A Jornada do Louco
3 O Enforcado
Notas iniciais
Minha casa está localizada na parte central do 9, com uma distância de aproximadamente dez minutos do Edifício da Justiça. O Pavilhão de Enforcamento fica no lado oposto, o que leva quase o mesmo tempo para chegar partindo da porta de entrada da casa.
Se levariam dez minutos caminhando, deve levar em torno de cinco minutos para chegarmos até o portão de metal ornamentado que guarda o pavilhão. Minha mãe corre na frente, com um fôlego que eu nem imaginava que existia, enquanto Argie e eu tentamos acompanhar seu ritmo, não existe preocupação com a colheita enquanto desviamos das famílias que se dirigem ao Edifício da Justiça, a única informação martelando em nossas cabeças é a de que se atrasarmos um minuto sequer, vamos encontrar o corpo de meu pai pendurado em uma corda de cânhamo.
Parece levar uma eternidade até alcançarmos o portão de ferro encardido, conforme se afastamos da parte central da cidade, os prédios começam a ficar com as paredes descascadas e apresentar avarias em sua estrutura, uma construção que anteriormente abrigava um centro de pesquisa está com quase todas as vidraças quebradas e existem pichações feitas com tinta de tecido que foram esfregadas porcamente na tentativa de apagar o vandalismo. Encontramos o portão quando o céu começa a ficar mais escuro devido a fumaça que as fábricas de processamento de grãos se aproximam.
Dois pacificadores seguram meu pai pelos braços atrás do corpo, o terno cada vez menor deixa os pulsos a mostra, e neles estão presas algemas enferrujadas. O que parece ser o pacificador-chefe abre o imenso cadeado do pavilhão com certa dificuldade.
— Travis, pelo amor de Deus. — Minha mãe entra na frente do chefe dos pacificadores, dificultando a inserção da chave na fechadura. — Eu sei que podemos resolver isso.
— 857, você tem dez segundos para sair da minha frente ou você vai para o enforcamento com ele. — O pacificador-chefe, que deduzo ser o tal Travis, leva a mão na cintura e agarra a arma presa ao coldre.
— Vocês vão enforcar ele sem motivo aparente? — Vejo minha mãe segurar o cadeado com as mãos para trás, mantendo o corpo firme. — Eu exijo uma justificativa plausível, 863.
Me dou conta do que está acontecendo quando minha mãe finaliza a frase: No 2, todos os alunos da Academia de Pacificadores recebem um código de identificação após se graduar, o que os identifica como guardas diplomados. Minha mãe me contou sobre isso uns anos atrás, quando questionei o que significava os números bordados no uniforme dos pacificadores. 863 é o código do tal Travis, então 857 só pode ser o código da minha mãe. Amber Monier, que tinha o sonho de ser joalheira e se tornou professora, se formou como Pacificadora.
— Suborno, agressão e tentativa de sabotagem das leis da Capital. — O homem empurra minha mãe com força e encaixa a chave no cadeado. — Tentou tirar o nome dos seus fedelhos das tésseras, ofereceu dinheiro para alterarmos o sistema e agrediu um guarda para roubar o processador de dados.
É ai que reparo uma bolha no canto do rosto do pacificador que está à direita do meu pai, inchada e esbranquiçada deformando a bochecha esquelética do homem. Se eu pudesse chutar, diria que é uma queimadura de cigarro.
— Agressão e suborno podem ser punidos com corretivos físicos. Sabotagem é punido com a morte.
Os dois homens arrastam meu pai em direção a escada de madeira que eleva a forca alguns metros do solo. Seu corpo fica tenso e dificulta seu caminhar, o que rende uma coronhada do pacificador na sua testa.
— Travis, por favor, é o meu marido! — Minha mãe corre em direção a escada, mas um dos pacificadores aponta a arma em direção a ela.
— Amber, pega os meninos e vá pro Edifício da Justiça. — A voz de meu pai está trêmula devido a coronhada, mas ele não gagueja.
— Não é justo! A culpa é minha, enforquem a mim! — Argie investe em direção ao palco, com os braços abertos para tentar subir na elevação.
Quando colocam a corda no pescoço de meu pai, ouço os gritos de desespero de minha mãe e meu irmão se misturarem com os gritos de repreensão dos pacificadores. Meu pai começa a gritar para minha mãe tirar os filhos dali, os pacificadores engatilham as armas quando Argie sobe no elevado e meu pai se debate, é quando a pequena caixa ornamentada cai no chão de madeira, um dos cigarros rolando até o pé de um pacificador. É ali que sou arrancado do torpor.
— Aumentem as minhas tésseras!
É a primeira vez que se instaura o silêncio. Todos olham pra mim, atônitos, e percebo que Travis afrouxa as mãos da corda de cânhamo.
— O que disse? — Ele levanta uma das sobrancelhas, desconfiado.
— Disse para aumentarem minhas tésseras. — Me aproximo lentamente do elevado, com um sorriso torto de desespero. — Ai vocês podem soltar ele. Pensa bem, um enforcamento de um comerciante em pleno dia da colheita? E, se meu nome for sorteado, o sofrimento é muito maior.
Travis solta uma gargalhada, os pacificadores parecem confusos e evito os olhares da minha família, porquê sei o horror que estampa suas faces. Meu pai foi condenado à morte por tentar subornar a força policial da Capital para diminuir o nome dos filhos das tésseras, e eu acabo de sugerir para aumentarem.
— Você prefere ir para a arena do que deixar esse gorducho morrer? — Travis solta a corda e se aproxima da ponta da elevação, um sorriso de escárnio preenchendo seus lábios.
— Eu já tenho quatorze papéis. Que tal mais dez? — Olho por cima de seu ombro, para o pacificador com a queimadura no rosto. — Ele tem um processador de dados, certo? Você pode digitar meu nome, aumentar as tésseras e soltar meu pai. Eu nem preciso receber o punhado de grãos.
É a primeira vez que desvio o olhar para minha mãe, branca como papel e com lágrimas pingando da ponta do queixo pontudo. As mãos agarradas tão fortes à barra do vestido que os nós dos dedos começam a ficar brancos.
— Estupidez é de família, pelo que eu vejo. — O pacificador chefe vai até seu subordinado e apanha um pequeno aparelho sem teclas, tocando sua tela.
— Travis, não de ouvidos a ele.. — Minha mãe começa a falar, mas o homem levanta o dedo indicador pra ela, em sinal de silêncio.
— Pronto, Aurum Monier. Vinte tésseras a mais. Soltem o gorducho. — Ele grita para os pacificadores, que correm para desamarrar meu pai. — Vocês não vão querer se atrasar para a colheita, não é mesmo?
O sorteio dos tributos não acontece em horário simultâneo para que os cidadãos da Capital possam assistir todas as colheitas e começar a escolher seus favoritos. Panem possui mais de seis fuso horários diferentes, de forma que os primeiros distritos a serem sorteados são o 6, 8, 11 e 12. No distrito 9, a colheita ocorre pontualmente ao meio dia.
Quando o relógio antigo pendurado na saída do Pavilhão de Enforcamento marca onze e vinte, precisamos apertar o passo para não corrermos o risco de perder a hora do alistamento obrigatório. Meus pais deixam que eu e Argie andemos na frente, e pela distância dos dois, sei que estão discutindo em voz baixa, provavelmente sobre a atitude impensada de meu pai ou o péssimo negócio que fechei com o pacificador-chefe. Estou um pouco mais à frente de Argie quando ele me alcança.
— Você não deveria ter feito isso. Tem quase cinco vezes mais papéis do que o normal.
— Eu poderia ter três papéis só.
— Já pedi desculpas, tá legal? O que você quer que eu faça?
— Comece a agir como homem, Argentum. Você vai fazer dezessete anos, se você não fosse viciado em fazer merda, nada disso teria acontecido.
Aperto o passo e deixo meu irmão falando sozinho, já é ruim o suficiente lidar com os olhares pesarosos dos meus pais, não estou com paciência para bancar a babá de um marmanjo quase adulto. O céu clareia a medida que me afasto das chaminés das fábricas, e consigo ver ao longe o aglomerado de cidadãos com suas melhores roupas sendo conduzidos pelos pacificadores. Uma sombra cobre momentaneamente um raio de trezentos metros ao meu redor quando o aerodeslizador da Capital se aproxima do Edifício da Justiça, voando mais baixo do que eu consideraria uma distância segura, e consigo ver quando o objeto pousa algumas ruas para trás do edifício.
Estamos quase chegando quando um veículo cinza se aproxima da lateral da construção com seus vídeos fumê, o carro de transporte da Capital carrega a acompanhante dos tributos, seu maquiador profissional e um dos fãs sorteados meses antes para acompanhar a colheita de perto. Não consigo identificar a identidade do fã, se é um homem ou uma mulher, mas com certeza identifico o que parece ser uma antena de televisão presa em uma peruca em formato de torre, com pequenas luminárias piscando estroboscópicas, A coisa veste um macacão com estrutura metálica que lembra alumínio polido e reflete a luz do sol muitos metros de distância, um verdadeiro show de horror.
Na fila de alistamento, pacificadores espetam os dedos dos adolescentes e pressionam contra o papel com seus nomes. Quando chega minha vez, um pacificador velho sorri com desdém.
— Você é o garoto Monier, o mais novo. — Ele me diz, enquanto confirmo com a cabeça.
Ele espeta meu dedo, pressionando contra o papel mais tempo do que eu gostaria. Do lado dos nomes, consta a quantidade de tésseras que cada candidato a tributo possui.
Aurum Monier | 50
— Cinquenta? — Arregalo os olhos para o pacificador. Deveriam ter trinta e quatro tesseras de acordo com Travis.
— Cortesia dos pacificadores. — O homem cospe no chão, e sinto a mão de outro pacificador me empurrar para as filas de tributos.
Tento encontrar Argie atrás de mim, mas tradicionalmente preciso ficar mais próximo ao palco, já que ainda não completei quinze anos. Meu irmão fica um pouco mais atrás, junto com os rapazes que tem dezesseis anos completos. Quando percebo, estou na quinta fileira, entre dois garotos idênticos do Arado, que assumo ser irmãos gêmeos.
Um deles me olha e aponta para o colar de contas em meu pescoço.
— Cordão maneiro.
— Obrigado. — Respondo olhando acima do seu ombro, vendo se encontro meu irmão entre o mar de cabeças atrás de mim.
Localizo Argie quatro fileiras atrás de mim, antes que eu possa levantar o braço para sinalizar onde estou, os murmúrios entre as filas cessam com a chegada da nossa acompanhante.
Seu nome é Sabina Fuscus, deve ter seus trinta e poucos anos e não esconde a fixação em tinta corporal: Todos os anos, sua pele tem uma coloração diferente. Este ano, sua pele está tingida com um azul claro, com escamas em relevo cravejadas em seu rosto e braços, seu cabelo é branco e rodopia em pequenos furacões para cima e ela usa um vestido branco ornamentado com redes de pesca. Sabina não esconde que gostaria de acompanhar um dos distritos carreiristas, e parece se esforçar para ser notada pela Capital.
— Bem vindos, cidadãos do Distrito 9! — Sua voz manhosa saúda todos nós com uma animação irritante. — Que a sorte esteja SEMPRE a seu favor!
O prefeito entrega a ela um pequeno controle do enorme projetor apontado para o Edifício da Justiça, e ela exagera uma reverência antes de pegá-lo da mão do homem.
— Para dar início a colheita da 63º Edição, o Presidente Snow enviou uma mensagem importante para vocês.
É o mesmo vídeo transmitido pela Capital no dia dos jogos, me lembro dele desde que era pequenininho. Guerra, guerra terrível. É o que eles dizem sobre os Dias Escuros, a rebelião dos distritos contra sua amada e benevolente Capital, que destroçou os doze distritos e destruiu completamente o décimo terceiro.
O vídeo mostra uma sequência de cenas com a voz do Presidente Snow ao fundo, relembrando as perdas ocasionadas pela revolta e como a Capital perdoou os crimes de guerra com o surgimento dos Jogos Vorazes como um lembrete anual de que não podemos sobrepujar o poder do governo de Panem.
A gravação mostra construções em ruínas, veículos em chamas, soldados fuzilando rebeldes, crianças chorando sobre os corpos de seus entes queridos, covas sendo abertas e a bandeira vermelha e dourada resplandescente da Capital hasteada. Uma encenação patética feita por um rapaz e uma moça mostram a glória de lutar nos jogos. É assim que honramos nosso passado, é assim que guardamos nosso futuro.
— Como sempre, damas primeiro!
A estranha figura de Sabina desfila até o enorme globo de vidro ao lado direito do palco e enfia uma de duas mãos lânguidas no bocal, remexendo alguns papéis enquanto murmura uma melodia extremamente irritante.
— O tributo feminino do Distrito nove é… — Ela bate as enormes unhas no papel como forma de suspense, abrindo em seguida. — Erin Azmati!
Erin trabalha no campo, acredito que ela tenha dezessete ou dezoito anos e tem alguns músculos devido o trabalho pesado. Eu arriscaria dizer que ela é a pessoa melhor nutrida do Arado, quando ela caminha até o palco com um vestido bege claramente herdado de algum parente, já que as mangas apertam seus braços e a saia é relativamente curta, ela parece uma boneca que cresceu demais e as roupas não acompanharam. Ela não se intimida, seus passos são duros e ela olha para frente, ignorando os choramingos da irmã mais nova, essa bem mais desnutrida.
— Com certeza uma candidata mais forte que a do ano passado! — O comentário de Sabina é de extremo mau tom, a tributo do ano passado também veio do Arado e mal se aguentava em pé de fome. — Agora, vamos aos rapazes!
Quando ela caminha ao globo de vidro do lado direito, meu coração dá sinais de ansiedade quando palpita descompassado. Existem cinquenta papéis ali com meu nome, em uma imensidão de papéis com nomes aleatório, não apostaria minhas fichas quando Argie também tem vinte papéis, e as crianças do Arado que tem família grandes, que podem ter quase cem papéis no globo.
Quando Sabina mergulha sua mão no globo, o tempo desregula e cada movimento parece durar uma eternidade. Ela cavuca entre os papéis, a mesma melodia irritante nos lábios, e eu posso jurar que nenhum dos garotos está respirando agora. Quando ela escolhe um dos papéis, seu desfile de volta ao microfone leva pelo menos cinquenta anos, tempo o suficiente de calcular as possibilidades: posso voltar para casa, jantar o pão de tomilho e azeitonas com a geleia e o suco de laranja que sobrou, ou posso ser selecionado. E nesse caso, precisaria calcular as inúmeras possibilidades de mortes horríveis.
— O tributo masculino do distrito nove é…
Posso jurar que a bandeira da Capital está brilhando sob o Edifício da Justiça, também posso jurar que Travis está olhando diretamente pra mim, de cima do palco, sorrindo em escárnio.
— Aurum Monier.
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