A Jornada do Louco
6 A Estrela
Notas iniciais
Cada carruagem é personalizada de acordo com seu respectivo distrito, que engloba as cores e detalhes da biga, a correia dos cavalos e os próprios cavalos. Minha mãe me contou que na 52º Edição dos Jogos Vorazes, em que um garoto do distrito 7 de nome Blight venceu os jogos, todos os cavalos foram tingidos com tinta spray colorida, mas o verão foi tão quente que a tinta começou a se dissolver e deixou um rastro colorido pelo chão, arruinando o desfile daquele ano.
Estou completamente aterrorizado com a informação revelada por Laurel, começo a observar os cavalos como forma de distrair minha cabeça e me concentrar no objetivo principal de encantar os patrocinadores. Os cavalos do distrito 1 são totalmente brancos, os do distrito 5 tem a pelagem acinzentada, os cavalos marrons puxam a carruagem do 7, o 12 tem cavalos de pelagem totalmente negra.
Para o distrito 9, foram separados dois puro-sangues com pelo curto que brilha em um amarelo-areia, de olhos escuros e crina quase branca. Erin se aproxima de mim enquanto me perco em pensamentos sobre a dieta que os cavalos consomem.
— Parece que os carreiristas não vão se aliar ao quatro esse ano.
— Como você sabe? — Faço uma careta de confusão, é de conhecimento geral que o grupo carreirista é composto pelo 1, 2 e 4.
— É só olhar pra eles. O um e o dois estão conversando juntos, enquanto o quatro está deslocado. Olha lá.
De fato, os tributos do distrito 1, vestidos com trajes de gala recheados de pedrarias, socializam elegantemente com os tributos do 2. Já o garoto e a garota do 4 estão afastados, seus trajes feitos com redes coloridas não disfarçam seus corpos raquíticos, e me pergunto se o distrito não teve voluntários esse ano.
— Todo o ano os carreiristas tem pelo menos seis pessoas. Quem serão os sortudos convidados para a aliança? — Fixo os olhos na garota do 2, ela flerta com o rapaz do 1 de forma descarada.
— Quem receber as maiores notas. De toda forma, é um erro. Eles vão matar assim que o cerco se fechar. — Erin conclui, fechando o botão de seu terno.
— Está faltando algum tributo ou é impressão minha? — Começo a contar meus colegas desafortunados, e concluo que somos em vinte e três.
Ao fim da minha contagem, um estrondo no elevador faz com que todos olhem para trás. Uma garota baixinha gargalha copiosamente enquanto corre com o que parece ser uma galinha viva nas mãos, ela corre por entre o corredor enquanto sua estilista tenta alcançá-la, sem sucesso. Ela consegue dar dar a volta entre as carruagens e atira a ave em cima dos carreiristas, correndo de volta para nossa direção.
Enquanto os carreiristas gritam atordoados, Erin se coloca na frente da garota e a segura pelos ombros, enquanto sua estilista consegue se aproximar da pequena agitadora.
— Ei, fica quieta! Não é inteligente brigar com os carreiristas logo no primeiro dia, garota! — Erin repreende a menina, que continua rindo.
A menina para de rir, arregala os olhos para Erin e sem aviso prévio, crava os dentes em sua mão. Erin grita e a menina saí correndo em direção a sua carruagem. Distrito 10.
— Mil desculpa, nove! Estamos tentando contê-la desde que chegou. — A estilista da garota corre de volta para a carruagem, mas a garota parece distraída com os cavalos malhados.
Antes que possamos esboçar qualquer reação, o som da sirene de aviso ecoa pelo corredor e precisamos voltar apressados para a carruagem. Nefertiti corre até meu traje e aciona um pequeno interruptor que eu não havia percebido na parte de trás, e ela gesticula para que eu faça os movimentos que conversamos.
— Sorria para as câmeras, gatinha. — Cutuco Erin em tom de provocação, segurando firme na borda da biga.
— Vou te matar assim que eu pisar na arena.
Quando os portões se abrem, os cavalos começam a se mover até ganhar uma velocidade considerável, o vento fresco atinge minha pele e a luz no fim do túnel começa a se aproximar. Quando nossa carruagem desemboca na saída, ouço os gritos animados dos cidadãos da Capital.
— Meu Deus, olha só o 9!
Meus olhos percorrem as arquibancadas buscando minha família, e na melhor encenação que consigo performar, começo a movimentar meu pescoço como a dança de uma cobra. Miro os olhos dos bizarros cidadãos entretidos, aceno graciosamente e dou pequenos sopros que fazem sibilar a língua holográfica.
— Que visual fantástico!
— Eles estão lindos de morrer!
— Que espécime de cobra é essa?
— Erin Azmati, eu te amo!
— Será que a língua dele é de verdade?
— Tem areia escorrendo da roupa deles!
Os cidadãos da Capital vão a loucura, e observo de soslaio minha companheira de distrito arrancar as mangas do terno com as próprias mãos, exibindo os músculos conquistados no suor da lavoura. Nossos trajes possuem uma tecnologia que, a cada movimento, um efeito de areia escorrendo percorre todo o tecido, e aproveito disso para brincar com os movimentos do pescoço e dos braços.
— Viktor? — O grito de Erin é tão alto que preenche o espaço quase que automaticamente. Quando olho para frente, percebo que estamos nos aproximando da sacada habitual onde o presidente anuncia o início dos jogos. Logo abaixo, uma extensa fileira apresenta os familiares dos tributos selecionados.
Um burburinho estoura entre os tributos e vai crescendo conforme nos aproximamos mais. Alguns gritam em desespero, mas como estamos em movimento não consigo distinguir quem são. Percebo que Erin está desestabilizada e me inclino para o lado.
— Respira fundo e se controla. Acena pra ele, finge normalidade. Qualquer reação negativa e você vai ser vista como fraca. — Sussurro para ela, enquanto continuo a sibilar e sorrir para a multidão.
Percebo que ela se endireita na biga, as mãos firmando na borda e seu rosto suavizando. Quando volto a atenção para a frente, os cabelos cacheados da minha mãe anunciam a presença da minha família: Todos eles estão vestidos com roupas coloridas, provavelmente emprestadas pela Capital, e utilizam broches médios no lado esquerdo do peito com o símbolo do distrito de origem. Meu pai e minha mãe acenam para mim e faço questão de acenar de volta, apesar do coração disparado.
Um pouco mais à frente, vejo Argie empertigado com outros jovens da mesma idade, segurando um cartão improvisado com os dizeres “TIME AURUM”. Ele grita palavras incompreensíveis, mas sorri para mim, e aceno para ele com um sorriso.
— Já é seu! — Ele grita, se inclinando o máximo possível sobre a fileira para se aproximar da biga. — Eu te amo, Aurie!
Não tenho tempo de me comunicar com ele pois quase no fim da linha, próximo ao canto da parede que se estende acima para revelar o púlpito do presidente, está Garret. Ele está com uma camiseta amarela e segura uma flor roxa com o miolo amarelo, conhecida carinhosamente como flor de Páscoa. A medida que a carruagem diminui a velocidade, ele joga a flor em minha direção e consigo agarrá-la no ar. Consigo ouvir a voz de Sabina no trem falando que amor juvenil é ótimo para os patrocinadores, e decido me beneficiar disso.
Cheiro a flor com intensidade, mesmo sabendo que essa planta não tem cheiro. Olho fixamente para Garret e sibilo com a língua de cobra, encostando a mão nos lábios e mandando um beijo para ele. Vejo suas bochechas corarem e escuto um suspiro coletivo dos moradores da capital que estão próximos a ele, e percebo que minha estratégia surtiu efeito.
O hino da Capital estoura os alto-falantes e volto minha atenção para o palco, onde um homem pequeno e magro assume o microfone do púlpito. Ele lembra uma serpente sem nem ao menos utilizar todos os acessórios que uso, e prendo a respiração quando estou diante do Presidente Coriolanus Snow.
— Boa noite, Panem! — Sua voz calma não transmite emoção, mas seus olhos pequenos analisam cada um dos tributos. — É com muito prazer que dou como aberta a 63º Edição dos Jogos Vorazes! Este ano, como forma de oferecer aos familiares e amigos de nossos tributos uma experiência imersiva, trouxemos as vinte e quatro famílias para acompanhar os Jogos de perto. Nossos convidados assistiram o desfile, poderão assistir a noite de entrevistas e serão agraciados com um último banquete!
A multidão explode em aplausos, os tributos em suas bigas parecem ainda mais confusos, o presidente Snow emenda um monólogo de pouco mais de cinco minutos antes que sejamos liberados e os cavalos empinem meia volta. Garret me olha fixamente quando aceno para ele, é um pouco mais à frente vejo o rosto dos meus familiares agora reunidos, com suas expressões indecifráveis e apenas uma mureta de contenção de distância.
De volta ao ponto de partida do desfile, observo os outros tributos começando a retirar seus acessórios e percebo que ainda tive a oportunidade de avaliá-los com calma. Antes que eu possa iniciar minha análise, uma mão segura meu ombro timidamente.
— Oi, é.. Aurum, isso? — a mão gelada pertence a garota do 4, com seu colega de distrito atrás dela.
— É, isso. Oi. — Dou um sorriso para ela e aceno a cabeça para o garoto na sua guarda.
— A gente só queria dizer que gostou muito da sua roupa. — Ela fala baixo e sorri de volta, enquanto o garoto acena positivamente com a cabeça.
— Obrigado. Gostei da roupa de vocês também.
Na realidade, o visual do 4 é um dos que menos gostei no desfile, as redes emaranhadas tingidas de cores artificiais são confusas e você não consegue saber onde começa ou termina o traje.
— Como sabem meu nome? — Levanto a sobrancelha quando percebo que ainda não fomos apresentados.
— Perguntei para minha mentora. Eu sou Cassie, este é o Carter. Somos irmãos. — Ela aponta para o garoto atrás dela, ainda em silêncio.
Confirmo com a cabeça em um aceno, tentando transparecer normalidade, mas fico chocado que deram o azar de serem selecionados juntos. Teriam sido voluntários? Nada faz muito sentido. A mentora de Cassie sinaliza para que eles retornem e ambos se despedem com um até mais apressado, e me dou conta que quanto mais eu conhecer os tributos da edição, mais difícil será jogar os jogos.
No mesmo prédio onde fui produzido para o desfile, existem doze andares onde os tributos são alojados até o início dos jogos. No caso do 9, somos alocados no nono andar do prédio. Nosso alojamento tem o chão de mármore branco e as paredes com papel de parede amarelo-areia, além de uma estrutura completa de sala, cozinha e quatro suítes dispostas pelo espaço. Somos orientados a tomar um banho e trocar de roupas antes de conversarmos sobre o desfile, então aproveito para testar novas combinações de sabonetes e produtos para cabelo enquanto removo a maquiagem do rosto.
Opto por um conjunto preto quase idêntico ao que usei no dia anterior e caminho até o grande sofá bege que fica no centro do andar, em frente a maior televisão que já vi. Estão presentes Erin, Laurel, Jomilee, Nefertiti, Sabina e um homem desconhecido que assumo ser o estilista de Erin.
— Casa cheia, é hora de discutirmos o sucesso do desfile! — Sabina está eufórica, segurando um controle remoto em mãos. — Vocês não sabem o alívio que é ter um desfile decente no distrito de vocês.
Ela não está errada, geralmente somos vestidos com grãos colados na roupa e cestos com fios de trigo.
— As reações foram positivas, a ideia de Nefertiti para torná-los animalescos surtiu o efeito que queríamos. Excelente trabalho seu também, Dalenhaal! — Parabeniza Laurel, dando tapinhas em suas costas.
Nefertiti e Dalenhaal prestam uma referência e trocam risos entre si. Sabina liga a televisão e pressiona alguns botões para puxar a gravação do desfile, com alguns cortes separados para exibir.
— Vejamos o que Ceasar Flickerman e Claudius Templesmith falaram sobre seus trajes.
O vídeo exibe a abertura oficial dos jogos deste ano e os principais comentários feitos pelos dois homens. Eles rasgam elogios para o distrito 1 e 2, tecem elogios contidos ao distrito 3, 5 e 8 e ridicularizam o 4, 6 e 7. Os comentários ácidos me soam excessivamente ensaiados e falta naturalidade, mas sou obrigado a concordar quando criticam o emaranhado de redes que Cassie e Carter estavam usando e a nudez explícita e mal desenhada dos tributos do 7.
Quando nossa carruagem assume a dianteira, ambos soltam um som de surpresa, sorrindo para a câmera.
“Senhoras e senhores, temos concorrentes á altura dos distritos carreiristas. O distrito nove surpreende ao largar as tradicionais roupas cafonas e assumem seu lado selvagem e animal!” Ceasar Flickerman faz o símbolo de uma garra com a mão e arranca uma risada de Claudius.
“Concordo plenamente, Ceasar! A garota dentuça está feroz, mas é meio exibida para alguém de um distrito tão simples, não é?” O comentário de Claudius faz Erin bufar, uma veia saltando em sua testa quando Ceasar concorda.
“Já o garoto personifica o que aparentemente é… uma cascavel-das-pradarias!” Ele força os olhos para ler o papel em suas mãos. “Essa língua holográfica é o charme, e o garotinho tem carisma! É suficiente para não morrer no banho de sangue?”
Sabina pausa o vídeo e seleciona outro em seguida.
— Vocês não foram tão elogiados quanto os carreiristas, mas eles elegeram vocês em terceiro lugar como melhores trajes. — O vídeo pisca um pódio onde o Distrito 2 ocupa a primeira, o Distrito 1 ocupa a segunda e nós ocupamos o terceira posição. — Mas o destaque dessa noite vem agora.
Ela roda o vídeo no momento em que nos aproximamos dos familiares, o grito de Erin faz com que todos percebam os convidados de honra e seu rosto demonstra incredulidade. A câmera mostra o momento em que acalmo ela, aceno para meus pais e meu irmão e captura o exato momento em que eu pego a flor que Garret joga pra mim, cheirando e mandando um beijo para ele.
“Caros telespectadores, temos um garanhão nesta edição! Aurum Monier, seria aquele seu namorado?” Ceasar Flickerman aponta para as imagens que aparecem no telão da Capital.
— É melhor você se coçar, bebê. O pequenino aí já usou a primeira arma que tem, a personalidade. — Jomilee da um tapa nas costas de Erin, que se mantém em completo silêncio.
— Se soubesse do seu namorado, teria passado as informações certas para Ceasar te vender ainda mais. — Diz Sabina, servindo-se de uma taça de champanhe.
— O Garret não é meu…
Neste momento, o elevador do andar se abre e uma mulher alta com terno vermelho-sangue invade o local. Ela traz consigo uma pequena maleta e sorri para todos que estão presentes.
— Faustina! — Sabina corre em sua direção, afobada. — A que devemos a honra da idealizadora dos jogos em nosso andar?
— Olá, Sabina. Trouxe um presente do Presidente Snow para nossa querida Laurel. — Ela entrega a maleta nas mãos da Sabina e da um passo para o lado. — O presidente decidiu que a hospedagem deve ser em família.
Parado atrás da idealizadora, com a mesma camiseta amarela com o broche do 9 pendurado, está Garret Flamsteed.
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