Notas iniciais
Olá! A Roda da Fortuna surgiu pelo amor que tenho pelo Distrito 9 e pela indignação de não ter nenhum personagem minimamente relevante deste distrito. Eu não escrevo fanfics desde a adolescência, e já sou um homem feito com emprego formal e um espírito apaixonado pelos livros que li quando jovenzinho. Espero que gostem!

A tigela de pão de Panem.


Ouço essa frase tem pelo menos dez anos, desde que atingi a idade mínima para ser obrigado a assistir os jogos. Sempre dita em um contexto mórbido de celebração por parte da Capital, seja na voz do apresentador oficial ou da bizarra acompanhante que vem aqui uma vez por ano.


São quase seis da manhã quando surge o primeiro raio de sol entre as cortinas, começa no batente da janela e aos poucos se estende para dentro do quarto, iluminando o chão de madeira de pino e o pé da cama gasto. O fino lençol que uso como coberta está jogado no chão, sinal de que devo ter me mexido bastante durante a noite. Saio da cama com movimentos milimetricamente calculados, pisando com o pé direito na tábua de madeira que descobri recentemente ser a mais firme, tomando o devido cuidado para não estalar o piso inteiro e acordar todos em casa logo nos primeiros minutos do dia.


Meu esforço não adianta muita coisa quando abro a porta e meus olhos fixam diretamente no homem barrigudo na ponta dos pés, tentando alcançar uma pequena caixa no alto do móvel de quina que dá de frente ao meu quarto.


— Oi pai. — Tento soar minimamente simpático enquanto espio por cima do seu ombro.


Ele dá um salto para trás, quase derrubando a caixa no chão. Suas mãos tateiam o ar enquanto a caixa escapa por entre os dedos, e sua mão esquerda consegue agarrar a ponta do objeto.


— Pelo santo grão, Aurum! Você acordou cedo, hein?


Ele enfia a pequena caixa no bolso da camisa de pijama. O objeto retangular saltando entre as listras amarelo-mostarda evidencia a obviedade da situação, mas ele não parece incomodado com isso. Ele bagunça meu cabelo com uma das mãos, enquanto alcança um isqueiro de latão na prateleira de cima.


— Vamos combinar de não comentar nada com a sua mãe, tudo bem?


Concordo com a cabeça quando ele alcança a carteira da mesma prateleira e retira duas notas esverdeadas, entregando em minhas mãos. São quarenta panars, a moeda oficial de Panem. Meus olhos repousam diretamente no busto da figura esculpida nas notas: Um homem velho, com o cabelo lambido em gel e rugas em formato de bigodes de gato sobressalentes, vestindo um terno com uma lapela grande demais. Maximinius Ravinstill, o primeiro presidente de Panem.


— Seja um bom menino e vá até a padaria dos Gwenly. A lista está na mesa de centro do andar debaixo, o que sobrar você pode comprar uma sobremesa pra você! — Ele bagunça meus cabelos de novo e caminha em direção a porta no fim do andar, desaparecendo atrás dela.



Prefiro não tecer nenhum comentário em relação a caixa misteriosa, pois sei o que ela contém e o porquê não devo contar a mamãe. Meu pai tem escondido cigarros em locais aleatórios depois de ter prometido que pararia de fumar, e minha mãe o lembra pelo menos duas vezes no dia que o valor de uma carteira de cigarro pode alimentar uma família de quatro pessoas do Arado. Visto uma bermuda de sarja e uma regata de poliéster e encontro a lista de compras no exato lugar em que meu pai orientou. Pão de centeio, queijo, geleia de morango silvestre, rosquinhas açucaradas e suco de laranja. Um café da manhã de domingo.


Enquanto desço a rua em direção à praça central, onde estão localizados os principais estabelecimentos, penso no valor que carrego no bolso justo da bermuda: Quarenta Panars pode parecer pouco, mas é uma quantia considerável para a população que vive no Arado, a região mais pobre do 9. Apesar de sermos o maior distrito em dimensão territorial, a população fica concentrada na região central, onde temos uma menor concentração de plantações, e grande parte do território adjacente é preenchido com trigo, aveia, milho, arroz, cevada e uma imensidão de outros pseudocereais e leguminosas.


Distrito 9. Grãos. É isso que representamos para a Capital.


O Arado, como chamamos a região mais pobre do distrito, fica próximo as plantações e representa um amontoado de casinhas de sapê, construídas de forma irregular e com nenhum saneamento básico. Sua população é composta de trabalhadores rurais que não são proprietários de terras, apenas trabalham para os magnatas da Capital que pagam um salário de miséria. São castigados pelo sol, cumprem cargas horárias abusivas e não raramente sofrem acidentes fatais, e suas crianças sempre representam o maior número de tésseras da colheita. Quarenta Panars para estas pessoas significa menos tésseras e comida suficiente para um mês.


Quando chego na padaria, o cheiro de pão recém assado invade minhas narinas e sinto a boca salivar. Haya, uma mulher de uns trinta e poucos anos e o avental imundo de farinha, me recebe no balcão com um sorriso no rosto.


— Ourinho, chegou bem na hora.


Haya é uma velha conhecida da família, seus pais dividiram alguns vinhos com os meus avós, e ela dividiu mais alguns vinhos com os meus pais. As famílias de comerciantes do 9 costumam ser unidas, então não é de se estranhar que todos se conheçam. Existe um tratado verbal entre as famílias, que vendem seus produtos mais baratos entre si.


— Tenho uma lista recheada pra você, Hay. — Entrego o papel rabiscado com a letra cursiva característica de mamãe.

— Se esse é seu café da manhã, estou curiosa pra ver a janta.

— Se eu te contasse você não acreditaria.


Ela sorri, separa o pão enrolado cuidadosamente em um papel pardo e embrulha uma peça redonda de queijo em um pano branco. As rosquinhas são colocadas em um saco de papel, a geleia e o suco engarrafados na hora. Haya é tão habilidosa que um simples pacote vira uma decoração digna da Capital.


— Eu cobraria trinta, mas só porque você é muito fofo, vou te cobrar vinte e cinco. — Ela pisca pra mim, enquanto entrego as duas notas em sua mão enfarinhada.

— Assim eu fico sem graça. O Elio veio te ajudar hoje?


Por um momento, seu sorriso estremece e ela dá um suspiro, os dedos inquietos começam a dobrar um dos papéis de pão em triângulos.


— Não. Ele está agitado essa semana, acha que por ser a última colheita pode ser escolhido. Conseguiu dormir quando eu estava vindo abrir a padaria.


Desvio o olhar para a estufa de mini pães. Hoje é sexta, 4 de Julho, em teoria deveríamos estar se aprontado para mais um dia de aula, mas tem sessenta e três anos que essa data deixou de ser um feriado para se tornar o início de uma tortura programada para os distritos. Elio, o filho de Haya, completou dezoito anos tem poucos meses, o que significa que é seu último ano elegível para os Jogos Vorazes. Em poucas horas, seu nome estará sete vezes no globo do sorteio, podendo ser sorteado.


— Bom, pelo menos ele não tem tésseras. — Passo os dedos pela estufa sobre os pães recheados com azeitonas e tomilho, tentando amenizar a situação.


Haya abre a estufa e pega dois pãezinhos, colocando dentro de uma das sacolas. Ela me entrega com um meio sorriso, como quem tenta esquecer sobre o que conversamos.


— Esses são por conta da casa. Até mais tarde, Ourinho.


Tento sorrir de volta e soltar um comentário animador, mas quando percebo já estou passando pela porta em direção a rua deserta.


Quando sento á mesa para o café da manhã, já passam das 7 da manhã. O pão foi cortado em fatias generosas e decorados com uma folha de queijo e um punhado de geleia de amoras silvestres, as rosquinhas estão amontoadas sobre uma bandeja de prata que minha mãe guarda para ocasiões especiais e o suco de laranja colocado em uma jarra de vidro, com cubos de gelo boiando no líquido amarelo, o que faz a jarra suar devido o calor.


Minha mãe e meu pai sentam em pontas opostas da mesa, contrastando as duas figuras imponentes que eles representam: Enquanto meu pai é um homem alto e barrigudo, com cabelo ralo e barba por fazer, minha mãe é esguia e com cabelos longos e cacheados, ele tem olhos esverdeados e ela tem os olhos castanhos que anunciam uma tempestade, ele tem os dentes ligeiramente tortos e ela tem os dentes mais alinhados do distrito inteiro. Meus pais são opostos que se complementam, como se dois pássaros de espécies diferentes decidissem construir um ninho juntos e fizessem dar certo.


— Argie, eu não vou chamar você de novo! — Mamãe grita olhando para o teto, uma expressão de indignação preenchendo os olhos de tempestade.

— Ele já deve estar vindo, meu amor. — Meu pai tenta amenizar a situação, sorrindo carinhosamente.

— Nós combinamos esse café da manhã tem três dias. O Aurie levantou cedo para ir comprar as coisas e ainda nem pôde comer! — Ela retruca, visivelmente contrariada.


Na personalidade, meus pais também divergem: Meu pai é uma manteiga derretida, o que rendeu algumas saias justas quando ele assumiu a marcenaria do meu avô e precisou aumentar os preços dos móveis que ele produzia. Minha mãe é mais turrona, cresceu no Distrito 2 por ser filha de pacificadores e veio para o 9 no final da adolescência após conseguir uma permissão para atuar como professora de linguagem, com um salário relativamente atrativo e uma permissão cedida para poucas pessoas em Panem. Eles se conheceram no primeiro ano em que minha mãe deu aula, quando ele foi buscar o irmão mais novo na escola. Não se desgrudam desde então.


— Amber, mais cinco minutos, por favor. — Meu pai suplica em voz baixa — Você sabe que ele está nervoso.


Minha mãe está prestes a retrucar quando passos pesados podem ser ouvidos na escadaria. Um garoto magrelo, com o cabelo desgrenhado e uma camiseta pintada a mão escrito “CAPITOL SUCKS” senta á mesa com cara de poucos amigos.


— Já não era sem tempo. — Sibila minha mãe, com um olhar de mil jardas em direção ao meu irmão.

— Fica tranquila, eu jamais perderia a festa. — Argie passa o dedo na geleia de um dos pães, chupando o dedo em seguida.


Minha mãe fica roxa quase que instantaneamente, consigo ver a veia saltando em sua testa, que aparece quando ela fica com muita raiva, e sei que Argie acabou de cutucar o vespeiro. Antes de começar a falar, a campainha toca, e minha mãe se levanta para atender às pressas.


— Salvo pelo gongo. — Eu digo á ele, passando por debaixo da mesa um dos pães de azeitona que ganhei de Haya.


Ele sorri pra mim com o ar desafiador que ele sustenta na maior parte do tempo.


— Posso te perdoar por roubar o meu nome se você trouxer mais uns três desses pra mim. — Ele morde o pão e mastiga de boca aberta, para o horror do meu pai.


Aurum e Argentum. Ouro e prata, em latim. Eu nunca disse que meus pais eram criativos, mas impera entre nós uma pequena rivalidade pois Argie insiste em dizer que meu nome é melhor, já que o dele significa “prata”, o que pra ele não faz o menor sentido, já que ele é dois anos mais velho. Meus pais justificam que ele nasceu em uma noite de lua cheia, enquanto eu nasci ao meio dia em um sol de torrar.


Argie e eu somos bem diferentes, ele sustenta um ar de rebeldia que combina com ele, enquanto eu costumo seguir regras e normativas mesmo querendo atear fogo em tudo. Mamãe e ele brigam constantemente, ela diz que ele se coloca em perigo de forma gratuita, ele diz que não precisa de mais alguém além da Capital controlando o que faz. Argie não esconde o asco por tudo que a Capital representa, e se safou de algumas açoitadas pela influência de minha família e as intervenções de mamãe.


— Se você voltar da colheita, eu te arranjo mais uns dois desse. — Enfio a mão no meio de seu rosto e arranco um pedaço de pão, colocando na boca enquanto ele grita maldizeres a mim.


O que acontece em seguida é rápido demais e não tenho tempo de raciocinar plenamente. Minha mãe volta correndo da porta da frente com um saco de estopa em mãos, joga sobre a mesa e desfere um tapa tão forte no rosto de Argie que quase faz com que ele caia da cadeira. Meu pai se levanta afoito e tenta colocar as mãos nos punhos de mamãe, que o afasta com agressividade.


— Foi por causa daquela sua namoradinha do Arado, não é? — Ela grita com Argie, embebida em ódio.

— Eu não tenho que te dar satisfação. — Ele levanta da cadeira elevando o tom de voz no mesmo volume que nossa mãe.


Meu pai as vezes esquece que minha mãe não estudou nas escolas do 9, e sim na Academia de Pacificadores, então não é surpresa quando ela consegue se desenvencilhar dele e chuta Argie na parte de trás do joelho, fazendo com que ele caia.


— Eu não me importo se você decidiu pegar tésseras pra sua namoradinha. Você não tinha o direito de fazer o que fez!


— Você pegou tésseras, Argie? — Meu pai está visivelmente confuso — Quantas vezes seu nome vai estar no globo?

— Quinze! O nome dele vai estar quinze vezes! — Berra minha mãe. — Um comerciante com quinze papéis na colheita. Mas isso não é a pior parte do que esse canalha fez!


Me empertigo na cadeira, tão confuso quanto meu pai, e olho para Argie sentado no chão. Ele não tem coragem de olhar nos meus olhos.


— Me desculpe, cara. — Ele me diz, o rosto vermelho entre vergonha e ódio.

— Seu filho, Rogbell, não pegou só tésseras no nome dele. Ele pegou tésseras no nome do Aurum!




Notas finais
E.. continua. Obrigado por ler até aqui! Um xêro!