A Jornada do Louco
2 A Lua
Notas iniciais
Quatorze papéis. O dobro de papéis de um jovem de dezoito anos.
Esta é a quantidade que meu nome estará no globo de sorteio da colheita. Aos desinformados, o sistema de tésseras permite que você adicione um papel a mais na colheita para cada membro da sua família em troca de um suprimento adicional de grãos e óleo por mês. É uma forma dos mais pobres conseguirem um reforço alimentar, correndo o risco de serem sorteados para os jogos e nunca retornarem pra casa.
Minha família nunca precisou reivindicar tésseras, os comerciantes vivem relativamente bem abastados e podem se dar ao luxo de não sacrificar o bem estar dos filhos em função da fome. Enquanto os gritos se intensificam na sala de estar, esfarelo um dos pães de azeitona e enfio na boca, alheio a situação. Enquanto minha mãe grita xingamentos que eu e Argie fomos proibidos desde criança de sequer pensar em dizer, meu pai sai da sala em silêncio e retorna minutos depois com seu habitual terno marrom, cada vez menor devido a sua fixação com rosquinhas.
— Encontro vocês no Edifício da Justiça ás onze horas. — Ele diz, tragando um cigarro recém aceso que ele não faz questão de esconder de minha mãe.
A porta bate em um baque surdo, minha mãe parece recobrar a consciência e senta-se à ponta da mesa novamente. Uma veia pulsando em sua testa, os olhos marejados vermelhos de quem chora de ódio.
— O pão vai esfriar. — É o que consigo dizer quando coloco uma fatia em seu prato, dando um sorriso torto de quem ignora o que acabou de acontecer.
Argie parece se dar conta da besteira que cometeu, ele dá a volta na mesa e senta-se em minha frente, com uma expressão de quem tenta justificar uma janela quebrada depois de chutar a bola na casa do vizinho.
— Aurie, eu sinto muito. Eu não pensei direito, quando vi eu já tinha assinado os papéis e já era tarde demais pra voltar atrás.
— E você pretendia me contar quando meu nome fosse sorteado? — Não consigo conter a irritação com a justificativa idiota que ele oferece.
Ele fecha a cara instantaneamente, o corpo retraído entrando na defensiva.
— Um dia você vai se apaixonar, e aí você vai entender.
Minha mãe dá um soco na mesa, a veia na testa voltando a saltar, os olhos apertando em fúria e os lábios degustando cada palavra que ela cospe em meu irmão.
— Você é um moleque imbecil que não sabe de nada. Deveria ter sido você no lugar da Gemma.
O silêncio cai como uma bomba sobre a mesa. Tranco a respiração e arregalo os olhos para minha mãe, é quando ela percebe que tocou em uma ferida mal cicatrizada.
— Vai pro inferno. — É tudo o que Argie consegue dizer, ele sai da mesa com lágrimas escorrendo pelos olhos e ignorando o pedido de desculpas da mamãe.
— A senhora tem noção do que acabou de falar? — Sinto meu rosto ficando vermelho conforme absorvo as palavras que foram ditas. — Eu não pedi pra você me defender.
Dou uma última mordida no pão de azeitona que restou e saio em direção ao meu quarto, sem olhar para trás quando escuto o tom de desculpas habitual de minha mãe.
Existe um motivo pelo qual meus pais insistem em montar uma mesa especial de café da manhã no amanhecer da colheita, e não é para celebrar a Capital. Quando eu tinha dez anos, na 59º Edição dos Jogos Vorazes, o distrito 9 enviou para a arena uma menina de quatorze anos chamada Gemma. Filha de comerciantes, ela sobreviveu ao banho de sangue e conquistou alguns patrocinadores por conseguir sobreviver em uma arena de gelo com poucos recursos. A garota passou despercebida até chegar nos cinco últimos tributos vivos, ela tinha uma pequena faca quando entrou em combate com o carreirista do 4 e conseguiu causar um corte fundo no rosto do rapaz, mas isso não foi suficiente pra impedir que ele esmagasse sua cabeça com um bloco de gelo. Foi a primeira vez em 15 anos que um tributo do 9 chegou tão longe nos jogos.
O distrito viveu o luto costumeiro de todos os anos, acendendo suas velas e entregando pães para a família enlutada. Na história do 9, tivemos apenas quatro vencedores nos jogos, o que significa que cento e vinte e dois jovens perderam a vida pela mão de ferro da Capital.
Entre os cento e vinte e dois jovens, está minha irmã mais velha, Gemma.
Quando entro na banheira, parece que o pão de azeitonas não me caiu muito bem. Faço o máximo de força possível para não vomitar e afasto as memórias que insistem em pular diante dos meus olhos enquanto despejo o o sabonete líquido roxo com cheiro de orquídeas em minhas mãos. Enquanto esfrego meu corpo, ouço o choro de Argie ultrapassar as paredes de madeira e tenho vontade de gritar de ódio para que ele e toda a vizinhança consiga escutar.
Ela também era minha irmã. E você aumentou as minhas chances de ter um destino igual ao dela!
Engolir o ódio foi a primeira coisa que minha mãe me ensinou quando comecei a entender os jogos. Se você emitir qualquer manifestação contrária, você será considerado um rebelde, e se você é considerado um rebelde, a morte é a melhor coisa que pode acontecer com você. Estou sempre fingindo estar muito feliz, ou agradecido, ou surpreso, ou galante, porque não posso esvaziar os pulmões gritando para que todos morram. Que eu não queria ter aprendido a atirar facas no porão de casa para ter alguma chance de sobreviver em uma arena, que eles levaram minha irmã e condenaram minha família disfuncional a fingir que tudo está bem e que a Capital é misericordiosa.
— Aurie? — Ouço minha mãe bater na porta, o tom de voz apreensivo.
— Já vou sair.
— Separei uma roupa pra você. É aquela de linho que você gosta. — Ela tenta soar animada.
Quando chego em meu quarto, a camisa de linho branca está cuidadosamente passada junto a uma calça larga azul escura, que imita um material utilizado pelos excêntricos da capital, jeans, acho que esse é o nome. O sapato de fivela é branco, para combinar com a camiseta, e um colar de contas trançado com miçangas brancas e azuis complementa meu visual.
Minha mãe seguiu a carreira de professora porque não pôde aprender a fazer joias, por mais que ela não admita todos sabemos que ela queria ter se especializado em joalheria. No Distrito 2, ou você se torna pacificador ou engenheiro, não existe espaço para joalheiros.
Penduro o colar de contas no pescoço e avalio minha aparência no espelho que fica no corredor: O branco da camiseta ajuda a valorizar o bronzeado tímido da minha pele, o cabelo comprido que insisto em deixar crescer atrapalha minha visão, e preciso pegar um elástico no quarto da minha mãe para amarrar uma parte dele. O colar de contas ajuda a mostrar uma pequena parte do meu peito, e detesto admitir que isso dá um charme que faz com que eu pareça mais velho.
— Meninos, são quase dez. Precisamos ir.
Minha mãe grita do andar de baixo, estou saindo do quarto quando Argie decide sair na mesma hora. Nos encaramos por um breve momento e ele dispara em minha frente, sem ao menos considerar pedir desculpas novamente pela ação absurda que ele teve.
Estou prestes a começar uma discussão quando ouço batidas fortes na porta, desço as escadas quase que atropelando Argie a medida que as batidas se intensificam, e vejo que ele e minha mãe também estão igualmente curiosos, pois todos nos reunimos amontoados sobre o batente.
É Haya, a testa pingando suor e o avental torto mostram que ela saiu correndo seja lá o que estivesse fazendo. Ela olha direto para minha mãe com os olhos arregalados, em pânico.
— Amber, é o Rog. Os pacificadores pegaram ele.
Minha mãe sai porta a fora, as mãos tateando o vestido em busca da carteira, ela confere a quantia de dinheiro que tem e checa o cartão que a identifica como cidadã do Distrito 2.
— Deve ser um mal entendido, estão caçando briga para extorquirem os comerciantes.
— Não Amber, você não entendeu. — Haya parece estar a ponto de desmaiar. — Estão levando ele para o pavilhão de enforcamento.
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