, que significa ouro.


Ele solta uma gargalhada animada como quem acaba de escutar a coisa mais genial já inventada.


— Seus pais são brilhantes! — Ele pisca para a plateia com o trocadilho. — Mas Aurum, preciso perguntar algo delicado para você.


A plateia silencia abruptamente, como quem espera para ouvir uma fofoca em primeira mão.


— Quatro anos atrás, sua irmã veio para a arena também, certo?


Meu sangue congela e sinto meu rosto vacilar, mas recupero a postura quando sorrio para ele.


— Sim, seu nome era Gemma. Estou aqui para honrar minha irmã, e este é o gás que me move para atropelar todos os outros tributos. Quando eu terminar, farei uma visitinha ao vencedor da edição dela.


— Obrigado por compartilhar conosco, Aurum. Para encerrarmos, gostaria de mandar alguma mensagem? — Pergunta Ceasar, os olhos cheios de compaixão.


Olho direto para Garret, sentado próximo a Laurel, e profiro as palavras que serão meu passaporte para a final dos jogos.


— Á toda minha família e ao distrito 9, vou lutar bravamente para trazer a vitória a vocês. E meu amor, saiba que vou voltar para você, para sentir seu perfume de menta e beijar seus lábios de novo.


A plateia aplaude, comovida. Saio do palco acenando para o público, e tenho tempo de ver uma pequena parte da entrevista de Briar, que canta uma música sinistra sobre bonecas de pano no escuro e lambe o rosto de Ceasar Flickerman.



A preparação não acaba após as entrevistas, sou levado novamente para o centro de tributos e submerso em uma mistura de perfumes e sabonetes que deixam minha pele acetinada. Para o jantar, recebo um terno vermelho vinho com uma grande rosa branca para enfeitar a lapela, e meus cabelos são cuidadosamente lavados para formar cachos imperfeitos, a camisa branca que utilizo por baixo do terno está fechada até a altura do pescoço evitando mostrar muito a pele. Estou quase parecido com os idealizadores da Capital, exceto que minha pele levemente bronzeada difere das cores extravagantes e modificações corporais exageradas.


Vinte e quatro limousines estão à espera dos tributos no andar debaixo, cada uma carrega o tributo e seu mentor em direção ao banquete, que acontecerá na Prefeitura da Capital, um prédio gigantesco que simula uma construção antiga recheada de pilastras e arabescos. Dentro do veículo, existe um frigobar recheado de bebidas que nunca ouvi falar, com garrafas de cores e tamanhos diferentes.


— Normalmente eu não incentivaria um adolescente a beber, mas vou abrir uma exceção. — Laurel está deslumbrante em um vestido da mesma cor que meu terno, os cabelos presos em um penteado que valoriza seu rosto. — Champanhe?


— Por favor. — Estendo a ela a taça e a garrafa esverdeada derrama um líquido translúcido com um fundo de cor perolado. Brindamos á vitória e experimento a bebida, é amarga e deixa um docinho no final da garganta.


— O que achou? — Laurel pergunta, aguardando minha reação.


— Bom. Quero três garrafas dessa me esperando quando eu voltar.


— Espero que esteja de estômago vazio. — Ela aponta para o lado de fora, e observo pela primeira vez a construção monumental.


Existe uma fonte dourada em frente ao prédio que jorra a água mais límpida que já vi. Uma multidão de pessoas está reunida próximo aos portões urrando a chegada de cada tributo, e Faustina veste um longo vestido vermelho com fenda e recepciona cada convidado com um beijo no rosto.


Quando piso para fora do veículo, uma multidão de meninas da minha idade gritam desesperadas. Homens e mulheres mais velhos atiram flores de diversas cores, e pego uma apenas para cheirar e mandar um beijo para um homem com olhos completamente negros e presas afiadas. O cheiro da flor é adstringente, o que me incomoda instantaneamente, e consigo ver o homem desmaiar e ser amparado por outras pessoas.


— Aurum Monier, seja bem vindo. — Faustina beija meu rosto e me abraça rapidamente, o que me deixa desconfortável.


— É um prazer estar aqui, obrigado pelo convite. — Sorrio para ela com o máximo de simpatia que consigo.


— Seus familiares estão á espera, siga em frente pelo corredor e vire à esquerda, estamos filmando então faça reações de surpresa e afeto. — Concordo com a cabeça com as instruções e estou me encaminhando para o hall quando ela segura meu braço. — Aurum, não é todo dia que um tributo tem um par amoroso na Capital, aproveite o engajamento com os patrocinadores.


Garret. Somos entretenimento barato para a Capital, e se Faustina sabe de nós, significa que Sabina ou alguém contou uma informação íntima da minha vida. Caminho pelo corredor atordoado com o comentário vindo da idealizadora dos jogos, e quando entro pelo portal indicado, meus olhos encontram rapidamente minha família.


— Aurie! — Meu irmão atravessa o salão na velocidade de um leopardo, me abraçando tão forte que mal consigo respirar.


— Calma aí, cara! Você vai me matar antes da arena. — Retribuo o abraço de Argie e começo a rir.


— A Capital é incrível! Estou a três dias comendo um prato de cordeiro com batatas todos os dias e o gosto fica cada vez melhor! — Ele me conta as novidades, afobado. — E todo mundo só fala em você lá no hotel, até as camareiras ficam suspirando quando você aparece! Todo mundo acha que a garota do 2 vai te matar, mas eu tenho certeza que você ganha!


Não posso deixar de achar a situação engraçada, meu irmão normalmente é um indivíduo rabugento e desanimado mesmo sendo próximos, ainda mais considerando que nunca fomos de manter muito contato físico. Mas aqui, no meio da fartura e alienação da Capital, ele parece mais feliz e genuinamente acredita na minha vitória, apesar de continuar não tendo filtro social. Ele veste um terno verde parecido com o meu, e parecemos enfeites de natal um ao lado do outro.


— Meu filho! Meu menino! — Minha mãe me abraça ainda mais forte, as mãos segurando minha cabeça como quem tem medo de soltar. — Alguém te machucou?


— Não, mamãe. Todos estão sendo muito prestativos. — Tento tranquilizá-la enquanto forço minha cabeça para fora, tentando respirar.


Meu pai está parado ao lado de Argie, vestindo um terno verde-musgo e com os cabelos ralos penteados para o lado. Diferente de mamãe e Argie, ele não corre para me abraçar, ele só me olha profundamente com uma expressão enigmática, e após alguns segundos cai em um choro desesperado.


— Ei, ei! Papai! Tá tudo bem. — Envolvo meus braços em seu tronco e o abraço com força.


— É tudo culpa minha, me desculpe! Eu causei tudo isso. — Ele me abraça de volta e chora copiosamente.


Levam alguns minutos para acalmar meu pai, e isso envolve Argie abaná-lo com um leque que pegou com uma mulher aleatória e minha mãe trazer uma grande taça com vinho para ele.


Nos posicionamos em uma mesa com seis cadeiras, cuidadosamente decorada com uma toalha de mesa prateada e um candelabro com velas aromáticas que as chamas parecem dançar. O cheiro é agradável, minha mãe conta que o aroma é de pinheiro, e em pouco tempo estamos todos á vontade.


Conto á eles como foram os treinamentos, a apresentação individual e as preparações com minha estilista. Argie elogia tudo o que fiz como se eu fosse digno de um prêmio de atuação, e minha mãe me enche de perguntas sobre as interações que tive com outros tributos. Quando conto sobre a garota do 10, meu pai parece realmente incomodado.


— Briar Cliff, é o nome dela. — Ele se manifesta, já visivelmente alto devido ao vinho. — Estão apostando nela como a revelação dos jogos. É uma das cinco apostas para a vitória esse ano.


— Quem são os outros quatro? — Pergunto, me servindo discretamente uma taça de vinho.


— Sirena do 2, Alaric do 1, Carter do 4 e você. E Briar fecha o ranking. — Ele bebe a taça de vinho de uma vez, enquanto observo em silêncio.


— Eu?


— Desde o desfile, todos falam do seu traje e isso se intensificou com a nota 8 e a entrevista individual. — Conta minha mãe, acariciando meus cabelos. — Aurum, as pessoas vão apostar em você.


Estou pronto para começar a debater mas sou interrompido com a chegada de Laurel e Garret. Ele está fabuloso, com um terno preto com detalhes em dourado na lapela, os cabelos castanhos estão penteados para trás e o pingente do distrito 9 está pendurado sobre o bolso do paletó. Laurel cumprimenta todos na mesa e Garret acompanha.


— Oi, Aurum. — Ele sorri para mim, sentando-se quase ao meu lado.


— Oi, Garret. Estou no ranking das cinco apostas para vencer os jogos, acredita? — Sorrio de canto para ele enquanto um garçom traz a mesa alguns aperitivos.


— Não só acredito como vou apostar em você. E talvez alguns panars na Briar. — Ele pisca para mim e a mesa cai na gargalhada.


O Presidente Snow aparece na mesa principal com um discurso massante sobre a importância dos jogos, a honra de derramar o sangue pelo seu distrito e como o banquete passará a ser um evento anual em cada edição. Troco olhares de deboche com Garret durante todo o discurso, até que o presidente finaliza com uma de suas frases de efeito.


— Aproveitem a ceia, comam e bebam bastante. Pode ser a última refeição de vocês, e apenas um saíra da arena como vitorioso. — Ele ergue sua taça ao céu, e todos o acompanhamos de maneira fúnebre.


— A sorte é que o vencedor vai sair dessa mesa. — Diz meu pai, bebendo todo o conteúdo de sua taça. — Eu aposto todas as minhas fichas.


O jantar ocorre em harmonia, com diversos pratos diferentes sendo servidos diretamente as mesas: Carne de cordeiro assada em brasa de pinheiro, raízes de katniss com salmão assado, massa fresca com camarões rosados, tortas salgadas e diversos molhos. Assisto de camarote a família inteira do tributo do doze comer tudo o que consegue com voracidade, lambendo os dedos sôfregos. Os pais de Cassie e Carter comparecem a mesa para saudar meus pais e agradecer o apoio que tenho prestado a eles, e quando percebo, meus colegas tributos estão sentados conosco.


— É uma pena que estejamos todos reunidos apenas hoje. — O pai dos meus aliados é um homem forte e bronzeado devido à pesca. — Vocês iriam adorar conhecer o 4, temos belas praias e um povo acolhedor.


— Essa história de carreiristas é uma grande besteira, sabe? — A mãe deles, uma mulher mais velha de cabelos bem loiros e pele clara conversa animada com meus pais. — O distrito 4 teve apenas cinco vencedores até hoje. Nada próximo ao 1 ou 2, e somos bem menos nutridos que eles.


— Quem dera alguém explodisse a Capital pelos ares. Já imaginaram o show? — Argie desabafa na mesa, o que faz com que os moradores do 4 peçam licença para voltar a sua mesa.


Cassie e Carter decidem socializar com Rupi e Elara, e quando estou de saco cheio de interagir á mesa, decido que está na hora de explorar os cômodos do enorme prédio. Peço licença a mesa para ir ao banheiro, e cutuco suavemente a lateral do corpo de Garret para que ele me siga.


— Onde vamos? — Ele me pergunta animado, quando deixamos o salão para trás.


— Acho que vamos descobrir. — Sorrio para ele e começamos a correr pelos corredores longos do prédio. Descobrimos um banheiro masculino com paredes em carpete, uma biblioteca que cheira á produto de limpeza e uma sala de audiências com poltronas de couro.


— Não tem nada de interessante nesse prédio. — Garret revira os olhos quando encontra uma sala vazia.


— Acho que tem sim. — Aponto para uma porta decorada com vitrais ao fim do corredor.


Descobrimos a existência de um grande jardim atrás da porta, com flores de diferentes espécies e que perfumam o ambiente com aromas diferentes. Um banco de ferro adornado está centralizado entre duas grandes árvores de flores rosas, com uma visão privilegiada do jardim.


Nos sentamos ao banco e admiramos a paisagem em silêncio, minha mão esquerda desliza pelo banco e segura a de Garret, e apertamos os nós dos dedos para garantir que nossas mãos estão seguras uma na outra.


— Eu queria parar o tempo aqui. — Garret aponta para o jardim. — A gente com ternos chiques, de barriga cheia em um belo jardim.


Não posso evitar de olhar para ele, o rosto delicado sem nenhuma mancha de espinha, o nariz pequeno e arrebitado, os cabelos antes arrumados com gel agora começam a cair sobre seu rosto. Pode ser a última vez que estaremos juntos, a próxima vez que ele me ver pode ser em um caixão, e a ideia me deixa profundamente triste. Percebo que parte da vontade de voltar vivo se dá ao fato das coisas que podemos fazer juntos. Eu e ele.


— Você tornou essa experiência um pouco menos pior, sabia? — Digo á ele, acariciando as costas de sua mão com o polegar.


— Te convenci a sobreviver por minha causa? — Ele vira pra mim, o sorriso iluminado exalando provocação.


— Parabéns, Garret. Você me convenceu a chegar mais perto.


E aí, acontece. Me inclino para frente e encosto meus lábios nos dele, e o que começa em um selinho tímido se torna um beijo de verdade em poucos segundos. Eu nunca beijei, a sensação de ter uma língua contra a minha é estranha mas ao mesmo tempo satisfatória, e nossos pescoços se movem em uma dança lenta durante nosso primeiro beijo. Quando nos separamos, ambos estamos com as bochechas extremamente coradas.


— Você baba um pouco. — Ele me diz, olhando fixamente para meus lábios.


— Ah, cala a boca, seu otário. — Beijo ele de novo. E de novo. E de novo.


Paro apenas para tirar o paletó quando começo a sentir calor, e continuamos nos beijando. O que antes era tímido agora se torna quase uma necessidade, ele segura minha cintura e minhas mãos acariciam sua nuca, a respiração falhando entre os beijos.


— Ok, chega. — Levanto de sobressalto, os cabelos já bagunçados. — Vamos voltar. Temos um jantar pra terminar.


— Vou me enfiar dentro do aerodeslizador. — Ele me puxa pela cintura e beija meu pescoço. — E me enfiar em um tubo de algum tributo, tipo o banana do três. E você não vai se livrar de mim.


— Você vai sentar no sofá e torcer por mim. — Afasto ele delicadamente, sorrindo. — E quando eu voltar, talvez eu chegue mais perto de novo.


Estamos quase de volta ao salão, voltamos o caminho inteiro falando besteira e rindo casualmente. O riso para quando viramos o corredor e uma fumaça densa e preta escapa de um dos cômodos, invadindo o hall e o salão do banquete. Os convidados correm, desesperados enquanto uma equipe de segurança avança para o cômodo de onde sai a fumaça.


Minha mãe me alcança num piscar de olhos, no rosto uma expressão de horror e os sapatos de salto em uma das mãos.


— Fogo. O prédio está pegando fogo. Vamos pra fora! — Ela puxa a mim, que puxo Garret, e começamos a correr para o lado de fora.


Na parede do Hall, uma pixação com tinta vermelha estampa a frase “MORTE Á CAPITAL”, causando horror nos nativos e confusão nos tributos. Do lado de fora, encontro Laurel e meu pai, e começo a procurar Argie entre a multidão.


— Cadê o Argentum? — Sei que estou entrando em desespero, fico na ponta dos pés tentando enxergar entre o mar de cabeças. — Cadê o Argie?


— Ele foi ao banheiro, não encontramos ele ainda. — Meu pai está visivelmente nervoso, ele fala com certa dificuldade dado ao tanto que bebeu no evento.


Estou prestes a voltar para dentro quando um pacificador segura minha cintura, ele me arrasta para a limousine que me trouxe para o banquete enquanto grito para que achem meu irmão. Tento me debater mas o homem é mais forte que eu, e quando a porta do veículo se fecha, escuto minha voz preencher o espaço com berros, até uma picada em meu pescoço escurecer minha visão até apagar completamente.


Notas finais
E.. fim do capítulo! Não sou de comentar capítulos, mas esse foi uma delícia escrever. No próximo capítulo, o bicho vai pegar. Dez xeros!