A Jornada do Louco

17 A Roda da Fortuna


Notas iniciais
Olá! Aproveite a leitura, não aguentava mais escrever a arena.

Não foi exatamente uma noite bem dormida. Sem aliados e sem um abrigo decente, o jeito que encontrei de descansar foi encaixar meu saco de dormir entre duas rochas estreitas próximo a rocha plana onde eu e Carter passamos os últimos momentos em que ele esteve vivo.


Não tenho sonhos porquê todo o dia ainda é muito vívido em minha mente: Lembro dos cotocos ensanguentados de Erin cada vez que movimento meus braços e as manchas avermelhadas na lateral da enorme pedra me lembra do rosto do bestante que imitava Cassie ferroando as costas de Carter. Momentos antes, nossos lábios se encostavam e ele declarava toda sua paixão por mim, e quando dei por mim já estava no topo da pedra com uma imitação da minha irmã mais velha preparada para me matar. Quando o dia começa a amanhecer, penso em minha família reunida em frente à televisão, realizando um plantão integral para acompanhar os últimos acontecimentos da arena.


— Ei, Argie. Não esperava que eu chegasse até aqui, né? — Sussuro para as pedras, me divertindo com a reação que meu irmão esteja tendo, se estiver acordado.


Em minha mochila tudo o que restam são três pedaços de carne desidratada, o resto da geleia de morango, o repelente contra insetos, meia garrafa de água e o iodo quase no fim.


— Café da manhã dos campeões. — Digo em voz alta, mergulhando as carnes na geleia de morango. O contraste da geleia com o salgado da carne ativam a saliva em minha boca e rezo para encontrar alimento antes de entrar em combate.


Não tenho um plano definido, de modo que decido dar a volta pelo riacho até a cornucópia. Decido abandonar a mochila para trás e prendo a corda no cinto das facas, e mantenho as facas de arremesso, a adaga presa á coxa e o tridente de Carter como armas á disposição. Toda a esperança que tenho em encontrar animais pelos arredores da arena vai se esvaindo quando me dou conta que estou sozinho, minhas suspeitas sobre hoje ser o último dia vem se confirmando já que não existem nem mesmo frutas nos arbustos para enganar a fome.


— Meus queridos patrocinadores, obrigado por me acompanharem até aqui! — Anúncio para as câmeras depois de caminhar alguns quilômetros, sorridente. — Como último pedido antes da vitória, poderiam me enviar mais pão? Garanto a vocês que darei um bom show.


Mas nada acontece. Observo os céus á espera de algum paraquedas prateado contendo um banquete farto, mas tudo o que vejo é um céu anuviado. Admito que, nessa altura do campeonato, esperava pelo menos uma barra de cereal que fosse.


Olhando friamente, ainda tem três dos cinco tributos que meu pai comentou que eram as apostas para a vitória. Além de Sirena, eu e Briar somos os azarões que conseguiram chegar no top 4, e pode ser que eu nem seja tão favorito assim, o que significa que estou á própria sorte. Continuo me embrenhando pela mata próxima ao riacho, descendo em direção á área central da arena. Quando estou próximo á Cornucópia, o disparo de um canhão arrepia cada pelo do meu corpo e minha mão direita aperta o cabo do tridente com tanta força que sinto os dedos formigarem. Não devem ser dez horas da manhã e já tivemos uma baixa, no andar da carruagem, até o fim do dia teremos um vitorioso.


— Top 3, hein? — Converso comigo mesmo tentando parecer confiante, mesmo morrendo de medo de alguém me interceptar. — Ei, Nefertiti. Pode começar a produzir meu traje.


Entre o matagal da extremidade da floresta, consigo enxergar a boca da Cornucópia, com algumas armas desarrumadas e mochilas esparramadas, consigo identificar alguns pães espalhados entre os objetos e um frango inteiro recém assado está sobre uma elevação no centro da construção. Estou prestes á avançar para o local quando vejo Velvet sair de trás da cornucópia, em uma das mãos a maça reluz com sangue seco na esfera pontiaguda.


— Sirena. — Chama ela, com um sorriso travesso nos lábios. — Aurum? Venham se juntar ao banquete. Tem comida para todos.


Não estou pronto para o confronto ainda, preciso me alimentar e pretendo esperar a última delas estar viva para não me cansar á toa. Nadei muito para morrer na praia, então decido me afastar o suficiente para permitir que as carreiristas se matem entre si.


Volto a andar pelo que parece uma eternidade, até alcançar a meia lua onde fui atacado por Aspen dias atrás. O ambiente não mudou muita coisa, exceto pelas covas que estão quase todas preenchidas. A areia negra com galhos e folhas cobre os túmulos improvisados e identifico quatro covas em aberto, esse detalhe me causa estranhamento já que Velvet chamou claramente a mim e a Sirena na cornucópia. Então, por quê a cova de Briar continua aberta?


Quando o chão começa a tremer, meus olhos estão fixos na foto de Briar, mas não é sua lápide que é preenchida por terra. Ao invés disso, a cova pertencente à Sirena se enche com a terra grossa e úmida no exato momento em que uma esfera rola na direção dos meus pés.


A cabeça decapitada de Sirena repousa entre meu pé esquerdo e meu pé direito, os olhos entreabertos estão opacos e o que um dia foi seu pescoço está serrado de forma grosseira, com sangue ainda pingando pela abertura.


— Vim buscar seus olhos. — A risada de Briar é inconfundível, seu pequeno corpo sai de trás da lápide de Sett, e em sua mão direita ela exibe uma cimitarra. Em sua cintura, um paraquedas está amarrado pelos cordões firmemente.


— Oi, Briar. Temos contar á acertar. — Seguro uma das facas de arremesso, posicionando meus pés. — Você matou Cassie.


— Vocês mataram ela sendo burros. — Ela volta a gargalhar, caminhando em minha direção com a cimitarra. — Queria ter pego as orelhas dela.


— Você gosta de colecionar membros?


— De adversários de verdade. — Começamos a dar voltas em círculos, encarando um ao outro. Seus olhos são lisérgicos, quase alucinógenos.


— Por isso não pegou nada de Corin e Thane?


— Covardes. Feios e covardes. — Ela começa a soltar algumas palavras sem sentido, preparando-se para atacar. — Seus olhos bonitos.


— Gostou dos meus olhos? Vem pegar.


Quando ela avança contra mim, solto a faca de arremesso e atinjo a lateral de seu corpo com o cabo do tridente. Ela segura em uma das cruzes e aproveito sua distração para acertá-la com a ponta do tridente na cintura. O sangue jorra pelo ferimento recém aberto e ela cai no chão, a cimitarra desliza para o lado e ela tenta alcançá-la enquanto ri descontroladamente.

Ela atira uma pedra pontiaguda que acerta minha testa, e preciso de alguns segundos para me orientar antes de continuar nossa luta. Quando ela está prestes a alcançar a cimitarra afiada, atinjo sua batata da perna com uma das facas de arremesso e ela grita de dor. Ela estica o braço para alcançar o cabo e me lanço sobre ela para impedir que ela conclua sua ação. Nos embolamos em uma luta corporal desajeitada, ela cutuca meu olho e puxa meu cabelo até que consigo me posicionar sobre ela e prendo seus braços com meus joelhos.


— Sabe, Briar. Você tem braços bem bonitos. Tenho certeza que você não vai se incomodar se eu pegar um emprestado.


Ela ri ainda mais alto. Com uma das mãos, tapo sua boca e começo a torcer seu pescoço com a outra mão enquanto ela se debate.


— Você vai me ajudar a ganhar isso daqui. Muito obrigado. — Sussurro para ela, antes de começar a gritar. — Briar, não! Sai de cima de mim! Briar! Socorro!


Quando o canhão estoura, paro de gritar e tenho pouco tempo para por em prática o plano que bolei nos últimos dois minutos. Alcanço a cimitarra que antes pertencia a tributo do 10 e golpeio algumas vezes seu ombro com a lâmina, até decepar o braço direito por completo. Pego seu corpo desfalecido entre os braços e atiro na cova que tem minha foto e o número nove brilhante no topo.


Não existe um manual de regras do que pode ou não ser feito na arena. Houveram vitoriosos que eletrocutaram seis tributos de uma vez, que arrancaram jugulares com os próprios dentes ou venceram os jogos sem matar ninguém. Quando a cova com meu nome se enche de terra, gargalho satisfeito por ter burlado o escárnio declarado que são estes túmulos em meia lua. Encaixo o braço decepado na borda da cova de Briar de forma que pareça que ela está escalando o buraco, e finco as três pontas do tridente no centro da cavidade, deixando apenas o regatão em riste.


— Agora é só esperar minha colega do 1. — Caminho para o extremo oposto, onde a lápide do garoto do cinco aponta para a cova de Briar, e fico abaixado.


Alguns minutos se passam até que ela aparece, arrastando a maça no chão produzindo um barulho de farfalhar. Velvet parece surpresa com os túmulos e não deve ter explorado este lado da arena anteriormente, e seus olhos encaram o buraco que foi cavado para ela por alguns instantes.


— Parabéns, 10. — Ela declara, sorrindo de canto. — Sobramos só nós duas. Ele conseguiu te ferir, é?


Ela caminha lentamente, observando os outros túmulos com um ar de superioridade.


— Pelo menos você matou o frouxo do 9. Eu teria tido o prazer de matar ele, se aquela otária do distrito dele não deixasse ele fugir. — Ela se vira para o túmulo do 10, começando a erguer a maça. — Obrigado por nada, Briar.


Quando seus olhos encontram a cova vazia, ela baixa a guarda por alguns instantes, desacreditada. Ela chuta o braço de Briar, que desliza pra dentro da cova.


— Mas que merda..? — Ela se vira e nossos olhos se encontram.


Então acontece. Meu pé se choca com seu estômago e ela se desequilibra, ela tenta erguer a maça mas já é tarde, a gravidade faz seu corpo despencar para dentro da cova e seu peso contribui para a extrema ponta do tridente a empalar na região do abdômen. A ponta ensanguentada atravessa seu corpo e ela arfa, desesperada.


— Seu desgraçado. — Ela grita, tentando se levantar. Ela grita quando o ferro do tridente roça a ferida em seu corpo. — Você não pode vencer. Você não pode.


Seus olhos começam a anuviar e ela emite um som arranhado. Tomo uma das facas de arremesso em mãos e observo seu corpo se debater.


— Nos encontramos no inferno. — Lanço a faca por entre os dedos e ela se aloja no centro do peito. Seus olhos se arregalam quando um último suspiro escapa dos seus lábios. Depois de alguns segundos, o canhão dispara.


Um tributo restante.


Sento no chão, com o corpo amortecido. Observo a terra emergir do túmulo do dez e os números das lápides começam a se deformar. Briar agora está enterrada na cova 10 e Velvet, na 1. Engatinho até o túmulo antes destinado para Velvet e observo o número um ganhar nova forma, como se estivesse sendo forjado novamente. Quando o nove aparece, as trombetas da vitória começam a tocar.


Venci.


— Senhoras e senhores, o vencedor da 63º Edição dos Jogos Vorazes! Do distrito 9, Aurum Monier. — Claudius Templesmith anuncia nos alto-falantes com uma voz que transborda animação.


Me forço a levantar do chão, observando a arena ao redor. Coloco as mãos na cabeça e começo a rir, o riso que começa tímido se torna uma gargalhada que não para. Estou rindo tanto que os músculos da face doem e q caixa torácica aperta, e quando seguro nas escadas suspensas do aerodeslizador, sinto que estou prestes a desmaiar de tanto rir. Nunca vou saber o que realmente aconteceu, já que meus olhos se fecham quando começo a ser erguido e o mundo se torna um borrão após alguns segundos.


Notas finais
É isso, acompanhe os próximos capítulos ciente que esse f.. do Aurum ainda vai sofrer bastante. Até mais!