A Jornada do Louco
12 O Eremita
O enorme paredão de pedra é a primeira coisa realmente fria em que meu corpo encosta na arena. A luz que vaza pelas folhas da clareira revelam Sett tentando empurrar seu corpo largo por entre a fresta. Ele urra de frustração por não conseguir passar pelo buraco.
— Cara, a gente se deu bem no treinamento. Pensa bem, a gente pode se aliar. — Tento estabelecer uma comunicação amigável na tentativa de acalmá-lo.
— Vocês querem me matar. Todos vocês. — Ele grita para mim, arrancando a machadinha do tronco. — Mas eu vou acabar com vocês primeiro.
Ele enfia o braço pela fresta e tenta me acertar com a lâmina do objeto, o movimento com a machadinha produz um vento suave que arrepia os pelos do meu braço. Por poucos centímetros a lâmina afiada não me causa um ferimento. Ele começa a forçar o corpo entre a fresta e a lâmina se aproxima cada vez mais, me forçando a me jogar para o lado contrário do seu ombro.
Alcanço a adaga na altura da coxa e retiro do coldre, golpeando a parte de trás da mão que segura o cabo da arma. Ele derruba a machadinha próximo aos meus pés e grunhe com ódio, encostando o rosto na fresta das árvores.
— Você vai morrer agora, 9. Eu vou arrebentar sua cabeça. — Ele alcança a machadinha do lado de fora e começa a golpear o tronco localizado á esquerda, abrindo lascas na árvore que aumentam a fenda.
Alcanço o cabo da arma caído ao chão e aperto com as duas mãos, o desespero se alastrando em cada veia pelo meu corpo. De golpe em golpe na lateral do tronco, um vão espaçoso começa a se abrir na fresta, em pouco tempo ele vai conseguir entrar na clareira. Espero ele abrir espaço suficiente antes de gritar a plenos pulmões.
— Cuidado Sett, atrás de você!
Na arena, tudo acontece muito rápido. No instinto, ele vira de costas procurando o perigo eminente, e aproveito sua distração para erguer a machadinha acima da minha cabeça. Quando golpeio seu crânio com toda a força que consigo, um filete de sangue quente espirra manchando meu rosto e meus braços.
Seu corpo pende lânguido e cai de joelhos, e observo horrorizado o sangue esguichar pela fenda aberta em seu crânio enquanto seu rosto assenta a grama. O canhão retumba por toda a extensão da arena e sei que ele está morto.
— Mas que merda. — Murmuro atordoado. Próximo ao corpo de Sett, uma mochila um pouco maior que a minha está jogada próximo a outra machadinha. Coloco minha mochila nas costas, tomo a arma conquistada em nosso duelo na mão esquerda e seguro a alça de sua mochila com a direita. Preciso encontrar outro abrigo para passar a noite antes que outro tributo me encontre.
A lua cheia ilumina a copa das árvores e reflete as folhas roxas de jacarandá com o verde dos carvalhos, caminho utilizando o paredão de pedras como guia, dando a volta pela arena. Se estiver certo, estou me afastando do cemitério e me aproximando do riacho, onde poderei reabastecer as garrafas de água se observar que os animais da arena bebem do rio. No caminho que percorro não existe sinal de vida humana, apenas alguns esquilos escalando árvores e corujas piando nos galhos.
Encontro pelo caminho clareiras similares a que me escondi ao sair do banho de sangue, mas todas tem frestas muito pequenas até mesmo para meu corpo magro passar. Começo a ouvir o som de água corrente e sei que estou próximo ao rio, o que me lembra que ainda não fui ao banheiro desde o início da manhã. A vontade de urinar começa a atormentar minha mente e penso o quão horrível é a ideia da Capital inteira ver minhas partes íntimas.
— Vamos combinar uma coisa. — Falo em voz baixa, olhando para as árvores em busca de uma câmera. — Eu vou parar aqui para fazer xixi, mas vocês não vão filmar isso, pode ser? Eu sou menor de idade, tenho certeza que vocês entendem.
Não, eles não entendem, caso contrário não mandariam adolescentes para uma arena com o único intuito de se matarem. Me escondo atrás de uma das árvores e desamarro o elástico da calça, e começo a fazer xixi tentando não fazer muito barulho.
— De tudo que eu poderia imaginar, fazer xixi na arena não foi nem uma hipótese cogitada. — Murmuro para o nada, tentando não parecer constrangido.
Volto a caminhar na grama verde que cresce irregular, o som do riacho cada vez ficando mais alto. Quando vejo a nascente do rio, percebo que existem cervos bebericando a água corrente sem preocupações. Espero para ver se terão alguma reação ao líquido, mas eles parecem não sentir nada além de saciedade.
— Fonte de água localizada. Bom.
Meus olhos percorrem o perímetro em busca de abrigo, e identifico algumas pedras empilhadas próximas a nascente do rio que lembram formações rochosas naturais, também conhecidas como cavernas. Me aproximo lentamente da cavidade de uma delas, e identifico espaço suficiente para uma pessoa adulta deitar-se. Arrasto uma das rochas com dificuldade para a entrada para criar uma espécie de porta que me sela no local, e um único feixe de luz da lua ilumina meu esconderijo.
Estendo o saco de dormir no chão frio da caverna, afofando o travesseiro de areia que veio junto equipamento. Antes de me deitar, abro a mochila de Sett para conferir as provisões aleatórias ali contidas: Um segundo saco de dormir, uma garrafa de água pela metade, um pacotinho de amendoim, uma fatia de pão embrulhada em um plástico, uma bomba de gás, repelente contra mosquitos e um saquinho com mirtilos.
— Mais alimentos. Obrigado pela mochila, Sett. — Agradeço em voz alta, esperando que os patrocinadores estejam ouvindo. — Boa noite, pessoal. Amanhã é um novo dia na arena.
O saco de dormir é desconfortável, e os sonhos com Sett me perseguindo entre os túmulos da arena prejudicam meu sono de tal maneira que acordo a cada hora. Quando a luz do sol começa a vazar pela fresta da rocha que uso como porta, sinto as paredes de pedra começarem a esquentar e minha testa escorre gotas de suor. É hora de procurar um lugar mais arejado para me esconder.
— Bom dia, povo da Capital. — Saúdo a câmera escondida com uma reverência contida. — O café da manhã é a refeição mais importante do dia.
Escolho comer a fatia de pão da mochila de Sett com alguns pedaços da carne desidratada. O pão tem uma textura macia e tem gosto de milho, e a combinação com as tiras de carne salgada me traz a sensação de saciedade. O lado ruim da carne desidratada é que ela é muito salgada, e bebo quase toda a água da garrafa de Sett que estava pela metade. Alcanço o frasco de repelente e começo a espalhar uma quantidade generosa nos braços, pescoço e rosto. O conteúdo do frasco é um líquido refrescante que cheira a cravo e capim, deixando a pele com uma sensação áspera que lembra uma lixa.
Empurro a pedra delicadamente, evitando emitir ruídos altos e coloco a cabeça para fora avaliando a segurança da redondeza. O repelente parece reter o suor, e sinto que toda sudorese está se concentrando em meus sapatos, tornando cada passo ligeiramente desconfortável pela umidade. Durante o dia, os animais estão mais ativos e identifico animais que vi apenas nos livros de história: guaxinins rondando as árvores e saruês correndo atrás de insetos para se alimentar. Alguns pássaros assoviam nos galhos das jacarandás e penso que esse local seria ótimo para um piquenique, se desconsiderarmos as circunstâncias atuais.
Desde que matei Sett, não houve mais nenhum disparo do canhão. Em breve, os idealizadores vão ficar impacientes e começarão a forçar confrontos, então continuo me circundando a arena pelo paredão de pedras como guia. Os animais parecem inofensivos, mas nunca sabemos quando um bastante pode se revelar e atacar, procuro manter os olhos atentos para possíveis ameaças.
Ando pelo menos duas horas em passos lentos, sem cruzar com nenhum tributo até então. Saio da região arborizada e caminho por entre um matagal pontiagudo até avisar a parte traseira da arena onde vi que existia uma segunda meia lua não identificada, a curiosidade pulsa nos meus tímpanos e decido averiguar o que de diferente estaria nessa área afastada. Quando me aproximo através dos arbustos altos, a paisagem que se revela causa confusão: Existem covas fundas cavadas no chão, cada uma com uma cruz que contém a foto de cada tributo, seu nome e o distrito de origem. As covas devem ter pelo menos um metro de profundidade, e conto seis covas que estão completamente cobertas por terra negra e úmida, como se os caixões tivessem sido recém enterrados. As covas pertencem aos tributos que morreram no primeiro dia.
— Então os tributos estão sendo enterrados? — Meu pensamento intrusivo se manifesta em voz alta.
Antes que eu possa questionar, ouço um grito alto ecoar próximo a mim, seguro a machadinha com força pronto para atacar o possível adversário, mas o que vejo me deixa incrédulo: O garoto do 3 está dando voltas em círculos, batendo com as mãos no próprio corpo e urrando de dor. Não consigo identificar o que está acontecendo de primeiro momento, e quando me aproximo lentamente percebo que uma nuvem de pequenos mosquitos está atacando o rapaz. O local onde cada mosquito pica cresce automaticamente uma bolha com um líquido verde, que estoura feito um abscesso e jorra sangue no chão.
O garoto cai no chão, sem conseguir emitir mais nenhum som, e em pouco mais de dois minutos ele fica completamente imóvel. O canhão soa, e estou me afastando quando sinto a terra tremer vagarosamente. Minha atenção volta para os túmulos cavados, e observo uma grossa faixa de terra emergir do túmulo com a Cruz de número três, simbolizando a morte do garoto chamado Brent.
É quase poético, tirando o fato de que é um tanto quanto mórbido. Estou dando as costas para o cemitério de tributos quando um soco atinge meu nariz, me derrubando no chão.
— Olha por onde anda, tampinha. — Minha cabeça gira, mas consigo focar meus olhos em Aspen, do 11. Ele tem um facão consideravelmente grande preso a cintura, e sua mão está alcançando o cabo.
— Chegou para a festa também, Aspen? — Sorrio para ele, o sangue escorrendo em meu nariz atinge meus lábios quando formulo a frase. — Vai ter coragem de matar uma criança?
Ele me olha com escárnio, puxando o facão e erguendo de modo ameaçador.
— Menos um tributo na arena, mais chances de ganhar os jogos. — Ele se prepara para me atacar. — Levante daí e lute comigo como um homem.
Levanto do chão lentamente, tomando a machadinha na mão esquerda novamente. Estou em desvantagem, com uma arma que usei para matar um tributo distraído e que não tenho perícia alguma, além de ser bem menor e mais magro que Aspen, mas não posso fraquejar e correr o risco de morrer sem lutar.
— Que vença o melhor então.
Ele grita quando avança em minha direção, e grito de volta na mesma intensidade. Percebo que sua perna está ferida pois ele manca um pouco, o que me ajuda a desviar do primeiro golpe dele pulando para trás. Escapo de mais dois golpes com a mesma estratégia, e quando ergo a machadinha para tentar golpeá-lo, a parte de trás do facão arranca a arma da minha mão com facilidade.
— É, você venceu. — Dou um sorriso torto quando ele ergue o facão para me golpear. — Bom jogo.
Espero o golpe me acertar, mas ele nunca vem. Antes de Aspen pensar em finalizar nosso duelo, uma flecha se aloja no meio do seu peito e seus olhos se arregalam. Com os lábios entreabertos, seu corpo pende para frente e consigo desviar quando seu corpo emite um som molhado ao atingir o fundo da cova.
Olho para trás de sobressalto, ainda processando o que acaba de acontecer. Alguns metros de mim, com os cabelos amarrados para trás e um enorme arco prateado, está Cassie Seashell. Minha aliada.
— Impressionante. Deixo você sozinho por um dia e você já tenta morrer. — Ela caminha em minha direção, sorrindo.
— Não fossem os danos, não seria eu. — Pela primeira vez desde o início de nossa aliança, nos abraçamos verdadeiramente. — Cadê o Carter?
— Pescando. Vem, temos um presente pra você.
Enquanto caminhamos para longe da meia lua, mais do que nunca fico grato pela aliança inesperada com o Distrito 4. No trajeto, uma única pergunta assombra meu imaginário: Como vou conseguir matar essa gente?
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