Notas iniciais
Olá! Que bom que chegou até aqui. No ritmo que ando escrevendo, essa história termina antes de março. Isso se eu não desenvolver outra fixação no meio do caminho, quem sabe?

Cada carruagem é personalizada de acordo com seu respectivo distrito, que engloba as cores e detalhes da biga, a correia dos cavalos e os próprios cavalos. Minha mãe me contou que na 52º Edição dos Jogos Vorazes, em que um garoto do distrito 7 de nome Blight venceu os jogos, todos os cavalos foram tingidos com tinta spray colorida, mas o verão foi tão quente que a tinta começou a se dissolver e deixou um rastro colorido pelo chão, arruinando o desfile daquele ano.


Estou completamente aterrorizado com a informação revelada por Laurel, começo a observar os cavalos como forma de distrair minha cabeça e me concentrar no objetivo principal de encantar os patrocinadores. Os cavalos do distrito 1 são totalmente brancos, os do distrito 5 tem a pelagem acinzentada, os cavalos marrons puxam a carruagem do 7, o 12 tem cavalos de pelagem totalmente negra.


Para o distrito 9, foram separados dois puro-sangues com pelo curto que brilha em um amarelo-areia, de olhos escuros e crina quase branca. Erin se aproxima de mim enquanto me perco em pensamentos sobre a dieta que os cavalos consomem.


— Parece que os carreiristas não vão se aliar ao quatro esse ano.


— Como você sabe? — Faço uma careta de confusão, é de conhecimento geral que o grupo carreirista é composto pelo 1, 2 e 4.


— É só olhar pra eles. O um e o dois estão conversando juntos, enquanto o quatro está deslocado. Olha lá.


De fato, os tributos do distrito 1, vestidos com trajes de gala recheados de pedrarias, socializam elegantemente com os tributos do 2. Já o garoto e a garota do 4 estão afastados, seus trajes feitos com redes coloridas não disfarçam seus corpos raquíticos, e me pergunto se o distrito não teve voluntários esse ano.


— Todo o ano os carreiristas tem pelo menos seis pessoas. Quem serão os sortudos convidados para a aliança? — Fixo os olhos na garota do 2, ela flerta com o rapaz do 1 de forma descarada.


— Quem receber as maiores notas. De toda forma, é um erro. Eles vão matar assim que o cerco se fechar. — Erin conclui, fechando o botão de seu terno.


— Está faltando algum tributo ou é impressão minha? — Começo a contar meus colegas desafortunados, e concluo que somos em vinte e três.


Ao fim da minha contagem, um estrondo no elevador faz com que todos olhem para trás. Uma garota baixinha gargalha copiosamente enquanto corre com o que parece ser uma galinha viva nas mãos, ela corre por entre o corredor enquanto sua estilista tenta alcançá-la, sem sucesso. Ela consegue dar dar a volta entre as carruagens e atira a ave em cima dos carreiristas, correndo de volta para nossa direção.


Enquanto os carreiristas gritam atordoados, Erin se coloca na frente da garota e a segura pelos ombros, enquanto sua estilista consegue se aproximar da pequena agitadora.


— Ei, fica quieta! Não é inteligente brigar com os carreiristas logo no primeiro dia, garota! — Erin repreende a menina, que continua rindo.


A menina para de rir, arregala os olhos para Erin e sem aviso prévio, crava os dentes em sua mão. Erin grita e a menina saí correndo em direção a sua carruagem. Distrito 10.


— Mil desculpa, nove! Estamos tentando contê-la desde que chegou. — A estilista da garota corre de volta para a carruagem, mas a garota parece distraída com os cavalos malhados.


Antes que possamos esboçar qualquer reação, o som da sirene de aviso ecoa pelo corredor e precisamos voltar apressados para a carruagem. Nefertiti corre até meu traje e aciona um pequeno interruptor que eu não havia percebido na parte de trás, e ela gesticula para que eu faça os movimentos que conversamos.


— Sorria para as câmeras, gatinha. — Cutuco Erin em tom de provocação, segurando firme na borda da biga.

— Vou te matar assim que eu pisar na arena.


Quando os portões se abrem, os cavalos começam a se mover até ganhar uma velocidade considerável, o vento fresco atinge minha pele e a luz no fim do túnel começa a se aproximar. Quando nossa carruagem desemboca na saída, ouço os gritos animados dos cidadãos da Capital.


— Meu Deus, olha só o 9!


Meus olhos percorrem as arquibancadas buscando minha família, e na melhor encenação que consigo performar, começo a movimentar meu pescoço como a dança de uma cobra. Miro os olhos dos bizarros cidadãos entretidos, aceno graciosamente e dou pequenos sopros que fazem sibilar a língua holográfica.


— Que visual fantástico!

— Eles estão lindos de morrer!

— Que espécime de cobra é essa?

— Erin Azmati, eu te amo!

— Será que a língua dele é de verdade?

— Tem areia escorrendo da roupa deles!


Os cidadãos da Capital vão a loucura, e observo de soslaio minha companheira de distrito arrancar as mangas do terno com as próprias mãos, exibindo os músculos conquistados no suor da lavoura. Nossos trajes possuem uma tecnologia que, a cada movimento, um efeito de areia escorrendo percorre todo o tecido, e aproveito disso para brincar com os movimentos do pescoço e dos braços.


— Viktor? — O grito de Erin é tão alto que preenche o espaço quase que automaticamente. Quando olho para frente, percebo que estamos nos aproximando da sacada habitual onde o presidente anuncia o início dos jogos. Logo abaixo, uma extensa fileira apresenta os familiares dos tributos selecionados.


Um burburinho estoura entre os tributos e vai crescendo conforme nos aproximamos mais. Alguns gritam em desespero, mas como estamos em movimento não consigo distinguir quem são. Percebo que Erin está desestabilizada e me inclino para o lado.


— Respira fundo e se controla. Acena pra ele, finge normalidade. Qualquer reação negativa e você vai ser vista como fraca. — Sussurro para ela, enquanto continuo a sibilar e sorrir para a multidão.


Percebo que ela se endireita na biga, as mãos firmando na borda e seu rosto suavizando. Quando volto a atenção para a frente, os cabelos cacheados da minha mãe anunciam a presença da minha família: Todos eles estão vestidos com roupas coloridas, provavelmente emprestadas pela Capital, e utilizam broches médios no lado esquerdo do peito com o símbolo do distrito de origem. Meu pai e minha mãe acenam para mim e faço questão de acenar de volta, apesar do coração disparado.


Um pouco mais à frente, vejo Argie empertigado com outros jovens da mesma idade, segurando um cartão improvisado com os dizeres “TIME AURUM”. Ele grita palavras incompreensíveis, mas sorri para mim, e aceno para ele com um sorriso.


— Já é seu! — Ele grita, se inclinando o máximo possível sobre a fileira para se aproximar da biga. — Eu te amo, Aurie!


Não tenho tempo de me comunicar com ele pois quase no fim da linha, próximo ao canto da parede que se estende acima para revelar o púlpito do presidente, está Garret. Ele está com uma camiseta amarela e segura uma flor roxa com o miolo amarelo, conhecida carinhosamente como flor de Páscoa. A medida que a carruagem diminui a velocidade, ele joga a flor em minha direção e consigo agarrá-la no ar. Consigo ouvir a voz de Sabina no trem falando que amor juvenil é ótimo para os patrocinadores, e decido me beneficiar disso.


Cheiro a flor com intensidade, mesmo sabendo que essa planta não tem cheiro. Olho fixamente para Garret e sibilo com a língua de cobra, encostando a mão nos lábios e mandando um beijo para ele. Vejo suas bochechas corarem e escuto um suspiro coletivo dos moradores da capital que estão próximos a ele, e percebo que minha estratégia surtiu efeito.


O hino da Capital estoura os alto-falantes e volto minha atenção para o palco, onde um homem pequeno e magro assume o microfone do púlpito. Ele lembra uma serpente sem nem ao menos utilizar todos os acessórios que uso, e prendo a respiração quando estou diante do Presidente Coriolanus Snow.


— Boa noite, Panem! — Sua voz calma não transmite emoção, mas seus olhos pequenos analisam cada um dos tributos. — É com muito prazer que dou como aberta a 63º Edição dos Jogos Vorazes! Este ano, como forma de oferecer aos familiares e amigos de nossos tributos uma experiência imersiva, trouxemos as vinte e quatro famílias para acompanhar os Jogos de perto. Nossos convidados assistiram o desfile, poderão assistir a noite de entrevistas e serão agraciados com um último banquete!


A multidão explode em aplausos, os tributos em suas bigas parecem ainda mais confusos, o presidente Snow emenda um monólogo de pouco mais de cinco minutos antes que sejamos liberados e os cavalos empinem meia volta. Garret me olha fixamente quando aceno para ele, é um pouco mais à frente vejo o rosto dos meus familiares agora reunidos, com suas expressões indecifráveis e apenas uma mureta de contenção de distância.


De volta ao ponto de partida do desfile, observo os outros tributos começando a retirar seus acessórios e percebo que ainda tive a oportunidade de avaliá-los com calma. Antes que eu possa iniciar minha análise, uma mão segura meu ombro timidamente.


— Oi, é.. Aurum, isso? — a mão gelada pertence a garota do 4, com seu colega de distrito atrás dela.


— É, isso. Oi. — Dou um sorriso para ela e aceno a cabeça para o garoto na sua guarda.


— A gente só queria dizer que gostou muito da sua roupa. — Ela fala baixo e sorri de volta, enquanto o garoto acena positivamente com a cabeça.


— Obrigado. Gostei da roupa de vocês também.


Na realidade, o visual do 4 é um dos que menos gostei no desfile, as redes emaranhadas tingidas de cores artificiais são confusas e você não consegue saber onde começa ou termina o traje.


— Como sabem meu nome? — Levanto a sobrancelha quando percebo que ainda não fomos apresentados.


— Perguntei para minha mentora. Eu sou Cassie, este é o Carter. Somos irmãos. — Ela aponta para o garoto atrás dela, ainda em silêncio.


Confirmo com a cabeça em um aceno, tentando transparecer normalidade, mas fico chocado que deram o azar de serem selecionados juntos. Teriam sido voluntários? Nada faz muito sentido. A mentora de Cassie sinaliza para que eles retornem e ambos se despedem com um até mais apressado, e me dou conta que quanto mais eu conhecer os tributos da edição, mais difícil será jogar os jogos.


No mesmo prédio onde fui produzido para o desfile, existem doze andares onde os tributos são alojados até o início dos jogos. No caso do 9, somos alocados no nono andar do prédio. Nosso alojamento tem o chão de mármore branco e as paredes com papel de parede amarelo-areia, além de uma estrutura completa de sala, cozinha e quatro suítes dispostas pelo espaço. Somos orientados a tomar um banho e trocar de roupas antes de conversarmos sobre o desfile, então aproveito para testar novas combinações de sabonetes e produtos para cabelo enquanto removo a maquiagem do rosto.


Opto por um conjunto preto quase idêntico ao que usei no dia anterior e caminho até o grande sofá bege que fica no centro do andar, em frente a maior televisão que já vi. Estão presentes Erin, Laurel, Jomilee, Nefertiti, Sabina e um homem desconhecido que assumo ser o estilista de Erin.


— Casa cheia, é hora de discutirmos o sucesso do desfile! — Sabina está eufórica, segurando um controle remoto em mãos. — Vocês não sabem o alívio que é ter um desfile decente no distrito de vocês.


Ela não está errada, geralmente somos vestidos com grãos colados na roupa e cestos com fios de trigo.


— As reações foram positivas, a ideia de Nefertiti para torná-los animalescos surtiu o efeito que queríamos. Excelente trabalho seu também, Dalenhaal! — Parabeniza Laurel, dando tapinhas em suas costas.


Nefertiti e Dalenhaal prestam uma referência e trocam risos entre si. Sabina liga a televisão e pressiona alguns botões para puxar a gravação do desfile, com alguns cortes separados para exibir.


— Vejamos o que Ceasar Flickerman e Claudius Templesmith falaram sobre seus trajes.


O vídeo exibe a abertura oficial dos jogos deste ano e os principais comentários feitos pelos dois homens. Eles rasgam elogios para o distrito 1 e 2, tecem elogios contidos ao distrito 3, 5 e 8 e ridicularizam o 4, 6 e 7. Os comentários ácidos me soam excessivamente ensaiados e falta naturalidade, mas sou obrigado a concordar quando criticam o emaranhado de redes que Cassie e Carter estavam usando e a nudez explícita e mal desenhada dos tributos do 7.


Quando nossa carruagem assume a dianteira, ambos soltam um som de surpresa, sorrindo para a câmera.


“Senhoras e senhores, temos concorrentes á altura dos distritos carreiristas. O distrito nove surpreende ao largar as tradicionais roupas cafonas e assumem seu lado selvagem e animal!” Ceasar Flickerman faz o símbolo de uma garra com a mão e arranca uma risada de Claudius.

“Concordo plenamente, Ceasar! A garota dentuça está feroz, mas é meio exibida para alguém de um distrito tão simples, não é?” O comentário de Claudius faz Erin bufar, uma veia saltando em sua testa quando Ceasar concorda.

“Já o garoto personifica o que aparentemente é… uma cascavel-das-pradarias!” Ele força os olhos para ler o papel em suas mãos. “Essa língua holográfica é o charme, e o garotinho tem carisma! É suficiente para não morrer no banho de sangue?”


Sabina pausa o vídeo e seleciona outro em seguida.


— Vocês não foram tão elogiados quanto os carreiristas, mas eles elegeram vocês em terceiro lugar como melhores trajes. — O vídeo pisca um pódio onde o Distrito 2 ocupa a primeira, o Distrito 1 ocupa a segunda e nós ocupamos o terceira posição. — Mas o destaque dessa noite vem agora.


Ela roda o vídeo no momento em que nos aproximamos dos familiares, o grito de Erin faz com que todos percebam os convidados de honra e seu rosto demonstra incredulidade. A câmera mostra o momento em que acalmo ela, aceno para meus pais e meu irmão e captura o exato momento em que eu pego a flor que Garret joga pra mim, cheirando e mandando um beijo para ele.


“Caros telespectadores, temos um garanhão nesta edição! Aurum Monier, seria aquele seu namorado?” Ceasar Flickerman aponta para as imagens que aparecem no telão da Capital.


— É melhor você se coçar, bebê. O pequenino aí já usou a primeira arma que tem, a personalidade. — Jomilee da um tapa nas costas de Erin, que se mantém em completo silêncio.


— Se soubesse do seu namorado, teria passado as informações certas para Ceasar te vender ainda mais. — Diz Sabina, servindo-se de uma taça de champanhe.


— O Garret não é meu…


Neste momento, o elevador do andar se abre e uma mulher alta com terno vermelho-sangue invade o local. Ela traz consigo uma pequena maleta e sorri para todos que estão presentes.


— Faustina! — Sabina corre em sua direção, afobada. — A que devemos a honra da idealizadora dos jogos em nosso andar?


— Olá, Sabina. Trouxe um presente do Presidente Snow para nossa querida Laurel. — Ela entrega a maleta nas mãos da Sabina e da um passo para o lado. — O presidente decidiu que a hospedagem deve ser em família.


Parado atrás da idealizadora, com a mesma camiseta amarela com o broche do 9 pendurado, está Garret Flamsteed.


Notas finais
E… Fim do capítulo de hoje! Obrigado por ler até aqui. um xero e meio!