Notas iniciais
Olá! Aproveitem o capítulo de hoje.

Nada te prepara para assistir a explosão de uma construção bem na sua frente. O mausoléu começa a se desfazer antes do som se propagar, e é tão alto que fico desnorteado por pelo menos trinta segundos. Uma nuvem de poeira se espalha por entre os túmulos pintando a superfície de cinza e manchando as fotos dos tributos falecidos. Quando recobro os sentidos, a nuvem de poeira está começando a baixar, e identifico Carter escalando os escombros e gritando em desespero.


— Cassie! Cassie!


Apoio minhas mãos no chão e me levanto com certa dificuldade, preciso me afastar rapidamente para respirar ar fresco de onde não tem poeira e quando sinto meus pulmões recuperados, corro na direção do antigo mausoléu, que agora não passa de um amontoado de pedras irregulares.


Começamos a empurrar as pedras com dificuldade para fora do elevado, e encontro nossas mochilas e um dos machados de Rupi. Carter reúne toda a força que tem para empurrar um grande pedaço de mármore, e consigo ver o pé direito de Cassie para fora do escombro.


— Aurum, me ajuda aqui. — Ele berra, e me coloco ao seu lado forçando a pedra para o lado esquerdo. Ela desliza pelo vão entre os túmulos e se espatifa no chão.


Ali está ela. Deitada em seu saco de dormir e coberta de uma grossa camada de poeira. Os olhos estão fechados, como quem está apenas dormindo, e um filete de sangue escorre pelo seu nariz, na região do abdômen uma grande mancha de sangue continua a crescer e molhar o saco de dormir, e quando Carter encosta os dois dedos no pescoço dela para sentir sua pulsação, o canhão dispara ao longe.


Cassie Seashell está morta. Restam oito de nós.


— Não. Cassie, não. — Lágrimas escorrem pelo rosto de Carter e ele começa o movimento de massagem cardíaca no corpo desfalecido de Cassie. — Vamos, acorda.


— Carter, eu sinto muito.


— Não! Me ajuda, ela ainda tem batimento. — Ele berra em desespero, e me ajoelho ao seu lado com a mão direita em seu ombro.


— Vem cá. — Encosto sua cabeça em meu ombro e ele grita até não conseguir mais. Seu choro molha meu ombro e ele está babando de tanto berrar.


— Cadê ela? — Ele se levanta de supetão, caminhando com força até seu tridente que ele derrubou na explosão e tomando o cabo em mãos. — Cadê a 10?


Olho em volta, e percebo que nossa algoz não está mais á vista. Quando vejo, ele está zanzando por entre os túmulos gritando ameaças para Briar, mas nenhum sinal da garota por perto.


Desenho um círculo sobre a testa de Cassie e passo a mão em seus cabelos, seu rosto angelical parecendo estar em um sono profundo.


— Obrigado por cuidar de mim. Vou me lembrar de você pra sempre.


Desço da elevação carregando as mochilas, coloco uma delas ao pé de Carter e confiro minhas facas. Perdi uma delas no momento da explosão, e restam sete no estojo.


— Vem, a gente precisa sair daqui. O aerodeslizador já vai descer. — Digo a ele, puxando-o para a floresta.


Ele se solta de mim, e está prestes a gritar comigo quando uma figura grande avança em sua direção e o derruba no chão. Eles rolam pela grama grunhindo, e quando a figura consegue dominá-lo segurando uma foice em seu pescoço, meus olhos cruzam direto com os de Erin.


— Aurum? — Ela me olha incrédula, a foice cada vez mais perto do seu pescoço.


Ele chora copiosamente, e sei que ele não está com medo de Erin. Ele deseja que ela corte seu pescoço de uma vez para acabar com a dor que ele está sentindo.


— Erin, por favor. Ele acabou de perder a irmã. — Suplico a ela, apontando para os escombros do mausoléu.


— Vocês explodiram ela? — Erin mantém a foice sobre o pescoço de Carter e ele não demonstra resistência.


— Não, foi a Briar do 10. Por favor, deixa a gente ir.


Ela me olha com ódio, ergue a foice acima da cabeça e quando coloco minhas mãos na boca para suprimir o grito, ela desiste de matá-lo e sai de cima dele.


— Que merda! — Ela grita, dando um chute na mochila de Carter. — Saiam daqui, os carreiristas estão vindo!


Agarro a mão de Carter e puxo ele para junto de mim, quando estamos entrando na floresta, ela segura meu braço.


— Só tem oito pessoas, Aurum. Da próxima vez, eu vou te matar. — Ela me olha fixamente nos olhos, empurrando meu ombro e pegando a mochila de Carter em mãos, fugindo na direção contrária.


Pego o tridente caído no chão, entrego para ele e seguimos floresta a dentro. Suas pernas tropeçam nos próprios pés enquanto seu peito se movimenta rapidamente entre os soluços. Quando seu peso começa a dificultar nossa fuga, me coloco em sua frente e dou o tapa mais forte que consigo em sua bochecha direita, os músculos da face tremem e ele para de chorar de imediato.


— Escuta aqui, Carter. Conseguimos uma chance única de fugir dos carreiristas com vida, mas eles ainda estão por aí caçando a gente. — Seguro ele pelos ombros, meus olhos apertam contra os dele com toda a raiva que acumulei desde a colheita. — A melhor forma de você honrar a Cassie é lutando pra sobreviver, e isso inclui você parar de chorar que nem um bebezão.


Dou as costas para ele e sigo em frente, e escuto seus passos pesados seguindo atrás de mim. Ele não chora mais, mas funga vez ou outra enquanto caminhamos. Andamos o que acredito ser quase três quilômetros em silêncio, minhas mãos apertando as facas de arremesso em alerta, e paro em frente a caverna que utilizei como refúgio na primeira noite da arena.


— Vou conferir se a caverna está vazia. Me dê cobertura. — Aviso a ele, adentrando a boca da caverna mal iluminada o suficiente para fugir se for necessário.


A caverna está vazia, com os papéis que embrulhavam os alimentos que estavam em minha mochila jogados no canto dela, o que aparentemente significa que ninguém circulou por estes lados desde o início dos jogos. Coloco minha mochila encostada na parede quente e saio novamente ao encontro de Carter.


Quando encontro seus olhos, ele segura um paraquedas prateado que contém uma caixa média, uma expressão de surpresa estampando seu rosto.


— É pra mim. — Ele balbucia, colocando o objeto no chão cuidadosamente.


— É um bom sinal. Tomara que seja comida. — Me abaixo junto a ele próximo ao objeto, e seus dedos manuseiam o fecho da caixa até abrir com um clique metálico.


Eu sabia que os patrocinadores caprichavam nas dádivas para os carreiristas, mas não esperava ver isso ao vivo. Dois grandes bifes grelhados estão dispostos em uma tigela, com purê de batatas fresco e uma salada de folhas multicolorida em outro recipiente. Um frasco grande contém um liquido amarelo que arrisco dizer que seja suco de laranja, e dois copos de metal acompanham o patrocínio. Ele lê o bilhete em silêncio, beija o papel e guarda em seu bolso.


— O jantar está servido. — Ele declara, e carregamos o banquete para dentro da caverna antes de começarmos a comer.


A comida está tão bem temperada que emitimos sons de prazer a cada mordida, o bife é suculento e parece ter sido defumado, o purê de batatas é macio e a salada traz o frescor na medida certa. Quando Carter enche os copos com o suco, ele me entrega um e olha fixamente nos meus olhos.


— Eu quero matar a Briar. Quando encontrarmos ela, você me promete que deixa ela pra mim.


— Isso significa que seguiremos juntos, mesmo no top 8? — Pergunto a ele, com a sobrancelha levantada.


— É o que a Cassie iria querer. Ela não deixaria você sozinho nem se eu implorasse.


— Então, um brinde ao assassinato da Briar. — Ergo o copo para Carter e ele choca o bocal levemente ao meu. — Pela Cassie.


— Pela Cassie. — Ele bebe o suco inteiro de uma vez e acaba de engasgando, e não posso deixar de rir.


Tempo depois, ouvimos o hino da Capital estremecer as paredes da caverna. Andamos até a extremidade para descobrirmos as baixas do dia e tomar conhecimento dos tributos restantes. O primeiro rosto no céu pertence a garota do 3, seguido pelo rosto angelical de Cassie, e parece que sua foto é transmitida durante uma eternidade. O holograma exibe também o rosto de Thane do 6, Rupi e por fim, Corin. Cinco baixas.


— Restam oito. — Murmuro em voz baixa.


— Eu fico com metade do seu pão. — Diz Carter, sem olhar para mim.


— Como é?


— Eu apostei na garota do 3, lembra? Seu pão é meu. — Ele declara, voltando para o interior da caverna.


— Certo. Regras são regras, né?


Durante a noite, uso a mesma pedra do primeiro dia para cobrir a entrada da caverna, e realizo a vigília de dentro dela. Quando chega a hora de trocarmos de turno, deito no saco de dormir e Carter me abraça com força, o choro voltando abruptamente em um turbilhão de emoções. Aceito que não precisamos de vigília, e aperto seu corpo ao meu, afagando seus cabelos com os dedos da mão esquerda. Não sei dizer por quanto tempo ficamos assim, talvez horas, mas em algum momento meu corpo cede a um sono profundo e sem sonhos. Quando acordo, ainda estamos na mesma posição.


Ele se levanta em silêncio, espreguiçando seu corpo encostado na parede da caverna. Ele evita contato visual e vai até pedra que esconde nossa localização, forçando seu corpo contra ela para deixar o sol entrar.


— Bom dia, panaca. — Ele me cumprimenta, alcançando o paraquedas com os restos do dia anterior. — Vai ficar aí parado ou vamos tomar café da manhã?


Recolhemos nossos pertences após o café e mantemos a pedra encostada em frente a entrada da caverna, com uma pedra menor atrás dela para identificarmos caso alguém mexa em nosso esconderijo enquanto estivermos fora. Seguimos pela floresta na intenção de interceptar Briar, já que Carter insiste que precisa achá-la antes dos carreiristas, e sou eu que vou á frente agora. O vazio de não ter Cassie nos acompanhando começa a me atingir conforme processo os acontecimentos do dia anterior, e percebo que estamos mais quietos do que costumávamos ficar em nossas jornadas pela arena. O luto é cruel.


O canhão dispara ao longe e nos entreolhamos pela primeira vez desde que nos embrenhamos na mata. Nos questionamos silenciosamente quem pode ter sido, e continuamos sentido ao riacho agora que nossas mochilas já não tem mais alimento. Diferente dos outros dias, não existem animais espalhados pela floresta, não há sinal de galinhas ou guaxinins, e os pássaros que piavam nos galhos desapareceram misteriosamente.


— Você não está achando estranho..


— A ausência dos animais? É. Estou — Complementa Carter, sua mão direita agarrada ao cabo do tridente. — Estamos no quarto dia e restam sete de nós.


— Racionamento de comida? Bestantes? — Começo a fazer minhas apostas, mas Carter dá de ombros.


— Vão forçar o confronto na cornucópia por comida. Os jogos devem estar entediantes. — Ele completa.


No riacho, o anzol improvisado que Cassie guardou na bolsa do irmão fica á deriva por quase uma hora, sem conseguirmos um mísero peixe. Em nossas bolsas, apenas pequenos sacos de amendoim rolam entre os pertences.


— Seria um belo momento para uma dádiva, não é? — Diz Carter enquanto recolhe o anzol da água.


Seja por sorte, coincidência ou força do pensamento, um paraquedas prateado surge por entre a copa das árvores e desliza teleguiado até meus pés. A caixa acoplada as cordas é do mesmo tamanho que a recebida por Carter na noite passada, e um cartão um pouco maior está atado ao fecho da caixa.


— Alguém continua apostando em você, tampinha. — Ele se aproxima animado, se abaixando junto á mim para analisar o conteúdo.


Tomo em mãos o cartão dobrado, e letras douradas escritas à mão preenchem seu interior.


Ao anoitecer, nem tudo que reluz é ouro. Feliz aniversário, Aurum! — G


Tinha me esquecido completamente deste detalhe. Hoje é dia treze de julho, exatos quinze anos atrás minha mãe me deu á luz na nossa casa de madeira no distrito 9.


Dentro da caixa, encontro três embrulhos de diferentes tamanhos: O primeiro é um saco de papel que contém dois pães de tomilho com azeitonas, um pequeno pote contém a típica geleia de morando de Haya, e em uma caixa branca de tamanho médio existe um pequeno bolo redondo com glacê branco, escrito “Feliz 15 anos!” com uma única vela amarelo-areia espetada. Um pequeno chaveiro com um disco chato, que identifico sendo um apito, completa o presente.


— Obrigado, caros amigos! — Olho para cima, sorrindo. — Rumo aos dezesseis.


— Cara, não brinca. — Carter arregala os olhos, se aproximando ligeiramente do bolo. — Hoje é seu aniversário?


— É, acho que não mencionei que nasci durante os jogos. — Coloco o apito no bolso esquerdo da calça, imaginando qual será sua serventia.


— Aurum, isso é.. — Ele interrompe a frase abruptamente. Fantástico? Incrível? Nenhum destes adjetivos se encaixa para o contexto. — Parabéns!


— Obrigado, Carter. Tem algum presente para mim?


— Até o fim do dia vou pensar em alguma coisa. — Ele ergue a mão direita e coloca a esquerda no peito, em um gesto que significa juramento.


— Para garantir que vamos chegar lá, o primeiro pedaço de bolo é seu. — Dividimos os pães de azeitona e a geleia de morango, e depois uma farta fatia de bolo para cada. Quando terminamos, estamos esticados á beira do riacho completamente estufados.


Uma explosão urge seguida de grito de horror que atravessa a arena de algum lugar próximo a nós, e levantamos do chão em estado de prontidão. A explosão não foi tão alta quanto a que tirou a vida de Cassie, mas é suficiente para disparar um gatilho em Carter que fica agitado, com as duas mãos massageando o tridente.


— É aquele diabo, não é? — Ele flexiona as pernas pronto para atirar o tridente. — Vem, vamos achar ela.


Ele avança em direção a floresta e sou obrigado a segui-lo, sussurrando para que ele pare antes de encontrarmos algum carreirista pelo caminho. O grito que ouvimos se torna um ganido conforme nos aproximamos de uma clareira a uns setecentos metros de distância. Quando atravessamos a parte alta do matagal que dá acesso a clareira, uma garota de pele morena está encostada em uma das árvores, o rosto pálido em um sinal claro de dor extrema, carne queimada e destroçada pende dos dois lados do seu corpo, onde deveriam estar suas mãos.


Minha colega de distrito, Erin Azmati, perdeu os dois braços em uma explosão.


— Ai não, Erin. — Ultrapasso um Carter nitidamente horrorizado e me ajoelho ao lado de Erin. — Está me ouvindo? O que aconteceu?


Um som de gorgolejo escapa dos seus lábios, e os olhos arregalados encontram os meus. Ela ergue os cotocos ensanguentados que contém pedaços do que antes eram seus braços pendurados.


— Eles me atacaram. Os carreiristas. — Ela resfolega, tomando ar entre as palavras. — Achei a garota do 10. Roubei a mochila dela. A mochila explodiu.


— Briar fez isso? Foi ela que morreu? — Pergunto, enxugando sua testa suada com um pedaço do papel de pão que guardei no bolso.


— Não. Alaric tentou matar Sirena, ela matou ele. — Ela olha para o papel de pão. — Tem comida?


Retiro um último pedaço do pão de tomilho com azeitonas, e arranco um naco pequeno, colocando em sua boca. Ela mastiga devagar, os olhos fechados se enchendo de lágrimas quando sente o gosto.


— É do 9. Pão do 9. — Ela repete, enquanto sua respiração fica ainda mais pesada. — Dói muito. Eu não aguento mais.


— Aurum. — Carter coloca a mão em meu ombro delicadamente. — Precisamos ir, a explosão vai chamar a atenção dos outros tributos.


— Mas e ela?


— Não tem o que a gente possa fazer. Os ferimentos são graves. — Ele retruca, começando a me puxar pelo ombro.


Minha companheira de distrito, que trabalhou até os dezoito anos nos campos de trigo do 9 e pegou tésseras para sustentar a família desde a primeira colheita. Que desdenhou de mim no trem, no desfile em que vestiu uma roupa horrorosa, nos treinamentos e por fim se aliou aos carreiristas, mas propôs o acordo de não nos matarmos na arena e me deixou escapar quando Carter estava desorientado pela morte da irmã. E que encontra seu fim doloroso encostada em uma árvore, sozinha e sem os braços.


— Diga ao Viktor.. — Ela arfa, os olhos suplicando um último pedido que não consegue completar. — Dói demais.


— Vou dizer. Feche os olhos, a dor vai passar.


Retiro a adaga do estojo preso à minha coxa, e quebro nosso tratado de não agressão. Minha mão pressiona a ponta da arma no peito de Erin e o canhão soa pela arena.


Notas finais
E.. fim do capítulo! Já passamos mais da metade da história, em poucos dias acabamos. Já estou com saudades.