A Jornada do Louco
19 O Imperador
Notas iniciais
Tenho poucos segundos para assimilar as boas novas trazidas por Garret. Nosso abraço dura um pouco mais do que o normal enquanto regulo meus sentimentos e quando nos separamos, o público está de pé aplaudindo com força nosso reencontro.
— Garret Flamsteed, você parece muito sua mãe! — Aproxima-se Ceasar com um microfone. — Está feliz em rever Aurum depois desses últimos dias?
— Ah, Ceasar. Você não faz ideia do quanto eu torci pra ter esse abraço outra vez. — Ele aperta minha mão e a plateia suspira.
— Então, sem ressentimentos do que aconteceu na arena? — Ceasar cutuca a ferida, sorrindo para nós.
— Todo mundo iria querer um pedacinho do Aurum, não concorda? — Rebate Garret, fazendo com que eu dê uma voltinha para a plateia.
Alguns assobios em aprovação ecoam pelo palco, e Ceasar confirma com a cabeça as investidas do público.
— Bom, o que todos queremos saber é: Vocês são mesmo namorados?
— Ainda não. — Garret se ajoelha e retira uma flor do bolso do paletó, um som de espanto ecoando por todo o auditório. — Aurum, gostaria de ser meu namorado?
— Mil vezes sim! — Sorrio para ele, e nos beijamos pela primeira vez desde o início dos jogos. A plateia explode em aplausos e sinto a luz das câmeras captando cada movimento que eu e meu novo namorado realizamos.
— Fantástico! Mas Aurum, antes de você ver sua família, tenho certeza que todos estamos curiosos. Você já tinha um plano quando restavam apenas três tributos?
— Sendo sincero, não tinha não, Ceasar. Briar foi uma competidora feroz, e em interações anteriores ela já manifestava uma compulsão por espólios humanos. Quando a matei, sabia que perderia uma batalha corpo a corpo com Velvet, e foi daí que tive a ideia de fingir que o canhão que estourou foi o meu. O resto, bom, vocês viram na televisão. — Explico para ele tentando colocar o máximo de emoção em minha voz.
Ele tece vários elogios sobre bravura e perspicácia que envolve a plateia nas mais adversas reações. Quando termina, ele indica a cortina vermelha atrás de nós e anuncia com sua voz estusiasmada.
— Com vocês, representando a família do vitorioso desta edição, Amber Monier!
Minha mãe irrompe pelas cortinas com um vestido de brilhantes vermelhos, idênticos aos que estão encrustados em minha camisa. Nossos olhos se encontram e confidenciam segredos que jamais poderíamos revelar em frente as câmeras, então apenas nos abraçamos deixando as lágrimas escaparem. A Capital aplaude, emocionada, e minha mãe enche minha testa de beijos.
— Meu filho, você foi tão corajoso. — Ela me encara com os olhos marejados. — Seu pai e eu estamos muito orgulhosos de você!
— Ceasar, eu prometi após a colheita que voltaria vivo usando esse colar aqui. — Mostro a ele o colar de contas azuis. — Minha mãe que confeccionou especialmente pra mim. Tenho certeza que papai e Argie estão torcendo por mim, lá em casa.
Nossos olhos se cruzam e ela entende de imediato que já estou ciente do acontecido, seus lábios se comprimem em um gesto que reconheço como aprovação silenciosa, e continuamos o espetáculo falando sobre a vida no distrito 9 e como teríamos maior segurança financeira com minha vitória nos jogos.
— Amber, você duvidou que Aurum voltaria vivo para casa? — Pergunta Ceasar com uma expressão séria.
— Em nenhum momento. Rog e eu mobilizamos os bares aqui da Capital e Argie ficou vidrado na televisão quase vinte e quatro horas por dia. Eles são muito unidos, sabe, desde a morte de Gemma. — Conta minha mãe, com uma expressão triste.
Sei o que ela fez, usou do assassinato de minha irmã na arena para gerar comoção entre a Capital para abrandarem a pena de Argie. Confirmo tudo com a cabeça, escapando algumas lágrimas de meus olhos.
— Meus irmãos são tudo pra mim, se aquele bestante fosse mesmo Gemma, eu mataria todos e morreria para que ela voltasse viva. — Escuto barulho de choro vindo da plateia, é uma mulher de longos cabelos verde-escuro chora copiosamente. — Argie e eu somos carne e unha, inseparáveis.
— Tenho certeza que terão muito tempo para colocar o papo em dia. Senhoras e senhores, obrigado pela presença até aqui! Voltaremos em breve com notícias sobre a turnê da vitória. Eu sou Ceasar Flickerman e esta foi a 63º Edição dos Jogos Vorazes!
Aplausos longos tomam conta da plateia e as luzes lentamente escurecem, quando estou prestes a sair pelas coxias com minha mãe e Garret, uma mão enluvada segura meu ombro. Faustina me conduz para a cortina contrária em silêncio. Quando chegamos á um longo corredor com luz baixa, ela começa a falar.
— O Presidente Snow solicitou conversar com você pessoalmente. A sós.
— Meu pai e meu irmão estão bem? — É tudo o que consigo perguntar enquanto caminho até a porta de mogno no fim do corredor.
— Apenas entre, cumprimente o presidente e escute. Não faça besteira. — Ela orienta, e quando abro a maçaneta, ela desaparece atrás de mim.
— Olá, Aurum Monier. Sente-se, por favor. — O Presidente Snow indica a cadeira próxima ao trono que ele está. A sala grande parece um camarim que foi readequado para imprimir a imponência do governante de Panem, com longas cortinas vermelho-vinho e vasos de rosas brancas adornando os cantos da sala.
— Boa noite, senhor Presidente. — Cumprimento novamente, me sentando no local indicado. — A que devo a honra do convite?
— Poucos tributos conseguem escapar da arena sem ferimentos graves, sabia? — Ele serve-se com uma garrafa de champanhe rosé, sem olhar diretamente para mim. — Um golpe de sorte e tanto para um tributo de um distrito pobre.
— Tenho uma propensão natural a fugir de problemas, senhor. — Sorrio em desconforto, cruzando minhas pernas e repousando meus braços sobre o joelho.
— É notável. Entretanto, seu irmão mais velho carece da sua descrição, senhor Monier. — Ele olha fixamente em meus olhos enquanto bebe o conteúdo de sua taça. — Diferente de você, ele não tem intenção de passar uma boa impressão aqui na Capital.
— Argentum sempre foi… Diferente. — Escolho cuidadosamente as palavras, evitando a escolha de termos como inconsequente e rebelde. — Ele teve dificuldades para lidar com a morte prematura de Gemma.
— Pessoas como Argentum não podem ser defendidas a todo momento, Senhor Monier. — Ele abre uma segunda garrafa de champanhe e serve uma taça separada para mim. — Seu pai o protegeu no dia da Colheita, e você protegeu os dois reivindicando mais tésseras.
Aceito a taça que o presidente me oferece e bebo um pouco do seu conteúdo. A bebida é doce e sinto o amargor do álcool apenas quando engulo.
— Família é família, senhor Presidente. Como eu poderia não tentar corrigir seus erros dando o exemplo do que é correto?
— Gostei de você, Aurum Monier. — Ele bebe novamente da sua taça, e percebo que ele serve-se de uma garrafa diferente da minha. — É justamente por isso que chamei você aqui: Para dar o exemplo.
— Como exatamente, meu senhor?
— Seu irmão incendiou o Palácio Presidencial. Consegue imaginar o prejuízo financeiro para reparar o estrago? — Ele me pergunta, seus olhos frios analisando meus movimentos.
— É inimaginável para minha realidade, senhor Presidente.
— De fato. Mais caro do que reparar o prejuízo financeiro, é o prejuízo reputacional. Este não há dinheiro que pague, compreende?
— Claramente, senhor. Mas posso tentar solucionar esta questão para resolvermos da melhor forma.
— Tenho certeza que você vai tentar. Acredito que já esteja ciente sobre a prisão de seu irmão, mas pode ter notado que seu pai também não apareceu na coroação. Consegue imaginar por quê? — Ele me pergunta.
— Acredito que ele tenha intercedido por Argentum. Tentou assumir a culpa para livrar meu irmão.
— Você é inteligente. Talvez o único da sua família. — Ele bebe novamente o líquido, apreciando o sabor da bebida. — Mas admito que sua mãe entendeu o xis da questão mais rápido. Pacificadores estão sempre um passo à frente dos cidadãos comuns, se é que me entende.
— Se me permite negociar, senhor Presidente, gostaria de tentar interceder por meu irmão e meu pai.
— Sou todo ouvidos. O que você, vitorioso do 9, pode oferecer ao Governante de Panem?
— Mídia. Me transforme em um símbolo da Capital, torne á mim a figura mais fidedigna do que a Capital representa. Os distritos vão me odiar, farei campanha ativa sobre os valores da Capital, e em troca, o senhor realiza a soltura dos meus familiares, e manterei eles na linha.
— Tentador. Você sabe jogar os jogos mesmo quando acabam, não sabe? — Ele sorri para mim. — Mas a Capital tem sede de sangue, senhor Monier. Rebeldia exige penas rigorosas.
Não tenho mais cartas na manga para negociação. Tomo a garrafa de champanhe que me foi designada e sirvo a taça em minha mão direita com as mãos trêmulas. O presidente percebe e solta uma risadinha, satisfeito com nossa conversa.
— Perdão, senhor Presidente. — Devolvo a garrafa a bandeja lentamente, olhando em seus olhos. — Talvez não tenha ficado claro o bastante para mim seus termos.
— Irei acatar suas condições, Aurum Monier, mas tenho as minhas próprias. Você será nosso garoto propaganda, mas um dos dois precisa morrer. Amanhã, ás duas da tarde, você fará a leitura dos votos e condenará um dos seus familiares ao enforcamento em praça pública. Você decide qual deve viver.
— E caso eu não consiga decidir, meu senhor?
— Enforco os dois. E quem sabe, Amber Monier não volte para casa também. — Ele sorri para mim, me direcionando sua taça. — Um brinde?
Encosto minha taça na dele, causando um som de tilintar.
— Aos Jogos Vorazes. — Brado com firmeza, segurando as lágrimas em meus olhos.
Ele sorri.
— Aos Jogos Vorazes.
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