A Jornada do Louco
16 A Justiça
Notas iniciais
Caminhamos por mais ou menos duas horas do local em que estávamos até uma pedreira localizada nas imediações do cemitério, nenhum outro canhão disparou desde a morte de Erin e seguimos em silêncio na maior parte do trajeto, trocando apenas algumas coordenadas sobre por onde seguir ou a necessidade de purificarmos as garrafas de água que enchemos entre uma parada e outra.
Na pedreira, existem diversas rochas de diferentes minérios espalhadas pelo perímetro, algumas pequenas e lisas e outras grandes e disformes. Escalamos até a maior delas, que Carter identifica ser um bloco de ardósia com a superfície plana, do topo é possível ter uma visão privilegiada da arena e das movimentações dos tributos. Enquanto meus olhos patrulham a direção do cemitério, Carter começa a montar um acampamento improvisado.
— Estamos bem localizados, se alguém tentar escalar vai ser atingido pelo meu tridente ou pelas suas facas. — Ele constata, retirando os poucos pertences recolhidos em sua mochila.
— E vamos nos encaminhando para o final dos jogos, milorde. — Faço uma reverência para ele, que solta uma risada. — Estão confortáveis seus aposentos?
Aponto teatralmente para o saco de dormir estendido ao lado da mochila, ele dá algumas batidinhas sobre o material.
— Bom, eu gostaria que meus aposentos fossem cobertos com paredes e teto, na verdade. — Ele enche dois copos com água purificada com o iodo e me oferece um deles.
— E por qual motivo? A luz das estrelas não é uma visão satisfatória?
— Porque assim poderíamos dormir juntos de novo, sem precisar montar guarda. — Ele sorri para mim enquanto brindamos, e desvio meu olhar do seu sentindo uma queimação estranha em meu estômago.
No horizonte, pequenas figuras irrompem entre os túmulos travando uma batalha sangrenta pleno fim de tarde. São três pessoas que não consigo identificar, mas consigo ver uma delas empunhando uma espada, a outra uma arma branca que conheço como uma maça e uma terceira, que aparenta estar sendo atacada pelas outras duas, rebate os golpes com um facão.
— Sirena e Velvet. — Digo em voz alta, o que chama atenção de Carter para a confusão que acontece lá embaixo.
— Mas tem uma terceira pessoa. Briar? — Ele palpita enquanto bebe o conteúdo do copo.
— Parece maior que ela. Difícil dizer.
— Só tem seis pessoas vivas. Se são elas, e nós dois estamos aqui, só pode ser a Briar ou a garota do 8. Acho que ela se chama Senna. — Ele completa sua linha de raciocínio e enche novamente seu copo com água.
As carreiristas conseguem encurralar a garota desconhecida, e quando a presa fácil faz menção para correr entre os túmulos, a figura segurando a maça acerta sua cabeça e ela cai ao chão. Sua algoz desfere mais quatro golpes em seu crânio e o canhão retumba, parecendo ainda mais alto daqui de cima. Restam cinco tributos.
— Quarenta por cento de chance para os meninos, sessenta por cento para as meninas. — Analisa Carter, enquanto observo as figuras correrem pelos túmulos até sumirem de vista. — Estamos em desvantagem, hein?
— Três carreiristas vivos contra dois tributos comuns. A sorte não está a favor do 9 e nem do 10.
Ele fica em silêncio, como quem acaba de tomar conhecimento de uma informação privilegiada. Querendo ou não, Carter É um carreirista, recebeu treinamento desde pequeno e manuseia armas com muito mais facilidade do que eu, Briar ou Senna. Ele e as garotas do um e do dois tem infinitas chances contra os outros tributos.
— Eu não sou um carreirista. — Ele diz, colocando-se de pé e caminhando para próximo da mochila.
— É sim, Carter. Você sabe que é. Não estou te julgando por isso.
— Você por acaso sabe o peso que carrega essa palavra? — Sua irritação é visível. — Você entende o que ser um carreirista significa ou só repete a mesma ladainha que outras pessoas falam que nem um papagaio?
É minha vez de ficar com raiva.
— Qual peso? De você passar a vida treinando pra esse momento? — Jogo o copo com água no chão, o ódio espumando em meus lábios. — De vocês serem melhor alimentados que o resto de nós?
— Eles gostam de matar, Aurum! Eles tem prazer em se voluntariar pelos jogos só pra matar outras crianças! — Ele berra comigo, avançando em minha direção.
— Eles são voluntários que nem você se voluntariou? — Grito de volta. — Vai vir pra cima de mim por que? Vai me matar?
— Eu me ofereci pela Cassie! Você teria feito o mesmo pela sua irmã, mas você é tão cego que não consegue entender.
— Entender o que? — Estou prestes a levar as mãos ao cinto de facas quando ele para. Ele olha para minhas mãos, olha para mim e emite um som de desaprovação.
— Eu escolhi vir aqui pra garantir que a Cassie voltaria pra casa viva. Ai vem você, com seu jeitão conquistador e precisei ouvir a Cassie falando de você desde o momento do desfile. — Ele cospe as palavras, um misto de dor e asco ecoa em sua voz. — E aí viramos aliados e eu tenho que aturar você na arena. Tudo isso para a Capital construir uma narrativa de “Carreirista que caiu de amores pelo tributo do 9”. É assim que se constrói um protagonista, e agora você, seu imbecil, é o favorito dessa edição. Por causa de amor juvenil.
Amor juvenil? Minha expressão suaviza de raiva para surpresa, e começo a repassar os momentos compartilhados com Cassie: Todo o carinho que ela tinha por mim, como se lançou na água para me salvar, como insistiu que não me deixaria sozinho depois dos oito restantes. Cassie estava apaixonada por mim?
— Então você fez tudo isso pela Cassie? Ela não queria me abandonar porque ela gostava de mim?
— Você é patético, Aurum. — Ele se aproxima de mim, não consigo mais definir o significado da sua expressão facial. Quando vou retrucar o xingamento, ele segura meu rosto com as duas mãos e sinto meu corpo inclinar para trás, muito próximo ao desfiladeiro. — E você consegue ficar ainda mais bonito sendo tão idiota.
Espero ele me empurrar. Mas ao invés disso, ele me beija.
Seus lábios se chocam contra os meus e sinto meus músculos esquentarem, quando minha boca se move, sinto sua língua áspera encostar na minha enquanto ele me agarra pela cintura. Penso em Garret assistindo essa cena com ódio, os patrocinadores vibrando pelo tal romance vendido pelos idealizadores e nas câmeras captando meu corpo pequeno entre os braços de Carter, e quando percebo que já deveria ter me afastado, percebo que estou beijando ele de volta. Forço meu corpo para frente para sairmos da ponta do desfiladeiro e me separo dele, minhas bochechas tão quentes que eu poderia jurar que estou com febre.
— Cara, o que foi isso? — Olho para ele com uma expressão de surpresa ainda maior, mas ele só sorri para mim.
— Eu te disse que te daria um presente de aniversário mais tarde, lembra? — Ele se senta no chão, ainda evitando contato visual. — Seu namorado do 9 vai ficar muito chateado?
— Ele não é.. Eu não.. — Preciso fazer uma pausa e beber um pouco de água para conseguir elaborar uma linha de raciocínio. — Eu não consegui entender até agora.
— Quando eu vi você no desfile dos tributos, me amaldiçoei em línguas diferentes por ter me oferecido pra os jogos. — Ele começa a contar a história, gesticulando para mim enquanto narra. — Senti algo que não soube explicar, mas sabia que outros garotos causavam isso em mim. E aí treinamos juntos, você foi tão legal com a gente que Cassie não parou de falar que precisávamos nos aliar. Quando ela soube, ficou arrasada que eu e você jamais existiríamos. Somos fruto da arena, nossa história dura até o próximo canhão.
Ele me conta mais sobre seus sentimentos e como escolheu ficar em silêncio para que eu não percebesse, mas que depois que Cassie partiu, ele sabia que ela iria querer que ele contasse.
— Eu não vou sobreviver á isso aqui, Aurum. Não sem ela. — Ele finaliza. — Mas quando você ganhar, vai ter uma história para contar quando voltar ao 9.
Caminho até Carter e o abraço. Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto absorvo tudo que aconteceu até aqui. Quando nos separamos, ele me segura pela cintura novamente.
— Já que seu namorado do 9 não é oficial, tenho que dizer que você beija bem. — Ele sorri para mim.
— É, você também não é de todo mal. — Sorrio de volta.
— Um último beijo antes dessa arena acabar?
Beijo seus lábios novamente, e dessa vez ficamos alguns minutos nos beijando. Quando a luz do sol começa a se por, sinto um cheiro de queimado se espalhar pela arena como um presságio. Me separo de Carter para olhar ao horizonte, e vejo uma figura caminhar até o desfiladeiro em um andar trôpego, ela para alguns metros antes, suas mãos encostam aos lábios formando um círculo e ela grita á plenos pulmões.
— Carter!
Meu sangue gela. Abaixo de mim, Cassie Seashell usa um vestido verde com conchas azuis costuradas nele, os cabelos estão soltos e ela não parece ferida. Quando Carter põe os olhos sobre a figura, ele grita em animação e corre para o caminho de onde viemos.
— Cassie! Estou chegando, Cassie!
Vou logo atrás dele, completamente incrédulo com a aparição. Teria Cassie sobrevivido ao ataque? Os idealizadores erraram o disparo do canhão?
Quando chego ao solo, ela está de braços abertos para Carter, que chora ajoelhado no chão. O sorriso de Cassie está ainda mais branco e seus olhos claros estão fixos no irmão. Ela parece não notar minha presença, ou não fazer questão de notá-la.
— Meu irmão, me dê um abraço. — Há algo metálico em sua voz, como se estivesse sendo reproduzida por um alto-falante. — Não está feliz em ver sua irmãzinha?
Quando me dou conta, já é tarde demais. Vou gritar o nome de Carter mas ele já abraçou a coisa, e um ferrão de escorpião escapa por baixo do vestido de Cassie e penetra as costas do meu aliado. Seus olhos brilhantes mudam para uma cor esbranquiçada e vejo a cauda tremer enquanto injeta o veneno mortífero no corpo do garoto. Ele urra em agonia e tenta escapar dos braços do bestante, sem sucesso.
— Carter! — Alcanço uma das facas e antes que eu possa atirar, a criatura lança um espinho da palma da sua mão que se aloja na grama entre os meus pés.
— O seu já está vindo. Ele é meu agora. — A voz metálica se dirige a mim enquanto o som do canhão dispara.
A criatura se afasta carregando Carter empalado pelo ferrão, e volto a subir nosso acampamento em desespero. Tudo o que aconteceu no dia de hoje é loucura demais até para os moldes da arena: Primeiro, matei minha companheira de distrito que teve os braços dilacerados por uma explosão, descobri que um dos carreiristas está morto, assisti uma garota desconhecida ser morta, fui beijado pelo meu aliado e ele morreu minutos depois. Quando começo a chorar, vigiando a arena do alto do acampamento, ouço uma voz metálica atrás de mim.
— Oi, Aurum. Não tenha medo.
Quando me viro para a criatura, meu corpo paralisa por completo. Um vestido dourado com detalhes brancos e sapatilhas igualmente douradas decoram o corpo pequeno, os cabelos também estão soltos e não existem marcas de violência no rosto que indiquem agressão contundente. Minha irmã, Gemma, estende os braços para mim.
— Como você cresceu! — Ela abre os braços graciosamente, sorrindo para mim. — Não vai me dar um abraço?
Empunho uma das facas de arremesso, analisando cada movimento que a criatura faz, meus olhos lacrimejam com a visão nítida de minha irmã parada em minha frente.
— Você não é real. Eu vi o bestante que matou Carter. Você não vai me matar.
— Aurie, eu não quero te matar. — Suas palavras atravessam meu peito como agulhas em brasa ardente. — Só quero te dar parabéns. Não é todo dia que se faz quinze anos, né?
— É. Você não fez. — Aponto a faca em sua direção, preparando meus pés. — Você não é minha irmã. Eu não vou morrer hoje.
Ela sorri para mim, seus olhos assumem um brilho esbranquiçado como a criatura se passando como Cassie e ela começa a caminhar em minha direção.
— Você é ridículo. Só sobrou você e as carreiristas, acha mesmo que vai conseguir sobreviver? — Seu rosto começa a se contorcer. Atiro a faca em sua direção, mas a lâmina que perfura seu estômago não faz nem cócegas. — Você vai terminar que nem sua irmãzinha, com a cabeça esmagada. Você não passa de Ouro de Tolo!
É isso. Nem tudo o que reluz é ouro. Minhas mãos encontram o apito em meu bolso esquerdo e retiro o objeto brilhante do esconderijo. Quando o bestante identifica o apito, se afasta ligeiramente para trás com os olhos transbordando ódio.
— Vou dizer pra mamãe que você mandou oi. — Sorrio para a criatura e assopro o apito com toda a força que consigo.
O som é parecido com o de um instrumento que vi na Capital que se chama theremin. A criatura coloca as mãos em seus ouvidos é grita em agonia, cauda de escorpião escapando do vestido e balançando freneticamente. De repente, a cauda começa a inchar e veias avermelhadas pulsam em sua extensão, e quando estou quase sem fôlego o membro explode, lançando o líquido avermelhado para todos os lados, deixando o bestante sem vida alguns metros de mim.
Ergo o apito para cima e dou três vivas aos patrocinadores, satisfeito com meu desempenho. Quando como meu último mão de azeitonas e o hino da Capital mostra o rosto se Alaric, Carter e Senna, no 8, considero dada a largada a contagem regressiva para o fim dos Jogos.
Velvet. Sirena. Briar. Eu.
Até o fim do próximo dia, um de nós vai erguer a coroa, os outros três voltarão para seus distritos vestindo ternos de madeira com grossos pregos enterrados nas laterais.
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