A Jornada do Louco
5 A Imperatriz
Notas iniciais
Por incrível que pareça, durmo um sono tão pesado que não tenho sonhos. Quando acordo, meu corpo está perfeitamente encaixado no colchão e tenho vontade de ficar na cama o resto do dia.
Um relógio digital próximo a cama marca cinco e meia da manhã. Minha mente recapitula todo o dia anterior do momento em que acordei até o momento em que fui me deitar, e me dou conta de que vivi três dias em um só. Minha garganta seca clama por um pouco de água, e me forço a sair da cama para ir até o vagão principal.
O vagão está vazio exceto pela figura de Laurel, que beberica uma xícara com líquido preto enquanto observa a paisagem pela janela, os primeiros raios de sol iluminando o pijama de cetim lilás.
— Quem diria que teria árvores no Distrito 1, hein? — Laurel aponta para uma longa campina, com árvores vistosas repletas de folhagem, parecem ser frutíferas pois uma ou outra bolota amarela pendem entre os galhos.
— Achei que o 1 era uma versão mais pobre da Capital. — Pego uma das xícaras disponíveis e sirvo o líquido preto que está em um bule de cristal. — É café?
— Sim, fique a vontade. E você não está errado, perto do 9, o distrito 1 é quase uma Capital.
Consigo ver ao longe as primeiras construções se erguendo no horizonte, prédios maiores do que os existentes em casa, com suas luzes acesas em um amarelo cintilante. As fábricas de joias são fáceis de distinguir, com sua arquitetura quadrada e chaminés acesas.
— Garret foi me visitar no Edifício da Justiça. — Decido contar a ela, sentando na poltrona próxima também virada para a janela.
— Ele é um menino sensível. Implorou para Travis deixar ele entrar. Sorte que ele me devia um favor.
— Jura? — Ergo a sobrancelha. — Não sei se me admira mais a atitude do Garret ou Travis te dever um favor.
— Digamos que os vitoriosos tem algumas regalias. — Ela pisca para mim. — Garret pediu para eu entregar algo para você, inclusive.
Ela estica o braço até sua bolsa de tecido, tomando entre os dedos um papel dobrado com um carimbo de cera azul lacrando o que parece ser uma carta.
— Nem me pergunte. — Ela parece interceptar minhas dúvidas. — Eu não abri e ele não me contou o que está escrito.
Estouro o lacre com as unhas e desdobro o papel, a caligrafia é um pouco torta, mas consigo ler com clareza o que está escrito:
Aurum,
Sei que você não esperava me ver no Edifício da Justiça. Quando seu nome foi chamado, fiquei sem respirar por pelo menos um minuto, e soube que eu precisava falar com você.
Tenho um espelho no meu quarto que foi produzido pelo seu pai, eu me lembro de ir buscar com minha mãe a uns quatro anos atrás, foi quando nos conhecemos. Você me ajudou a carregar o espelho até em casa, ficou embasbacado com a Aldeia dos Vitoriosos e disse que eu tinha sorte, e quando eu quase deixei o espelho cair você me tranquilizou, dizendo que acidentes acontecem mas já estava tudo bem.
Desde aquele dia, tenho te observado, as vezes tomo coragem para te chamar para os trabalhos da escola, mas costumo te admirar em silêncio. O jeito que você segura a caneta com a mão esquerda, como ri das piadas do seu irmão, como coça o queixo quando tem alguma dúvida.
Eu acho que gosto de você. Do tipo, gostar de um jeito diferente. E eu sinto que se você não voltar pra casa, meu coração vai se despedaçar, então pedi para que minha mãe te ajude a voltar com segurança. Se essa carta faz sentido ou não, admito que não me importo, mas não poderia deixar você ir para os jogos sem que soubesse.
Volte vivo.
Garret.
Encaro o papel atônito, sentindo as bochechas queimando. Eu já tinha reparado que as vezes ele olhava para mim, mas pensava que fosse por me achar esquisito ou algo do gênero. Eu nunca gostei de ninguém, nem de meninas e nem de meninos, então a informação me atinge como um soco que me deixa desnorteado.
— Posso imaginar o conteúdo dessa carta. O Garret nunca escreveu pra ninguém.
Quando olho para Laurel, sua expressão é pacífica, então acredito que não exista tabus em relação ao assunto. Ela sorri quando percebe meu rubor, tento falar mas percebo que minha voz está engasgada.
— Eu prometi que te levaria de volta pra casa. Então, considere que você não poderá escolher seu mentor.
— E você acha mesmo que eu posso voltar pra casa?
— Vamos descobrir em breve. O café da manhã já vai ser servido, recomendo que você coma bastante. A preparação para o desfile vai ser longa.
Três horas depois, estou enfurnado em uma pequena saleta no Edifício dos Tributos. Minha pele está sendo esfregada por um membro da minha equipe de preparação, enquanto o outro lava os meus cabelos com inúmeros produtos.
— Acho que você é o tributo mais limpinho que o 9 já enviou! — Vênus é uma mulher de meia idade viciada em aves, então todo seu visual é adornado por penas multicoloridas. Seu nariz arrebitado com certeza foi alvo de procedimentos cirúrgicos, e seus olhos tem formato de fenda.
— E esse cabelo? Para um tributo, está extremamente bem cuidado! — Quem fala agora é Atticus, ele é bem mais jovem e claramente se inspira em Ceasar Flickerman, pois usa uma peruca mal colada, amarrada para trás como tradicionalmente o apresentador usa, e seus lábios e pálpebras pintados da mesma cor da peruca, um amarelo-canário.
— Vocês são muito gentis. — Para não dizer desagradáveis, dou um sorriso pensando na ideia de conquistar meus primeiros aliados: minha equipe de preparação.
Eles sorriem e se entreolham, como bons amigos que confidenciam segredos, e Vênus alcança uma caixa de chocolates que está embaixo de sua bancada. Ela me oferece um e aceito por educação.
— Quando terminarmos, você vai ser o homem mais lindo dessa edição! — Ela aperta minhas bochechas, suas unhas pontudas muito próximas dos meus olhos me causa arrepios.
— Se eu posso te dar uma sugestão, eu cortaria um pouco seu cabelo, na arena ele pode se virar contra você. Muitos tributos agarram o cabelo uns dos outros no banho de sangue. — Por incrível que pareça, o tom de Atticus é realmente sugestivo, o que me surpreende ter o livre arbítrio de tomar uma decisão estética.
— E o que você me sugere? Eu não quero cortar ele curtinho.
Ele sorri pra mim e magicamente está segurando um catálogo com estilos diferentes de cortes. Eu juro, aquilo não estava na mão dele um segundo atrás, fico atordoado com a quantidade de cortes plurais que existem. Como não posso perder a oportunidade de ganhar um corte de cabelo grátis, folheio o catálogo cuidadosamente até encontrar um penteado que me salta os olhos. Shullet. Na descrição, ele indica que é uma mistura de shaggy com mullet, e faço uma careta quando não entendo nadica de nada.
— É uma opção excelente! Vai valorizar seu rosto, manter o volume do cabelo cacheado e construir camadas. — Ele puxa a tesoura e um borrifador de água. — Você quer arrasar corações mesmo, não é?
— Tem um pouquinho de Aurum pra todo mundo na Capital. — Pisco pra ele, e meus simpáticos preparadores caem no riso, continuando a me emperequetar.
Quando a sessão de beleza termina, tenho o corpo inteiramente depilado exceto a região do peito, unhas perfeitamente lixadas é um novo corte de cabelo com franja. Atticus faz questão de ressaltar que estou exalando energia de um período pré guerra denominado Anos 80, e não posso deixar de admirar no espelho que eles fizeram um bom trabalho. Pareço mais velho do que sou e o visual me torna galanteador até mesmo em silêncio, o que faz meus preparadores sorrirem satisfeitos.
— Em alguns minutos, você vai conhecer sua estilista. Vamos torcer por você, e chorar muito quando você morrer. — Vênus sorri entusiasmada, mas percebe o que falou logo em seguida. — Mas vamos vibrar muito mais se você vencer! É, se você vencer vai ser incrível!
Atticus lança um olhar de julgamento para ela e a arrasta para fora da tenda, me deixando apenas com um roupão cirúrgico e um cabelo estiloso.
Penso em Garret e na sua carta, me encontro em conflito entre achar o escrito a coisa mais fofa que poderia ter recebido e achar bizarro a ideia de alguém observando meus passos diariamente. A lembrança do abraço na saleta do Edifício da Justiça e do cheiro do perfume de ervas me causa uma sensação estranha, e imagino se teríamos conversado sobre isso se eu nunca tivesse sido selecionado, se ele me chamaria para tomar um café ou me levaria nos seus lugares favoritos do distrito. Pensar sobre isso me entristece, ainda mais dado o fato de que eu não conheço nada sobre ele, e decido colocar uma pedra sobre esse assunto até segunda ordem.
O barulho de salto alto ecoa pelo piso de mármore do edifício e a mulher mais alta que já vi na vida ultrapassa a fina cortina que me separa dos outros participantes. Ela tem facilmente quase dois metros de altura, a pele morena ostenta tatuagens douradas e seu cabelo cacheado desce até sua cintura. Os olhos dourados combinam com os lábios pintados da mesma cor, e fico em dúvida se ela parece uma estátua viva ou uma leoa humanóide.
— Que pequenino! Você é a carne fresca da vez? — Ela sorri para mim, seus caninos são cravejados com pedrinhas de brilhantes.
— Você diria que pareço carne de coelho ou de cordeiro? — Dou uma voltinha com os braços abertos, sorrindo de volta.
— Meu trabalho é fazer com que você pareça algo mais mortífero. Me diga, qual o animal mais perigoso do 9?
— Já ouviu falar na cascavel-da-pradaria?
Ela sorri.
— Sei de algo que vai servir perfeitamente em você! Pode me chamar de Nefertiti, vou garantir que a Capital tenha três opções: ter medo de você, querer ser você ou querer ter você.
Já é quase noite quando Nefertiti dá os toques finais no traje alegórico que utilizarei no desfile. Em um processo que deve ter levado em torno de cinco horas, foram tiradas minhas medidas pelo menos três vezes e pude assistir minha estilista trançar folhas de trigo secas em um manequim impresso com as dimensões do meu corpo. Minha equipe de preparação retorna após este período para a sessão de maquiagem, trazendo consigo uma imensidão de pincéis, tintas e brilhos para a construção da persona que estará de pé na carruagem.
Quando terminam, sou apresentado a uma versão minha que desafia a lógica estética: meu rosto é definido e a mandíbula desenhada traz um ar masculino, enquanto o sombreado dourado em meus olhos, com manchas amarelo-areia na extensão do meu rosto trazem uma certa feminilidade. Estou o que ouvi eles chamarem de andrógino, quando uma mecha do meu cabelo é trançada com um fio dourado com faixas refletoras, me sinto como uma entidade.
— Majestic! Escandalo! — Esqueci de mencionar que Atticus nutre uma fixação por palavras em língua estrangeira. Ele confere meu cabelo pelo menos cinco vezes e sorri de orelha a orelha.
— Você deixou de ser fofinho e agora parece uma máquina de matar. Aposto que você vai ser a estrela da noite! — Vênus borrifa algo que eu entendi como sendo um fixador de maquiagem, dando pequenos retoques entre as falas.
— Obrigado, queridos humaninhos. É hora do show. — Nefertiti expulsa meus preparadores e caminha até o manequim coberto com um lençol, sorrindo para mim. — Quer ficar mais mortal?
Quando ela puxa o lençol, meu queixo cai instantaneamente. O traje é um vestido com gola alta e mangas compridas, inteiramente costurado em um material que lembra a pele de uma cobra. O trançado de fios de trigo desenham escamas em relevo e afunilam o vestido até os pés em uma ilusão de ótica para ilustrar o corpo de serpente.
— Cascavel o suficiente para você?
— Eu vestiria isso todos os dias. — Sorrio para ela, enquanto passo os dedos pelo tecido.
— O desfile começa em uma hora. Vamos te vestir e descer até o subsolo, as carruagens estão esperando lá embaixo.
Vestir o traje é ainda mais impressionante do que apenas vê-lo, ele desenha meu corpo e faz com que eu pareça mais forte do que realmente sou. Quando damos os últimos ajustes, Nefertiti alcança uma pequena caixa com um dispositivo estranho dentro dela.
— Vamos colocar isso na sua língua. É uma prótese projetora, funciona com gotículas de água. Dentro da sua boca, vai estar úmido. E aí é só soprar com cuidado que a mágica acontece.
Encaixo o equipamento em minha língua e ele se movimenta sutilmente para se moldar ao formato dela. A sensação é um pouco desconfortável e parece ocupar espaço demais na boca.
— É pra ser desconfortável assim? — Minha voz soa engraçada, como se o som de ésse fosse ressaltado.
— Com o tempo você se acostuma. Agora olha no espelho e sopra devagar.
Fixo meu olhar ao espelho e solto o ar dos pulmões pela boca, um retângulo preto com uma bifurcação triangular escapa dos meus lábios em movimentos sincronizados: uma língua de cobra.
— Isso é demais! — Solto uma gargalhada, soprando várias vezes para ver a língua falsa dançar pelos meus lábios entreabertos.
Nefertiti sorri, caminhamos juntos até o elevador e ela aperta um botão com as letras SS. Quando chegamos no subsolo, uma imensidão de alegorias colore o ambiente, e começo a identificar meus colegas tributos. A menina do distrito 2 que foi voluntária usando um vestido feito de pedra, o garoto do 6 com um chapéu de maquinista maior que sua cabeça, o garoto do 7 totalmente nu, apenas com uma pintura corporal que lembra as rachaduras de madeira, a garota do 11 com um lenço na cabeça repleto de frutas.
Quando localizo Erin, ela está igualmente assustadora, mas seu traje lembra um javali selvagem. Diferente de mim, ela usa um terno completo trançado com fios de trigo e uma capa com diferentes grãos que lembra a pelagem do animal, seu cabelo foi produzido como uma crina e dentes protéticos pulam fora da sua boca. Selvagem.
Quando me aproximo da carruagem, encontro meus mentores visivelmente impacientes. Laurel mal coloca os olhos em mim e me puxa para o lado, colocando as mãos sobre os meus ombros.
— Suba na carruagem, faça uma performance corajosa e não demonstre surpresa, a Capital esse ano decidiu inovar na criatividade. Surpresa, tristeza ou raiva vão ser interpretados como fraqueza, entendeu?
Fico atordoado com tantas informações.
— Tudo bem, eu posso fazer isso. O que eles fizeram?
Ela me olha apreensiva e morde a parte interna da bochecha em claro sinal de ansiedade.
— Os familiares dos tributos estão aqui, nas primeiras fileiras. Seu pai, sua mãe, seu irmão, a dona da padaria.
Um som de engasgue escapa da minha garganta e arregalo os olhos.
— Mas não só eles. O maldito do Snow trouxe meu filho pra cá. Garret está aqui.
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