Notas iniciais
Olá! Aproveitando que estou de férias da faculdade, tenho dedicado grande parte do meu tempo a escrever os capítulos. Será que finalizo essa história antes do fim das férias?

Lembro de assistir mais colheitas do que eu gostaria, e já vi as mais diversas reações. Na primeira colheita que assisti, eu tinha cinco anos, o menino sorteado desmaiou a caminho do palco. Em outra colheita, uma menina de uns quinze anos urinou nas calças e manchou todo o vestido. Na colheita de Gemma, o tributo masculino precisou ser arrastado para o palco depois de ter um ataque de ansiedade.


Mas nada disso acontece quando chamam meu nome. Demoro alguns segundos para digerir cada sílaba dita por Sabina antes de começar a caminhar em direção ao palco, sinto minhas pernas bambearem a cada passo que dou, os olhos de todo o distrito voltados para mim em busca de uma reação negativa. Acredito que consigo manter uma expressão neutra, mas quando uma das câmeras articuladas se movimenta para próximo ao meu rosto, engulo seco em puro desconforto.


— Não são belos concorrentes? — Sabina sorri para a plateia, que observa o espetáculo em completo silêncio. — Agora, a leitura do Tratado da Traição!


Quando o prefeito está prestes a assumir o microfone para a leitura do documento, meus olhos fixam na figura de meu pai caminhando rapidamente entre a fila masculina. Quero gritar para que ele saia de lá, mas ele não vem em direção ao palco, ao invés disso ele encontra Argie na plateia e lhe dá um soco. Espero os pacificadores intercederem, mas eles só observam enquanto meu pai dá mais alguns golpes em meu irmão, esbravejando contra ele.


— A culpa é toda sua, seu moleque idiota! Imbecil! Criminoso!


Ouço meu irmão urrar de dor, é quando os pacificadores escoltam meu pai de volta para a fila atrás da corda de contenção, minha mãe o espera centralizada com o palco, os olhos fixos em mim e uma expressão de choque. A mente ainda processando que mais um filho foi selecionado para os Jogos.


A leitura do Tratado da Traição leva alguns minutos, e percebo que nunca prestei atenção nessa leitura pois é o momento que temos para observar os tributos escolhidos com calma, analisar suas expressões faciais e seu comportamento após o choque. Se eu estivesse lá embaixo, começaria a teorizar quais horrores haviam sido preparados para a edição deste ano, respiraria aliviado após a leitura dos nomes e voltaria para casa após o aperto de mãos que sela a colheita. Este ano é diferente, de cima do palco a coisa toda é ainda mais assustadora pois toda a multidão mantém os olhos fixos em você, os olhares divergindo entre pena, compaixão, curiosidade e luto antecipado. As chances do nove costumam ser baixas, e não é todo dia que uma criança filha de comerciantes é selecionada para os jogos, ainda mais de uma família que já mandou uma criança para os jogos anteriormente.


— Senhoras e senhores, os tributos do distrito 9! Erin Azmati e Aurum Monier!


É a primeira vez que olho para Erin, e ela me olha de volta com uma expressão enigmática. Estendo a mão para ela e ela retribui o gesto, selando o aperto de mãos que dá início aos jogos. Sinto uma mão em meu ombro me conduzindo para dentro do Edifício, e me permito começar a respirar normalmente de novo.


O Edifício da Justiça é velho e cheira a mofo, a maior parte das salas não são usadas normalmente, de modo que vou parar em um cômodo que acredito ser uma biblioteca, com uma estante de livros empoeirada que contém uma série de enciclopédias e registros históricos. Sento na borda de uma poltrona de couro azulada, tamborilando os dedos no braço do assento, inquieto. Estive em uma sala como essa apenas uma vez, na despedida de Gemma quando ela foi selecionada. A sensação é igualmente ruim, igualzinho a primeira vez.


Devem ter se passado pelo menos cinquenta minutos quando recebo minha primeira visita. É Haya, agora vestindo um vestido de veludo vermelho. Em suas mãos, ela carrega um embrulho que posso imaginar que seja um pão.


Ela me abraça, e eu retribuo seu abraço apesar de não gostar muito de contato físico. Ficamos abraçados por quase um minuto inteiro, e quando nos separamos ela me entrega o pacote.


— Azeitona e tomilho. Por conta da casa.

— Assim vou ficar mal acostumado.


Ela solta uma risada que engasga rapidamente, os olhos começando a marejar.


— Se fosse qualquer outra criança, eu não teria esperanças. Mas você é esperto, Ourinho. Você tem chances reais.

— O nove geralmente morre no banho de sangue. — Constato, me sentando novamente na poltrona.

— Você não precisa de uma arma no começo, foca em conquistar a simpatia da Capital. Foi o que a Laurel fez.


Laurel Flamsteed venceu a 36º edição dos Jogos Vorazes, aos dezoito anos. Sua estratégia foi flertar com os patrocinadores nos eventos oficiais pré-jogos e se destacou por conseguir uma nota 9 nas apresentações individuais. Na arena, recebeu uma foice de um patrocinador, e por trabalhar no Arado, tinha habilidade suficiente para matar os últimos tributos vivos com a arma.


Um pacificador abre a porta, sinalizando o fim da visita. Damos um último abraço, ela beija o topo da minha cabeça e vai embora.


Quinze minutos depois, recebo uma segunda visita inesperada, que me faz franzir as sobrancelhas assim que a figura atravessa a porta. O garoto tem a minha idade, cabelos castanhos e olhos verdes, o reconheço pois estudamos na mesma turma e já fizemos alguns trabalhos de Sociedade e Civilidade juntos. Seu nome é Garret Flamsteed, filho de Laurel.


— Oi, Aurum. — Ele me cumprimenta, parado próximo a poltrona que estou.

— Oi, Garret. — Retribuo o cumprimento, tentando dar um sorriso que mais parece uma careta.


Ele me observa por alguns segundos, sem esboçar nenhuma reação. Então, em um movimento rápido, ele se curva sobre a poltrona e me abraça em silêncio.


Retribuo o abraço de forma desajeitada, o cheiro dele é fresco e me lembra alguma planta usada no Boticário do centro da cidade. Sinto minhas bochechas ficarem vermelhas enquanto o abraço parece durar uma eternidade.


— Minha mãe vai para a Capital esse ano junto com Jomilee. Você pode escolher entre eles para ser seu mentor. — Jomilee foi o penúltimo vencedor dos jogos do distrito, venceu a 40° Edição dos Jogos. — Queria pedir para você escolher minha mãe.


Olho fixamente para o garoto, sem saber muito bem o que dizer. Confirmo com a cabeça que irei escolhê-la, e ele põe a mão em meu ombro.


— O Jomilee não tem uma boa fama entre os vitoriosos. E minha mãe vai fazer de tudo pra você vencer.


Ele se inclina novamente e dá um beijo em minha bochecha. Sentir o rosto dele tão perto do meu me causa ansiedade, e sinto as bochechas ficando vermelhas novamente. O mesmo pacificador abre a porta, e ele sai da sala sem olhar pra trás.


Quando minha família chega, os três explodem em choro instantaneamente. Tento manter a postura porque sei que tributos que aparecem em frente às câmeras com o rosto inchado são lidos como fracos, o que pode comprometer minha imagem com os patrocinadores. Minha mãe corre em minha direção e me sufoca em um abraço apertado.


— Os pacificadores podem te prejudicar aqui, mas não tem poder na Capital. Nem tudo está perdido, entendeu?


Faço que sim com a cabeça, com uma certa dificuldade para respirar. Meu pai se aproxima com os olhos marejados, me olhando fixamente.


— Lembra da nossa brincadeira com as facas?


Em alguns fins de semana, descíamos até o porão para treinar arremesso de facas. Nunca fui o melhor atirador, e as facas de cozinha não são as mais adequadas, mas tenho uma breve noção.


— Eu teria que ir até o banho de sangue.

— Não, é muito arriscado. Vamos fazer barulho e juntar dinheiro entre os comerciantes para te patrocinar, foque em aprender o que você ainda não sabe. — Meu pai é categórico e quando termina de falar, se junta com minha mãe em um abraço.

— Você vai lutar, não vai? — Pergunta minha mãe, as lágrimas pingando sobre minha cabeça.

— Vou. Pela Gemma.


Argie se aproxima de nós, o olho roxo pelo soco que meu pai deu, lágrimas escorrendo do seu rosto. Meus pais me soltam e se afastam um pouco pra deixar nós conversarmos.


Antes de ele comece a falar, enlaço um abraço forte em seu tronco e sinto seu coração batendo rápido. Ele me abraça mais forte e começa a chorar de verdade, passando a mão em meus cabelos.


— Eu nunca vou me perdoar. Nós assistimos os jogos juntos, conversamos o que é uma boa ideia e o que é uma péssima ideia, você me diz todo ano que os jogos começam quando embarcam no trem, você precisa vencer. Eu não posso te perder. — Ele fala rápido, a respiração falha em alguns momentos. — Você consegue pães de graça com a Haya, convenceu um pacificador a soltar o papai, todos os professores te adoram. Vai ser fácil conquistar os patrocinadores, eles vão torcer por você. Me promete que você vai lutar, Aurie. Me jura!


— Eu vou vencer, Argie. Eu vou voltar pra casa.


Tento soar o mais confiante possível, mas sei que minhas chances são baixas. Mas preciso convencer Argie e meus pais que vou tentar. Ah, minha pequena, disfuncional e traumatizada família, apesar dos defeitos eu amo cada um deles. Queria ter demonstrado mais enquanto havia tempo, treinado mais com meu pai, ouvido histórias da juventude da minha mãe, dividido mais pães com Argie.


— Eu amo vocês. Se eu não voltar, vocês não podem sofrer o resto da vida, vocês precisam seguir em frente. E você, vê se não pega mais tésseras.


Eles choram um pouco mais, abraço todos eles a tempo do pacificador abrir a porta. Olho nos olhos da minha mãe uma última vez, e aperto o colar de contas em meu pescoço.


— O colar é lindo. Vou usar na arena e vou voltar com a coroa combinando com ele.


Ela sorri pra mim e beija meu rosto, o pacificador toma ela pelo braço e arrasta para fora da sala, batendo a porta com força. E depois, não recebo mais visitas.


O trem-bala que nos leva até a Capital é tão luxuoso quanto rápido, o vagão que sou destinado tem pelo menos o dobro do tamanho do meu quarto, com uma cama grande, um armário com roupas do meu tamanho e um banheiro privativo com banheira. A primeira coisa que faço ao entrar no trem é entrar debaixo do chuveiro, esfregando meu corpo repetidas vezes para tirar o cheiro de suor depois da maratona que enfrentei desde o Pavilhão de Enforcamento. O sabonete líquido tem um tom verde e cheira a menta, e os produtos para cabelo deixam as mechas acetinadas, ajudando a desembaraçar.


Quando saio do banho, coloco novamente meu colar de contas e escolho vestir uma camiseta preta e uma calça folgada da mesma cor. Existem três tipos de calçado disponíveis, mas opto por ficar descalço já que o carpete tem regulação térmica, e sua temperatura lembra um piso frio. Amarro o cabelo com um lenço amarelo-mostarda disponível em meu armário e saio em direção ao vagão principal.


Quando chego ao vagão, já é sete horas. Sabina está sem a peruca, apenas com uma touca de cetim e está aplicando laquê em algumas mechas. Erin também tomou um banho, e agora veste camiseta e calça também, sem mais usar o vestido apertado. Nas cadeiras próximas a janela, duas figuras dividem uma garrafa do que parece ser whisky.


— Agora o time está completo. — O homem sorri para mim, chamando atenção de Erin e Sabina.


Jomilee tem quase quarenta anos, os olhos negros e cabeça raspada, ele ostenta uma cicatriz de queimadura em metade do rosto, conquistada em sua edição dos Jogos: Um arquipélago de vulcões em erupção constante. Ele não está fora de forma, mas o sedentarismo deixou ele menos ágil.


— Oi, Aurum. Estávamos nos questionando porque o filho de um comerciante tinha cinquenta tésseras na colheita. — Laurel sorri pra mim com curiosidade, bebericando o copo de whisky.


Direto ao ponto e sem rodeios. Isso me traz uma sensação de similaridade, e me identifico um pouco mais com ela. Laurel é mais velha, as rugas começaram a aparecer em seu rosto arredondado. Ela tem a pele bronzeada, os cabelos lisos presos em um coque alto, seu corpo magro conserva uma agilidade pouco vista no distrito 9. Dá pra entender o porquê ela venceu.


Conto a eles os detalhes de tudo que aconteceu durante a manhã, omitindo apenas a agressão de meu pai contra um pacificador, e é nítido que até Sabina achou a história emocionante. Os mentores se empertigam nas poltronas, repondo seus copos de whisky entre uma pausa e outra. Quando termino de contar, Erin abre a boca pela primeira vez desde a colheita.


— Então você assinou seu atestado de óbito porque seu irmão é um canalha e seu pai um sem noção?


Meu rosto fica vermelho de raiva, estou prestes a dar uma resposta afiada quando me lembro que ela é maior que eu, mais forte e mais velha. Será que eu quero conquistar uma inimiga logo no primeiro dia?


— Prefiro olhar por outra ótica. Se não fossem os cinquenta papéis, não iria pra arena com a menina mais bonita do Arado, não é?


Se não fosse a pele morena, podia jurar que ela ficou vermelha. Ela desvia o olhar para a janela e não toca mais no assunto, enquanto Sabina dá um suspiro exagerado e os mentores trocam um sorriso.


— Amor juvenil é ótimo para os patrocinadores, se querem saber. — Jomilee pisca para mim, e Erin lança um olhar fulminante para ele.

— Já tenho alguém esperando por mim. E é muito mais bonito que esse nanico.


Não deixo de ficar ofendido com a colocação, na última vez que minha mãe mediu minha altura eu estava com um metro e sessenta e cinco. Isso fazem alguns meses, eu já devo ter crescido pelo menos três centímetros.


— Bom, então temos uma trabalhadora do Arado e um filho de comerciantes bom de lábia. Podemos trabalhar com isso. — Diz Laurel, finalizando seu copo. — Vocês chegam à Capital pela manhã, serão levados até o prédio dos tributos e serão arrumados para o desfile. Depois disso, começamos a conversar sobre as estratégias.


— Hora do jantar! — Sabina toca uma sineta estridente. — Aproveitem suas próximas refeições, na arena a comida é escassa.


A mesa do jantar tem mais comida do que o necessário: Uma tábua de madeira recheada de queijos de diferentes tamanhos e colorações, reconheço as fatias rosa claro como sendo presunto, uma raridade no distrito. Além dele, vários outros embutidos avermelhados brilham sobre a tábua, com uma cesta de pães variados ao lado. Em uma mesa encostada na janela, estão os pratos principais enfileirados, e identifico diferentes sopas, caldos, massas coloridas, carne de boi e porco assadas, coxas de frango suculentas e outros pratos que nunca vi.


O cheiro da comida é desconcertante, e quando percebo enchi um prato com um pouco de cada opção, e vejo que Erin pensou a mesma coisa. O jantar ocorre em silêncio com um ou outro funcionário repondo as taças com suco naturais e alguns sucos com bolhas, que Sabina chama de refrigerante. Quando terminamos, somos direcionados á nossas cabines individuais, e não demora muito para o sono começar a cobrar seu preço.


É nesse momento que me permito chorar, as lágrimas escorrem do meu rosto a medida que relembro os acontecimentos do dia. Quando observo o espelho embutido no armário, começo a me dar conta que, em poucos dias, completarei quinze anos. Será que já vou estar na arena? Geralmente os jogos iniciam seis dias após a colheita, e calculo que se eu chegar ao quarto dia na arena, completo quinze anos com vida.


Ouço um barulho de choro baixo, quando presto atenção, percebo que vem da cabine ao lado, e novamente Erin teve a mesma ideia que eu. Ela começa a soluçar depois de um tempo, e permito que os travesseiros de plumas confortem minha cabeça quando caio no sono.


Notas finais
E… fim do capítulo! Obrigado por ler até aqui. Um xero! Tava esperando quatro xeros? Não sou previsível.